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A ARTE DO SONETO – UMA PEDRA NO CAMINHO DE MUITOS POETAS

 

Palestra proferida em 15.05.13, pelo acadêmico emérito,
João Roberto Gullino, no 30º aniversário desta Academia.

Não sou, absolutamente, contra a poesia livre pois existem centenas de milhares de trabalhos maravilhosos, mas minha preferência é pelo soneto e pela trova – um direito meu. Por isto começo este pronunciamento com um poema livre e escolhi, de Aparício Fernandes (1934/1996)

ORAÇÃO DO POETA

Obrigado, Senhor, pela música,
mensageira da harmonia
que nos enternece a alma –
pela água cristalina,
pela esperança que anima os corações
e pelo amor, que dá sentido à vida.
São dádivas Vossas: a solidariedade,
o riso das crianças, a ternura das mães,
a sabedoria da natureza,
a justiça, o perdão,
o remorso que regenera os maus,
e o próprio erro
quando induz à verdade.
Temos o mar, o céu, a terra dadivosa,
os animais que tanto nos servem,
as flores – que são estrelas da terra –
e as estrelas – que são as flores do céu.
Destes ao homem o milagre da mente,
a sublimidade do coração
e a mediunidade da inspiração,
através da qual transportamo-nos
ao infinito.
Pusestes ao nosso lado
milhões de homens
que enobrecem a vida
com o exemplo de suas ações.

Obrigado pelos mestres da pintura,
da música, da escultura,
e pelas geniais criações literárias
que nos enriquecem o espírito.
Mas, sobretudo, obrigado, Senhor,
pela poesia, que é o conjunto
de todas essas maravilhas
e a revelação suprema do Vosso amor.
Obrigado por ter-me feito sensível
à face resplandecente da Vossa beleza.
Que chegue até Vós a nossa gratidão,
porque Vos dignastes ser
o maior de todos os poetas !

Existem diversos estilos de poesia: – a tradicional metrificada e rimada; a livre isenta de regras e a modernista, que tem um atalho para a poesia concreta mas que, neste caso, é um segmento à parte pois, como dizia Paulo Mendes Campos, “não existe nada de mais abstrato que a poesia concreta”. Mas aqui vamos focar somente a tradicional onde se inclui o soneto e para quem não sabe, é um poema de 14 versos, dividido em dois quartetos e dois tercetos, rimando entre si, separadamente, os dois grupos.
Precisa ter princípio, meio e fim, fechando sempre o último terceto com uma chave de ouro, lírica ou filosófica, mas sempre de efeito emotivo, elevado e impactante e os mais usados são o heróico, de dez sílabas e o alexandrino de doze sílabas. Surgiu no século XIII tendo passado pelo crivo de vários poetas até chegar à cristalização total em sua forma definida pelo poeta italiano Francesco Petrarca – o soneto petrarquiano.

Mas existe, cada vez mais, uma pressão e desprezo contundentes da ala modernista conta o soneto – é só observar o posicionamento da mídia mercenária e, para tanto, basta ler os suplementos literários. Embora poucos devam saber como surgiu a pretendida revolução que gerou a Semana de Arte Moderna de ´22 e a conseqüente tentativa de destruição do soneto, esta é sua verdadeira origem. Tudo partiu, em 1909, da mente fecunda do anarquista Filippo Tommaso Marinetti, um italiano nascido no Egito e formado na França, que lançou o movimento futurista junto com um grupo francês que pregava a destruição de todas as artes, a pichação dos museus, a destruição das.bibliotecas, o enterro de todo o passado artístico e cultural, o desprezo pela sintaxe além de outras barbaridades e disparates, como o incentivo à guerra para diminuir a população mundial. Viajou por vários países pregando suas idéias, inclusive esteve no Brasil. Assim, a mídia radical, sem saber, segue tais princípios anarquistas, em considerar o soneto uma arte ultrapassada, mas é bom que todos saibam que existem milhares de sonetistas espalhados pelo país, preservando esta arte secular e imorredoura. Muitos dizem que a poesia está morrendo e até poderá estar, mas não o soneto que é eterno, como disse Alceu Amoroso Lima : “As escolas passam, o soneto fica”.

Embora possa parecer, o soneto não é um estilo elitista e nem pretende se impor à força mas quer, somente, manter seu espaço vivo – um direito indiscutível, para satisfação daqueles que o apreciam mas, mesmo sem querer, se transformou num verdadeiro Lobo Mau da poesia, temido por todos e odiado por muitos, talvez até por despeito, por tanto se preocuparem em desmoralizá-lo tentando mutilá-lo e modernizá-lo, já que grande parte dos modernistas desconhecem completamente esta arte tão simples – a metrificação – que é, somente uma questão de hábito. Há poucas semanas, na imprensa, o poeta concretista Augusto de Campos declarou que ninguém sabe mais metrificar – ledo engano – mas é a força e imposição da mídia pois, não são só os sonestistas que metrificam seus versos, também os trovadores o fazem e são em número muito maior. Mas sempre é bom ressaltar que, para um sonetista, o importante é dar seu recado e é o quanto basta. Nunca está atrás de holofotes, já que tem consciência do valor de seu trabalho, independente das opiniões divergentes.

Conta-se que Manoel Bandeira, um adepto parcial da Semana de ´22, sempre que era consultado por algum novo poeta sobre os trabalhos exigia ver primeiro um soneto pois afirmava que um bom poeta tinha obrigação de conhecê-lo com suas regras básicas – conforme me atestou, Affonso Romano de Sant´Anna em sua primeira incursão junto ao poeta..

E é como digo numa trova, sobre o soneto

Soneto, fórmula certa
de se elevar a poesia,
desafio que desperta,
traz luz e serve de guia.

Realmente há uma necessidade muito grande de o poeta conhecer tais detalhes, mesmo sem enveredar por tal seara, mas como disse o poeta Carlos Martins:“Todo profissional que se preza tem que possuir as ferramentas necessárias para exercer seu ofício, mesmo que nunca venha utilizá-la, como um eletricista eficiente precisa ter todos os tipos de chaves e alicates para qualquer emergência.”

Mas o soneto tem seu estilo e convenhamos, se a poesia livre é, realmente livre, por que imprensá-la em dois quartetos e dois tercetos, submetendo-a a tal tortura e sacrifício? Esta prática nos faz questionar se não seria uma incoerência, como fez o poeta Augusto Frederico Schmidt no seu livro “Sonetos”, quando pretendeu modernizá-lo com versos livres que poderiam ser, até, belos poemas, mas nunca sonetos dentro das normas preconizadas. Mas observem um detalhe peculiar e conflitante: em seu índice faz-se uma observação de que os títulos dos poemas foram retirados para que, “conforme manda a tradição”, aparecessem registrados pela repetição do primeiro verso. Portanto, ele respeitava uma tradição secular secundária, sem grande importância em confronto com a primeira e principal que são suas regras – perfeito contra-senso !

Como cita Vasco de Castro Lima, muitos dos grandes adeptos da semana de ´22, capitularam, submergindo às tentações do soneto: Menoti Del Picchia, Guilherme de Almeida, Jorge de Lima e tantos outros, inclusive Drummond, após a Semana de Arte Moderna, também pecou ao tentar reatar seu namoro com o soneto, como qualquer outro poeta, mas pelo que tudo indica, não se entenderam muito bem.

O poeta J. G. de Araujo Jorge, que tem uma tetralogia compilando sonetos de todos os países e, obviamente, do Brasil – “Os mais belos sonetos que o amor inspirou”, em sua introdução glorifica o estilo, que começa com um belo soneto de sua autoria, enaltecendo a beleza da forma e que, na sua opinião, é “ a forma mais nobre, pelas suas linhas sóbrias e belas, a mais plebéia pela popularização”. Ei-lo :

Fino frasco de forma nobre e pura,
e, ao mesmo tempo, taça de cristal,
onde a vida, em beleza se emoldura
e vibra como um órgão musical.

Em transe, o poeta sempre te procura
para desabafar, sentimental,
seu pobre coração que se amargura
ou seu canto de amor, belo e triunfal!

Cabe em ti tudo quanto em nós palpita,
tudo quanto se sonha ou se concebe:
– a finita emoção, a alma infinita…

Vinho da uva da vida que se pisa,
– és, a um só tempo, a taça em que se bebe,
e o frasco em que a beleza se eterniza.

Ainda na visão de Vasco de Castro Lima o soneto também é imorredouro: “Estimar o soneto não é parar no tempo! Conservar não é sinônimo de retroagir. Ser fiel à tradição não é contrariar o processo histórico da poesia, mas resguardar a sensibilidade, apoiar a arte. O soneto não tem idade! Os sete séculos que conta de existência, não pesam sobre sua vida maravilhosa. Parece que é mesmo definitivo. O mínimo que se pode dizer, é que se trata de um velho-moço de saúde invejável!”

Já o poeta contemporâneo Paulo Bomfim, de SP (eleito em ´91 como o príncipe dos poetas brasileiros), pouco conhecido pelos “ditos” intelectuais, assim se expressou: “Para muitos, o soneto é inibidor, mas eu acho que é a prova de fogo do poeta. Não considero o soneto o espartilho da poesia. Acho que o ritmo é a respiração do pensamento. O pensamento em cada momento respira diferente. E o soneto é o traje a rigor do pensamento – para certos momentos ele é exato, tão perfeito como um cantata de Bach.”

E o poeta Heli Menegale, falecido em ´82, assim pensava: “Que misteriosa forma poética é o soneto! Quando o supúnhamos morto e prestes a enterrar-se, ei-lo que revive com todos os seus atributos e exigências. E a sua resistência não vence apenas o aniquilamento: todas as tentativas feitas através dos séculos para distendê-lo, retraí-lo, ataviá-lo, pervertê-lo, desfigurá-lo, tudo tem sido em vão, porque o soneto de todas essas provas sai incólume, no seu molde petrarquiano.”

Otto Lara Rezende, escritor, falecido em ´93, era taxativo: “O soneto está em todas as literaturas e, desde o século XIII, resiste a todas as revoluções. Não há, a rigor, grande poeta que não tenha soneteado. O soneto é, a bem dizer, a carta de identidade de um poeta.” (…) “O movimento modernista, para oxigenar o provinciano e sufocante ambiente literário nacional, precisou saudavelmente mover campanha mortal contra o soneto. Como era de esperar, os resultados foram positivos: o soneto não morreu, mas ressurgiu renovado, e nem por isso menos popular.”

Nilo Ronchini, do Círculo Literário do Clube Naval, dá sua definição: “O soneto é a forma mais maravilhosa de uma composição poética. Expressar um sentimento, uma descrição, uma história, um mito, uma idéia em quatorze versos é, realmente, uma proeza do espírito humano. Esta concisão de vibrações, terminada com uma chave de ouro, só consegue fazer quem vê a vida por um prisma diferente, como diz Bilac: “Só por quem é capaz de ouvir e entender as estrelas.”
Em dezembro de 71, o Padre Jorge O´Grady deu seu parecer – “O que é o soneto, organicamente, assim construído, senão o poema que une a perfeição da forma à da idéia? De nenhuma outra composição mais se exige em perfeição – finura, elegância, sentimento, delicadeza – devendo conter o máximo no mínimo. Cabe ao sonetista sintetizar a inspiração e tudo dizer em poucos versos, bem expondo e melhor concluindo. Daí a dificuldade de fazer bons sonetos, pois a linguagem deve ser apurada, a rima primorosa, a exposição clara e a mensagem bela. Importa ao artista do soneto, esculpir as palavras.”

Noel Bergamini, pintor, poeta e trovador, vai um pouco mais além: “O soneto, queiram ou não, é indiscutivelmente, a base da poesia, a sua estrutura máxima, o seu alicerce ponderável e indestrutível, por ser imortal como as conquistas imperecíveis da ciência; quanto às leis imutáveis da Natureza; quanto o brilho solene dos astros e a beleza magnética das estrelas! Ninguém destrói as glórias do passado; os vultos que vivem na lembrança dos que prezam a cultura, exortam a sabedoria e sublimam a inteligência. Todos eles serviram, servem e servirão de exemplo a todas as gerações como fonte permanente de inspiração!”

Do meu livro “O Conceito do Soneto”, transcrevo o pensamento de minha amiga Regina Coeli Rocha em “Conversando sobre poesia”, uma crônica muito interessante e que assim se expressa no final, sobre o soneto:
– Gosto de me “escravizar a essas formas”, porque elas são roupas que vestem o verso com as cores do bom acabamento e do bom arremate. É isso que tento fazer, porque acho que o trabalho tem que ter arte. O que o moderno, não pode é querer negar a importância do clássico. E o clássico deve simplesmente continuar existindo, sem trocar farpas com quem quer que seja… Penso que haja lugar para todos… E o leitor faz a sua escolha de acordo com o que pensa sobre “poesia”.

E o charme e a elegância do soneto são, justamente, ser preso e algemado à metrificação e suas normas e formas, o que irrita seus oponentes, mas muitos nunca se conscientizaram de que o soneto, com suas regras rígidas, tem por objetivo, mesmo camuflado, o de dificultar sua montagem como um perfeito quebra-cabeça. Um desafio como o de um alpinista que sempre procura o caminho mais difícil para escalar uma montanha e chegar vitorioso ao seu topo.

Tirando, pois, a mídia perniciosa que deturpa a verdadeira opinião individual, numa suposta opinião pública, a realidade comprova que o soneto está criando força junto aos admiradores da poesia, sem pretender, com isto, desvalorizar ou tirar o espaço da poesia livre. Vem, entretanto retomar o seu próprio espaço ainda extremamente válido, importante e necessário, pois ele é eterno, dentro de seu estilo peculiar, sua forma diferente, sua estrutura única e seu conteúdo límpido como cristal, de fácil e imediata assimilação.

E, como cita J. G. de Araujo Jorge, há poetas de obra relativamente desconhecida, que se imortalizaram apenas por um soneto. Estão, neste caso, semelhante ao SONETO DE ARVERS, na França, Júlio Salusse com os “Cisnes”; Alceu Wamosy com “Duas Almas” e Da Costa e Silva, com “Saudade”. Sobre o caso específico do “Soneto de Arvers”, que trata do amor do poeta por uma mulher casada, é necessário se fazer um comentário para mostrar sua importância, por ser o mais famoso no mundo, Ensejou mais de cem traduções no Brasil, sendo que Mello Nóbrega dedicou-lhe um livro inteiro, enquanto Guilherme Figueiredo, em crônica, traduziu o pensamento do poeta que “se lamentava de que a fidelidade da mulher do próximo a impossibilitava de compreender sua declaração de amor”. Vejam a importância desse soneto com a celeuma criada. Até a casa de Felix de Arvers foi preservada e em sua entrada afixada uma placa de bronze com seu rosto em alto relevo. Ei-lo:

Tenho um mistério n’ alma e um segredo na vida:
é um eterno amor nascido em um momento.
É mal que não tem cura; assim, nenhum lamento
jamais o revelou à cândida homicida.

Por ela passei, sombra despercebida,
sempre a seu lado, sempre, e em mudo isolamento
e há de chegar assim meu último momento
sem nenhuma ventura, ousada, ou recebida !

Criou-a meiga Deus, e boa, e carinhosa,
mais distraída segue e surda à voz ansiosa
deste amor que murmura a seus pés, onde está.

Fiel a seu dever, que austeramente zela,
dirá talvez, ao ler meus versos cheios dela :
“Que mulher será esta ?”- e não compreenderá.

Para mim, poema que agrada é aquele que marca sua passagem por nossa leitura, se grava na memória e que, volta e meia, é referência para nossas lembranças. E para contrariar os críticos, mostro alguns exemplos do seu valor na poesia, que nos enlevam e nos seduzem. E nestas circunstâncias não estou sozinho nessa estrada e, se mais pudesse, mais citaria:..

Da cara amiga Edith Marlene de Barros, VIVÊNCIA:

Não levo em conta as horas de tristeza.
Sentir-me só não chega a ser transtorno,
se embalo minha vida na certeza
de que nada acontece sem retorno.

Se há cinzas nas manhãs, minha firmeza
me traz da claridade seu retorno.
A vida em si flui com tal clareza,
que sinto seu pulsar constante e morno.

Saber que tudo é vago, transitório,
perecendo à sombra da vaidade;
que pacientes, tudo vamos transpor.

Compreender que o registro meritório
que levamos para a eternidade,
é ter vivido, transmitindo amor!…

De nosso vice-presidente, José Luiz D´Amico,
A GRANDE LIÇÃO DA SAUDADE:

Como as ondas que vão de volta aos oceanos,
como a chuva que, aos céus, regressa esvaecida,
tudo parece ter, nos seus devidos planos,
tendência de tornar ao ponto de partida…

E, por esse vaivém das cousas e dos anos,
uma verdade acena assim… despercebida:
– Em muitos corações os mais terríveis danos
vêm da ilusão que nunca espera a despedida…

Por isto quem não quer, de amor, morrer em vida
há de evitar distância e unir destino e sorte,
porque a saudade mata, eis a lição, meu Deus:

– Se há vida na chegada, há morte na partida,
pois todo adeus é sempre uma pequena morte,
porquanto toda morte é sempre um grande adeus…

De Marinete Portugal, O NINHO E A CRUZ

À beira de uma estrada abandonada,
onde a poeira jaz adormecida
exposto ao sol, de palha entrelaçada
um ninho, numa cruz envelhecida.

Um sepulcro muito pobre e tristonho
de algum andarilho desconhecido,
e que, ali, repousando em terno sono,
no desprezo, pelo tempo, esquecido…

Nos braços do cruzeiro ao chão fincado,
uma ave traz seu ninho acomodado
no túmulo onde a morte faz guarida.

E como seu gorjeio mui ritmado,
o pássaro no ninho acalentando,
no aconchego do amor, refaz a vida…

De nosso ex-presidente Sylvio Adalberto, POETA

Sangra nas veias dos versos,
finge que inventa o que sente,
recriador de universos,
tão coração quanto mente.

Deixando em papéis dispersos
as gotas do sangue ardente
verso dos seus controversos,
sincero até quando mente.

Preso no giro da lida,
ergue a voz, vai sempre ao fundo,
debulha o milho da vida…

Por fora um lago de calma.
Mas na bateia, no fundo,
deixa o cascalho da alma.

De Walter Pacheco, O DEVER DO ANONIMATO

Sufoca-me o dever do anonimato,
em segredar o amor que eu mais queria,
por obra desse destino insensato
que concedeu o que não poderia!

Verdade é que amar, amo de fato,
talvez o amor que nunca merecia,
sempre nas sombras, no maior recato,
por não poder trazê-lo à luz do dia!

Num lance de emoção eu me retrato,
me invisto de poder e então combato
o que meu coração me prometia…

Mas sinto sempre o travo da agonia.
De alimentar o amor, trago por trago,
no amargo ritual da fantasia.

Do amigo Romildes de Meirelles, que chega aos 90 anos com muita memória – ENTARDECER

A tarde cai, num gesto de agonia.
O céu se tinge de vermelho vivo…
Passa voando um pássaro furtivo
em busca de seu ninho. É o fim do dia…

Paira no ar atroz melancolia!
O fim da tarde torna-se lascivo,
e me faz triste, amargo e pensativo,
imerso na mais funda nostalgia.

Nada perturba a doce mansuetude
do fim da tarde… É a paz em plenitude
que anuncia este belo anoitecer.

Para apagar seu fulgor insano
o sol mergulha fundo no oceano…
e a mão da noite embrulha o entardecer!

Aqui minhas homenagens e saudade do amigo de todos, Ivan Herzog de Oliveira –
OPUS Nº UM

Com fios de nuvens bordei uma ovelha,
com gotas de orvalho meu pranto verti,
do estrondo do raio tirei a centelha
e a flor que nasceu, a primeira colhi.

Da humana fraqueza tirei suas dores,
da força do vento senti só a brisa,
pintei, no arco-íris, enfim, novas cores
que só um dotado poeta divisa.

Imagens caladas com força no fundo,
num rico preceito, difuso e disperso,
de quem se deteve num sono profundo.

Então, me senti qual senhor do universo
capaz de mudar mesmo a face do mundo,
calcado somente na força do verso.