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A PERNICIOSA SEMANA DE ARTE MODERNA E A VERDADEIRA POESIA DE SEMPRE

Numa crônica publicada em fevereiro deste ano, eu já apontava a degradação moral e cultural que se desenvolveu a partir da “Semana de 22” pois aqueles que dão loas ao movimento ignoram sua real origem que partiu de um fascista italiano, Filippo Tommaso Marinetti, em 1909, se espalhando célere pelo mundo. Portanto, indico alguns dos itens de seu “Manifesto Futurista”, que era a favor das guerras como profiláticas:

1) A coragem, a audácia, a rebelião serão elementos essenciais de nossa poesia.

2) A literatura exaltou até hoje a imobilidade pensativa, o êxtase, o sono. Queremos exaltar o movimento agressivo, a insônia febril, o passo de corrida, o salto mortal, o bofetão e o soco.

3) Não há mais beleza, a não ser na luta. Nenhuma obra que não tenha um caráter agressivo pode ser uma obra-prima. A poesia deve ser concebida como um violento assalto contra as forças desconhecidas, para obrigá-las a prostrar-se diante do homem.

4) Estamos no promontório extremo dos séculos! Por que haveríamos de olhar para trás, se queremos arrombar as misteriosas portas do Impossível? O Tempo e o Espaço morreram ontem. Já estamos vivendo no absoluto, pois já criamos a eterna velocidade onipresente.

5) Queremos glorificar a guerra – única higiene do mundo – o militarismo, o patriotismo, o gesto destruidor dos libertários, as belas ideias pelas quais se morre e o desprezo pela mulher.

6) Queremos destruir os museus, as bibliotecas, as academias de toda natureza, e combater o moralismo, o feminismo e toda vileza oportunista e utilitária.

7) É da Itália, que lançamos pelo mundo este manifesto de violência arrebatadora e incendiária, com o qual fundamos hoje o “futurismo”, porque queremos libertar este país de sua fétida gangrena de professores, de arqueólogos, de cicerones e de antiquários. Já é tempo de a Itália deixar de ser um mercado de belchiores. Queremos libertá-la dos inúmeros museus que a cobrem toda de cemitérios.

Marinetti viajou pelo mundo para pregar seu manifesto, inclusive, passando pelo Brasil, quando os modernistas influenciados pela corrente futurista negavam sua posição favorável às guerras, mas apoiaram os demais pontos. Chamado de “poeta futurista” em artigo de Oswald de Andrade, Mário de Andrade admitiu “pontos de contato com o futurismo”, mas negou o título, para não se considerar fascista.

O poeta Vasco de Castro Lima concluiu:-“Queriam fazer poesia com revolução, destruindo todo o regime precedente para se construir tudo de novo e em sentido contrário – o princípio preconizado pelo anarquista Filippo Tommaso Marinetti  Mas ninguém se lembrava que revolução pode produzir ditadores, políticos, oradores, agitadores, menos grandes poetas, grande poesia que precisa da ordem e da paz e do amor para frondejar.”

Frederico Trotta,em seu livro “400 Poetas Cariocas”, publicado em comemoração ao quarto centenário da cidade, observou em seu prefácio: “ Foi sempre a publicidade que colocou em destaque valores secundários, desprezando os mais capazes. Quando algum historiólogo enaltece qualquer poeta, os que vêm em seguida não procuram analisa-lo – apenas se ajoelham e concordam.

 

Já Salomão Jorge, um de nossos patronos, titubeou muito ao ser convidado a editar a terceira edição de seu livro “Arabescos”, pois achava que não havia mais finalidade diante dos rumos decadentes que estava seguindo a poesia e declarou: “Poesia é feita para o povo, com linguajar simples e temas diretos para que seja bem entendida e não para intelectuais com palavras e temas rebuscados – intelectual não compra livros, ganha-os”.

No música popular, o compositor Zé Keti inscreveu 16 músicas no I Festival Internacional da Canção, em 1966, e apenas três em parceria. Nenhuma foi classificada. Um momento emblemático da música brasileira. Quase todos os artistas da velha guarda foram desclassificados. Não se poupou nem Pixinguinha, que mandou três composições, em parceria com o cronista Rubem Braga. A comissão julgadora não se agradou também das músicas de Ismael Silva, um dos pais do samba, nem das de Nelson Sargento. Abriram espaço para os novos-baianos –  Caetano, Gil e, de carona, Chico e tudo o mais que se seguiu, tentando destruir tudo de belo e tradicional. Era o início da agressividade na música popular.

Assim, ao longo do século XX, aos poucos, foi se concretizando o que se apregoava na Semana de 22 em cima do que determinava Marinetti. Quando toco nesse assunto com algum dito intelectual, a resposta é sempre a mesma – “não foi bem assim” – mas ninguém apresenta um sólido argumento para me contestar e para mim, os fatos é que determinam as ações.

A agressividade do manifesto de Marinetti espelha o comportamento violento das gerações seguintes, aos poucos, até os dias de hoje na música e na arte e entende-se o “porquê” da decadência dos hábitos e costumes. Portanto, reclamar-se do que, agora, se a intelectualidade assim decidiu e continua apoiando o que determina a mídia? A mídia é que comanda os nossos gostos e tendências – todos se curvam, subliminarmente, como já preconizava o escritor Frederico Trotta – ninguém se opõe, todos se ajoelham.

Um dos maiores jornais de divulgação cultural – o jornal O GLOBO – durante vários anos editou o suplemento “Prosa & Verso”, que abordava na prosa, escritores antigos e atuais, mas na poesia somente atuais – trabalhos sem essência – e ainda mais, traduzidos para valoriza-los apesar do baixo nível – e a sessão era entregue a um dito poeta, Zé Qualquer-coisa, que não me preocupei em gravar seu nome, de tão insignificante que era.

Realmente sou criador de caso e, por várias vezes combati, por e-mail, a péssima qualidade das matérias, sem qualquer resposta, até que meu amigo Romildes de Meirelles lançou seu livro “Entardecer” em fins de 2012, tendo enviado um convite ao “Prosa & Verso”, que não mereceu qualquer atenção. Vendo sua decepção com o desprezo e sua mágoa, aos 90 anos, uma vez que tinha ligação com poetas da ABL, como Ivan Junqueira e Ledo Ivo.

Para conforta-lo, enviei minha última mensagem ao Suplemento na qual, entre argumentos e lamentos, escrevi um soneto, calcado num dos mais famosos de Augusto dos Anjos onde, os primeiros versos de cada estrofe são do poeta:

Á SOMBRA DE – AUGUSTO DOS ANJOS

 

“Vês? Ninguém assistiu ao formidável”

lançamento da poesia austera

no belo Entardecer” da primavera

que o poeta ofertou de forma notável.

 

“Acostuma-te à lama que te espera!”

A cultura que é sempre abominável

e um eterno joguete descartável,

tudo despreza e nada mais venera.

 

Toma um fósforo “ – queima todo lixo

divulgado na mídia qual cultura

pela voz de cada literaticho

E se ninguém se insurge com bravura,

por medo, covardia e até capricho,

fica a cultura, então, nessa clausura.

Obviamente, não foi pela minha persistência na crítica, mas deve ter contribuído um pouco, pois o Suplemento não sobreviveu por muito tempo – já, há poucos anos, está sem expressão em menos de duas páginas.

Tiveram a “ousadia” de desprezar o grande trabalho de Meirelles, baiano, tendo como valor máximo o grande Castro Alves, de quem sabia todos os poemas de cor, bem como, toda sua curta vida – era de uma memória impressionante até seu passamento, aos quase 93 anos, em 2016 – totalmente lúcido – ocasião em que prestei-lhe uma homenagem com a crônica “A poesia chora”:

“Apesar do sol, o dia 11 de setembro amanheceu triste, com uma nuvem pairando sobre o campo santo do Jardim da Saudade, no Rio de Janeiro. Debruçada sobre a nuvem, a “Poesia”, de tristeza, deixou cair uma lágrima sentida, lamentando: “Foi-se um dos meus melhores guardiões!”. Ao seu lado, Castro Alves a consolava: “Não chore, que outros surgirão para nos eternizar. Não creio que deixarão meu “Navio Negreiro” afundar no mar do esquecimento. Vamos recebê-lo com um sorriso de boas-vindas.”

 

Era Romildes de Meirelles, nosso amigo poeta, desprezado e ignorado pela mídia, que partia para a eternidade. Chegara sua hora, poucos meses antes de alcançar os 93 anos e sem poder, mais uma vez, declamar Castro Alves, querido conterrâneo, e o saudoso Menotti Del Picchia – tudo de memória – como sempre fazia quando nos reuníamos em casa de amigos, em muitos fins de semana. E como preconizou num soneto – A VELA – que tanto ilumina, chegara ao fim:

 

“Uma pequena vela… ó que lição bonita

esta modesta luz, nos traz, bruxuleante!

Feita em cera, envolvendo uns poucos fios, crepita

com fraca luz que brilha apenas breve instante.

 

Dura bem pouco… a vela está agonizante!

A luz tremeluzente enfraquece e se agita.

Seu viver é fugaz… logo queima o barbante,

acaba a cera… e está sua vida finita.

 

Em pouco tempo deu, o círio, a breve vida

pela luz. Tudo findo! A missão foi cumprida.

A alaranjada chama agora não reluz…

 

Como invejo, meu Deus, o destino da vela!

Quisera fosse igual o meu fadário ao dela:

ver todo o corpo meu se transformar em luz!…

 

E ele se transformou em luz – sim! Quanto lamentamos sua partida (ordem normal da vida), mas certamente, tudo faremos para preservar sua memória, neste Brasil que é o eterno país do futuro, de um futuro que nunca chega, com a cultura ausente e despedaçada, afogado no oceano da desmemória. Por isto podemos homenageá-lo com mais um soneto seu que representa toda nossa emoção – TRISTEZA :  :

 

“Na tristonha penumbra ao fim do dia,

na hora que o sol se esconde no poente

e a escuridão da noite lentamente

envolve a terra em doce nostalgia;

 

Quando os amenos sons da Ave Maria

vibram pelo ar como canção plangente;

quando os sinos badalam docemente

espalhando uma triste melodia,

 

meu pensamento volta-se ao passado,

teu belo vulto vejo emoldurado

dentro de um halo de fulgor divino.

 

Na tristeza dolente que me invade

sinto meu peito encher-se de saudade

ouvindo o triste repicar do sino.                                                                                                                                                                                                         

E lá em cima, no fim da cerimônia, saindo da nuvem, Castro Alves pegou a “Poesia” pela mão e disse: “Vamos minha querida, vamos nos preparar para recebê-lo com festa, pois ele merece. Pelo menos, esta honraria lhe daremos aqui em cima”.

 

E para terminar, mais alguns sonetos de Meirelles :

ENTARDECER – Imagem que consta na capa de seu livro :

A tarde cai. Num gesto de agonia

o céu se tinge de vermelho vivo…

Passa voando um pássaro furtivo

em busca de seu ninho. É o fim do dia…

Paira no ar atroz melancolia!

O fim da tarde torna-se lascivo,

e me faz triste, lasso e pensativo

imerso na mais funda nostalgia.

Nada perturba a doce mansuetude

do fim tarde.. é a paz em plenitude

que anuncia este belo anoitecer.

Para apagar o seu fulgor insano

o sol mergulha fundo no oceano…

… e a mão da noite embrulha o entardecer!

A MULHER

 

Faça-se a luz!… e a luz foi feita. Deus

começava a criar o nosso mundo,

iluminando a escuridão dos céus.

Depois criou a terra, o mar profundo,

de ondas mansas e rudes escarcéus;

fez plantas, animais, solo fecundo

e tudo foi seguindo os planos Seus.

Criou depois belo jardim, jucundo,

e nele colocou a derradeira

obra — o Homem. Porém a verdadeira

e final obra-prima, sem qualquer

erro, a mais doce, a mais suave e pura,

símbolo da renúncia, da ternura

e do amor, foi moldada na MULHER.

 

COMPLETAMENTE SÓ

Estou completamente só. O dia

acaba… a tarde morre docemente

e eu estou só em meio a tanta gente

nesta tarde chuvosa, cinza e fria.

A solidão da tarde me angustia,

deixa-me imerso em um torpor dolente,

vendo o tempo esvair-se lentamente

de gota em gota em triste nostalgia.

A chuva aumenta minha ansiedade

enchendo-me de mística saudade

numa tristeza que o olhar me embaça

e vejo tudo qual se fosse um sonho

onde o tempo se escoa tão tristonho

na cadência da chuva na vidraça.

QUANDO EU MORRER

 

Quando eu morrer, dispensarei lamento,

não quero ir triste para a cova fria,

quero levar, comigo, a voz do vento

cantando versos cheios de harmonia.

Quero que tenha, o meu sepultamento,

mulheres, vinhos, risos e alegria,

nada de choro nem de hipocrisia,

tristezas falsas em meu passamento!…

Porém quando você, mulher querida,

cerrar meus olhos frios, já sem vida

para a final partida deste mundo,

note bem uma coisa singular:

repare que em meu derradeiro olhar

seu vulto ficou preso lá no fundo!…

 

MEU CANTO

 

Onde passei ao longo dos caminhos,

fui semeando sonho, amor, poesia.

Semeei lindos sonhos onde havia

desilusões, angústias, descaminhos.

Amor eu dei a quem de amor sofria,

repus de volta pássaros nos ninhos,

cobri de afagos beijos e carinhos

a quem jamais tivera uma alegria.

Com voz cheia de música e de verso

eu vou entoando um canto no universo,

espalhando a beleza, o amor e a calma.

Por entre os povos, parto assim cantando

e com música e versos vou deixando,

em cada canto, um pouco de minha alma.

AMARGURA

          

Ah!… Quem me vê sorrindo nem sequer

percebe aquilo que minha alma sente.

O meu olhar esconde sorridente

o amargo fel que estou sempre a beber!

Ninguém consegue, mesmo, perceber

o que se passa no âmago da gente.

Mostrar feliz o rosto, alegremente,

esconde, às vezes, trágico viver.

Apesar de risonho ouso afirmar

que minha vida é cheia de tristeza

e guardo na alma funda cicatriz.

Sou como as árvores do meu pomar:

De doces frutos, raras em beleza…

A CRUZ SOLITÁRIA

 

Junto ao rio serpeava a velha estrada,

copiando-lhe a forma caprichosa;

ladeando a estrada, uma árvore frondosa

destacava-se àquela madrugada.

Numa curva da estrada sinuosa,

à margem esquerda, tosca cruz fincada,

sobre uma cova rasa abandonada,

formava uma paisagem dolorosa.

Nem data, nem um nome assinalava

o corpo que na cova descansava.

Chorar por ele, lamentar, quem há de?

Mas de manhã eu vi, na frouxa luz,

que o rocio pingava sobre a cruz,

como um tristonho pranto de saudade.

A ESCULTURA

A pouco e pouco a rocha bruta e fria

nos mostrava o contorno da escultura.

Pelos traços, notava-se que havia

um gênio trabalhando a pedra dura,

moldando no granito uma figura

de mulher. Logo a perfeição surgia

em tudo, desde o rosto até a postura.

Tudo perfeito!… A estátua resplendia.

Conclusa a obra, em atitude insana:

– O que lhe falta para ser humana?

Pergunta o jovem, pálido escultor.

Do seio duro e frio do granito

brotou uma voz, como um tristonho grito:

– Pra ser humana inda me falta o Amor!

NOSTALGIA

Hoje sinto-me terno e apaixonado,

trago em meu peito doce nostalgia,

pois só a saudade faz-me companhia

agora que me encontro desolado.

A lembrança tristonha do passado

afasta do meu ser toda alegria,

fazendo triste até esta poesia

que emana do meu peito angustiado.

Não sei por que me abate esta tristeza

na morna noite cheia de incerteza,

quando até mesmo a lua sai discreta.

Vou escrevendo, assim, de qualquer jeito,

mas com vontade de arrancar do peito

meu coração tristonho de poeta.

Algumas trovas de Meirelles :

Vejo crianças sorrindo,

que brilho nos olhos seus!

É este o quadro mais lindo

saído das mãos de Deus!

Nossos destinos um dia

se cruzaram, desde então

somente existe alegria

dentro do meu coração.

Numa gaiola encerrado

um passarinho tristonho

qual poeta enclausurado

na gaiola de seu sonho

Quando vi os filhos meus

dei asas ao pensamento

e julguei por um momento

que era eu o próprio Deus

Quando te vi, que alegria!

Do escuro fiz claridade,

da tristeza eu fiz poesia,

fiz da dor felicidade.

A saudade é dor matreira

que me segue noite e dia,

pois saudade é companheira

de quem não tem companhia.

 

Se sofre quem nasce cego

e que não verá jamais,

sofre muito mais, não nego,

quem já viu e não vê mais!…

A Mulher é o bem maior

que Deus reservou pra gente.

Se Ele fez algo melhor,

foi pra Ele, certamente.