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A POESIA DE HOJE EM DIA

Gerson Valle

            Hoje em dia há muita gente escrevendo poesia no Brasil. Talvez, aliás, não seja um fenômeno novo. Já no século XIX todo jovem sentia-se obrigado a escrever um soneto à namorada. Mas, se muito verso é escrito por aí, o que esta gente toda lê? Nas livrarias vendem-se pouquíssimos livros de poesia (e chega a emocionar saber da boa vendagem recente de Paulo Leminski). Há poucos suplementos literários que ainda sobrevivem. Escreve-se, mas não se lê poesia. Como, então, se pode escrever, se a poesia não está nos hábitos e conhecimentos das pessoas?

                A maior parte não distingue o significado da poesia. Acha-se que toda ideia sentimental expressa em frases trepadas uma em cima da outra, é poesia. Aliás, Mário de Andrade já alertara para este perigo nascido do verso livre do Modernismo. Dissera que muita gente pensaria que colocar frases em forma de poesia, uma vez que não se exigia mais a metrificação, tornava-a poeta. O que tais pessoas não se dão conta é que a poesia, diferentemente da prosa, não é simplesmente uma descrição lógica de um pensamento, dentro das regras de gramática, mas aproxima-se mais das colocações subjetivas, intuídas, nem sempre claras. É difícil uma boa poesia que repita as pieguices ou laudações já tão expressas que acabam sendo redundantes. A metáfora, a metonímia e a conjugação musical das palavras são as marcas mais emblemáticas da poesia, de uma forma geral.

                Tenho encontrado também os “continuadores” do “soneto à namorada” do século XIX, que seguem a cartilha do verso ter de ser metrificado e rimado como único parâmetro que conhecem para distinguir uma poesia. Tal como os que cito acima, também não são leitores de poesia, pois demonstram desconhecer todas as escolas que se passaram no século XX, fazendo a estranha divisão da História da Poesia em “tradicional” (metrificadas e rimadas) e “modernas” (todas as escolas do século XX, que, acredito, variaram mais que as de vários séculos que o antecedeu). Apreciam apenas o parnasianismo formalista decadente brasileiro de fim do século XIX, princípio do XX. Atém-se, em geral, ao soneto como sendo tudo de mais nobre que exista em linguagem artística. Efetivamente, os quatorze versos como limite imposto à boa síntese têm sido cultivados há uns oitocentos anos por poetas de diversas tendências – há quem veja até algo de cabalístico na duplicação do número 7. Porém, não basta contar as sílabas (o que qualquer colegial está apto a fazer) e colocar-lhes as rimas conhecidas já de todo mundo na disposição dos versos em 4-4-3-3 para que seja boa poesia. Muitos, nesta prática, como não leram nem os pré-modernistas como Rimbaud, Walt Whitman, Mallarmé, Verhaeren, Apollinaire ou Sá Carneiro, pensam que a poesia tem por fim a escrita lógica de sintaxe impecável. Nem por curiosidade se aproximaram da primeira metade do século XX do heterônimo de Pessoa, Álvaro de Campos, Elliot, Saint John-Perse, Lorca, Neruda… O que compõem, na verdade, é uma prosa (dentro de uma sintaxe absolutamente racional) metrificada e rimada. Não percebem sequer que a rima em poesia tem por finalidade a musicalidade nos sons das palavras, independendo de ser consoante, se em aliteração, toante, grupos consonantais ou repetições vocálicas. Tudo que sabem é a rima encontrável em dicionário. É uma “poesia de dicionário”. O pior é que, pela necessidade métrica, toda percepção poética pode escorrer pelo esgoto. Assim, se são necessárias três sílabas e a rima para “lábios seus”, inventa-se um “ai, meu Deus” que sempre cabe tal lamentação em qualquer situação, por ser possivelmente lamentável toda situação humana. Fazem questão de encerrar seus sonetos com “chave de ouro”. Mas, não percebem, por vezes, que a verdadeira “chave de ouro” é a do imprevisto, original, chocante ou reflexiva. Assim, basta para eles, por exemplo, um verso como “A morte acaba tudo que há na vida!” por ser um decassílabo meio retumbante. Mas, que a morte acaba com a vida é tautológico! São reis da tautologia, da obviedade, do lugar comum…

                Tais poetas desprezam Drummond, obviamente, pois Drummond é anti-retórico por natureza e mantém uma postura meio irônica e filosófica que tais “namorados antigos” desconhecem. Drummond é a poesia maior sincera e adulta, quando eles permanecem na infantilidade dos temas simplórios e são meramente formais. E com Drummond perdem a possibilidade de conhecer o caminho que lhes levaria para uma poesia mais verdadeira.

          Por outro lado, esta poesia mais verdadeira existe. Há bons poetas brasileiros no momento que prosseguem pelas diversas renovações dos últimos cem anos. Talvez não renovando tanto (depois de tudo que o século XX trouxe de “revoluções”, é até difícil se dizer algo novo), mas se atendo às conquistas de todos os modernismos. Muitos, por uma intuição poética, sabem se expressar não tendo uma leitura tão grande, nem procurando teorias que justifiquem suas linguagens. O poeta nato acaba por alcançar a percepção do que deve dizer e sua maneira. A poesia parte do interior das pessoas. Claro que quando se alia ao gosto pela leitura e reflexões sobre a correlação literária com seu tempo aparecem maiores oportunidades de criação e originalidade. Mas, aí também tem ocorrido um fenômeno que merece uma reflexão maior, e que já não cabe neste artigo por falta de espaço: o distanciamento de muita linha contemporânea de uma linguagem mais acessível ao grande público. O subjetivismo da poesia, aumentado com o surrealismo da década de 1920, tem acarretado em muitos a pergunta: “É arte pela arte? Vale tudo? Então, por que perco meu tempo quando poderia estar usando-o em coisas mais palpáveis?” São perguntas cujas respostas dependem de uma vivência maior com o próprio texto e sentido da Poesia. De qualquer forma, parece-me que tal “distanciamento” também seja responsável pela pouca leitura de poesia, mesmo entre poetas. E, no entanto, hoje em dia há tantos elementos legados pelo passado recente e distante para a composição poética! Acredito que todos que escrevemos poesia devemos procurar divulgar mais não somente o que escrevemos, mas sobretudo a poesia de outros e de sempre, pois é com o prazer criado pelo hábito da leitura que as linguagens vão se clareando e nossas imagens saindo da estranheza do desconhecido. Afinal, se muitos escrevem poesia é porque ela é uma necessidade inerente ao nosso espírito.