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A PRESENÇA FEMININA NA POESIA BRASILEIRA COMO MUSA INSPIRADORA E COMO POETA CRIADORA

Palestra apresentada pela acadêmica Vera Abad no Congresso Internacional de Cultura Lusófona em Porta Alegre, Portugal 11 e 12 de junho de 2012

A PRESENÇA FEMININA NA POESIA BRASILEIRA COMO MUSA INSPIRADORA E COMO POETA CRIADORA

– BREVE ESTUDO COMPARATIVO DA PROGRESSÃO DE TEMAS E LINGUAGEM USADOS POR POETAS BRASILEIROS DO SEC XVIII AO SEC. XX

Vera Abad, João Roberto Gullino

Academia Brasileira de Poesia – Casa de Raul de Leoni

Petrópolis – Rio de Janeiro – Brasil

RESUMO: Um estudo comparativo da poesia escrita sobre as mulheres por elas próprias e por reconhecidos poetas do sexo masculino, seus contemporâneos, assim como da abordagem de assuntos gerais como política, liberdade e feminismo sob a ótica feminina e masculina através do tempo constitui um embasamento precioso para a compreensão da produção poética feminina contemporânea.

A partir dos poucos poemas encontrados de autoria de Bárbara Heliodora (século XVIII) à produção poética de Hilda Hilst (século XX), passando pela obra e biografia de algumas poetas, apontam-se  exemplos demonstrativos das modificações sofridas nos temas e na linguagem usados pela mulheres, inicialmente por imitação e logo com esparsa ousadia na tentativa de vencer as limitações impostas pela sociedade.

A necessidade de expressar-se como ser independente enfrentou críticas e dificuldades de reconhecimento. Havia que vencer os padrões impostos às mulheres pelas reconhecidas dicotomias vigentes: homem/mulher, dominante/dominada, mulher boa/mulher má, santa/pecadora, virgem pura/prostituta.

Exemplos de produção poética de Bárbara Heliodora, D. Beatriz, Nisia Floresta, Narcisa Amália, Adelaide de Castro Alves Guimarães, Adélia Fonseca, Gilka Machado, Cecília Meireles, Henriqueta Lisboa e Hilda Hilst ao lado de Gregório de Matos, Alvarenga Peixoto, Tomás Antonio Gonzaga, Gonçalves Dias, Junqueira Freire, Castro Alves, Álvares de Azevedo, Guilherme de Almeida, Manuel Bandeira, Mario Rossi e Carlos Drummond de Andrade demonstram que enquanto endeusadas e descritas como fonte de inspiração e desejo, as mulheres, ao invés de também endeusarem o objeto de sua afeição, mais descrevem seus próprios sentimentos e sua própria condição opondo-se aos estereótipos que lhe eram impostos.

Quando hoje mulheres poetas são aclamadas, premiadas e admitidas em sodalícios literários faz-se mister conhecer as suas precursoras cujos nomes e obras só recentemente vêm sendo resgatados.

PALAVRAS-CHAVE:  Poesia feminina  –  Poetas brasileiras   –  Poetas precursoras

ABSTRACT: A comparative study of poetry pieces written about women by themselves and by recognized male poets, their contemporaries, as well as of the approach of general subjects such as politics, freedom and feminism from women’s and men’s point of view along time is a valuable foundation for the understanding of contemporary female poetry production. From the few poems left by Barbara Heliodora (18th century) to the poetic production of Hilda Hilst (20th century), analyzing the work and biography of some poets, some examples can be pointed out to demonstrate the modifications occurred in the themes and in the language used by women poets, initially as simple imitation and soon in daring attempts to overcome the limitations imposed by society. The need to express themselves as independent human beings faced criticism and difficulties in recognition. It was forceful to beat the strict standards imposed on women by the then accepted dichotomies: man/woman, dominant/dominated, good woman/ bad woman, saint/sinful, pure virgin/prostitute. Examples of poetic production of Bárbara Heliodora, D. Beatriz, Nisia Floresta, Narcisa Amália, Adelaide de Castro Alves Guimarães, Adélia Fonseca, Gilka Machado, Cecília Meireles, Henriqueta Lisboa and Hilda Hilst put side by side to Gregório de Matos, Alvarenga Peixoto, Tomás Antonio Gonzaga, Gonçalves Dias, Junqueira Freire, Castro Alves, Álvares de Azevedo, Guilherme de Almeida, Manuel Bandeira, Mario Rossi and Carlos Drummond de Andrade show that while treated like goddesses and described as a source of inspiration and desire by men, women in turn, rather than praise alike the object of their affection, more describe their own feelings and their own condition opposed to the stereotypes imposed to them. When women poets are acclaimed today, winning awards and being accepted in literary academies it is important to know their precursors whose names and works only recently have been rescued.

A figura feminina, criatura e criadora.

Desde sempre a figura feminina, a mulher, foi fonte e razão de inspiração para a poesia.

É possível até que a própria serpente tenha cantado loas à formosura do ser recém esculpido por Deus antes de lhe oferecer a maçã.

Entretanto, como autora de textos poéticos escritos, declamados ou cantados, a presença feminina na literatura fez-se esparsa ou totalmente ausente no espaço cultural ocidental por muitos séculos.

Na antiguidade clássica, a poetisa Safo teve sua poesia igualada a Homero e foi elogiada pelo próprio Aristóteles, porém  hoje seus textos nos chegam aos retalhos. Depois dela, nenhuma poeta pode medir ombros com reconhecidos nomes do mundo literário como Shakespeare, Dante ou Camões.

A escritora inglesa Virginia Woolf (1882 – 1941) nos dá uma explicação ao mesmo tempo irônica e bem humorada em resposta às considerações de Arnold Bennet  expostas no livro “Nossa mulheres – capítulos sobre a discordância entre os sexos” (1920): “Bem, diz ela, acredito que todos concordam com o fato de que desde o início dos tempos até o dia de hoje, as mulheres deram à luz e cuidaram de toda a população do mundo. Esta ocupação lhes tem tomado muito tempo e esforço.”(1)

Não acreditamos que as mulheres tivessem realmente ficado à margem da produção poética por tanto tempo. Afora textos resgatados por estudiosos como os de Santa Thereza D’Avila e Heloise Abelard, provavelmente, muitas produções femininas foram desconsideradas, destruídas e relegadas ao esquecimento, como de resto, a maior parte de suas manifestações artísticas. O processo de conquista de espaço no panorama cultural regido, estudado e produzido por representantes do sexo masculino não aconteceu no Brasil de modo diferente do sucedido nos outros países da comunidade ocidental. Tal processo está diretamente relacionado com as modificações ocorridas no papel representado pelas mulheres no contexto social de cada época e de cada país. São histórias individuais de transgressão e ousadia e de lutas coletivas de afirmação, participação e autoconhecimento.

Este pequeno estudo comparativo entre a produção poética masculina e feminina na poesia brasileira visa contar um pouco de tal história para melhor compreensão da produção poética feminina contemporânea que, embora exista em pluralidade de estilos, com formatos literários e linguagem similares a seus pares masculinos, mantém características próprias e ainda sofrem das muitas restrições e dificuldades impostas às mulheres ao longo dos séculos.

Até meados do século XVII, as mulheres no Brasil quase não tinham acesso à educação. Eram em maioria analfabetas e se submetiam ao domínio social e intelectual masculino. Não por razão de gosto como afirmou Arnold Bennet no já referido trabalho: “(…) também afirmo que não só nos tempos correntes as mulheres gostam de ser dominadas, como continuarão a sê-lo daqui a mil anos senão para sempre. Sempre gostarão de ser dominadas. Este desejo é prova de inferioridade intelectual.” (1)

As mulheres submetiam-se pela mais absoluta falta de outra opção. É tão falsa aquela ideia que foi pela mão dos homens ligados as elas que iniciaram seu aprendizado e começaram a crescer intelectualmente. Pais, esposos e mestres que nelas acreditaram por alguma razão e lhes proporcionaram oportunidade de adquirir conhecimentos e de se dedicar à expressão de sua arte.

Assim como Bennet, na Europa, também no Brasil, vozes de respeitados jornalistas, escritores e juristas se levantaram ao longo dos tempos contestando a inteligência, a propriedade e a capacidade de criação das mulheres.

Lima Barreto (1881 – 1922) em artigo publicado em 1918 foi diretamente contra a contratação de uma mulher para o serviço público por considerar que o ato “aberra a todas as nossas concepções políticas e vai de encontro a todos os princípios sociais. A  ocupação pelas mulheres de cargos naturalmente destinados aos homens, prejudica a reprodução de nossa raça”.

 “As mulheres têm muita aptidão para a retenção e para a repetição,” _ diz ele em outro artigo “mas não filtram os conhecimentos através de seu temperamento, não os incorporam à sua inteligência”   “(… ) em geral em artes, nunca foram criadoras”. (2)

Por muito tempo era dado como indiscutível que ao sexo masculino cabia a vida pública, a produção, a criação e regulamentação da vida social e ao sexo feminino cabia o universo doméstico, a geração e criação da prole.

Vamos nos ater à resposta de Virginia Woolf  às considerações mordazes de Arnold Bennet quanto à incapacidade das mulheres para a criação artística por deficiência de espírito e pouca inteligência nata. A reação masculina à invasão feminina nos espaços sociais ditos exclusivos do homem sempre foi ferrenha e imediata. Do contrário, escapamos de nosso propósito que encara apenas um aspecto das conquistas sociais da mulher ao longo dos tempos.

Primeiras poetas

Consideramos os primórdios da poesia dita brasileira as publicações do poeta Gregório de Matos no século XVII. Nascido em Salvador, Bahia, em 1633, apesar de contemporâneo do Padre Antônio Vieira, muito diferente foi sua produção literária. É conhecido por muitos como “Boca do Inferno” por seus poemas satíricos e irreverentes. Não foi, porém, indiferente à paixão humana e religiosa, à natureza e à reflexão. Quanto à mulher, como musa, em dois exemplos vemos o cantar lírico elogioso da figura feminina e o uso da linguagem jocosa e satírica para descrever uma mulher.

Dois sonetos de Gregório de Matos:  “À uma dama dormindo junto a uma fonte.” E “Anjo no nome, Angélica na cara”.

GREGÓRIO DE MATOS Guerra
( 1633 – 1696 )

Soneto
À uma dama dormindo junto a uma fonte

À margem de uma fonte que corria,
Lira doce dos pássaros cantores
A bela ocasião de minhas dores
Dormindo estava ao despertar do dia.

Mas como dorme Silvia, não vestia
O céu seu horizonte de mil cores;
Dominava o silêncio entre as flores
Calava o mar, e o rio não se ouvia.

Não dão o parabém à nova Aurora
Flores canoras, pássaros fragrantes,
Nem seu âmbar respira a rica Flora.

Porém abrindo Silvia os dois diamantes,
Tudo a Silvia festeja, tudo adora
Aves cheirosas, flores ressonantes.

 

Soneto

Anjo no nome, Angélica na cara

Anjo no nome, Angélica na cara
Isso é ser flor, e Anjo juntamente
Ser Angélica flor, e Anjo florente
Em quem, se não em vós se uniformara?

Quem veria uma flor, que a não cortara
De verde pé, de rama florescente?
E quem um Anjo vira tão luzente
Que por seu Deus, o não idolatrara?

Se como Anjo sois dos meus altares
Fôreis o meu custódio, e minha guarda
Livrara eu de diabólicos azares

Mas vejo, que tão bela, e tão galharda
Posto que os Anjos nunca dão pesares
Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.

Para fazer par a Gregório de Matos, nenhuma voz feminina se levantou naquela época. Ou se o fez, não logrou fama. A primeira mulher a fazer história na poesia brasileira foi Barbara Heliodora Guilhermina da Silveira, nascida em fins de 1758 na cidade de São João Del Rei nas Minas Gerais. Fez sua história como poeta e transgressora dos padrões sociais da época. Era esposa do aclamado poeta e inconfidente Alvarenga Peixoto, tendo vivido com ele por bastante tempo antes de desposá-lo, o que aconteceu só depois que a filha, Maria Ifigênia, já completara três anos de idade. Barbara Heliodora viveu os tempos do Arcadismo Brasileiro, cercada de poetas de fama como Cláudio Manuel da Costa, Tomaz Antônio Gonzaga, Basílio da Gama e Santa Rita Durão.(3) Sua produção literária é bastante reduzida e controvertida. A ela são atribuídos os poemas “Sextilhas a meus filhos” ou “Conselhos a meus filhos” e um soneto dedicado à sua filha Ifigênia.

Segundo Rodrigues Lapa, os poemas não podem ser a ela atribuídos porque ela não teria cultura literária, pois não há em suas cartas qualquer menção literária, nem mesmo pedido de livros. No entanto, há cartas, e uma extensa bibliografia sobre sua pessoa, o que é por demais curioso, tendo ela produzido, na melhor das hipóteses, apenas as duas referidas peças. (4)

Por que não seria ela capaz de usar uma linguagem tão enxuta e mordaz em seu poema? Não teria ela talvez escrito, rabiscado poemas e depois os jogado fora, por não levar a sério sua produção? Quantas outras procederam do mesmo modo?

Temos hoje ciência de vários poemas soltos e livros representativos da produção literária de mulheres que viveram nos séculos passados através do resgate efetuado por estudos recentes, não por terem sido reconhecidos e divulgados em suas épocas. Nenhuma delas, nem mesmo as citadas mais adiante fazem parte das relações de poetas creditados nos compêndios de literatura brasileira. No entanto, se algo lhes faltou para merecer tal crédito, foi tão só o reconhecimento da academia que as ignorava apenas por razão de sua condição feminina.

Comparemos alguns trechos da “Sextilhas a meus filhos” que, assim como o Soneto à Ifigênia, nos remete à figura feminina como mãe zelosa e amorosa, aos versos saudosos de seu marido, Alvarenga Peixoto,  escritos no cárcere da Ilha das Cobras.

BARBARA HELIODORA Guilhermina da Silveira (1758 – 1819)
Mineira de São João Del Rei

“Sextilhas a meus filhos”

Meninos, eu vou dictar
As regras do bem viver,
Não basta somente ler,
É preciso ponderar,
Que a lição não faz saber,
Quem faz sabios é o pensar.

Neste tormentoso mar
D’ondas de contradicções,
Ninguem soletre feições,
Que sempre se ha de enganar;
De caras a corações
A muitas legoas que andar.
(…)
Não vos deixeis enganar
Por amigos, nem amigas;
Rapazes e raparigas
Não sabem mais, que asnear;
As conversas, e as intrigas
Servem de precipitar.

Sempre vos deveis guiar
Pelos antigos conselhos,
Que dizem, que ratos velhos
Não ha modo de os caçar:
Não batam ferros vermelhos,
Deixem um pouco esfriar.

Quem fala, escreve no ar,
Sem pôr virgulas nem pontos,
E póde quem conta os contos,
Mil pontos accrescentar;
Fica um rebanho de tontos
Sem nenhum adivinhar.

Com Deus e o rei não brincar,
É servir e obedecer,
Amar por muito temer
Mâs temer por muito amar,
Santo temor de offender
A quem se deve adorar!

Até aqui pode bastar,
Mais havia que dizer;
Mâs eu tenho que fazer,
Não me posso demorar,
E quem sabe discorrer
Póde o resto adivinhar.
Do livro: “Florilégio da Poesia Brazileira”, de Varnhagen, 1946 (nos três tomos constam “fac-símile do frontespício da ed. princeps do “Florilégio da Poesia Brazileira”, de 1850), RJ

 

A Maria Ifigênia

Em 1786, quando completava sete anos.

Amada filha, é já chegado o dia,
em que a luz da razão, qual tocha acesa
vem conduzir a simples natureza,
é hoje que o teu mundo principia.

A mão que te gerou teus passos guia,
despreza ofertas de uma vã beleza,
e sacrifica as honras e a riqueza
às santas leis do filho de Maria.

Estampa na tua alma a caridade,
que amar a Deus, amar aos semelhantes,
são eternos preceitos da verdade.

Tudo o mais são idéias delirantes;
procura ser feliz na eternidade,
que o mundo são brevíssimos instantes.

Alvarenga Peixoto ou Barbara Heliodora?

 

Inácio José de ALVARENGA PEIXOTO (1743 – 1792)

À D. Bárbara Heliodora

Bárbara bela, do Norte estrela,
Que o meu destino sabes guiar,
De ti ausente triste somente
As horas passo a suspirar.

Por entre as penhas de incultas brenhas
Cansa-me a vista de te buscar;
Porém não vejo mais que o desejo,
Sem esperança de te encontrar.

Eu bem queria a noite e o dia
Sempre contigo poder passar;
Mas orgulhosa sorte invejosa,
Desta fortuna me quer privar.

Tu, entre os braços, ternos abraços
Da filha amada podes gozar;
Priva-me a estrela de ti e dela,
Busca dous modos de me matar!
(Poema dedicado à sua esposa,
remetido do cárcere da Ilha das Cobras)

Nenhuma diferença há, na qualidade da produção e no apuro da linguagem. Entretanto, vemos que esta primeira manifestação registrada, embora se trate de um exemplo reduzido, nos traz a mulher, ainda que em situação diferenciada em seu contexto social, cumprindo seu papel de mãe e vista como amada esposa e terna genitora.

Bem mais vasta e divulgada foi a produção de sua contemporânea, Beatriz Francisca de Assis Brandão (1779 – 1868), natural de Vila Rica, atual  Ouro Preto. Dedicada à poesia, à prosa e à tradução, encobria-se sob um pseudônimo D. Beatriz para colaborar no jornal “Marmota Fluminense”.

Apelidada “Prima de Marília” em alusão ao poema de Tomas Antonio Gonzaga,(5) teve seus poemas publicados em livro: “Cantos da Mocidade” – 1856 e em coletânea no Parnaso Brasileiro: “Carta de Leandro a Hero” e “Carta de Hero a Leandro”. Foi bastante conhecida e elogiada, mas seu nome nunca foi incluído nos anais da literatura brasileira, mesmo tendo recebido a honra de ser patrona da cadeira 38 da Academia Mineira de Letras.

 

D. BEATRIZ Francisca de Assis Brandão ( 1779 – 1868)

Soneto

Voa, suspiro meu, vai diligente,
Busca os Lares ditosos onde mora
O terno objeto, que minha alma adora,
Por quem tanta aflição meu peito sente.

Ao meu bem te avizinha docemente;
Não perturbes seu sono: nesta hora,
Em que a Amante fiel saudosa chora,
Durma talvez pacífico e contente.

Com os ares, que respira, te mistura;
Seu coração penetra; nele inspira
Sonhos de amor, imagens de ternura.

Apresenta-lhe a Amante, que delira;
Em seu cândido peito amor procura;
Vê se também por mim terno suspira.

TOMAS ANTONIO GONZAGA (1744 – 1810)
Soneto 4

Ainda que de Laura esteja ausente,
Há de a chama durar no peito amante;
Que existe retratado o seu semblante,
Se não nos olhos meus, na minha mente.

Mil vezes finjo vê-la, e eternamente
Abraço a sombra vã; só neste instante
Conheço que ela está de mim distante,
Que tudo é ilusão que esta alma sente.

Talvez que ao bem de a ver amor resista;
Porque minha paixão, que aos céus é grata
Por inocente assim melhor persista;

Pois quando só na idéia ma retrata,
Debuxa os dotes com que prende a vista,
Esconde as obras com que ofende, ingrata.

de “Marília de Dirceu”

Trazia a mulher de longa data o seu papel definido dentro do binarismo “o bem” e “o mal”, “anjo” e “demônio”. Ao papel de “força do bem” quando maternal e delicada opunha-se o de “ potência do mal”, quando usurpadora de atividades que não lhe fossem culturalmente atribuídas. A mulher estava atada ao conceito de que a criação era prerrogativa do homem. À ela é negada a autonomia e a subjetividade necessárias à criação. “À ela cabe a servidão e o sacrifício, sem história própria. Demônio ou bruxa, anjo ou fada, ela é mediadora entre o artista e o desconhecido, instruindo-o em degradação ou exalando pureza. É musa ou criatura, nunca criadora.” ( Norma Telles. Escritoras, escritas, escrituras. Ed. Contexto 2009)

A ideia de que a mulher era um ser frágil e inferior intelectualmente, necessitando proteção e apoio de um ser forte e superior, o homem, subsistiu por muito tempo – e ainda subsiste em algumas mentes masculinas.

Século do romance, feminismo, revolução

Passando ao século XIX que podemos chamar de século do romance, vemos que a produção literária geralmente se atém a descrever heróis e heroínas ainda dentro do mesmo binarismo: papel de homem, papel de mulher na sociedade. A mulher como ajudante do homem, educadora dos filhos, um ser de virtude, o anjo do lar. Ou o oposto: mulheres fatais e decaídas. A escrita e o saber ainda funcionando como forma de dominação. Mesmo assim, um grande número de mulheres começou a escrever e publicar, tanto na Europa como nas Américas. Encobertas por pseudônimos masculinos, publicando em jornais e revistas, muitas vezes criados por elas próprias, tiveram inicialmente que dominar o manejo da palavra escrita, difícil numa época em que se valorizava a erudição. Mesmo dominando outras línguas, se de camadas sociais mais elevadas, sua educação era sempre voltada para as prendas domésticas e a educação moral e religiosa.  Tiveram que rever o que se dizia delas e rever sua própria socialização. Virginia Woolf dizia que para se tornar uma escritora, a mulher precisava primeiro “matar o anjo da casa’,(6) isto é libertar-se do papel estereotipado que lhe era atribuído para poder revelar seu próprio eu. É nessa busca que vamos encontrar as melhores expressões literárias das mulheres poetas no Brasil.

De início, os romances de mulheres eram em grande parte autobiográficos. Precisavam expressar-se descrevendo seu próprio sofrimento, defendendo uma causa própria. Ainda presas aos estereótipos criados pelos autores masculinos, sentiam-se podadas pela insegurança em romper com os padrões socialmente aceitos. Na poesia, o resultado foi uma quantidade de poemas retratando seus próprios sentimentos o que muitas vezes soava piegas, elaborado, sem valor.

 O grande jurista Clóvis Beviláqua(7) em crítica a tais poemas, comenta: “Com a direção mental a que geralmente se submetem, as mulheres que em nosso país têm uma educação intelectual, com sua sujeição inevitável à lei do atavismo… aqui as mulheres serão somente poetisas e poetisas voluptuosas, plangentes e desoladas.”

Casado com Amélia de Freitas Beviláqua, escritora e editora da revista O Lyrio, incentivou-a a seguir o jornalismo, e a publicar artigos e livros. Porém, quando em 1930, ela se candidatou à Academia Brasileira de Letras, viu sua pretensão barrada pelo simples fato de ser mulher. Do mesmo modo, Julia Lopes de Almeida, autora de romances de sucesso, teve que ceder sua candidatura ao marido, Filinto de Almeida.

Poetas brasileiras do século XIX

Selecionamos entre tantas apenas algumas que por sua obra ilustram o caminho percorrido. Uma seleção simbólica que permite demonstrar, na comparação entre seus poemas com os seus contemporâneos do sexo masculino, as modificações sofridas nos temas e linguagem ao longo do tempo de modo a acompanhar as modificações vivenciadas no papel social da mulher.

Do Nordeste do Brasil vem Nisia Floresta Brasileira Augusta (1810 – 1885). Dionísia Gonçalves Pinto, nascida no Estado do Rio Grande do Norte já revela no pseudônimo escolhido sua personalidade e opções existenciais: Nísia, diminutivo de Dionísia; Floresta, para lembrar o nome do sítio, Floresta, onde nasceu; Brasileira como afirmação do sentimento nativista; Augusta uma homenagem ao companheiro Manuel Augusto.

Sua obra reflete a preocupação com a posição feminina na sociedade. Escreve, de início, crônicas, artigos e opúsculos sempre sobre o mesmo assunto: “Conselhos à minha filha”, “A jovem completa” “O modelo das donzelas” “Discurso às educandas”.

Mas em 1849 sai a primeira edição de “A lágrima de um caeté” no Rio de Janeiro, sob o pseudônimo de Telesilla. O poema de 712 versos trata do processo de degradação do índio brasileiro colonizado pelo homem branco e do drama vivido pelos liberais durante a Revolução Praieira ocorrida em fevereiro do mesmo ano. É este exemplo que nos demonstra a ruptura com temas então ditos femininos, e seus versos – embora sejam mais narrativa e descrição, pelo vocabulário escolhido, por sua força e precisão nada têm da suposta pieguice ou “leveza” esperada por sua condição feminina. “As lágrimas de um caeté” fazem par com  “I-Juca- Pirama” de Gonçalves Dias e incluem Nísia Floresta no rol dos melhores representantes da corrente indianista ou nacionalista da primeira geração dos românticos do século XIX, conforme se verifica nos trechos escolhidos.

 

NÍSIA FLORESTA Brasileira Augusta
(1810 – 1885)

A Lágrima de um Caeté

Lá quando no Ocidente o sol havia
Seus raios mergulhado, e a noite triste
Denso ebânico véu já começava
Vagarosa a estender por sobre a terra;
Pelas margens do fresco Beberibe,
Em seus mais melancólicos lugares,
Azados para a dor de quem se apraz
Sobre a dor meditar que a Pátria enluta!
Vagava solitário um vulto de homem,
De quando em quando ao céu levando os olhos
Sobre a terra depois triste os volvendo…
Não lhe cingia a fronte um diadema,
Insígnia de opressor da humanidade…
Armas não empunhava, que os tiranos
Inventaram cruéis, e sob as quais
Sucumbe o rijo peito, vence o inerte,
Mata do fraco a bala o corajoso,
Mas deste ao pulso forte aquele foge…
Caia-lhe dos ombros sombreados
Por negra espessa nuvem de cabelos,
Arco e cheio carcaz de simples flechas:
Adornavam-lhe o corpo lindas penas
Pendentes da cintura, as pontas suas
Seus joelhos beijavam musculosos
Em seu rosto expansivo não se viam
Os gestos, as momices, que contrai
A composta infiel fisionomia
Desses seres do mundo social,
Que devorados uns de paixões feras,
No vício mergulhados falam outros
Altivos da virtude, que postergam
De Deus os sãos preceitos quebrantando!
Orgulhosos depois… ostentar ousam
De homem civilizado o nome, a honra!…

Antonio GONÇALVES DIAS
(1823 – 1864)

I-juca-pirama

Em larga roda de novéis guerreiros
Ledo caminha o festival Timbira,
A quem do sacrifício cabe as honras,
Na fronte o canitar sacode em ondas,
O enduape na cinta se embalança,
Na destra mão sopesa a iverapeme,
Orgulhoso e pujante. — Ao menor passo
Colar d’alvo marfim, insígnia d’honra,
Que lhe orna o colo e o peito, ruge e freme,
Como que por feitiço não sabido
Encantadas ali as almas grandes
Dos vencidos Tapuias, inda chorem
Serem glória e brasão d’imigos feros.
“Eis-me aqui”, diz ao índio prisioneiro;
“Pois que fraco, e sem tribo, e sem família,
“As nossas matas devassaste ousado,
“Morrerás morte vil da mão de um forte.”
Vem a terreiro o mísero contrário;
Do colo à cinta a muçurana desce:
“Dize-nos quem és, teus feitos canta,
“Ou se mais te apraz, defende-te.” Começa
O índio, que ao redor derrama os olhos,
Com triste voz que os ânimos comove.

Por suas posições feministas, Nísia Floresta amargou severas críticas assim como Narcisa Amália, que veremos a seguir.

Desta última disse C. Ferreira no Jornal Correio do Brasil em 1872: “Mas perante a política, cantando as revoluções, apostrofando a reio, endeusando as turbas, acho-a simplesmente fora de lugar (…) o melhor é deixar o talento da ilustre dama na sua esfera perfumada de sentimento e singeleza”.

Pois Narcisa Amália (1852 – 1924) filha do poeta Jácome de Campos e da professora Narcisa Inácia de Campos foi a primeira mulher no Brasil a se profissionalizar como jornalista, alcançando projeção em todo o país com seus artigos em favor da abolição da escravatura, em defesa da mulher e dos oprimidos em geral. Da mesma geração de Junqueira Freire e Fagundes Varela e contemporânea de Ezequiel Freire, tem seus poemas mais ao lado dos poetas Condoreiros,(8) na busca da expressão da liberdade. Descreve a sua condição feminina não como ser frágil e delicado, mas como forte para a luta. Eis sua resposta à tal suposição, partida de Ezequiel Freire: Porque sou forte em comparação a Temor de Junqueira Freire, poeta cuja vida breve e angustiada é refletida em poemas plangentes.

NARCISA AMÁLIA (1852 – 1924)

Por que Sou Forte

a Ezequiel Freire

Dirás que é falso. Não. É certo. Desço
Ao fundo d’alma toda vez que hesito…
Cada vez que uma lágrima ou que um grito
Trai-me a angústia – ao sentir que desfaleço…

E toda assombro, toda amor, confesso,
O limiar desse país bendito
Cruzo: – aguardam-me as festas do infinito!
O horror da vida, deslumbrada, esqueço!

É que há dentro vales, céus, alturas,
Que o olhar do mundo não macula, a terna
Lua, flores, queridas criaturas,

E soa em cada moita, em cada gruta,
A sinfonia da paixão eterna!…

Luís José JUNQUEIRA FREIRE
(1832 – 1855)

Temor

Ao gozo, ao gozo amiga. O chão que pisas
A cada instante te oferece a cova.
Pisemos devagar. Olhe que a terra
não sinta o nosso peso.

Deitemo-nos aqui. Abre-me os braços.
Escondamo-nos um no seio do outro.
Não há de assim nos avistar a morte,
Ou morreremos juntos.

Não fales muito. Uma palavra basta
Murmurada, em segredo, ao pé do ouvido.
Nada, nada de voz – nem um suspiro,
Nem um arfar mais forte.

Fala-me só com o revolver dos olhos.
Tenho-me afeito à inteligência deles.
Deixa-me os lábios teus, rubros de encanto
Somente para os meus beijos.

Ao gozo, ao gozo amiga. O chão que pisas
A cada instante te oferece a cova.
Pisemos devagar. Olhe que a terra
não sinta o nosso peso.

Na terceira geração de românticos, brilha Castro Alves, o poeta dos escravos, e a figura feminina que vamos encontrar a lhe fazer par é justamente sua irmã, Adelaide de Castro Alves Guimarães (1854 – 1940). Marcada pela sombra de homens ilustres – a de seu idolatrado e famoso irmão que lhe deve o cultivo de sua memória e a conservação de seu acervo e manuscritos inéditos; e a do seu marido, intelectual e jornalista respeitado, também abolicionista, Adelaide cumpriu a sina de muitas mulheres do século XIX, que, imbuídas da “sagrada missão de mães e esposas” dedicaram-se à glória dos homens de suas famílias. De fato, assim ocupada, a poetisa esqueceu-se de si própria e de seu talento, vivendo num ineditismo quase absoluto. Só por intermédio de sua filha, também poetisa, Regina Glória de Castro Alves Guimarães, seus poemas foram publicados no século seguinte.

ADELAIDE DE CASTRO ALVES GUIMARÃES
(1854 – 1940)

Acercou-se do leito em andar vagaroso:
Condenada dir-se-ia a chegar ao degredo…
O vazio… o abandono… o sossego penoso…
Na marmórea brancura um funéreo lajedo!!…

Onde a estância risonha, o país venturoso
dos afagos sutis… da carícia em segredo…
Dos seus dous corações o pulsar amoroso
De onde a sorte cruel, a expulsara tão cedo?!…

Nesta angústia, que espera esse olhar assim fito
No macio colchão, na macia almofada,
Testemunhos do amor que ora mata-a ora a encanta

Se tão longe, tão longe! Em lençóis do infinito
Prisioneiro ele dorme em alcova isolada
Nesse leito do qual ninguém mais se levanta?…

Antonio Frederico de CASTRO ALVES
(1847 – 1871 )

Tirana

Minha Maria é bonita,
Tão bonita assim não há;
O beija-flor quando passa
Julga ver o manacá.

Minha Maria é morena
Como as tardes de verão;
Tem as tranças da palmeira,
quando sopra a viração.

Companheiros! O meu peito
Era um ninho sim senhor,
Hoje tem um passarinho
Pra cantar o seu amor.
Trovadores da floresta!
Não digam a ninguém não!
Que a Maria é a bunilha
Que me prende o coração.
Quando eu morrer só me enterrem
Junto às palmeiras do Val,
Para eu pensar que é Maria
Que geme no taquaral…

Extraído de Cachoeira de Paulo Afonso

A poesia lírica que não a mera exposição de sentimentos adequados exigia um eu confessional forte, difícil para as mulheres sujeitas às definições culturais da época. Não podiam se expressar quando lhes era dito que deveriam se autossacrificar pelos outros, que não deveriam fazer afirmações, que deveriam se restringir a sugestões alheias, deixando ao interlocutor a possibilidade de recusa. Esperava-se da lírica feminina a surpresa, submissão, incerteza, ingenuidade.

Adélia Josefina de Castro Fonseca (1827 – 1920) Viveu num contexto de efervescência cultural na Bahia. Escreveu o poema “A Aurora Brasileira” em resposta ao “Madrugada” do poeta português João de Lemos. Fala da individualidade feminina e dominando com maestria a forma clássica do soneto, define sua maneira de amar. Ao lado do trecho do poema de Álvares de Azevedo – outro poeta de vida breve, ilustra o ponto de vista feminino e masculino quanto ao objeto de seu desejo. (9)

Os poemas escolhidos a seguir não são contrastantes ou semelhantes, constituem verdadeiros diálogos entre a produção poética masculina e feminina. Generalizar é perigoso, mas os exemplos existem e além dos aqui expostos vários outros podem ser encontrados sem grande dificuldade.

ADÉLIA FONSECA
(1827- 1920)

SONETO

Ninguém nas asas da mais leve aragem,
a ti enviou lembranças tão saudosas;
ninguém horas passou tão deleitosas
de amor te ouvindo a férvida linguagem;
ninguém da tua vida na passagem
semeou, sem espinhos, tantas rosas;
ninguém te diz palavras tão mimosas,
contra o peito estreitando tua imagem;
ninguém de alma te deu mais lindas flores,
nem tanto desejou quanto eu desejo,
delas, tão puras, conservar as cores;
ninguém sabe beijar, como eu te beijo;
ninguém assim por ti morre de amores;
ninguém sabe te ver, como eu te vejo.

Adélia Fonseca

Do livro: “Vozes Femininas da Poesia Brasileira”, Cons. Est. de Cultura, 1959, SP

MANUEL ANTÔNIO ÁLVARES DE AZEVEDO
(1831 – 1852)

À T…
(…)

Meu amor, minha vida, eu sofro tanto!
O fogo de teus olhos me fascina,
O langor de teus olhos me enlanguesce,
Cada suspiro que te abala o seio
Vem no meu peito enlouquecer minh’alma!
Ah! vem, pálida virgem, se tens pena
De quem morre por ti, e morre amando,
Dá vida em teu alento à minha vida,
Une nos lábios meus minh’alma à tua!
Eu quero ao pé de ti sentir o mundo
Na tua alma infantil; na tua fronte
Beijar a luz de Deus; nos teus suspiros
Sentir as vibrações do paraíso;
E a teus pés, de joelhos, crer ainda
Que não mente o amor que um anjo inspira,
Que eu posso na tu’alma ser ditoso,
Beijar-te nos cabelos soluçando
E no teu seio ser feliz morrendo!

O comentário de Machado de Assis sobre a obra de Adélia Fonseca, embora imbuído de elogios, traz uma ressalva um tanto machista: “O que nos agrada sobretudo é que este livro exprime uma verdadeira individualidade feminina; não há essa pompa afetada, essa falsa imitação dos tons másculos que algumas escritoras procuram mostrar em suas obras, como recomendação dos seus talentos.”

É curioso notar a menção publicada na capa ou no prefácio de um livro de Adélia Fonseca ressalvando o fato de que a autora não auferia nenhuma remuneração para seu trabalho. A sobrevivência através do trabalho intelectual para a mulher era vedada. Em 1850, começam a aparecer, com frequência, versos de mulheres, que publicavam sempre com a mesma ressalva. Esta situação era explicitada na capa ou no prefácio do livro Echos da minh’alma, de Adélia Fonseca, editado em 1866.

Modernismo, século XX

Na transição para o Modernismo, a poesia ganha novos rumos. Após a Primeira Guerra Mundial, o socialismo e o feminismo tomam força. Aos poucos as vozes femininas começam a ser reconhecidas em publicações de revistas, coletâneas e livros isolados.

A Semana de Arte Moderna em 1922 consagra os poetas Manuel Bandeira, Menotti Del Picchia, Guilherme de Almeida e Cassiano Ricardo. Embora Tarsila Amaral e Raquel de Queiroz fossem artista e escritora presentes no rol dos intelectuais do movimento, apenas timidamente as poetas se fazem ouvir. Enquanto que ainda musas inspiradoras de seus pares, agora também criadoras, não têm o sexo oposto por inspiração, senão como personagem ou como gerador de sentimentos que agora expressam livremente.

Em ordem cronológica citamos: Gilka Machado, Cecília Meireles, Henriqueta Lisboa e Hilda Hilst.

Gilka Machado (1893 – 1990) rompe com a forma e expressa explicitamente sensações, sentidos, desejos eróticos. Seu primeiro livro de poemas foi publicado aos vinte e dois anos: “Cristais partidos”, seguindo-se “Estados  d’Alma” (1917), “Mulher Nua” (1922), “Meu Glorioso Pecado” (1928), “Amores que Mentiram, que Passaram” (1928) Aclamada pela revista “O Malho” como a maior poetisa brasileira selecionada entre 200 intelectuais, tornou-se reconhecida e popular. Sua poesia permanece como um marco na ousadia de resistência aos limites impostos até então para a representação do prazer erótico usando de linguagem explícita e de forma artística qualitativamente reconhecida. Recebeu o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Poesia em 1979 e poderia ter sido a primeira mulher a fazer parte da referida academia, tivesse ela aceitado o convite para se candidatar.

GILKA MACHADO
(1893 – 1980)

Fecundação

Teus olhos me olham
longamente,
imperiosamente…
de dentro deles teu amor me espia.

Teus olhos me olham numa tortura
de alma que quer ser corpo,
de criação que anseia ser criatura

Tua mão contém a minha
de momento a momento:
é uma ave aflita
meu pensamento
na tua mão.

Nada me dizes,
porém entra-me a carne a persuasão
de que teus dedos criam raízes
na minha mão.

Teu olhar abre os braços,
de longe,
à forma inquieta de meu ser;
abre os braços e enlaça-me toda a alma.

Tem teu mórbido olhar
penetrações supremas
e sinto, por senti-lo, tal prazer,
há nos meus poros tal palpitação,
que me vem a ilusão
de que se vai abrir
todo meu corpo
em poemas.

(in Sublimação, 1928)

GUILHERME DE ALMEIDA
(1890 1969)

O Idílio suave

Chegas. Vens tão ligeira
e és tão ansiosamente esperada, que enfim,
nem te sentindo o passo e já te tendo inteira,
completamente em mim,
quando, toda Watteau, silenciosa, apareces,
é como se não viesses.

Vens… E ficas tão perto
de mim, e tão diluída em minha solidão,
que eu me sinto sozinho e acho imenso e deserto
e vazio o salão…
E, sem te ouvir nem ver, arde-me em febre a face,
como se eu te esperasse!

Partes. Mas é tão pouco
o que de ti se vai que ainda te vejo o arfar
do seio, e o teu cabelo, e o teu vestido louco,
e a carícia do olhar,
e a tua boca em flor a dizer-me doidices,
como se não partisses!

Cecília Meireles (1901 – 1964). Sua formação pedagógica e intensa atividade intelectual a qualificam para títulos e honrarias, mas é a qualidade de seus versos que a fazem detentora do reconhecimento público como uma das maiores e mais importantes poetas brasileiras de todos os tempos.

Nesta fase, o estudo comparativo já perde sua necessidade. É mister apenas colocar lado a lado poesia e poesia para perceber que traços sutis se perdem ou se alinham na poesia de autores do sexo masculino e do sexo feminino.

Cecília Meireles descreve dançarinas, Manuel Bandeira descreve pequenos carvoeiros, A ambos tocam os mesmos sentimentos, diferentes são os objetos e a razão da escolha.

CECÍLIA MEIRELES
(1901 – 1964)

Motivo

Eu canto porque o instante existe
E a minha vida está completa
Não sou alegre nem sou triste
Sou poeta.
(…)

Balada das dez bailarinas no cassino

Dez bailarinas deslizam

Por um chão de espelho.
Têm corpos egípcios com placas douradas,
Pálpebras azuis e dedos vermelhos.
Levantam véus brancos, de ingênuos aromas,
E dobram amarelos joelhos.

(…)

Os homens gordos olham com um tédio enorme
As dez bailarinas tão frias.
Pobres serpentes sem luxúria,
que são crianças durante o dia.
Dez anjos anônimos, de axilas profundas,
Embalsamados de melancolia.

Vão perpassando como dez múmias
As bailarinas fatigadas.
Ramo de nardos inclinando flores
Azuis, brancas, verdes, douradas.
Dez mães chorariam, se vissem
As bailarinas de mãos dadas.

(in Mar Absoluto e outros poemas: Retrato Natural. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1983.)

MANUEL BANDEIRA
(1886 – 1968)

Meninos carvoeiros

Os meninos carvoeiros
Passam a caminho da cidade.
— Eh, carvoero!
E vão tocando os animais com um relho enorme.

Os burros são magrinhos e velhos.
Cada um leva seis sacos de carvão de lenha.
A aniagem é toda remendada.
Os carvões caem.

(Pela boca da noite vem uma velhinha que os recolhe, dobrando-se com um gemido.)

— Eh, carvoero!
Só mesmo estas crianças raquíticas
Vão bem com estes burrinhos descadeirados.
A madrugada ingênua parece feita para eles . . .
Pequenina, ingênua miséria!
Adoráveis carvoeirinhos que trabalhais como se brincásseis!

—Eh, carvoero!
Quando voltam, vêm mordendo num pão encarvoado,
Encarapitados nas alimárias,
Apostando corrida,
Dançando, bamboleando nas cangalhas como espantalhos desamparados.

Petrópolis, 1921

Henriqueta Lisboa (1901 – 1985). Poeta mineira, detentora do prêmio Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras. Dedicou-se igualmente à tradução, ensaios e antologias. Em 1984, recebeu o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto de sua obra. Manteve-se sempre em contato com os escritores de sua época, mantendo uma longa correspondência com Mario de Andrade.(10) No poema abaixo, já em 1982, descreve a mulher em conformidade com padrões estabelecidos. Enquanto Mario Rossi faz humor quanto criação da mulher. Expressa-se ela em formato livre e ele num clássico soneto.

HENRIQUETA LISBOA
(1901 – 1985)

Modelagem / Mulher

Assim foi modelado o objeto:
para subserviência.
Tem olhos de ver e apenas
entrevê. Não vai longe
seu pensamento cortado
ao meio pela ferrugem
das tesouras. É um mito
sem asas, condicionado
às fainas da lareira
Seria uma cântaro de barro afeito
a movimentos incipientes
sob tutela.
Ergue a cabeça por instantes
e logo esmorece por força
de séculos pendentes.
Ao remover entulhos
leva espinhos na carne.
Será talvez escasso um milênio
para que de justiça
tenha vida integral.
Pois o modelo deve ser
indefectível segundo
as leis da própria modelagem.

Publicado: Pousada do Ser (1982)

MARIO ROSSI
(1911 – 1981)

Divino Erro

Cansado de curtir o dia-a-dia
Sem qualquer atração do Paraíso,
O Criador resolveu que era preciso
Sair da fossa e da monotonia.

Com argila celeste, de improviso,
Compôs um alto estudo de estesia
Modelando a mulher que lhe surgia
Com a graça e a malícia de um sorriso.

Previu que ali forjava a sua fama
Mas, com o molde ainda inacabado,
Sentiu-se exausto e se jogou na cama.

Foi seu erro… o sono foi funesto,
Mefisto, apologista do pecado,
Aproveitou a chance… e fez o resto.

Na segunda fase do Modernismo, é a vez de Vinicius de Moraes, Jorge de Lima, Augusto Frederico Schmidt e Carlos Drummond de Andrade. Cecília Meireles já é incluída no grupo e Hilda Hilst (1930 – 2004) desponta rompendo com formatos padronizados e usando vocabulário corrente com toda irreverência e liberdade. Vemos ainda, a preocupação da descrição da mulher, junto com seus sentimentos, angústias e desejos. É curioso que tendo rompido com as formas clássicas da poesia e expressando-se à vontade sem métrica ou rima, possa ter colocado toda angústia da mulher moderna num maravilhoso soneto.

HILDA HILST
( 1930 – 2004)

“Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha
Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha)
Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel
Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.”

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
(1902 – 1987)

As sem-razões do amor

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

À guisa de encerramento, uma resposta inédita a um famoso poema de Vinicius de Morais:

VINICIUS DE MORAES
(1913 – 1980)

Receita de Mulher

As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na República [Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Qu tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora. (…)
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas, e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é, porém, o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mais que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de 5 velas. (…)

Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro da paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que, se se fechar os olhos
Ao abri-los ela não mais estará presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá (…)

VERA ABAD
(1943 – )

Resposta ao poeta

As belas que me perdoem, porém tua receita, poeta,
Começa com um erro fatal.
Beleza abre portas, é certo.
Negá-lo seria estultice, mas nem sempre é fundamental.
Num julgamento apressado, beleza só de superfície,
Não chega ao essencial.
Além disso, beleza, beleza de mulher, então,
É conceito variante, em tempo e espaço, mutante
Em moda, raça, nenhum dominante,
Subjetivos todos são.
O que louvas, meu poeta, em tua mulher ideal?
Sua formas atraentes, sua construção perfeita
Para ser admirada.
Seu corpo firme e macio, suave textura
Para ser tocada.
Frescor e odores, qual fruta madura que desejas provar.
Quando falas do mistério,
Vedas a paixão por trás de um muro
E, se pintas a mulher com teu traço,
Cintura, boca e braço
Ainda assim a fazes deusa viva,
Efêmera e irreal. (…)

Amada, toda mulher sente-se bela,
Pois o amor é para ela a fonte eterna de seu poder.
Esta é a beleza que vem de dentro,
E, poeta, não chegas ao centro, ao âmago da presente questão.
Imagina se para ser amada toda mulher precisasse
Preencher tua descrição.
Os predicados que citaste, quase tudo que louvaste
O tempo apaga, a idade muda,
Com o abandono e o desamor fenece.
Mais sábio o dito popular que explica:
“Quem ama o feio, bonito lhe parece.”

Conclusão

Da produção poética feminina dos séculos passados pouco ou quase nada foi divulgado e reconhecido. As precursoras que abriram caminho para que estas últimas, Cecília Meireles, Henriqueta Lisboa, Adélia Prado, Hilda Hilst e muitas outras hoje tivessem seus trabalhos publicados em livros, em coletâneas, na internet, que pertencessem a academias literárias e fossem traduzidas para outras línguas, tiveram seus trabalhos resgatados e publicados graças às pesquisas realizadas por universidades brasileiras nos últimos anos. Mencione-se em especial, o trabalho de Zahidé Lupinacci Muzart na compilação do livro publicado pela Universidade de Santa Cruz do Sul em colaboração com a Editora da Mulher, “Escritoras Brasileiras do Século XIX”, o qual apresenta o trabalho de 51 escritoras brasileiras, entre elas as mencionadas anteriormente, cujos nomes até bem recentemente não eram registrados em publicações sobre literatura. Pela pesquisa aprendemos que no final do século XIX, mulheres leitoras e escritoras publicavam em jornais e revistas, geralmente nos cadernos especializados como femininos.

Delas, 40% eram professoras, 40% eram relacionadas por laços de família ou por matrimônio a artistas, escritores e jornalistas do sexo masculino. Apenas 20% lançavam-se destemidamente. E enfrentavam a discriminação e a crítica mordaz ao seu comportamento e à sua obra.

Existe uma literatura feminina? Uma poesia feminina, oposta a uma literatura masculina e poética essencialmente masculina? Por certo que este trabalho não prova diferenças que possam ser detectadas para caracterizar exclusivamente uma ou outra manifestação literária. É certo também, que ainda hoje poetisas e romancistas tenham suas obras criticadas como não adequadas ao que se espera ser escrito por uma mulher quando se afastam de uma certa delicadeza ou contenção de linguagem.

Pode-se dizer que ao longo de dois séculos e mais intensamente nos últimos cinquentas anos, a mulher conquistou espaço e reconhecimento no universo literário, no Brasil em igualdade com o resto do mundo. Jornalistas e editoras emprestam nomes de prestígio às suas firmas de comunicação.

Poderíamos dizer que é uma vitória, sem esquecer nunca que o Feminismo é uma luta onde a vitória é o empate.

O caminho foi aberto, os espaços preenchidos. As mulheres exploram o mundo das mulheres e o mundo dos homens em suas obras literárias e são igualmente lidas e reconhecidas.

Seis escritoras tomaram assento na Academia Brasileira de Letras: Raquel de Queiroz, Nélida Piñon, Ana Maria Machado, Lygia Fagundes Teles, Zélia Gattai e Cleonice Berardinelli. Estranhamente, nenhuma delas, poeta.

O que é definitivo, porém, é que a trajetória feminina na busca de sua liberdade de expressão pautou-se pela imitação dos padrões vigentes em suas épocas, que eram masculinos, e pelo esforço por exprimir seus próprios sentimentos e ideias do melhor modo aceito no mundo acadêmico, e se não marcaram presença lado a lado de seus pares masculinos, foi por pura contingência social e falta de reconhecimento.

Reconhecimento este que orgulhosa e agradecidamente lhes damos neste momento.

NOTAS:

1 – No outono de 1920, a edição do livro de ensaios do novelista Arnold Bennet sobre: “Nossas mulheres: capítulos sobre a discordância dos sexos” deu origem a uma contenda verbal entre Desmond MacCarthy que fizera a crítica do livro e Virginia Woolf. A troca de cartas foi publicada no New Stateman em outubro do mesmo ano e fazem parte do livro “Killing the Angel in the House: seven essays” Virginia Woolf  edição da Penguin Books 1995.

2 – Afonso Henriques de Lima Barreto ( Rio de Janeiro 1881 – Rio de Janeiro 1922) Jornalista e romancista brasileiro colaborou no Jornal do Commercio e na A Gazeta da Tarde, além das revistas O Riso, Fon-Fon e Careta. Em sua observação compara a mulher estrangeira e a brasileira não poupando duras críticas às suas conterrâneas nem como personagens em seus romances nem suas afirmações nos artigos publicados. Carlos Erivany Fantinati: “Literatura e Autoritarismo” Contextos Históricos e Produção Literária Revista nº 12 Universidade Federal de Santa Maria RS http://w3.ufsm.br/grpesqla/revista/num12/art_08.php

3 – A revolta conhecida como Inconfidência Mineira, foi uma tentativa separatista, ocorrida nas Minas Gerais contra o domínio português. Foi abortada em 1789 pela Coroa portuguesa. Dela fizeram parte intelectuais da então Vila Rica em sua maioria poetas cuja produção trazia forte influência do Arcadismo e Classicismo português.

4 – Manuel Rodrigues Lapa (Anadia 1897 – 1989). Filólogo e escritor português que, quando radicado no Brasil após se afastar de Portugal por motivos políticos drealizou investigações sobre o Setecentos político e cultural de Minas Gerais. Sua pesquisas abarcaram os escritores da Conjuração Mineira publicando e comentando grande documentação até então desconhecida sobre eles.

5 – Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), nascido em Miragaia, no Porto, e falecido na Ilha de Moçambique, na costa oriental da África, foi um dos principais poetas árcades do Brasil. Seu poema Marília de Dirceu foi publicado em Lisboa em 1792.

6 – “The Angel in the House” – poema narrativo de Coventry Patmore publicado em 1854 e expandido até 1862. Tornou-se conhecido por personificar o ideal feminino na era vitoriana: a mulher como esposa e mãe abnegadamente dedicada aos filhos e ao lar, submissa ao seu marido.

7 – Sobre Clovis Beviláqua ver Silvio Meira. “Clovis Beviláqua. Sua vida. Sua obra.” Fortaleza: Edições Universidade Federal do Ceará, 1990.

8 – Geração condoreira, Condoreirismo. Tendo como símbolo o condor, abrange os poetas de aspiração libertária, com sentimentos liberais e abolicionistas da terceira geração do período romântico.

9 – Alvares de Azevedo foi um dos poetas que melhor personificou a estética ultra-romântica. Dado a temas mórbidos, de uma lírica macabra, teve vida curta, sofrendo de tuberculose o que explica suas inclinações e o fato de seus poemas não terem sido reunidos em livro enquanto viveu.

10 – Mário de Andrade foi um dos propulsores do movimento modernista, autor de “Macunaíma” publicado em 1928 e considerado um dos grandes romances modernistas do Brasil. Figura de projeção no meio literário, foi músico poeta e romancista.

REFERÊNCIAS:

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BENNET, Arnold. Our women: chapters on the sex discord. Coleção de Ensaios.

  1. 1920. Kindle Edition.2010.

DEL PRIORE, Mary e BASSANEZI, Carla organização. História das Mulheres no Brasil. SP Editora Contexto 2009.

FALCI, Miridan Britto Knox. Amelia de Freitas Beviláqua: a intelectual piauiense avançada. Disponível em <http://www.fnt.org.br/dwp.php?a=b46d45af1e.pdf&id=109>

JORNAL DE POESIA. Poemas e biografias de autores brasileiros. Site disponível em  < http://www.jornaldepoesia.jor.br/>

LIMA BARRETO. A mulher Brasileira, artigo. In: Vida Urbana. SP Brasiliense 1961

LIMA BARRETO. Feminismo e voto feminino, artigo. In: Férias e Mafuás. SP Brasiliense 1961

LIMA BARRETO. O anel das musicistas, artigo. In: Marginalia. SP Brasiliense 1961

LITERATURA ONLINE. Seção Modernismo (1922 – 1960). Disponível em

<www.graudez.com.br/literatura/modernismo.html>

MACHADO, Gilka. Poesias completas. RJ Léo Christiano Editorial Ltda 1993

MICOLIS, Leila. Mulheres da Belle-époque e suas parcerias textuais lyrio-líricas. Disponível em: <http://literaciareteses.blogspot.com.br/2010_07_04_archive.html>

MORAES, Vinicius de. Antologia Poética. 29ªed. RJ José Olympio Editora 1988

MUZART, Zahidé Lupinacci, organização. Escritoras Brasileiras do século XIX – Antologia. Ed. Mulheres/Edunisc  SC 1999

PEREIRA DE MELO, Henrique Capitulino. Pernambucanas Ilustres, c.1878.

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TELLES, Norma. Escritoras, escritas, escrituras, artigo. In: História das Mulheres no Brasil. SP Editora Contexto 2009.

WOOLF, Virginia. Killing the Angel in the House: Seven Essays. UK. Penguin 1995.