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Gustavo Wider

Biografia:

Petropolitano, poeta e trovador, autor dos livros “Caminhos e Descaminhos”, “Tratado Geral de Metrificação”, “Folhas que o Vento Levou” e “Portas Abertas”.

Trabalhos:

DOIS POEMAS DO LIVRO “Caminhos e Descaminhos”

I

Cheia, redonda e muito pálida
ia a lua se deitando, ao findar a madrugada
quando subitamente, a surpreendi
com o mesmo assustado enleio
com que se surpreende
uma mulher pelada
com a mão no seio
Por um instante paramos, ambos
surpreendidos e enleados

Mas logo ela, puxando sobre si
uma veste de seda
(e fingindo não me ver)
seguiu seu caminho
até desaparecer na alvorada
-como uma mulher, pelada.

II

Acordei no meio da noite
Com um sapo no brejo concertando uma panela
O resto era silencio
Havia talvez um grilo, muito ao longe
Ou era dentro de mim mesmo, muito ao longe
Levantei-me e fui à janela olhar o céu:
Tinha uma estrelinha passando mal
E outras olhando, em torno dela
Para os lados do ocidente, um rubor…

Voltei para cama e fiquei esperando
De longe, do fundo da mata,veio o sinal
Logo mil passarinhos estavam em festa
Cada qual do seu jeito,com sua mensagem
Auroreal
Alguns ainda espreguiçando a voz,ensaiando…

De repente,a sirene agressiva de uma cigarra
Atravessou os ares, como um caminhão
A festa ia pelo fim
Amanhecia
Voltei à janela e vi passar uma borboleta
Acenando com uma bandeira amarela
Já era dia

TEMPORAL TRÊS TEMPOS
No final da tarde
as nuvens perderam o caminho de casa
e ficaram rondando pelo céu, desencontradas
O sol, entre elas, passava de porta em porta
até que entrou numa e desapareceu

As árvores mais próximas
acenavam aflitas
como quem estivesse se afogando

Da Maria Comprida descia um branco lençol
que avançava, rugindo
por sobre as montanhas agachadas

No fundo do vale amotinaram-se os ventos
que logo investiram violentos
contra tudo e contra todos

A natureza pusera-se de joelhos
à espera do que pudesse acontecer

Mas tudo não passou de um grande susto
Pouco depois ressurgia o sol
todo molhado
pousado sobre o gume do horizonte
As árvores ainda contabilizavam suas perdas
quando a noite veio vindo
e instalou-se sobre a terra soberanamente

O céu estava lavado e limpo
Para receber a lua.

Fechei os olhos um instante
quando abri
o menino ia distante

Fechei os olhos distraídos
quando abri
o dia havia morrido

De cansado fechei os olhos
quando abri
a vida havia passado

Discurso de posse na Academia Brasileira de Poesia realizado pelo Acadêmico Gustavo Wider em 21 de Setembro de 2002.
Ao tomar posse, hoje, nessa prestigiosa Academia, quero, inicialmente, dizer que me senti vivamente motivado com a grata incumbência de saudar e fazer reviver a imagem do patrono da cadeira número 12, que doravante passarei a ocupar: esse lendário Carlos Cavaco.
Confesso que, antes de me propor a falar dele, pouco o conhecia, porém, à medida em que me fui assenhoreando das informações a seu respeito, foi crescendo em mim a admiração e o entusiasmo por sua personalidade, a ponto de poder agora dedicar-me a essa tarefa entusiasticamente .
Uma das providência que tomei para vir a conhecê-lo melhor foi a de conhecer sua família, ou parte dela, que reside em Petrópolis.
Nesse intuito contatei e fui recebido com grande afabilidade e simpatia por sua esposa, D. Heloisa Cavaco que ainda então, aos 95 anos de idade, é uma senhora admiravelmente lúcida e participante , e também por suas filhas , D. Maria Flor do Destino, e D.Amanda, e por sua neta, igualmente gentil, também de nome Heloisa .
Entre cafezinhos e biscoitinhos , conversamos sobre Carlos Cavaco, e havia, então, nos olhos dessas senhoras um inelutável brilho de orgulho e eterna admiração pela personalidade de seu famoso esposo, pai e avô. Ao final da entrevista, voltei-me e, de chofre, lhes fiz essa pergunta:“se vocês tivessem que definir Carlos Cavaco com uma única palavra, qual seria essa palavra ? ”E veio delas, como num coro,
Essa palavra : FORÇA .
E depois, num murmúrio: Ele era um forte! Um audaz .Um destemido….
E assim , quanto mais me aproximava da figura de Carlos Cavaco, mais me ofuscava a visão o brilho de sua grandeza, e mais me sentia incapaz de lhe ser condigno e justo, posto que, crescia em mim a nítida certeza de que, só o dar uma pálida idéia de quem foi Carlos Cavaco não seria tarefa fácil, por tratar-se de personalidade multifacetada, com todos os seus múltiplos aspectos relevantes.
Foi Carlos Cavaco um soldado? Foi. Foi um tribuno? Foi. Foi um poeta, um seresteiro? Foi. Um revolucionário? Também foi. Um herói nacional? Sim, isso sem dúvida ele foi! E se é difícil dizer o que ele foi, mais difícil ainda seria dizer o que ele não foi.

Ouçamos então suas próprias palavras, em seus escritos autobiográficos:

…Criei-me assim, ouvindo toques de clarins, tinir de espadas, sibilos de balas e gritos de raiva e de dor no seio das revoluções pampeanas. Conhecendo a fome, a prisão, o exílio, fui quase tudo que um homem pode ser na vida : Poeta , romancista , conferencista, artista de cinema, jornalista,“boxeur”, lutador romano, professor de esgrima, advogado, ator dramático, cantor de modinhas, chefe de gabinete de ministro, tabelião, militar, acadêmico, dramaturgo, radialista, filósofo, tocador de violão, desordeiro, brigão, domador de potros, — tudo isso com uma alma que era: uma parte de D.Quixote, outra, de D. Juan. Sonhei, amei e briguei, eis tudo!
Humilde ele não era, nem pretendia ser.
Era um gaúcho sobranceiro, consciente de seu valor; do tipo que “não leva desaforo pra casa”, que não se assusta nem se encolhe, que não se intimida nem foge à luta. Do tipo que aceita desafio e jamais declinaria do chamamento a um duelo. Se há um antônimo para covardia, esse antônimo é: Carlos Cavaco.
Se há um exemplo de pessoa carismática, de grande magnetismo pessoal, esse exemplo é, sem dúvida, Carlos Cavaco.
Personalidade envolvente , aliciadora, sedutora –até mesmo, em alguns casos, perigosamente sedutora- esse foi Carlos Cavaco .
Conviveu de perto, lado a lado, com as maiores figuras do cenário do país na fase getulista: Com o próprio Getúlio, a quem foi fiel até a morte e, lado a lado com todos os grandes políticos e chefes militares que compunham aquela coorte de valentes que fizeram a revolução de 30.
A fidelidade a seus amigos e a seus ideais morais e políticos foi também uma de suas características mais dominantes . Por ocasião da morte de Getúlio Vargas, escreveu:“Quando, acompanhado de toda a minha família, fui, com a alma ajoelhada, beijar , no recinto do Gabinete Militar do Palácio do Catete, o féretro onde se encontrava estendido, o corpo de meu grande amigo, eu sabia , e sei, que estava encerrada ali minha vida política.” E disse mais: “ …colarei nos meus lábios o selo do silêncio, quebrarei minha pena de escritor político, enrolarei minha bandeira de idéias e ideais e irei descansar…”

Tal era sua fidelidade a seus ideais, às convicções políticas, ao amigo, ao mestre, ao chefe que, 7 anos mais tarde, haveria de seguir, de bombacha e lenço encarnado ao pescoço, a cavalgar, indômito, pelos luminosos páramos dos pampas infinitos …
Carlos Cavaco foi reconhecido dentro e fora do país como expoente político e homem de letras, sobretudo como um grande orador ; quem teve o privilégio nos dá conta de que nunca, jamais tivera oportunidade de ouvir orador igual. Além disso tudo, foi um grande militar! Não caberia nessas páginas o relato de seus feitos militares, de seu grande heroísmo e incondicional amor à pátria, desde quando, em 1893, com apenas 15 anos de idade , participou da revolução federalista integrando as forças dos coronéis Bento Xavier e Maneco Machado, até quando, em 1930, já então com 52 anos de idade , tomou parte na revolução de 3 de Outubro e seguiu para o norte integrando, já então como oficial, da Legião Bento Gonçalves.

Para dizer numa só frase tudo, Carlos Cavaco foi uma grande figura humana!

Nascido em Sant’Ana do Livramento, Rio Grande do Sul, em 1878, faleceu aos 83 anos de idade em Petrópolis a 22 de Dezembro de 1961. Viajou e conheceu quase todo o Brasil, sempre como um grande líder, assim como grande parte do mundo exterior, por onde andou, brilhou e encantou pessoas exponenciais nos campos da cultura , da literatura e da política.
Entre mil exemplos de valentia e coragem , inteligência e valor, deixou provas de ter sido também um poeta! E, por vezes, um trovador… Fez trovas, sim, como por exemplo esta preciosa:

“Tantas coisas já disseram
os teus olhos para os meus
que meus olhos se fizeram
escravos dos olhos teus .”

Porém suas composições poéticas refletiam , no mais das vezes, sua própria natureza, num estílo poético CONDOREIRO E ALTISSONANTE:
Revoltado, inconformado com a miséria humana….
como, por exemplo, nesse
O MEU GRITO – ( do qual digo parte ) Poema que, pela força expressiva, muito lembra Castro Alves-
Hoje é mister que seja a poesia
Grito de guerra pelo mundo todo .
É indispensável levantar do lodo
O povo que se prostra em agonia .

O século manchado pelo crime
Já não comporta a lágrima no verso.
É necessário o fogo que redime
Para limpar as nódoas do universo .

É necessário que , de polo a polo,
Estremeça esta terra profanada,
porque talvez das convulções do solo
Surja uma raça menos desonrada .

É preciso que tudo se transforme,
Que tudo mude de lugar na vida
A raça humana preguiçosa dorme
Como se fosse uma mulher perdida .

–//–
Concluo então dizendo apenas que me sinto muito honrado de passar a ocupar a cadeira 12 da Academia de Poesia Raul de Leoni, da qual Carlos Cavaco é patrono, tendo assim, dessa forma , ainda que imerecidamente, meu nome ligado ao seu.

Muito obrigado
–//– GW