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Heliana Pareto

Biografia:

Natural do Rio de Janeiro, radicada em Petrópolis desde 1972. Membro Honorário da Gazeta de Felgueiras – Portugal. Figura em diversas Antologias. Foi membro da Academia Petropolitana de Poesia (1992-2006)

Trabalhos:

Insônia

Dorme a insônia ao meu lado
E eu ali tresnoitado.
Velando seu sono vou.
Quando o dia clarear.
Assim sem mais avisar.
Ela, esgueirando meu leito.
Me deixa sem sono, desfeito.
No meu quarto a matutar…

E o sono, pobre coitado.
Também não pode dormir.
Esperando a melhor hora.
Pra poder se aconchegar.
Passou a noite lá fora.
E deve estar bem zangado.
Pois outra noite se faz.
E, ao invés do sono.
É outra vez a insônia.
Que vem dormir ao meu lado.

Contrastes

A minha alma desperta.
E olho a vida deserta.
Que passa ao longo caminho.
Sou chama e tênue figura.
Contrastes que a vida augura.
Mas, vou sem medo – sozinho.

Enfrento silêncios pesados.
Que o tempo passado – abranda.
A vida não é mais que um fardo.
O nosso destino errante.
Nos espera lá adiante.
Tem dia e hora marcados.

Dark Poema

Vai peregrino!
Pega teu braço, teu arco.
O mar da vida é o teu destino.
E se encontrares no caminho.
Vicissitudes à deriva.
Segue em frente!
É assim mesmo a vida.
Corroída!
Explosiva!
Mal-parida!
Deprimente…
Nós humanos somos todos hermanos.
Desta mal-sinada via!

Erros-Erres…

Retorno, renasço.
Repenso, refaço.
Repito rompantes – regresso.
Recluso, remôo remorsos.
Risos, rostos, rastros…

Tear

Na trama que eu mesma teci.
Caminhos emaranhei.
Por estranhas relembranças.
Nos caminhos eu passei.

O tempo pra mim não conta.
No corolário de contas.
Dos destinos que tracei.

E assim emaranhando.
Meus sonhos tão desconexos.
Eu vivo sem me dar conta.
Que viver é tão complexo…

O louco

Rebimboam trovões.
Do teu olhar cigano.

Tens dentro de ti.
O pranto represado.
Cavaleiro tenaz.
De riso amordaçado.
Ai de quem te fira.
Criatura-errante!
Tuas mãos se crispam.
Para esmagar os astros.
Teu andar é trôpego.
Torto – sem destino.
És deserto de amor.
Um louco, como tantos.
Que por aí – habitam.

Argonautas

Argonautas somos – todos
Com gosto de fel na boca – loucos
Corremos contra – tempos
Contra tudo – tôlos
E vamos nessa Nau ensandecida
Tentando, buscando.
Cor de rosa a vida

Quebra-Cabeça

Incenso de sonhos as dores
Que o meu peito trespassam
Eu brinco com dissabores
Rememoro veleidades
Diante do espelho sorrio
Da vida de meias-verdades.

Eu vivo a vida aos pedaços
Da vida, não sou capacho!
E quanto mais eu me embrenho
Nesses estranhos atalhos
Mais desafio as dores
No quebra-cabeça – me acho!

Voam Palavras

Palavras no meu pensamento
Insistem, persistem, serpenteiam
Percorrem o meu corpo meio insone
Circulam junto ao sangue – me latejam
E voam pelo céu da minha boca
E saem pela minha voz tão rouca
E chegam as minhas mãos, tão sem traquejo
Gaguejo, tantas são
Tento então algumas repetir, refletir, repartir
Reconstruir, repensar
Repousar? Nem pensar…
E elas insistindo vão saindo
Caindo, brandindo, tinindo
Me sinto confusa, intrusa
Escrevo, descrevo, converso sem rima
Escrava-escrita.
Contrita, contraio, destraio-destino
Destruo, desterro, removo, recorro.
Socorro! Palavras voam pelo céu da minha boca!
Eu rezo e o verso nessa hora – silencia…

Um tento, um tempo

Um tento, um tempo
Um tanto quanto
Enquanto tento, em torno – torno
E no retorno, contorno o tempo
E de permeio a teia eu teço
Laçada a meia
E me sufoco

Brilho

De manhã quando aparece
O brilho do sol é tão lindo
Que montanhas agradecidas
Sempre o acolhem sorrindo

A mata ainda orvalhada
Nos dá a falsa impressão
De ser um manto de prata
Brilhando na imensidão

E pequenos diamantes
Espalhados pelo ar
É brilho de pirilampos
Faiscando sem parar

E o poeta inebriado
Por todo esse encantamento
Pensou que por um instante
Pisasse no firmamento

Prece do poeta morimbundo

Bendita sejas tu, ó poesia
Que meu caminho alumia
Quando estou em transe e dores
E jamais se distancia
Mais sejam os dissabores.

Eu te abençoo eternamente
És minha droga
Sentimento que sossobra
Minha eterna confidente.

E mesmo estranho eu silente
De palavras, gestos, risos
Transmuto se for preciso
Inferno em paraíso
E mais que viver eternizo
Meu jeito poeta de ser

Bendita sejas tu, ó poesia
És minha fé, meu sol abrangente
Quando estás, estou contente
Se arrefecem os meus ais
E se não for pedir muito
Quero que estejas comigo
Nos estertores finais

E assim sendo, alcançarei meu voo pleno
A paz encontrarei sereno
E finalmente rezarei além
Bendita sejas tu, ó poesia
Para sempre – amém!

Folhas tortas

Janelas minguantes
No quarto crescente
Ilusões já mortas
Semicerram portas
Nada mais espanta
Este ser descrente
Folhas retorcidas
Vidas já vividas
Marolam no chão
Ao sabor do vento
Dançando em vão
São ilusões já mortas
Essas folhas tortas.

O vento

O vento embala o tempo
E qual açoite – empurra nuvens
Acorda a noite, rompe o silêncio
Faz dançar cortinas – vira esquinas
Ganha estradas
E geme ao pé dos montes
Encrespa o mar, agita a areia – serpenteia
Bate portas e nem se importa
Se caminhos descaminham
Se quimeras se desmancham
Redemoinho insano
Onde passa, deixa rastros
E os sonhos viram pedaços
Desencontrados de vida…

Na boca da noite

Não me sabendo perto
A boca da noite abriu-se num bocejo
E lá dentro, olhe só o que vivi
Andei calçadas molhadas de sereno
Atravessei pequenos becos de saudade
Passei esquinas esquecidas pelo tempo
Andei quarteirões de sentimentos
E de vaidades que encontrava, me escondi
Olhei janelas que se abriam em sorrisos
Passei silente catedrais de pensamentos
Um firmamento de emoções presenciei
A lua branca intrigada – me fitava
A brisa morna para mim pôs-se à sorrir
A noite deu seu último bocejo
Nem percebera que eu estivera ali presente
O amanhecer devagarinho foi chegando
E a noite e eu, fomos dormir…

Sonho pedaço

Num barquinho de papel
Botei meu sonho-pedaço
Icei a saudade no mastro
Enfunei as esperanças

Por ondas-lembranças-levada
Essa estranha embarcação
Onde traçou rota o coração
O destino é o timoneiro

Um sorriso meio incerto
Foi-se abrindo
E o barquinho tão pequeno
Devagar foi se chegando
Naquele pedaço de sonho
Já quase despedaçando.

Inesquecível dia

(Para meu filho – Daniel)

Vou pela praia, caminho só
E ao mesmo tempo estou pleno
As gaivotas testemunham este momento
E o sol começa a elevar-se em preguiça
E de repente explode – cheio de malícia
Em cores matinais intraduzíveis
E olho apenas – olhar incréu –
Esses matizes
Como criança que recém-saiu do ventre
Eu sou infância, sem qualquer traço
Ou deslize
E o vento como num gesto tresloucado
Ante este amanhecer inesperado
Me bate as costas e me empurra ao acaso
Como a punir-me por me ver tão encantado
Eu até gosto deste gesto inesperado
Não sabe ele, enquanto me fustiga
Dos pensamentos meus, embaralhados
E que se espalham agora
Pela areia amanhecida…
…Me sinto leve – sou brisa
Menino, estrela, rei
E o que mais quiser – serei
Pra mim é tudo que importa
Neste tempo-nenhum que habitei
Testemunharam este dia – o vento, o mar, as gaivotas…