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João Roberto Gulino

Biografia:

Carioca de 1933, é aposentado. Iniciou-se tardiamente na poesia e a tem como ocupação primordial, junto com a pintura, o que considera da maior valia. Participante da sonhada ABRASSO – Academia Brasileira do Soneto, é antiquado no escrever e gosta de adicionar uma citação após a montagem de seus trabalhos para dar-lhes mais valia e corroborar os temas abordados – uma peculiaridade. Apesar do modernismo, prefere seguir a opinião de Monteiro Lobato – “A poesia não é retórica, nem eloqüência. É dor, dor estilizada, dor do amor, dor da saudade, dor da esperança, dor das ilusões perdidas, dor dos anseios vagos, dor da impotência, dor do inexprimível.” Além de participar de várias coletâneas editadas, em destaque para ARGILA e MOSAICO (publicações anuais desde 1997), fez para presentear amigos: ACRÓSTICOS (um presente dos filhos); DESPERTAR POÉTICO (um sonho); REFLEXÕES (poemas livres); RETALHOS (trovas, haicais e rubais); RETRATOS (novos acrósticos); RETICÊNCIAS (sonetos) e RECORTES (coletânea de máximas de diversos autores). Agora refaz O CONCEITO DO SONETO, um trabalho sobre a forma fixa e as peculiaridades da poesia tradicional, para orientar sobre a importância do soneto e a necessidade da rima e da métrica, englobando num trabalho anterior – agora ampliado – além do soneto, o haicai, a trova, o rubai, o ovillejo, a sextina e o pantum.

Trabalhos:

ALGUMAS TROVAS ALGUNS RUBAIS (a desconhecida trova persa)

O que se faz com carinho
é aroma que se espalha –
perfuma qualquer caminho
e vence qualquer batalha.

O poder da prepotência
é espuma que desmancha,
sem limpar a consciência
nem da alma tirar mancha.

O poder que é tentador
se transforma em anagrama,
fica podre em derredor
enquanto a alma vira lama.

Tem gente que leva a vida,
literalmente, na flauta,
mas sempre fica perdida
quando uma “nota” lhe falta.

Corrupção fato sabido
ser qual corpo de mulher:
sempre ficou escondido,
hoje mostra a quem quiser.

Tem gente tão orgulhosa,
inchada, cheia de si,
que fica muito vistosa,
igual um abacaxi.

Fala-se tanto mal do mês de agosto,
de seus maus fluidos, de azar, desgosto,
coisas que acontecem sem um aviso
em qualquer outro mês que fique exposto.

Para se manter sólida postura
dentro de nossa débil estrutura,
enfrentando os percalços desta vida,
há que se envergar maciça armadura

Como o flagelo que deixa uma guerra,
a dor que um puro coração encerra
num afeto ignorado e desprezado,
é todo um sentimento que se enterra.

Aurora surgindo pra que amanheça
e o dia esperançoso se conheça,
com todas as dúvidas e surpresas
e outras novas ilusões nos aqueça.

ASA DE RAUL DE LEONI A VIDA QUE PASSA

“ Ser poeta, não é só amar e cantar o amor, é, também, buscar interpretar os segredos da vida.” – Olavo Bilac, 1865 – 1918.

Quando o outono da vida se despede,
dando lugar ao frio da invernada,
conforta ver a réstia ensolarada
aclarar qual caminho se enverede.

Como estrela luzente nos concede
que, ante forte neblina dissipada,
descubra a rota sempre desviada
para encontrar a paz e ali se hospede.

Desprezando qualquer mera vaidade,
quando íntima mudança nos fustiga,
transformando alegria em humildade,

pelas portas que a flama surge amiga,
galgam-se os degraus da emotividade,
onde Raul de Leoni nos abriga.

“ Não tenho caminho novo; o que tenho de novo é o jeito de caminhar.” – Thiago de Mello.

No parapeito da existência debruçado
vejo passar toda uma vida corriqueira
que desprovida de valor, traz na algibeira
uma bandeira que carrego com cuidado.

Quanto mais vive-se, mais verga-se o cajado
que, sustentando, mal exibe a vida inteira
sem que saibamos de que modo ou que maneira
se conseguiu vencer o rumo vislumbrado.

E por aí a gente vai… pouco fazendo
em cada canto, mas deixando uma semente
que prolifera como fosse um dividendo.

É isso que eu creio, que devamos ter em mente,
para que possa nossa vida irmos vivendo
pelo prazer de se sentir, apenas, gente.

FRUGAL FESTIM IMPASSE

“ Oh, flores, o que vai de ontem a hoje – que eu ontem fui maravilha e hoje sombra do que fui não sou.” – Lope de Vega, poeta espanhol, 1562 – 1635).

Pelo mormaço de uma tarde quente,
irrompe aragem com fugaz perfume,
quando o ar espanta aquele forte ardume,
enquanto o ocaso se dispõe clemente.

Rapidamente chega a noite ausente,
imposição normal como é costume
ao dia, doando seu mordaz negrume
e banalmente, qual dossel ingente.

Assim é a vida no constante ocaso
quando, depois das luzes, tem-se enfim
crepusculares dias com descaso.

Qual mutação de flores dum jardim
que desprezadas no canteiro raso,
parecem restos de frugal festim.

“A constante gravidade outra coisa não é
senão a máscara da mediocridade.” – Voltaire, 1694 – 1778

Somos seres incógnitos sem rosto,
que ocupam sem noção, qualquer espaço,
andando num eterno descompasso
em estrada de chão, no rumo oposto.

Somos seres incógnitos sem posto,
que procuram na vida o melhor traço,
sem importarem com cada estilhaço
que deixa o machucado todo exposto.

Somos seres incógnitos sem rastos,
sem pegadas, sem cor, sem desenlace,
perdidos, caminhando em campos vastos.

Somos seres incógnitos no impasse,
por sempre se sentirem todos castos,
só esquecendo a máscara na face.

LENÇO SOLITÁRIO NA COXIA DA VIDA

“Quem morre não morreu, partiu primeiro somente.” – Camões

Quando surge a distância em nossa vida
separada por caminhos diferentes,
mesmo que sejam rumos conseqüentes,
fica a dor que será sempre sentida.

Quando a separação é despedida,
transforma-nos em seres impotentes
diante de pesares mais latentes,
que nos traz toda ausência da partida.

Quando escorre uma lágrima na face,
no calado lamento necessário,
é como para si mesmo falasse.

Quando se agita lenço solitário,
a imagem, para que não se enfumace,
prende-se ao coração qual relicário.

“Onde não há verdade não há poesia; o falso é sinônimo de feio.” – Manuel Cañete, 1822/1891

Só quando os olhos fecho vejo em sonho
verdes campos floridos qual miragem;
e seu perfume surge, doce aragem,
e para um outro mundo me transponho.

Só quando os olhos fecho, bem risonho,
tudo esqueço e me visto de coragem,
para não dissipar pura estiagem
do que a vida me faz assim tristonho.

Só quando os olhos fecho, é que passeio
por entre o mundo irreal da fantasia,
momento em que da vida tudo anseio.

Só quando os olhos fecho, da coxia
vejo da vida cada devaneio
tal como fosse pura cortesia.

RETRATO APAGADO REPENTE

“No doce tempo da primeira idade…“ – Francesco Petrarca, 1304/1374

É o tempo que retorna na lembrança –
no sorriso infantil do lábio puro,
de mãos dadas, trançadas pela dança
no envolvimento doce e prematuro.
É no frescor passante inda inseguro
daquela aragem que orna a juventude,
sabor de um enluarado claro-escuro
que nas noites de sonho tanto ilude.
É lágrima salgada da inquietude,
quando padece pela decepção
que na vida tropeça, estrada rude,
dum amargo sabor – separação!

Igual retrato que, mesmo apagado,
surge das profundezas do passado.

“Lembro-me até do que não quero e não consigo esquecer o que quero.“ – Cícero, 106 – 43 AC.

Se era errado o momento tão sublime,
que o tempo carregou, maldoso, embora,
sem adeus, sem sorriso, sem demora,
ficou o dissabor que tudo exprime.

Se era pecado, ao menos, bem redime
saber que sucumbiu antes da aurora,
para o ontem mascarar com ar de outrora,
sem que duma “mea-culpa” se aproxime.

Se era assim leviano, não valeu
a mágoa que ficou bem evidente,
ranço que nem o tempo dissolveu.

Se era imprudência, então, ficou patente
o momento fugaz em que teceu
as malhas do que foi puro repente.

SIMPLICIDADE UM APELO EXTREMO

“O selo da verdade é a simplicidade.” – H. Boerhaave

Não quero ser notado na aparência,
muito menos mostrar o que não tenho,
se na vida caprichos eu desdenho,
negando fantasias com prudência.

Notado quero ser na reticência,
sem alarde maior dos dons que abstenho,
preservando a postura com empenho,
se desejo da vida sua essência.

Quando se tem estrada percorrida
sem atalhos floridos no caminho,
há que se procurar uma guarida.

Mesmo que se caminhe sobre espinho,
apenas na postura comedida
tem-se o sabor do néctar e do vinho

“A paz começa, precisamente,
onde termina a ambição.“ – Edward Young, poeta inglês, 1683 – 1765

Lamentável que o mundo afugente um apelo
do poeta que clama um resíduo de paz,
entre a guerra maldita e o infortúnio que traz,
muito além do martírio em frontal pesadelo.

Mas tem sempre um conflito, apesar do desvelo
que pelo ar a flanar carregamos mordaz,
contra nossa vontade e sem força capaz
que de dentro se expurgue esse mal a varrê-lo.

Paz… eterna utopia entre os puro para reduzirs de ardor,
desprezada entre a força e vaidade do mundo,
mascarando a ganância enfeitada de amor.

 

Palestra proferida por João Roberto Gullino/Cadeira 16, em 15.08.08, no aniversário de Academia Brasileira de Poesia

O CONCEITO DO SONETO
ou o preconceito da métrica

Palestra proferida por João Roberto Gullino/Cadeira 16, em 15.08.08, no aniversário de Academia Brasileira de Poesia.

Entendo que a poesia pode ser dividida em dois segmentos distintos sem perda de sua identidade: a poesia livre, propriamente dita, sem qualquer compromisso com regras e normas e a poesia tradicional, secular, presa e algemada aos rigores da métrica e da rima. Nenhuma das duas pode sobrepujar a outra, apenas, uma questão de gosto, pois há que se considerar serem estilos totalmente diferentes, não só pela estrutura, mas, inclusive, pela maneira de desenvolver o tema abordado. Todos os estilos metrificados têm suas normas e suas características próprias, como o soneto (que externa um fato ou um sentimento), a trova (que transmite um pensamento), o haicai (que representa um instante fotográfico) e tantos outros estilos mais.

E vou falar sobre o valor e o conceito do soneto – este estilo de poema de quatorze versos divididos em dois quartetos e dois tercetos – e que não pretendo aqui explicar como se faz, ou melhor, como se monta um soneto – sim, porque ele tem que ser esculpido, burilado e lapidado, para se chegar ao fim desejado, como se faz com qualquer trabalho para se ter um bom resultado. E também não tenciono abordar sua origem tão controvertida – enquanto uns atribuem-na a Guido D´Arezzo, outros a Piero delle Vigne, a Girard de Bourneuil, a Brunetto Latini – e a quantos mais se puder pesquisar. Guilherme Figueiredo já era de opinião que, “por ser de origem incerta, o soneto serve para um centenário debate entre provençais e florentinos” e como afirmou J. G. de Araujo Jorge – “o importante não é saber quem o inventou mas sim, que ele existe e sobrevive até hoje.” Portanto, não entro nesta seara – apenas afirmo que, quem tenha sido seu criador, foi um iluminado.

Majô & Machado, em seu site na internet, definem bem a necessidade de se respeitar as regras tradicionais para se montar um soneto perfeito. Seu valor é comparado ao do vinho, essa bebida natural e original: se servido puro, é vinho; se misturado com água e açúcar, é refresco. Nada mais lógico e racional, já que, igualmente, também obedecemos às leis que nos são impostas para moldar nossa conduta.

Entretanto, mesmo sendo defensor dos rigores da métrica, temos que concordar com o poeta Paulo Camelo que, no seu site da internet, faz uma ressalva: “Em alguns poemas podemos encontrar – vez ou outra – um verso com uma sílaba a menos ou a mais. Produto da ação descuidada ou proposital do poeta – esse verso muitas vezes está ali cumprindo um papel de manter o ritmo do conjunto.”

Mas o soneto tem seu estilo e convenhamos – se a poesia livre é, realmente, livre, por que imprensá-la em dois quartetos e dois tercetos, submetendo-a a tal tortura e sacrifício? Esta prática nos faz questionar se não seria uma incoerência, como fez Augusto Frederico Schmidt no seu livro de Sonetos, quando pretendeu modernizá-lo com versos livres.

A realidade, entretanto, é que, disfarçadamente, alguns caem em tentação e se entregam nos braços do soneto e no afago da metrificação, mas somente na intimidade das alcovas, sem alarde, silenciosamente, escondidos, para não confessar sua fraqueza “pecaminosa”. Como cita Vasco de Castro Lima, muitos dos grandes adeptos da semana de ´22, capitularam, submergindo às tentações do soneto:- Menoti Del Picchia, Guilherme de Almeida, Jorge de Lima e tantos outros, inclusive Drummond, após a Semana de Arte Moderna, também pecou ao tentar reatar seu namoro com o soneto, como qualquer outro poeta, mas pelo que tudo indica, não se entenderam muito bem.

O poeta J. G. de Araujo Jorge, que tem uma tetralogia compilando sonetos de todas as partes da América, da Europa, da Ásia, da África e obviamente, do Brasil – “Os mais belos sonetos que o amor inspirou”, em sua introdução glorifica o estilo, que começa com um belo soneto de sua autoria, enaltecendo o próprio soneto que, na sua opinião, é “ a forma mais nobre, pelas suas linhas sóbrias e belas, a mais plebéia pela popularização”. Ei-lo :

Fino frasco de forma nobre e pura,
e, ao mesmo tempo, taça de cristal,
onde a vida, em beleza se emoldura
e vibra como um órgão musical.

Em transe, o poeta sempre te procura
para desabafar, sentimental,
seu pobre coração que se amargura
ou seu canto de amor, belo e triunfal!

Cabe em ti tudo quanto em nós palpita,
tudo quanto se sonha ou se concebe:
– a finita emoção, a alma infinita…

Vinho da uva da vida que se pisa,
– és, a um só tempo, a taça em que se bebe,
e o frasco em que a beleza se eterniza.

E na visão de Vasco de Castro Lima o soneto também é imorredouro: “Estimar o soneto não é parar no tempo! Conservar não é sinônimo de retroagir. Ser fiel à tradição não é contrariar o processo histórico da poesia, mas resguardar a sensibilidade, apoiar a arte. O soneto não tem idade! Os sete séculos que conta de existência, não pesam sobre sua vida maravilhosa. Parece que é mesmo definitivo. O mínimo que se pode dizer, é que se trata de um velho-moço de saúde invejável!”
Já o poeta contemporâneo Paulo Bomfim, de SP (eleito em ´91 como o príncipe dos poetas brasileiros), assim se expressou: – “Para muitos, o soneto é inibidor, mas eu acho que é a prova de fogo do poeta. Não considero o soneto o espartilho da poesia. Acho que o ritmo é a respiração do pensamento. O pensamento em cada momento respira diferente. E o soneto é o traje a rigor do pensamento – para certos momentos ele é exato, tão perfeito como um cantata de Bach.”

E o poeta Heli Menegale, falecido em ´82, pensava assim: “Que misteriosa forma poética é o soneto! Quando o supúnhamos morto e prestes a enterrar-se, ei-lo que revive com todos os seus atributos e exigências. E a sua resistência não vence apenas o aniquilamento: todas as tentativas feitas através dos séculos para distendê-lo, retraí-lo, ataviá-lo, pervertê-lo, desfigurá-lo, tudo tem sido em vão, porque o soneto de todas essas provas sai incólume, no seu molde petrarquiano.”

Otto Lara Rezende, escritor, falecido em ´93, era taxativo: “O soneto está em todas as literaturas e, desde o século XIII, resiste a todas as revoluções. Não há, a rigor, grande poeta que não tenha soneteado. O soneto é, a bem dizer, a carta de identidade de um poeta.” (…) “O movimento modernista, para oxigenar o provinciano e sufocante ambiente literário nacional, precisou saudavelmente mover campanha mortal contra o soneto. Como era de esperar, os resultados foram positivos: o soneto não morreu, mas ressurgiu renovado, e nem por isso menos popular.”

Nilo Ronchini, do Círculo Literário do Clube Naval, assim o define: “O soneto é a forma mais maravilhosa de uma composição poética. Expressar um sentimento, uma descrição, uma história, um mito, uma idéia em quatorze versos é, realmente, uma proeza do espírito humano. Esta concisão de vibrações, terminada com uma chave de ouro, só consegue fazer quem vê a vida por um prisma diferente, como diz Bilac: “Só por quem é capaz de ouvir e entender as estrelas.”

Em dezembro de 71, o Padre Jorge O´Grady de Paiva deu seu parecer numa palestra proferida em Natal/RN: “O que é o soneto, organicamente, assim construído, senão o poema que une a perfeição da forma à da idéia? De nenhuma outra composição mais se exige em perfeição – finura, elegância, sentimento, delicadeza – devendo conter o máximo no mínimo. Cabe ao sonetista sintetizar a inspiração e tudo dizer em poucos versos, bem expondo e melhor concluindo. Daí a dificuldade de fazer bons sonetos, pois a linguagem deve ser apurada, a rima primorosa, a exposição clara e a mensagem bela. Importa ao artista do soneto, esculpir as palavras.”

Noel Bergamini, pintor, poeta e trovador, vai um pouco mais além: “O soneto, queiram ou não, é indiscutivelmente, a base da poesia, a sua estrutura máxima, o seu alicerce ponderável e indestrutível, por ser imortal como as conquistas imperecíveis da ciência; quanto às leis imutáveis da Natureza; quanto o brilho solene dos astros e a beleza magnética das estrelas! Ninguém destrói as glórias do passado; os vultos que vivem na lembrança dos que prezam a cultura, exortam a sabedoria e sublimam a inteligência. Todos eles serviram, servem e servirão de exemplo a todas as gerações como fonte permanente de inspiração!”

E não podemos desprezar a definição do poeta Gonçalves Crespo lá do século 19: – “ O soneto pode ser, quando muito, um animal bravio que um bom domador, realmente poeta, pode perfeitamente domesticar. Basta que se tenha longa e íntima convivência com suas normas.”

Muitos, porém, ainda não se conscientizaram de que o soneto, com suas normas rígidas, tem por objetivo, mesmo camuflado, o de dificultar sua montagem como um perfeito quebra-cabeça. Um desafio como o de um alpinista que sempre procura o caminho mais difícil para chegar ao topo de uma montanha.

E tirando a mídia perniciosa que deturpa a verdadeira opinião individual, numa suposta opinião pública, a realidade comprova que o soneto está criando força junto aos admiradores da poesia, sem pretender, com isto, desvalorizar ou tirar o espaço da poesia livre ou até da modernista, mas retomar o seu próprio espaço ainda extremamente válido, importante e necessário, pois ele é eterno, dentro de seu estilo peculiar, sua forma diferente, sua estrutura única e seu conteúdo límpido como cristal, de fácil e imediata assimilação.

Para mim, poema que agrada é aquele que marca sua passagem por nossa leitura, que se grava na memória e que, volta e meia, é referência para nossas lembranças. E para contrariar os críticos, mostro alguns exemplos do seu valor na poesia, que nos enlevam, nos seduzem e para tanto, não recorro aos clássicos do passado, mas do presente, que são tantos, que selecionei alguns poetas já falecidos para aqui homenageá-los, como muitos que ainda existem em nossa Academia – titulares e membros correspondentes – que deixo de citá-los por total falta de tempo, mas todos atuantes na preservação do estilo, na defesa do belo.

Na poesia brasileira, tal como nas demais literaturas, como cita J. G. de Araujo Jorge, há poetas de obra relativamente desconhecida, que se imortalizaram apenas por um soneto. Estão neste caso, semelhante ao caso de Arvers, na França – Júlio Salusse com os “Cisnes”; Alceu Wamosy com “Duas Almas” e Da Costa e Silva, com “Saudade”. Outros não conseguiram tal feito, mas bem que o mereciam, como os mostrados a seguir :

De Vasco de Castro Lima, do Rio de Janeiro, falecido há poucos anos, antes de completar seu centenário – A ESTRADA DO SONHO :

Cada dia em que o sol se abre, risonho,
e desfralda o seu leque de esplendores,
eu saio pela Estrada Azul do Sonho,
pisando espinhos e plantando flores…

E vou contente. Nos meus passos, ponho
a luminosidade dos alvores.
Sigo a Estrada. E é sorrindo que a transponho
eu, o mais sonhador dos sonhadores…

Sim, quero ter, na noite da velhice,
o mesmo coração da meninice –
um ninho de alvoradas luminosas –

para ser, no jardim dos desenganos,
uma alegre roseira de cem anos,
ardendo em sonhos, florescendo em rosas!

De Atos Fernandes, de Itaperuna/RJ, falecido em ´79 – PEDINTES

O pobre pede pão. O nobre pede o trono.
O santo pede o altar, o crente pede a missa,
e quem das leis sociais sofre amargo abandono
ergue as mãos para o Céu, pedindo por justiça.

Quem ama pede amor. O insone pede o sono.
O mártir pede a cruz, e pede o herói a liça.
Pede o inverno o verão; a primavera o outono,
e o sábio pede a luz da verdade castiça!

Quem luta pede a paz. O enfermo pede a cura.
O verme pede a terra e a águia pede a altura,
e quem sofre a opressão pede a mão que o redima.

E o Poeta, também, seguindo a mesma norma,
é um mendigo a pedir a pureza da Forma,
a beleza da Idéia e a riqueza da Rima!
Falecido em ´81, nosso patrono Mário Rossi, marcou seu humor com o DIVINO ERRO:
Cansado de curtir o dia-a-dia
sem qualquer atração no Paraíso,
o Criador resolveu que era preciso
sair da fossa e da monotonia.

Com a argila celeste, de improviso,
compôs um alto estudo de estesia,
modelando a mulher que lhe surgia
com a graça e a malícia de um sorriso.

Previu que ali forjava a sua fama
mas, com o molde ainda inacabado,
sentiu-se exausto e se jogou na cama.

Foi seu erro… o sono foi funesto.
Mefisto, apologista do pecado,
aproveitou a chance… e fez o resto.

Da saudosa e querida acadêmica Aládia Pereira de Almeida, falecida em 2003 – SABOR DE VIDA:

Eu amo a vida pelo que é a vida,
pela razão mais simples de viver,
sem me importar se árida é a lida,
se há mais dias de dor que de prazer.

Eu amo a vida mesmo na incerteza,
do dia em que ela me abandonará;
sem pesar de deixar tanta beleza,
sem pensar, lá no Além, como será.

A vida é boa, é só saber vivê-la,
não desejar brilhar qual uma estrela,
nem também, como um verme se arrastar.

Saber chorar, se a dor nos atormenta,
sorrir, quando a alegria se apresenta,
compreender, esquecer e perdoar.

Do nosso acadêmico Farid Felix, falecido em 2004, que não tive a satisfação de conhecer – E DEUS DISSE AO POETA :

Ao poeta disse Deus: “Vai, peregrino,
e cumpre as tuas árduas caminhadas,
e canta e que teu canto seja um hino,
mas de esperança às almas desoladas.

Vai e canta com teu verbo cristalino,
sejam dias de sol, ou de nevadas,
que este é, na vida amarga, o teu destino:
florir de sonho todas as estradas”.

Apóstolo do sonho e da esperança,
o poeta partiu, em doce calma,
à mercê de borrascas e bonança.
E cantou, e ainda canta aos sóis dispersos,
toda a beleza que lhe brota n’ alma,
e jorra em cataratas dos seus versos.

De Roger Feraudy, amigo e mestre, falecido em 2006 – A GOTA D´ÁGUA :

Quando acordei já te encontrei segura
num galho embalançando, pequenina,
pareces gota d’água, clara e pura,
a lágrima do orvalho, adamantina.

De quedas já se faz tua estrutura,
pois mal nascestes o chão é tua sina;
fugaz, tremendo, oscilas insegura,
segundos de vivência matutina.

Encerras, gota d’água cristalina,
uma existência frágil, repentina,
inconsistente e breve, igual a mim.

Nasci também assim, débil, chorando,
vivi caindo, a custo levantando,
no mesmo chão que espera o nosso fim…

De Odete de Toledo, retirado do livro “Poemas dos Seres e das Coisas”, sem data mas com uma dedicatória de 1990 – SONETO DO AMOR PERDIDO :

Se o amor não despontou no teu caminho.,
estende as mãos e vive a hora que passa!
Não deixes de sorver o mel e o vinho,
por receio do fel no fundo da taça.

Não afaste a flor, temendo o espinho!
Acolhe a flama viva que te enlaça,
não lhe evites o brilho… No teu ninho,
o verdadeiro afeto é luz e graça.

E se o amor que te enleva um dia for
em coração alheio alvorecer,
na tumba da saudade vai depor

a flor do sonho teu, sem amargor.
Maior que a mágoa de perder um amor,
é a dor de não ter o que perder…

E agora, um soneto meu – SAUDADE:

Saudade, figura perdida na mente,
serena e crescente, de cena adornada,
passagem gravada e deixada bordada,
antiga lembrança, presença distante.

Figuras opacas que vemos na lente,
eternas imagens, memória calada,
migalha guardada no tempo e selada
no véu que se esconde, sutil, transparente.

Nas nuvens sustenta e repousa o que sonha,
que tanto conforta, seduz e que abraça,
na angústia que embala e se torna risonha.

Exala pequeno perfume – fumaça !
ocaso que surge de forma tristonha,
sorvendo o que resta no fundo da taça.

Portanto, tudo disse em prol do soneto e o que mais poderia complementar em sua defesa, seria o fato de ser um estilo de conteúdo sucinto, objetivo, de fácil compreensão e assimilação, além de todo enlevo, sentimento e beleza que lhe é peculiar, possuindo ainda a particularidade da chave de ouro – o fecho impactante do texto, quase sempre filosófico. E é desse rocal de quatorze voltas de contas preciosas que, às vezes, surgem como as pérolas, pela dor do sofrimento ou pela dor das ilusões perdidas, como disse Monteiro Lobato, que me proponho defender a pureza da métrica, com toda serenidade, prestando minha contribuição em prol do príncipe da poesia de todas as épocas.E termino este pronunciamento com um soneto montado especialmente para esta ocasião, fechando a palestra com “chave de ouro” e agradecendo a todos pela atenção e paciência de nos ouvirem :

Muito mais poderia me estender,
mas além de tornar-me cansativo,
o tempo que sempre é imperativo
não poderia espaço conceder.

Muito precisaria esclarecer,
falar de cada estilo alternativo,
dizer do positivo e do atrativo,
o que faria com todo prazer.

Mas, às vezes, palestra traz fadiga
mesmo para pessoa mais serena –
e a dúvida nos pesa, assalta, intriga.