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LITERATURA DE CORDEL

Acadêmico Joaquim Eloy Duarte dos Santos

Súmula da palestra do acadêmico titular da cadeira nº 24, patrono Joaquim Heleodoro Gomes dos Santos, na noite de 15 de outubro de 2009, na “Casa de Cláudio de Souza”.

É literatura o cordel? Os versos e cantares representam apenas manifestação literária ou folclórica regional? Como assimilar e assinalar a simbiose cordel-literatura? As origens históricas demonstram o quê? Existe uma base sólida para definição ou a forma, o ritmo, o conteúdo, a metrificação, por si só, definem cordel como poesia?
Tenhamos calma, sem açodamento. É, sim, o cordel, manifestação literária dentro do talento global que define o exercício do escrever; possui um conteúdo literário, poético, artístico. E assim é. Como fica sendo. E fundas são as raízes como literatura que o tempo respeita e imortaliza.
Narizes empinados de distanciamentos pessoais antigos, têm menosprezado o cordel, taxando-o no desdém de arte menor, poesia popular e por ai. No que mente a razão social. A poesia do cordel é poesia no seu estilo, concepção, apresentação, talento; literatura, por final.
Diante de tais considerações, para enobrecer a arte cordelista, deixemos de lado as rotulações porque de rótulo a humanidade se entope desde as refregas com os dinossauros. E ninguém sustente a bula inteligível de literatura popular ou arte popular, redundância das redundâncias. Tudo é popular porque do povo vem, que ele produz e sustenta, não importam adesivos explicativos, é povo e como tal vive e de tal forma morre.
Poesia popular, arte popular, música popular, tudo rótulos para apenas uma verdade: produção humana do vocábulo que a todos define: povo.
Desta forma, cordel é um estilo de manifestação poética dentro dos demais estilos. O povo que retira do chão áspero os cantares de esperança é povo como o virtuose do rico atritar ou dedilhar das cordas de um instrumento musical. Como exemplo.
“Vou contar pra vosmicês / um fato qu´assucedeu / se houver mentira sobrando / o mentiroso não fui eu… / Mas é lei da natureza / quem conta junta um sabor / o mais que a gente acrescenta / é tempero de cantador…” – canta o cordelista nas feiras, nas praças, nos palcos. De grande verdade. Afinal, a vida se desenrola sob os fatos, que forjam os temas das histórias que se apagam ou ficam na memória à disposição do futuro, que vem entrando na gente e tomando o lugar da nossa vida.
O cordel brasileiro promana da tradição ibérica dos cantares do romanceiro e agasalha origens brasileiras e africanas. O Nordeste é o solo, o cenário da descoberta pelo seu ambiente sócio-cultural, pelo jeito de ser e existir.
Começou oral através do cantador, criando uma obra feita, ora um repente, um improvisado ou duelo de trava-línguas.
Chega-se à perpetuidade, ao registro pelo veículo de maior empatia: o folheto impresso em papel vagabundo, em prensa manual apertada junto às panelas, no canto do barraco; ou menos rústico, com papel mais encorpado e saído de impressoras ranhetas de ferrugem; ou interpretado no arremedo do sotaque e do exagero de contrações faciais, nas ruas, sob cantorias, desafios, pelejas, sem que os contendores saiam para a briga física, mantendo-se no elevado desafiador de temperanças, alguns segurando peixeiras prontas para o corte das entranhas do desafiante. E sabem todos que a peixeira do cordel é a língua fina, o mote bem explorado, o desafio arrepiante da macheza.
O folhetinismo cordelista tem suas cânones em apresentação tradicional através dos romances e novelas, contos maravilhosos, estórias de animais, anti-heróis, metamorfoses, tradição religiosa e biografias. Os temas mais comuns são as circunstâncias ou acontecidos na natureza física, fatos de repercussão social, cidade e vida urbana, crítica e sátira e o elemento humano. Por fim, deitam-se os autores em sagas, que surgem ao sabor dos acontecimentos locais ou nacionais, tangendo cordas melodiosas esticadas nas praças, no enaltecer de figuras e acontecimentos como Getúlio Vargas, Antônio Conselheiro, Lampião, Padim Ciço, Antônio Silvino, Tancredo Neves, Carlos Magno e, sem dúvida alguma, é o ciclo do cangaço, por sua identidade social, o mais cantado no cordel. Afinal, o cordel é o jornal ou veículo do registro histórico e cultural dos tipos étnicos regionais.
A riquíssima produção literária do cordel tem saga e grande expressão nestes ciclos, que permanecem. Alguns deles: o heróico, romances épicos e trágicos, o fantástico, as gestas do cangaço, os heróis e anti-heróis; o messiânico, como o sebastianismo em Canudos, “Padim Ciço”, Frei Damião; o mitológico, com relatos das divindades gregas sob apego ao sobrenatural, que é constante na produção do cordel enriquecido pelo folclore brasileiro sempre presente por seus maravilhosos seres; o demonológico, com temas evangelizadores e missionários em luta contra os demônios e os seres maus e perversos do largo imaginário popular; o social, versando sobre a vida cotidiana, biografias de encômios; o político, com os fatos correntes da política nacional e, até, internacional; e os humorísticos, onde a verve nordestina extravasa sua riqueza e inteligência singular.
A Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro possui grupo de estudos do cordel e o mais importante acervo da produção que existe no país; seus pesquisadores têm classificado a obra global sob as temáticas básicas: herói humano, herói singular, herói casal, herói animal, herói sobrenatural, herói metamorfoseado, anti-heróis, boi e cavalo, miscelânea, lírica, guerra crônica, mitologia, reportagens de crimes, desastres, catástrofes, acontecimentos políticos, natureza, religiões, ética, sátira social, sátira econômica, humorismo, exaltação, moralizante, pelejas, ciclos, valentes, e por ai vai.
A literatura desses sertões de seca e fome, também é manifestada pela exibição artística, a cantoria sob acompanhamento de talentosos instrumentistas, como a embolada, a glosa, o martelo, o martelo agalopado, o martelo miudinho, o galope à beira-mar, a sextilha, o mourão, a oitava, a carretilha, o você cai, o dez pés lá vai, o gabinete, o soletrado, em exibições pessoais nas feiras e nas ruas ou em pelejas de desafio.
Os versos são apresentados sob 4 tipos: 5, 7, 10 e 11 silabas que podem ser em 2 redondilhas: a maior e a menor; utilizam o decassílabo de corte especial e o hendecassílabo de arte maior, caracterizados em verso em pé, grupo de versos e estrofe, a mais comum composição.
Carlos Drummond de Andrade amava o cordel. Combateu em crônica na imprensa (Jornal do Brasil, 21 de agosto de 1982) a definição de cordel mantida em importantes dicionários, que afirmavam “literatura popular de pouco merecimento”. Drummond diz: “O valor literário dessas criações já não se discute, como expressão do engenho, da sensibilidade e da imaginativa de um segmento da população que não teve acesso aos padrões convencionais da cultura livresca, mas que, ainda assim, revela os seus dons. Expressão “de cordel” não é mais pejorativa”.
Ainda Drummond, em outra crônica, falando da expansão além nordeste da Literatura de Cordel, afirma: “Os poetas populares, com toda a força, integraram-se na sociedade brasileira e passaram a ocupar espaço cultural nas grande cidades”.
Ariano Suassuna, com sua autoridade de pesquisador nordestino encontra as raízes da arte cordelista: “é uma espécie de ponte de ligação entre as tradições mediterrâneas e o povo brasileiro”.
O cordel, ninguém duvida, reflete a problemática social do homem nordestino e a observação do universo que o cerca. Essa afirmativa justa e correta, confesso que não sei de onde tirei ou se, quem sabe, veio da minha inspiração.
A manifestação autêntica corre, no Nordeste, por duas vertentes: a oral, com expoente em Chico Nunes das Alagoas, que criava os versos, enfrentava os repentes no improviso de raro talento, com alguns registros em apontamentos de admiradores e que o grande Mário Lago imortalizou em belíssimo livro; e a impressa, os chamados folhetos com capa em xilogravura, em tudo rústico, em papel ordinário, tipo manilha para embalagens, encadernados em dobraduras e pendurados em barbantes nas praças e esquinas sob apregoado dos autores. Eis, por ai, o cordel, de corda, cordão.
Afirma-se que o cordel é o jornal do Nordeste e que os folhetos são esperados como o jornal diário. Muita verdade. Com efeito os cordelistas ficam atentos aos noticiários e, de imediato, cantam em versos os acontecimentos. Nas roças distantes, onde a notícia demora ou nem chega, é o folheto de cordel que diz ao caboclo: morreu fulano e sicrano, mudou a política e etc-e-coisa-e-tal. E, no dizer bem adequado “o cordel é o best-seller do povo”, que não lê maçudos livros mas que devora aquela mágico agrupamento de estrofes com métricas e rimas perfeitas, no estilo da fala e na linguagem do povo de pouca alfabetização.
Tive o privilégio e a honra de trazer a Petrópolis o maior dos poetas cordelistas do País, o insuperável Rodolfo Coelho Cavalcanti, em palestra na Academia Petropolitana de Letras. Na tarde de 26 de abril de 1979, foi recebido na Universidade Católica de Petrópolis para realizar sua palestra no salão nobre, com grande comparecimento e entusiasmo. A Academia Petropolitana de Letras outorgou-lhe a honraria de Acadêmico Correspondente, fato que foi destacado nacionalmente.
Em nossa Academia de Poesia tivemos um acadêmico poeta cordelista titular, o notável e inspirado Elias Alves de Carvalho. Ocupou a cadeira nº 16, patrono o poeta Décio Duarte Ennes. O seu ingresso na Academia de Poesia ocorreu no dia 25 de maio de 1984 e foi um acontecimento nacional, mobilizando os cordelistas do País no abraço e no orgulho do reconhecimento da arte por uma instituição de letras.
No século XXI, com a globalização que encurta as distâncias e amplia os conhecimentos, que tem na comunicação instantânea a revelação verdadeira do conceito de criatura humana, que define o espaço único apenas dividido por rotulações e comportamentos políticos, a literatura de cordel continua sendo a demonstração mais forte da cultura nordestina, porém sob alguma sofisticação e editorada em maquinário industrial, ganhando as praças de todo o país e adeptos do Oiapoque ao Chui.
Porém, ainda existe a teimosia sertaneja da autenticidade e muitos ainda estão na fase do rústico talentoso.
Infelizmente, as políticas para o Nordeste estão criando uma preguiça no povo, diante das benesses a ele conferidas em pacotes e cestas, inibindo o trabalho, a criatividade, o desejo do autêntico e acenando para todos com as velhas promessas de sempre, agora corporificadas em um quilo de arroz, um de feijão, farinha e carne-seca, cestas básicas, salário isso e aquilo, não sendo os tostões mais conquistados com a cantoria e a venda do folheto, mas trazidos nos caminhões do governo sob embalagem eleitoreira.
E ai, o talento descansa a viola e a sanfona, deixa a balinha de hortelã de lubrificação da garganta, abandona a caneta esferográfica e fica na pachorra da novela das oito ou no computador das imagens e dos textos. O enxurro global penetra a epiderme regionalista, altera o seu DNA lúdico-realista de criatividade, enterra Lampião, Maria Bonita e Padim Ciço nas necrópoles mundiais dos obamas e putins, nesta globalização epitáfio da outrora ingenuidade-pretensiosa-reformadora-brilhante poesia sertaneja.

Poemetos
I
Nos casulos.
Que são casas
Esconderijos
De insetos
Verdadeiros.
II
Na rota o barco singra
Inóspitas águas turvas
Leva ao centro do oceano
Abissal humanidade.
III
O animal estertora
Abatido pela praga
Que é o homem, afinal
De coração empedrado.
IV
Nasci de um ovo
Feto sou na caminhada
Na busca de novo ninho