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LUÍS DE CAMÕES

Palestra proferida pelo acadêmico Gustavo Wider   sobre    Luís  de  Camões  em 12 de agosto de 2010, com a participação da acadêmica Carmen Felicetti, no Silogeu Petropolitano.

“Faz aproximadamente oito  anos que  fiz uma apresentação de Luís de Camões nessa mesma Academia de Poesia, então presidida pela acadêmica Edith Marlene de Barros.

Nessa oportunidade fui coadjuvado na leitura dos  textos  poéticos  pelos acadêmicos  Roberto  Francisco, Joaquim  Eloy,  Carmen Felicetti,  Sylvio Adalberto e também a Presidente Edith Marlene. Não me negarei ao gosto de dizer que aquela apresentação foi um  sucesso.

Hoje  farei uma reapresentação do mesmo grande Poeta,  porém  de forma mais  sucinta e mais  modesta, se bem que não menos apaixonada. Posto que no meu entender, Camões foi, de fato,  o pai da literatura em língua portuguesa.  Por certo que outros houve, antes dele, que escreveram em nosso idioma, mas nenhum que tenha deixado nome e influência  em nosso linguajar e literatura  como ele deixou.

Conta-se  que, quando esteve  preso em Lisboa na prisão do TRONCO,

lendo  as décadas  de  João de Barros, considerado o maior cronista e o mais consagrado poeta da  de então,   nele inspirara-se  Camões para escrever sua  famosa  obra “ OS Lusíadas” que é  a maior  epopéia jamais  escrita  em nosso  idioma, sendo  também  uma das maiores da literatura mundial.

Mas, quem  foi  João de Barros – o grande  poeta , o festejado cronista   da época ? João de Barros, o insigne  gramático do  reino, e depois, um dos donatários das  capitanias hereditárias  do Brasil, naqueles  idos de  1500 e tal . Quem de nós o  conhece? Quem  sabe dizer um verso seu , ou mesmo citar uma  obra sua? Mas  de “Os Lusíadas” , bem ou mal , todos  já ouviram falar; qualquer estudante  do  segundo grau  sabe  quem foi Camões , conhece  ao menos  um verso  seu, ou pelo menos sabe que ele existiu.  Quem já não ouviu antes esses versos de Bíblica inspiração ?

Raquel

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prémio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assi negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida;

Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: – Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida!

Não existem dados precisos sobre o dia  em que Camões teria  nascido, existe, porém, concordância entre os pesquisadores  camonianos de que o ano de  1524 seria o mais provável de  seu  nascimento.

Nem  mesmo sobre onde teria ele nascido existe unanimidade; uns dizem que em  Lisboa,  outros em  Coimbra, outros ainda em  Alenquer. Mas isso não tem importância nenhuma :  Nasceu em Portugal,  no ano de 1524 , o expoente  máximo da literatura em  nossa  língua  pátria. E todos  os grandes  mestres  que o sucederam nunca lhe  negaram esse mérito, ao  contrário, como já sobejamente vimos, não lhe poupam elogios e demonstração de irrestrita admiração.

Camões  foi oriundo de família de pequena  nobreza, porém  de grandes  dificuldades  financeiras.

Freqüentou,  desde cedo, a corte de   D.João III, onde , em  arroubos de paixão e poesia, caiu de  amores,  muito jovem  ainda, por uma dama comprometida da corte:                                          D.Catarina de Ataíde, esposa de   D.Antônio de  Ataíde,  ministro  conselheiro  do  Rei.

Sabe-se que a nobre dama, sigilosamente lhe correspondia aos juvenis arroubos, envolvida que  estava  pelos  poemas apaixonados que  o  poeta lhe fazia chegar às  mãos todos os  dias  através de seus lacaios.

Para ela compôs os mais gentis e delicados poemas de amor, mas vez por outra, jovem que era, perdia um pouco o natural recato e compunha para sua amada versos cheios de uma audaciosa   inquietude.

AMOR É FOGO QUE ARDE SEM SE VER Amor é fogo que arde sem se ver;É ferida que dói e não se sente;É um contentamento descontente;É dor que desatina sem doer; É um não querer mais que bem querer;É solitário andar por entre a gente;É nunca contentar-se de contente;É cuidar que se ganha em se perder; É querer estar preso por vontade;É servir a quem vence, o vencedor;É ter com quem nos mata lealdade. Mas como causar pode seu favor Nos corações humanos amizade,Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

O fato é que as intrigas  palacianas  lhe foram  hostis e implacáveis,tendo sido Camões,  mais do que uma vez,  obrigado a abandonar a corte  por  causa  delas, sendo que  a mais dolorosa  delas foi quando teve que embarcar e partir para longe depois de haver  ferido  à espada  um  de seus  lacaios. Provavelmente, tendo  por  motivo sua  paixão proibida. Corria o ano de  1547 e Camões  estava  com 23 anos de idade. Já alistado no  exército,  partia  para sua vida de lutas  e  aventuras. Ferido logo em  sua primeira  refrega no  Marrocos,  em conseqüência do que perdera  a vista  direita, o que não lhe  arrefeceu o temperamento bélico e  a   valentia.

Voltou, porém, à Pátria para cumprir mandado de prisão por um ano ainda pelo incidente com o  lacaio. E foi nesse  período de reclusão que, tomando contato com as obra de   João de Barros,  como ficou dito acima, deu início à sua obra máxima :                    “Os Lusíadas”, em que se propunha a contar os  feitos  dos portugueses em seus audaciosos  ímpetos  expansionistas.

Por essa época, quase 50 anos  após a chegada de Cabral ao Brasil, a colonização se  intensificava através da designação de Tomé de Sousa como o primeiro governador  geral  das  novas  terras . E os portugueses seguiam  ampliando seus domínios  por todo o longínquo oriente, desde o Marrocos aos confins da África;  a  Índia à China  e ao Japão.

Nisso, Camões tinha toda a razão em seu patriótico orgulho. Basta que nos detenhamos a considerar o ínfimo  tamanho de Portugal  em território e população, a distância a ser vencida  e, longuíssimos e ignotos  oceanos, o tipo de embarcação existente na ocasião daquelas  grandes  navegações, em face  disso, os povos que iam sendo dominados, em  cujos territórios  a bandeira lusa ia sendo  plantada, e não só  a bandeira lusa, como também sua  fé cristã e  seu próprio  idioma. Povos esses que formam grande parte dos paises da África da Ásia. Basta considerar que, por causa da expansão portuguesa, hoje em dia, o nosso idioma está entre os mais falados do  mundo. Pois, por todos os lugares por onde passavam os portugueses, assim como uma fada madrinha espalha  luz, os lusitanos espalhavam  cultura. Outros povos  houve na antiguidade que se propuseram  a dominar o mundo; eram também  navegadores excelentes e bravos guerreiros, como os  hunos , por exemplo, que descendo das altas estepes asiáticas, lançaram –se à conquista de toda a Europa acidental, chegando  quase a dominá-la por inteiro, quando  submeteram o próprio  Império  Romano, tão poderoso na época.

Isso aproximadamente uns duzentos anos antes da investida lusitana. A diferença entre esses  povos e o povo português é que , enquanto os primeiros  só tratavam de  destruir  e pilhar os povos  vencidos, os portugueses , após os submeterem á força, mesclavam-se com eles , aliciavam-nos, compunham os interesses, implantavam a fé, estabeleciam o comércio e, envolvendo-se  com  suas mulheres, estabeleciam laços conjugais, o que fazia essa dominação enraizada e duradoura.

Assim, modernamente, falam nosso idioma, ou dialetos originários dele, não só Portugal e Brasil, mas paises como Angola, Moçambique , São Tomé, Ilhas de Cabo Verde, e  alguns outros mais em  África e Ásia  como  Ceilão, Málaca e Macau.

Retornando  a  Camões,    falávamos que ele havia retornado a Portugal  para cumprir pena por haver  ferido um  lacaio a corte razão porque  fora encarcerado por um ano. E foi aí , nesse  período  e  nessas circunstâncias que ele deu início ao que  resultou em ser o maior e mais famosa epopéia  de nossa  língua, e que  se  compõe  de 1092 estrofes, 8.736 versos decassilábicos  de rígida formação  métrica e rítmica  Obra que lhe  levou

25 anos de trabalho, e embora haja sido iniciada nas  masmorras  de sua terra natal, a maior parte dessa monumental obra foi composta em Macau, na China, numa gruta  que hoje tem seu nome  e uma estátua sua à entrada.

Mas que , quando finalmente pronta e depositada em mãos  do Rei, esse houve por bem lhe conceder uma  pensão vitalícia de 15.000 réis ao ano  pelo muito que de  amor à pátria e  ao próprio reino evidenciava. Quantia que, embora escassa,  era só o de que dispunha para terminar seus dias.

É essa o único caso de que se tem notícia de um  poeta  que tenha conseguido aposentar-se  por  conta  de  poesia, ou melhor  de um único poema.

Camões  morreu  pobre,  doente  e abandonado  em  um hospital  em Lisboa  no ano de 1580. Tinha 56 anos de idade.

Deixava, além  de  “Os Lusíadas”, um sem números  de  sonetos  e outros poemas, além  de três  peças teatrais. Sabe-se que grande parte  de sua obra lhe  fora  roubada quando na prisão, entre  outros, um  volume  inteiro de poemas, a que dera  o título  Parnaso. Muitos outros de seus escritos perderam-se em  guerras  e naufrágios.

Mesmo assim, o que  lhe restou  foi suficiente para elevar seu nome  à imortalidade e a  fama de egrégio poeta,  um  dos maiores da língua portuguesa e  de toda  humanidade.

Sonetos seus há que  são  considerados  verdadeiras obras  primas, como o que escreveu  para  sua grande  paixão:

 ALMA MINHA GENTIL, QUE TE PARTISTE Alma minha gentil, que te partisteTão cedo desta vida, descontente,Repousa lá no Céu eternamenteE viva eu cá na terra sempre triste. Se lá no assento etéreo, onde subiste,Memória desta vida se consente,Não te esqueças daquele amor ardenteQue já nos olhos meus tão puro viste. E se vires que pode merecer-teAlguma cousa a dor que me ficouDa mágoa, sem remédio, de perder-te, Roga a Deus, que teus anos encurtou,Que tão cedo de cá me leve a ver-te,Quão cedo de meus olhos te levou.

Para conclui esse modesto trabalho em homenagem  a Camões

Gostaria de comentar  apenas que,  para fazê-lo,  fui levado a pesquisar tudo o que havia disponível  sobre o  assunto, tendo lido pelo menos 6 biografias do  grande poeta.

Mas  o fato  é que não encontrei concordância entre elas, nem em relação às datas , nem em relação às viagens, tampouco no que concerne aos amores de  Camões. Verdade é que a maior concordância havia sobre o fato de ter sido mesmo D. Catarina de Ataíde seu maior amor. Há  porém  quem se  refira a  u’a moça de nome  Natércia  como tendo sido seu maior amor. Há  relatos igualmente  sobre uma chinesinha de nome Dinamene  que ele trazia consigo e que morrera afogada  no naufrágio em que , segundo a  lenda, Camões salvara-se  a si  e ao manuscrito de “Os Lusíadas”, nadando com um só braço o trazendo acima das  águas.   Teria sido para ela e  não para   D. Catarina  que ele escrevera  o famoso soneto: “Alma minha  gentil que te partiste”.

Assim sendo, não há rigor  histórico no que  aqui  ficou  dito  em relação a Camões; algumas  datas podem não coincidir  com outros   relatos e alguns  fatos  podem ser  controversos. Mas a  genialidade  de  Luís de Camões,  nesse  que é certamente  o  seu  mais belo soneto, isso é incontroverso e incontestável.

BUSQUE AMOR NOVAS ARTES, NOVO ENGENHO Busque Amor novas artes, novo engenhoPera matar-me, e novas esquivanças,Que não pode tirar-me as esperanças,Que mal me tirará o que eu não tenho. Olhai de que esperanças me mantenho!Vede que perigosas seguranças!Que não temo contrastes nem mudanças,Andando em bravo mar, perdido o lenho. Mas, enquanto não pode haver desgostoOnde esperança falta, lá me escondeAmor um mal, que mata e não se vê, Que dias há que na alma me tem postoUm não sei quê, que nasce não sei onde,Vem não sei como e dói não sei porquê.”

Bibliografia:

Grande  Enciclopédia  Larousse Cultural

 Luís de Camões – Obra  completa, Editora Aguilar, organização, comentários  e  anotações  pelo  professor  Antônio Salgado Junior.

Palavras chave: Luis de Camões – Gustavo Wider – sonetos de Camões – Os Lusíadas