Menu fechado

MANUEL BANDEIRA, O POETA!

Quando me dispus a falar sobre Manuel Bandeira não pensei no cronista, ensaísta, crítico de artes e letras, tradutor e autor didático… mas sim no poeta lírico que tanto amo e que, dentre vários que admiro e venero, ocupa o primeiro lugar.

  O fato de ser ele meu poeta predileto não facilita em nada meu trabalho, antes, o dificulta. Como selecionar o que dizer se, para mim, tudo que se refere a seu fazer poético é importante?

  Pensei em não falar da vida, mas apenas da obra. Porém, toda a vida de Manuel B.andeira está como que refletida em sua poesia. Segundo Francisco de Assis Barbosa “talvez não exista, na literatura de língua portuguesa, exemplo maior de transposição para o plano artístico de uma experiência pessoal, com a mesma constância e igual intensidade, desde o primeiro poema de “Cinzas das Horas” ao derradeiro verso de “Estrela da Tarde”.”

  A tuberculose que acometeu o adolescente Manuel Bandeira, aos dezoito anos, provocou uma brusca ruptura em seu projeto de vida. Para arquiteto e não para poeta é que se preparava , instigado pelo pai, o engenheiro Souza Bandeira, que lhe incutira o gosto pelo desenho.

  A poesia que para ele, até então, era puro diletantismo, passou a ser encarada com mais seriedade por ser uma atividade compatível com o organismo debilitado. E assim, para preencher as horas vazias e livrar-se do ócio involuntário, começou a produzir poemas em que predominam o tom confessional e lamentoso de seu primeiro livro, “A Cinza das Horas”, publicado em 1917, treze anos após a descoberta de sua doença, descoberta essa que se deu em Petrópolis, na Fazenda Santo Antônio, em Itaipava, onde passava as férias. Depois de um passeio a cavalo voltou abatido e cansado e, à noite, despertou com hemoptises. Aliás, Manuel Bandeira  sempre afirmou sua ligação com Petrópolis. Ele abre o “Itinerário de Pasárgada”, livro autobiográfico em que conta sua trajetória pela poesia, com essa declaração: “Sou natural do Recife, mas na verdade nasci para a vida consciente em Petrópolis, pois de Petrópolis datam as minhas mais velhas reminiscências. Procurei fixá-las no poema “Infância” : uma corrida de ciclistas, um bambual debruçado no rio (imagino que era o fundo do Palácio de Cristal), o pátio do antigo Hotel Orleans, hoje Palace Hotel…Devia ter eu então uns três anos.”

Eis trecho do poema:  “Corrida de Ciclistas”

Só me recordo de um bambual debruçado no rio.

Três anos?

Foi em Petrópolis.

Procuro mais longe em minhas reminiscências.

Quem me dera me lembrar da teta negra de minh’ama-de-leite…

… Meus olhos não conseguem romper os ruços definitivos do tempo.

Ainda em Petrópolis…um pátio de hotel…brinquedos pelo chão…

Depois dessa digressão, voltemos ao seu primeiro livro, “A Cinza das Horas”, cuja edição foi custeada pelo próprio autor (trezentos mil réis) e teve uma tiragem de 200 exemplares.

É um livro que, esteticamente, está na última fase do Simbolismo pelo seu penumbrismo.

No poema que inaugura o livro vemos o pessimismo com que passou a encarar a vida:

                               EPÍGRAFE

Sou bem-nascido. Menino/Fui, como os demais, feliz./Depois veio o mau destino/E fez de mim o que quis.

Veio o mau gênio da vida,/Rompeu em meu coração,/ Levou tudo de vencida, /Rugiu como um furacão,

Turbou, partiu, abateu,/Queimou sem razão nem dó/-Ah, que dor! Magoado e só,/-Só! –meu coração ardeu:

Ardeu em gritos dementes/Na sua paixão sombria…/E dessas horas ardentes/Ficou esta cinza fria.

-Esta pouca cinza fria…

Essa visão pessimista, amarga mesmo, prevalece também em seu segundo livro, “Carnaval” e nele Manuel Bandeira explora seu erotismo sequestrado, realizando literariamente o que não podia realizar na vida real.

Como ex.,trechos do “Poemeto Erótico”:

“Teu corpo claro e perfeito,/ -Teu corpo de maravilha,/ Quero possuí-lo no leito/ Estreito da redondilha…

Teu corpo é tudo que cheira…/Rosa…flor de laranjeira…”

Foi publicado em 1919, em edição custeada pelo pai.

O próprio Bandeira declara que “Carnaval” é um livro sem unidade em que colocou muitos poemas que dormiam nos fundos de gaveta.

Nesse livro ele publica o poema “Os Sapos”, que nada tem de modernista pois é uma peça parnasiana em que ele satiriza os parnasianos. Por criticar os parnasianos, foi o poema muito bem visto pela geração paulista que iniciava a revolução modernista. Foi declamado por Ronald de Carvalho, na Semana de Arte Moderna, quatro anos depois de ter sido escrito. Talvez por isso Manuel Badeira tenha sido chamado por Mário de Andrade de “João Batista” do Modernismo.

Lerei algumas estrofes do conhecido poema:

                                                    OS  SAPOS

Enfunando os papos,/ Saem da penumbra,/ Aos pulos, os sapos./ A luz os deslumbra.

***

O sapo-tanoeiro,/ Parnasiano aguado,/ Diz:-“Meu cancioneiro/É bem martelado”.

Vede como primo/ Em comer os hiatos!/ Que arte! E nunca rimo/ Os termos cognatos.

 ***

Brada em um assomo/ O sapo-tanoeiro:/ -“A grande arte é como/ Lavor de joalheiro.

Ou bem de estatuário./ Tudo quanto é belo,/ Tudo quanto é vário,/ Canta no martelo”.

( alfinetada clara dirigida a Bilac na sua “Profissão de Fé” )

***

Longe dessa grita,/Lá onde mais densa/A noite infinita/ Verte a sombra imensa;

Lá, fugido ao mundo,/ Sem glória, sem fé,/ No perau profundo/ E solitário, é

Que soluças tu,/ Transido de frio,/ Sapo cururu/Da beira do rio…

(ele, logicamente…)

  O seu terceiro livro de poesia, “Ritmo Dissoluto”, foi publicado em1924, pela Revista da Língua Portuguesa, dirigida por Laudelino Freire.

  Segundo Antônio Olinto, nesse livro “já a poesia de Bandeira surge limpa de escolas, não literária, remansosamente perturbadora. O poeta adquirira uma voz própria, criara uma linguagem, abrira um caminho novo.”

  Aliás, seu título já expressa e assume uma nova poética em que o ritmo tradicional foi destruído. O próprio autor diz que esse é um livro de transição entre dois momentos de sua poesia. Mas admite que o verso verdadeiramente livre foi para ele uma conquista difícil, preso que estava ao hábito do ritmo metrificado, da construção redonda.

Segundo Bandeira  ele aprendeu mais com os maus poetas que com os bons, porque naqueles fica mais evidente o que se deve evitar. Embora reconheça que mesmo os bons cometem erros e encerra seu raciocínio com essa afirmação: “Há poemas perfeitos, não há poetas perfeitos.”

Manuel Bandeira revisou e reinventou formas consagradas como o soneto, o rondel, a balada, a cantiga, o madrigal…

De seu livro “Ritmo Dissoluto” apresentarei a “Balada de Santa Maria Egipcíaca” que é um poema todo em verso livre e a estrofação é determinada pelo ritmo emocional que substitui o ritmo lógico ( os modernistas passaram a fazer isso só a partir de 1940, e Bandeira já agia assim em 1924…). Nesse poema ele tomou da Balada o sentido e a reestruturou totalmente.

BALADA  DE  SANTA  MARIA  EGIPCÍACA

Santa Maria Egipcíaca seguia /Em peregrinação à terra do Senhor.

Caía o crepúsculo, e era como um triste sorriso de mártir…

Santa Maria Egipcíaca chegou/À beira de um grande rio./

Era tão longe a outra margem!/E estava junto à ribanceira,/

Num barco,/Um homem de olhar duro.

Santa Maria Egipcíaca rogou:/ -Leva-me à outra parte do rio./

Não tenho dinheiro. O Senhor te abençoe.

O homem duro fitou-a sem dó.

Caía o crepúsculo, e era como um triste sorriso de mártir…

-Não tenho dinheiro. O Senhor te abençoe./Leva-me à outra parte.

O homem duro escarneceu:- Não tens dinheiro,/

Mulher, mas tens teu corpo. Dá-me o teu corpo, e vou levar-te.

E  fez um gesto. E a santa sorriu,/ Na graça divina, ao gesto que ele fez.

Santa Maria Egipcíaca despiu/ O manto, e entregou ao barqueiro/

A santidade da sua nudez.

Seu próximo livro, “Libertinagem”, publicado em 1930 em edição de 500 exemplares, custeada pelo próprio poeta, B. atinge o clímax de sua obra.  Daí pra frente não avançou mais, formalmente. Continuou no planalto, sem decair. Mostrou que se faz poesia com prosa e que a poesia está em tudo!  Através de sua linguagem coloquial e irônica consegue atingir grande dramaticidade e despertar em nós as emoções mais profundas.

Talvez por isso Antonio Candido se refira a M.B. como “aquele poeta que consegue unir o que há de melhor no lirismo intimista e no registro do espetáculo da vida numa expressão poética ao mesmo tempo familiar e requintada, pitoresca e essencial, resultando daí uma simplicidade que em muitos modernistas parece afetada, e que nele é a própria marca da inspiração. “

Percebe-se, em alguns poemas, a intenção de fazer versos para o prosaico, e quotidiano, para o insignificante e costumeiro, mas ao mesmo tempo trágico de realidade do dia a dia como por ex. no

“POEMA  TIRADO  DE  UMA  NOTÍCIA DE JORNAL”

João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número / Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro/ Bebeu/ Cantou/ Dançou/ Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.

Desculpem-me a brincadeira, mas, como diria minha grande mestra Maria José da Trindade Negrão: “A poesia de Bandeira é muito churrasco pra pouca farofa!”. De seus livros, como ele mesmo admite, Libertinagem é o que está mais dentro da técnica e da estética do Modernismo. Aliás, no poema “Poética”, o eu lírico se confessa “farto do lirismo comedido/ do lirismo bem comportado” e conclui: “- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação”. O poema é todo em linguagem coloquial. É um manifesto da poesia modernista.

Desse livro  é o talvez mais famoso de seus poemas: “Vou-me Embora pra Pasárgada”. Segundo Bandeira, esse foi o poema de mais longa gestação em toda sua obra. Esse nome “Pasárgada”, que significa “campo dos persas” ou “tesouro dos persas”, ele viu pela primeira vez, aos dezesseis anos, num autor grego (de que não conseguiu lembrar o nome). Imaginou um lugar fantástico, de uma paisagem fabulosa ,num país de delícias. Mais de vinte anos depois, num momento de profunda angústia saltou-lhe do subconsciente esse grito: “Vou-me embora pra Pasárgada!”. Alguns anos depois, em idênticas circunstâncias de desalento e tédio, veio-lhe o mesmo desabafo e dessa vez, como ele mesmo declara: “ o poema saiu sem esforço, como se já estivesse pronto dentro de mim… Gosto desse poema porque vejo nele toda a minha vida… essa Pasárgada onde podemos viver pelo sonho o que a vida madrasta não nos quis dar”:

“VOU-ME  EMBORA  PRA  PASÁRGADA”

Vou-me embora pra Pasárgada/ Lá sou amigo do rei/ Lá tenho a mulher que eu quero/Na cama que escolherei/ Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada/ Aqui eu não sou feliz/Lá a existência é uma aventura/ De tal modo inconsequente/ Que Joana a Louca de Espanha/ Rainha e falsa demente/ Vem a ser contraparente/ Da nora que nunca tive

E como farei ginástica/Andarei de bicicleta/Montarei em burro brabo/ Subirei no pau-de-sebo/Tomarei banhos de mar!/ E quando estiver cansado/Deito na beira do rio/ Mando chamar a mãe-d’água/ Pra me contar as histórias/ que no tempo de eu menino/ Rosa vinha me contar/ Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo/ É outra civilização/ Tem um processo seguro/ De impedir a concepção/ Tem telefone automático/ Tem alcalóide à vontade/ Tem prostitutas bonitas/ Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste/ Mas triste de não ter jeito/ Quando de noite me der/ Vontade de me matar/ – Lá sou amigo do rei – /Terei a mulher que eu quero/ Na cama que escolherei/ Vou-me embora pra Pasárgada.

Entre os poemas magníficos de “Libertinagem” selecionamos mais um: “Profundamente”. É um poema muito emocional em que o momento presente puxa o passado e vice-versa.

“PROFUNDAMENTE”

Quando ontem adormeci/ Na noite de São João/ Havia alegria e rumor/ Estrondos de bombas luzes de Bengala/ Vozes cantigas e risos/ Ao pé das fogueiras acesas.

No meio da noite despertei/ Não ouvi mais vozes nem risos/ Apenas balões/ Passavam errantes/Silenciosamente/ Apenas de vez em quando/ O ruído de um bonde/ Cortava o silêncio/ Como um túnel./ Onde estavam os que há pouco/Dançavam/ Cantavam/ E riam/ Ao pé das fogueiras acesas?/ -Estavam todos dormindo/ Estavam todos deitados/ Dormindo/ Profundamente.

Quando eu tinha seis anos/ Não pude ver o fim da festa de São João/ Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo/ Minha avó/ Meu avô/ Totônio Rodrigues/ Tomásia/  Rosa/ Onde estão todos eles?

– Estão todos dormindo/ Estão todos deitados/ Dormindo/ Profundamente.

Os temas que movem a poesia de Bandeira são basicamente a infância, representando a época de felicidade a que anseia voltar; a doença, ou seja, a perspectiva da morte iminente; e o amor que ora se apresenta como sublimação, ora como ternura ou como sentimento profundamente erótico.

O amor e a morte como temas estiveram presentes desde o início de sua produção poética, mas o tema da infância só tomou vulto a partir de Ritmo Dissoluto.

No entanto, a morte é o fio que perpassa e liga todos os demais temas.

Cabe ressaltar que o “moribundo” a quem estavam reservados poucos anos de sobrevivência acabou sendo o longevo da família : quando tinha vinte anos, perdeu a mãe, D. Francelina; aos vinte e dois, morreu-lhe a irmã, Maria Cândida e, dois anos depois, o pai, Manuel Carneiro de Souza Bandeira. E ele acabou morrendo aos 82 anos… Quem sabe os desígnios de Deus?!…

Em 1935 sua saúde foi considerada estável e foi nomeado inspetor de ensino secundário pelo Ministro Gustavo Capanema.

Em 1936, Manuel Carneiro de Souza Bandeira Filho, nascido em Recife no dia 19 de abril de 1886, completou 50 anos e foi calorosamente homenageado pelos amigos escritores com a edição do livro “Homenagem a Manuel Bandeira”que teve 201 exemplares.

Ainda em 1936, com papel presenteado, é publicada a obra “Estrela da Manhã” com apenas 47exemplares (o papel não deu para mais) e só para subscritores. Os poemas são belos, na mesma linha de “Libertinagem”. Aparece aí o “Poema do Beco”, apenas um dístico que ele irá desenvolver mais tarde e que diz assim:

“Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?

– O que eu vejo é o beco.”

Em 1937 ele tem, pela 1ª vez lucro material coma poesia ao receber um prêmio de cinco contos de reis. Escreveu mais tarde: “Parece incrível, mas é  verdade: aos 51anos, nunca eu vira até aquela data tanto dinheiro em minha mão”.

No ano seguinte foi nomeado professor de Literatura do Colégio Pedro II.

Em  1940  foi  eleito para a Academia Brasileira de Letras.

 Ainda em 1940 publicou (edição do autor) “Poesias Completas” em que acrescentou poemas novos que chamou “Lira dos Cinquent’anos”.

Nesse livro se encontra o poema que, de toda sua obra, é meu preferido porque é um poema em que ele se reconcilia com a vida. É otimista e ele atinge a plenitude. É como se fizesse um balanço de tudo que viveu e concluísse que o saldo foi positivo : valeu a pena viver!

CANÇÃO  DO  VENTO  E  DA  MINHA  VIDA

O vento varria as folhas,/ O vento varria os frutos,/O vento varria as flores…/   E a minha vida ficava / Cada vez mais cheia/ De frutos, de flores, de folhas.

O vento varria as luzes,/ O vento varria as músicas,/ O vento varria os aromas/   E minha vida ficava/ Cada vez mais cheia / De aromas, de estrelas, de cânticos.

O vento varria os sonhos /E varria as amizades…/ O vento varria as mulheres…/   E a minha vida ficava/ Cada vez mais cheia/De afetos e de mulheres.

O vento varria os meses/ E varria teus sorrisos…/ O vento varria tudo!   /E a minha vida ficava/ Cada vez mais cheia/De tudo.

Na “Lira dos Cinquent’anos” ele desenvolveu o ‘Poema do Beco” que lhe ficara sufocado na garganta desde o livro anterior. Como ele mesmo declara : “Não faço poesia quando quero e sim quando ela, poesia, quer. E ela quer às vezes em horas impossíveis…”. E foi dentro de um bonde que ele rabiscou o belíssimo poema “Última Canção do Beco”, onde explicita o que não conseguira dizer da Rua Morais e Vale, na Lapa, onde vivera por nove anos e de onde iria se mudar. Neste poema ele mostra que descobriu num beco o símbolo da vida: “Beco… és como a vida, que é santa pesar de todas as quedas”.

Revisitemos o belo poema:

ÚLTIMA  CANÇÃO  DO  BECO

Beco que cantei num dístico/ Cheio de elipses mentais,/ Beco das minhas tristezas,/ Das minhas perplexidades/ (Mas também dos meus amores,/ Dos meus beijos, dos meus sonhos),/Adeus para nunca mais!

Vão demolir esta casa./ Mas meu quarto vai ficar,/ Não como forma imperfeita/ Neste mundo de aparências:/ Vai ficar na eternidade,/ Com seus livros, com seus quadros,/ Intacto, suspenso no ar!

Beco de sarças de fogo,/ De paixões sem amanhãs/ quanta luz mediterrânea/ No esplendor da adolescência/ Não recolheu nestas pedras/ O orvalho das madrugadas,/A pureza das manhãs!

Beco das minhas tristezas,/ Não me envergonhei de ti!/ Foste rua de mulheres?/ Todas são filhas de Deus!/ Dantes foram carmelitas…/E eras só de pobres quando/ Pobre, vim morar aqui.

Lapa – Lapa do Desterro -,/ Lapa que tanto pecais!/ (Mas quando bate seis horas, / Na primeira voz dos sinos,/ Como na voz que anunciava/ A conceição de Maria,/Que graças angelicais!)

Nossa Senhora do Carmo,/ De lá de cima do altar,/ Pede esmolas para os pobres,/ -Para mulheres tão tristes,/ Para mulheres tão negras,/Que vêm nas portas do templo/ De noite se agasalhar.

Beco que nasceste à sombra/ De paredes conventuais,/ És como a vida, que é santa/ Pesar de todas as quedas./ Por isso te amei constante/ E canto para dizer-te/ Adeus para nunca mais!

Ainda, do mesmo livro, o poema “Testamento” que é, na verdade, um resumo de sua vida. Nele Bandeira se diz um poeta menor porque era e sempre foi um lírico. Os considerados “poetas maiores”, como todos sabem, eram os poetas épicos.

TESTAMENTO

O que não tenho e desejo/ É que melhor me enriquece./ Tive uns dinheiros – perdi-os…/Tive amores – esqueci-os./ Mas no maior desespero/ Rezei: ganhei essa prece.

Vi terras da minha terra/ Por outras terras andei./ Mas o que ficou marcado/ No meu olhar fatigado,/ Foram terras que inventei.

Gosto muito de crianças:/Não tive um filho de meu./ Um filho!…Não foi e jeito…/Mas trago dentro do peito/ Meu filho que não nasceu.

Criou-me desde eu menino,/ Para arquiteto meu pai./ Foi-se-me um dia a saúde…/Fiz-me arquiteto?Não pude!/ Sou poeta menor, perdoai!

Não faço versos de guerra./ Não faço porque não sei./Mas num torpedo-suicida/ Darei de bom grado a vida/ Na luta em que não lutei!

Em 1943 deixou o Colégio Pedro II e foi nomeado prof. de Literatura Hispano- Americana na Faculdade Nacional de Filosofia. E aí seus alunos e colegas professores pediram a Bandeira que completasse o seu ciclo anual de aulas com um nome brasileiro, querido e admirado por todos: Manuel Bandeira – pelo próprio poeta.

Assim, segundo depoimento do Prof. J. Carlos Lisboa “Alastrou-se a notícia, a prática se tornou obrigatória e, desde então, pudemos encerrar os trabalhos de todo ano com aquela aula-lição, conversa-conferência, que nos dava direito a perguntas e interrupções, e que ficou sendo para todos nós, seus colegas, amigos e admiradores, o retrato – em imagem, em som, em alma, do poeta Manuel Bandeira, situado na altura da melhor poesia Sul Americana”.

Bandeira transformou essas aulas em memórias no livro “Itinerário de Pasárgada” e o fez por insistência dos amigos Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e João Condé. Esse é um livro único em nossa literatura e um documento precioso onde um grande poeta conta a história de seus versos.

Em 1948 publicou a 2ª edição de “Poesias Completas”, acrescida do livro “Belo-Belo”. Nesse há um poema contundente em que Bandeira expõe sua indignação diante da degradação a que a miséria pode levar um ser humano:

O  BICHO

Vi ontem um bicho/ Na imundície do pátio/ Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,/Não examinava nem cheirava:/ Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,/ Não era um gato,/ Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.

Só para registrar, também em 1948, João Cabral de Melo Neto, imprimiu em Barcelona o “Mafuá do Malungo” reunindo os versos de circunstância escritos por Manuel Bandeira, seu primo por parte de pai.

Em 1954 publicou o “Itinerário de Pasárgada” e no ano seguinte seu novo livro ,“Opus 10”, sai como acréscimo na nova edição das “Poesias Completas”.

Nessa obra há um poema em que vemos que ele já não encara a morte como a inimiga, a temível ameaça. Ele se mostra pronto e preparado para recebê-la:

CONSOADA

Quando a Indesejada das gentes chegar/ (Não sei se dura ou caroável),/ Talvez eu tenha medo./Talvez sorria, ou diga:

– Alô, iniludível!/ O meu dia foi bom, pode a noite descer./ ( A noite com seus sortilégios.)/ Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,/A mesa posta,/ Com cada coisa em seu lugar.

Em 1963 a Ed. José Olympio publicou “Estrela da Tarde”, seu último livro de poesias.

Em 19 de abril de 1966, Manuel Bandeira fez oitenta anos e recebeu inúmeras homenagens, dentre elas a publicação de um volume contendo toda sua obra poética, editada pela Ed. José Olympio, chamada “Estrela da Vida Inteira”. Em 13 de outubro de 1968, às 12:50h, faleceu  Manuel Bandeira, não de repente e em casa como desejava, mas no Hospital Samaritano, em Botafogo.

Com seu belo poema “Preparação para a Morte”, um dos últimos do seu último livro de poesias, Estrela da Tarde, encerraremos essa apresentação.

PREPARAÇÃO PARA  A MORTE

A vida é um milagre./ Cada flor,/Com sua forma, sua cor, seu aroma,/Cada flor é um milagre./ Cada pássaro,/ Com sua plumagem, seu voo, seu canto,/ Cada pássaro é um milagre./O espaço, infinito,/ O espaço é um milagre./ O tempo, infinito,/ O tempo é um milagre./ A memória é um milagre./ A consciência é um milagre./ Tudo é milagre/ Tudo, menos a morte./ -Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres.

BIBLIOGRAFIA:

-Manuel Bandeira – Poesia Completa e Prosa –Ed. Nova Aguilar (2009)

-Estrela da Vida Inteira – Ed. Nova Fronteira (1993)

-Manuel Bandeira, 1886 – 1986   (Coletânea) –UFRJ – Edições Antares (1986)

-Presença da Literatura Brasileira (Vol.III)- Antônio Candido e J. Aderaldo Castello  -Edição da Difusão Europeia do Livro (1964)

-Estudos de Literatura – Douglas Tufano – Ed. Moderna (1983)

– Itinerário de Pasárgada – Manuel Bandeira –Ed. Do Autor (1957)

– Introdução à Literatura no Brasil –Afrânio Coutinho – Ed. Civilização Brasileira (1976)