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Farid Félix

Biografia:

A SEU RESPEITO DISSE O POETA Hélio Chaves:”Ele é um foco cintilante de emoções líricas e guarda no sangue o vigor oriental da imaginação”. O poeta Petrarca Maranhão, grande admirador e amigo de Farid Félix, dizia que ele tinha a modéstia dos verdadeiros valores. Lacônico, reservado, distante… Ninguém dizia, a primeira vista, que alma de poeta se escondia no seu íntimo. Seus versos, sonoríssimos, não obedecem rigorosamente nem a escola parnasiana nem tampouco a temática simbolista. Ele é ele mesmo. Se sofreu alguma influência foi de Olavo Bilac, Raul de Leoni, Augusto dos Anjos, Camões e de Antônio Nobre, por quem era declaradamente apaixonado. Exemplo disso é o soneto Supremo Verbo, dedicado ao amigo Hélio Chaves:

No esplendor do teu verbo formidando,
trazes do amor a força e o sentimento,
o fulgor invulgar do pensamento,
a que se vão os mundos desvendando.

Nele, dir-se-ia o próprio céu rolando
entre clarões de fogo e encantamento:
e murmúrios de rio, doce e lento,
e fragores de mar espadanndo.

Vai, poeta, com teus cânticos frementes
cheios de auroras e de sóis poentes
e cheios de relâmpagos medonhos!

E arroja aos céus e à luz de sóis dispersos,
a irradiação sonora de teus versos
e as floradas ridentes dos teus sonhos!
Esse é um retrato vivo do Farid pintado por ele mesmo.

De ascendência libanesa, veio para Petrópolis em 1938. Natural de Miracema, RJ, nasceu no dia 28/08/10 e faleceu em 01 de fevereiro de 2004. Filho de Felipe Félix e Militina Souza Félix. Contador, aposentou-se como funcionário público. Foi membro efetivo da Sala Gabriela Mistral, da Academia Petropolitana de Letras e da Academia Brasileira de Poesia, Casa de Raul de Leoni. O escritor e poeta professor Joaquim Eloy Duarte dos Santos, nos lembra uma particularidade histórica envolvendo Farid Félix. Com o falecimento do poeta Francisco Carauta de Souza no ano de 1966, foi eleito Farid Félix, em 1967, para ocupar a cadeira número 8, na Academia Petropolitana de Letras, e foi empossado em 1968. Na presidência de José De Cusatis, no ano de 1985, Farid passou à categoria de Sócio Emérito, perdendo a cadeira para o então eleito Geraldo Ventura Dias, o autor do Hino de Petrópolis, empossado no mesmo ano. Ao falecer Ventura Dias no ano de 2000, a Diretoria resolveu reintegrar Farid Félix na titularidade da sua cadeira, para honra da Academia e felicidade do Farid.
O escritor e pesquisador Osmar Barbosa em sua Antologia da Língua Portuguesa,, organizada para a Editora Ediouro, classificou Farid Félix como neo-romântico. Provavelmente usou o termo para designar um poeta extremamente romântico numa época em que o romantismo estava em baixa. Seu livro de estréia LUA DO MEU RIO, de 1981, da Editora Pongetti, saudado efusivamente pelos amantes da boa poesia, com prefácio de Hélio Chaves, que destaca sobretudo seu lirismo., contém sonetos belíssimos, de conteúdo romântico, comparados pela crítica aos melhores do gênero em língua portuguesa. Em 87 lançou pela Editora Pirilampo, do professor Paulo César dos Santos, o livro NÓS E O TEMPO, com prefácio do poeta Mário Fonseca, que o considerou na ocasião o melhor sonetista vivo do Brasil, onde além de sonetos de bela feitura nos brindou com poemas modernos de variados ritmos. Farid considerava seu grande equívoco literário os poemas em versos livre que produziu, já que os considerava de duvidosa qualidade. Nas décadas de oitenta, fundamos na cidade, junto com onze amigos, a CONFRARIA ARTE E AMIZADE, cujo objetivo principal era falar sobre literatura, principalmente a literatura produzida na cidade. E como falávamos! Diga-se, a bem da verdade, que começamos falando mal dos nossos próprios escritos. Mas Farid jamais teceu um comentário crítico ou deselegante a respeito do trabalho alheio. Só falava mal daquilo que ele escrevia, apesar de se divertir muito com nossos comentários e críticas. Um belo dia, ele nos deixou bastante constrangidos, quando propôs que o tema da reunião fosse um poema do Mário Quintana, de quem gostava muito. Ele levou e apresentou o tema. Prestem atenção: DO BELO: Nada, no mundo é, por si mesmo, feio. / Inda a mais vil mulher, inda o mais triste poema, / Palpita sempre neles o divino anseio / Da beleza suprema… Juro que aprendemos a lição!
Um dos aspectos marcantes desse adorável ser humano era seu constante bom humor. Sempre disponível, quer fosse para um chope ameno ou para falar de seus poemas e poetas favoritos. Se o papo fosse em torno de Olavo Bilac, por quem tinha verdadeira adoração, a empolgação não tinha limites. Demonstrava sempre um carinho especial por quem escrevia poesia, não se importando muito com a qualidade, porque creditava, com sinceridade, que o tempo e a persistência acabariam fazendo uma das duas coisas: ou o candidato a poeta desistiria ao perceber que não tinha talento, ou, na melhor das hipóteses, acabaria aprendendo. Por isso tinha sempre uma palavra de incentivo e de carinho para os iniciantes. Para lembrar seu amor pelos poetas, vamos lembrar os tercetos finais do soneto E DEUS DISSE AO POETA, = Apóstolo do sonho e da esperança / o poeta partiu em doce calma, /a mercê de borrascas e bonança. / E cantou, e ainda canta aos sóis dispersos, / toda a beleza que lhe brota nalma, / e jorra em catarata dos seus versos. Apenas para ilustrar, aqui vão algumas sutilezas do jeito d Farid: O consolo do careca / por incrível que pareça / é ter no rosto o cabelo / que não teve na cabeça. – A procura de Maria / corri o mundo sem fim / achei Maria de todos / menos Maria de mim.
Victor Hugo escreveu que fazer versos é muito fácil ou totalmente impossível! Só os espíritos privilegiados conseguem fazer belos poemas. Poeta de cunho intimista, Farid Félix foi um desses privilegiados. Entre os poetas que Farid mais admirava estava Olavo Bilac, a quem considerava o melhor de todos, mas gostava também de Vicente de Carvalho, Humberto de Campos, Raimundo Corrêa e Hélio Chaves, por quem nutria especial amizade. Carlos Alberto Prato, poeta argentino, meio doido (no bom sentido, claro!), que viveu em Petrópolis nos anos oitenta, e que era grande admirador de Farid, deixou em tríptico dedicado a Dante Milano este pensamento maravilhoso, que se encaixa como uma luva, quando falamos de farid Félix: Porque o poetavive quando o lemos / e com suas emoções o recriamos / e morremos um pouco se o esquecemos / mas nos damos a vida se o lembramos. Que beleza! Assim, para falar de um poeta, nada melhor do que falar de seus poemas. Como no soneto que se segue, um dos seus favoritos:

Trabalhos:

VIDA

Vida, profundo e imenso labirinto
em que ditoso, o meu ideal buscando,
cheio de sonhos, de emoções faminto,
entrei um dia, o coração cantando.

Como Teseu, herói de um tempo extinto,
não tive do novelo o fio brando,
que me guiasse pelo teu recinto
de enganos e mistérios formidando.

E ora me interiorizo e me concentro,
no quanto me quisera e não tivera,
nesse doido vagar por ti adentro,

e sinto, nos teus vórtices medonhos,
que, sem de Ariadne, o fio, eu me perdera
no labirinto dos meus próprios sonhos.

PAPAI NOEL

Papai Noel, eu era inda criança
e a te esperar me punha nesses dias,
tomado da mais dúlcida esperança
de que um lindo brinquedo me trarias.

Como nem tudo que se quer se alcança,
pelo Natal chegavas e partias,
e de mim, alma ingenuamente mansa,
nunca, Papai Noel, te apercebias.

Ah! Como o tempo o passa… Menininho,
eu punha na janela meus tamancos,
que eu não tinha sequer, um sapatinho.

Ainda hoje, como antes, eu me quedo,
a te esperar, cabelos todos brancos
na ilusão de que tragas meu brinquedo.

O livro LUA DO MEU RIO, em estruturação poética e equilíbrio estético está entre o que de melhor já foi produzido em Petrópolis em termos literários. É importante que se destaque na obra de farid o cuidado artesanal dos seus poemas e a ternura com que tratava os elementos básicos de sua poesia. No soneto Ela, Farid se embatucou no último terceto. Segundo o próprio poeta ele demorou m ais de dez anos para encontrar a chave de ouro que imaginava para encerrar o soneto. O final do soneto ficou assim: e ela passa… Inflexivelmente fria, / mas tão linda no seu fulgor, que ensombra / a própria luz do sol, que a acaricia. / E, assim, ela não vê, abstraída e bela, / que é minha alma, e não a sua sombra, / a sombra que a seus pés se vai com ela!
Em Farid, emas como o amor, a saudade, cenas do cotidiano, a mulher amada e a cidade natal ganham dimensões inesperadas e um novo colorido, impregnados da mágica arte de um poeta que queria fosse esse seu último soneto:

PETRÓPOLIS

Moço ainda busquei tuas paragens,
olhos escancarados à beleza
de teus rios e ao verde das folhagens,
com que te engalanou a natureza.

Encantado de tua realeza
e de tuas edênicas paisagens,
louvei em ti, de Deus toda a beleza
a mais bela de todas as miragens.

Aqui, planos tracei, ergui castelos,
Estruturei o meu primeiro verso
e engrinaldei de neve os meus cabelos.

E o meu fervor por ti chegou ao cúmulo:
Se ao nascer, te não tive por meu berço,
que ao menos eu te tenha por meu túmulo.

Os restos mortais de Farid Félix estão sepultados em Petrópolis, onde faleceu em fevereiro de 2004.