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O Sobrevivente

Carlos Drumond de Andrade

 

Impossível compor um poema a essa altura da evolução da humanidade.

Impossível escrever um poema – uma linha que seja – de verdadeira poesia.

O último trovador morreu em 1914.

Tinha um nome de que ninguém se lembra mais.

 

Há máquinas terrivelmente complicadas para as necessidades mais simples.

Se quer fumar um charuto aperte um botão.

Paletós abotoam-se por eletricidade.

Amor se faz pelo sem-fio.

Não precisa estômago para a digestão.

 

Um sábio declarou a O Jornal que ainda falta muito para atingirmos um nível razoável de cultura.

Mas até lá, felizmente, estarei morto.

 

Os homens não melhoraram

E matam-se como percevejos.

Os percevejos heróicos renascem.

Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado.

E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo dilúvio.

Desconfio que escrevi um poema.

 

“SOBREVIVENTE” está estruturado em quatro estrofes, contendo diferentes formas discursivas que encaminham o leitor a uma compreensão crítica da realidade objetiva.

O autor inicia seu poema num tom grandiloqüente de discurso, com uma negação que aparece enfatizada pelo uso da anáfora. Nós, leitores, somos despertados nos dois primeiros versos, para os questionamentos: do que seja a verdadeira poesia e do sentimento do autor quanto à evolução da humanidade.

O terceiro verso “O último trovador morreu em 1914.”, mesma data da deflagração da Primeira Guerra Mundial, remete-nos à morte de um fazer poético e, a partir daí, instaura-se a necessidade da arte para um novo padrão estético, que vai se descortinando ao longo do poema.

Na segunda estrofe, o que percebemos é a constatação de uma realidade mecanicista no mundo: “Há máquinas terrivelmente complicadas para as necessidades mais simples.”. As hipérboles presentes em todos os versos dessa estrofe, ao mesmo tempo que criam um tom de humor e ironia, denunciam a posição crítica do autor em relação ao avanço tecnológico.

Já na terceira estrofe, encontramos um discurso desalinhado dos demais. Ele não se assemelha ao todo do poema e lembra-nos uma colagem jornalística: “Um sábio declarou a O Jornal que ainda falta muito para atingirmos um nível razoável de cultura.”. O autor, com o emprego da função referencial, demonstra que ele não somente se mantém à parte do processo da ‘evolução da humanidade’, como também não compactua com ele pois, até lá, felizmente, estará morto.

Os cinco primeiros versos da quarta estrofe não deixam dúvida de que o poeta sente aversão ao avanço tecnológico e está descrente em relação à humanidade.

O uso de “percevejos”, de valor negativo, ao lado de “heróicos”, de valor positivo, compõe uma antítese que reforça semanticamente a ironia. O verso “Se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo dilúvio” intensifica, com o emprego da hipérbole, a descrença do autor na humanização do homem moderno. O mesmo ocorre com “inabitável” e “mais habitado”. Podemos perceber, portanto, que à medida que o homem se desenvolve tecnologicamente, a sociedade barbariza-se. Como vimos, toda essa realidade exposta ao longo dos versos, serviu de suporte para Drumond produzir o seu ato estético: “Desconfio que escrevi um poema.”.

Portanto, “SOBREVIVENTE” é uma conclamação ao engajamento do poeta no seu momento histórico, político e social. O autor, através da morte do trovador, nega uma arte tipificada pela sensibilização e, na figura do sobrevivente, afirma o papel da verdadeira poesia da contemporaneidade que é o de constatação, denúncia da vivência trágica do ser oriunda da dor de existir.