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Pobre velha música

POBRE VELHA MÚSICA  _  Fernando Pessoa

 

“Pobre velha música!

Não sei por que agrado,

Enche-se de lágrimas

Meu olhar parado.

 

Recordo ouvir-te.

Não sei se te ouvi

Nessa minha infância

Que me lembra em ti.

 

Com que ânsia tão raiva

Quero aquele outrora!

E eu era feliz? Não sei;

Fui-o outrora agora.

 

Ao ler  Pobre Velha Música, sentimos um estranhamento que só é possível normal num texto literário. Considerando ser o estranhamento uma das categorias estéticas, o poema de Pessoa oferece ao leitor um nível de questionamento a exigir acurada percepção crítica.

O poeta emprega a função emotiva da linguagem, onde o tempo cronológico cede lugar a um tempo psicológico, em que o passado e o presente se fundem.

O tempo é abordado através de uma percepção sensorial e de uma percepção cognitiva. Podemos observar que, nos 5 primeiros versos, os verbos estão empregados no presente e, a partir daí, há uma mistura dos tempos verbais que evidencia o desdobramento de um conflito que representa a antítese temporal: o passado, que se apresenta através da memória de Fernando e o presente, que é contaminado pela sua própria emoção.  Há a radicalização da razão em conflito entre o que ele viveu antes e o que ele vive agora.

“Com que ânsia tão raiva”_  O emprego do vocábulo raiva nesse verso configura a intensidade dramática, centrada na experiência entre o ser do poeta e o tempo.

“E eu era feliz? Não sei;”_  Ele nem sabe se era feliz e nem diz se era  porque quer evidenciar que felicidade é algo abstrato,  subjetivo.

“Fui-o outrora agora “ _ esse último verso aponta para a total falta de clareza. Não é uma estrutura comunicativa, linguística ou  gramatical. O verso parece desconexo, mas podemos inferir que há um sentido dentro do contexto do poema _ de que ele  foi feliz no passado e agora, ao revivê-lo no presente, sente-se feliz, ou melhor, ele não é feliz no presente, a felicidade existe na presentificação do passado.

A música, a interlocutora do poeta, não é música , mas uma investigação do tempo, não no plano cronológico, e sim no plano da existencialidade humana.

Este poema revela, portanto, o esforço de um ser tocado pelo desvendamento de sua subjetividade. Ao perceber-se senhor de sua temporalidade, afirma-se como o único responsável perante a construção de sua história. Este último verso_ o desfecho do poema _ baseando-se em uma construção que transgride o código sintático-semântico, na verdade, é uma estrutura que não pode ser reduzida a um plano de mensagem no qual os seus termos possam comunicar o que, separadamente, significariam. O verso só vale como um todo, isto é, dentro do poema.

Sendo assim, não se  trata de um passado, de um presente ou de um futuro, mas da simbiose de todos esses tempos a revelar o estado de verdade do ser perante si mesmo.