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POESIA MARGINAL

Por que alguns poetas foram chamados de malditos? Por que a poesia de uma geração foi rotulada de marginal? Quem imortaliza o poeta?

Charles Baudelaire, Paul Verlaine, Arthur Rimbaud, Stephane Malarmé, Gregório de Matos são alguns autores que foram considerados malditos, mas hoje são reconhecidos internacionalmente. No Brasil, o termo “Poesia Marginal” foi usado para caracterizar o trabalho poético que se propagou de maneira irreverente na década de 70, período que havia censura prévia. Poetas que, na época, não se submetiam às exigências impostas ou não atendiam aos interesses das editoras, passaram a imprimir seus próprios poemas. E por essa razão, ficaram conhecidos como poetas da “Geração Mimeógrafo”, uma vez que confeccionavam seus livros de forma artesanal em mimeógrafos.

E como a produção era independente, sem a intervenção de editores e sem espaço nas estantes das livrarias, o próprio autor conduzia a sua poesia até ao leitor: escrevia os poemas, datilografava-os, geralmente em máquinas de escrever portáteis, elaborava a capa, rodava os originais em mimeógrafos, encadernava e saía ao encontro dos leitores…

Nunca tive vergonha de ir às ruas como camelô dos meus próprios versos, pelo contrário, havia certo orgulho de estar com um produto que eu considerava cultural. Saía de casa ciente e consciente de que não estava fazendo nada ilícito e com o ideal juvenil de que, mesmo no anonimato, estava contribuindo, de alguma forma, para o bem do meu País. Muitos jovens trilharam por esse árduo caminho movido pela poesia, motivados mais pela luta do reconhecimento do seu trabalho do que pela esperança de ganhar dinheiro: – eu gostaria de publicar outro livro, por isso estou vendendo este…

Um dos momentos inesquecíveis nessa peregrinação, ocorreu quando um rapaz, na Tijuca (RJ), comprou o meu livro e me disse: “cara, eu não gosto de ler poesia, mas eu só  comprei o teu livro, porque eu nunca vi um livro com o autor. Na escola, só me mandavam ler livro de autores mortos…”

E nas andanças de bar, em praças, em filas, tive conhecimento das produções cooperadas. Um grupo de poetas se reunia com o objetivo de um ajudar o outro a ter um livro com um melhor acabamento gráfico. Fui convidado algumas vezes para fazer parte dessas antologias, mas nunca quis participar: alguém ao assumir o trabalho de editoração, reunia um grupo de pessoas que pretendiam ver o seu trabalho publicado. E por esse razão, pagavam e pagam para ver os seus poemas em um livro. Tais livros eram vendidos ou distribuídos entre parente e amigos pelos próprios participantes. Raramente se encontrava um desses trabalhos em livrarias.

Uma antologia marcou a história do que se convencionou chamar de Poesia Marginal no Brasil, a que foi organizada pela professora Heloisa Buarque de Hollanda, com o título de “26 poetas hoje”, elaborado na Compositora Helvética Ltda, impresso pela Editora Vozes, em Petrópolis, em abril de 1976, para Editorial Labor do Brasil S.A. Nela encontram-se poemas de: Adauto de Souza Santos, Afonso Henrique Neto, Ana Cristina César, Antonio Carlos de Brito (Cacaso), Antonio Carlos Secchin, Bernardo Vilhena, Capinan, Carlos Saldanha (Zuca Sardan), Chacal, Charles, Eudoro Augusto, Flávio Aguiar, Francisco Alvim, Geraldo Eduardo Carneiro, Isabel Câmara, João Carlos Pádua, Leila Miccolis, Leomar Fróes, Luiz Olavo Fontes, Ricardo G. Ramos, Roberto Piva, Roberto Schwarz, Torquato Neto, Vera Pedrosa, Waly Sailormoon, Zulmira Ribeiro Tavares.

No prefácio, a professora Heloisa Buarque de Hollanda, que lecionava na Faculdade de Letras e na Faculdade de comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), escreveu:

“Frente ao bloqueio sistemático das editoras, um circuito paralelo de produção e distribuição independente vai se formando e conquistando um público jovem que não se confunde com o antigo leitor de poesia. Planejadas ou realizadas em colaboração direta com o autor, as edições apresentam uma face charmosa, afetiva e, portanto particularmente funcional. Por outro lado, a participação do autor nas diversas etapas da produção e distribuição do livro determina, sem dúvida, um produto gráfico integrado, de imagem pessoalizada, o que sugere e ativa uma situação mais próxima do diálogo do que a oferecida comumente na relação de compra e venda, tal como se realiza no âmbito editorial. A esse propósito, convém lembrar a tão frequente presença do autor no ato da venda o que de certa forma recupera para a literatura o sentido de relação humana. A presença de uma linguagem informal, à primeira vista fácil, leve e engraçada e que fala da experiência vivida contribui ainda para encurtar a distância que separa o poeta e o leitor. Este, por sua vez, não se sente mais oprimido pela obrigação de ser um entendido para se aproximar da poesia.”

Muitos poetas que foram considerados “marginais” hoje estão com seus poemas publicados por editoras convencionais que comercializam, em coletâneas, livros que foram, a princípio, considerados independentes: Chacal publicou, pela Cosacnaify, “Belvedere”, que reúne poemas de 1971 a 2007. Acompanha esse livro, um fac-similar de Quampérius, 1977. A Companhia das Letras publicou toda poesia de Paulo Leminski em um só volume, reunindo poemas de 1976 a 2001. Este teve as primeiras edições esgotadas, esteve entre os mais vendidos do País no período de lançamento. A Nova Fronteira publicou “Poemas Reunidos Geraldo Carneiro”, com apoio da Fundação Biblioteca Nacional, reunindo poemas de 1972 a 2006. Na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) de 2013, a Cosac Naify lançou “Ximerix” de Zuca Sardan (Carlos Saldanha) em um formato semelhante aos livros publicados independentes na década de 70.

_ Pergunta-se: a poesia quando é publicada por uma editora convencional deixa de ser “marginal”?  O rótulo de “marginal” foi atribuído ao processo de produção do livro ou à qualidade da poesia?  E hoje já não se faz mais “poesia marginal”? Sobre essas indagações, vale citar um trecho do ensaio “Tudo, de novo” de Paulo Leminski, que está no livro “Ensaios e Anseios Crípticos”, publicado pela Editora Unicamp:

“A única razão de ser da poesia é ela ser um antidiscurso.

Um modo de dizer como não se diz. Poesia, num certo sentido, é o torto do discurso. O discurso torto.

Tirando isso, não vejo nenhuma razão para ela existir. A pior poesia é aquela que tenta dizer, ornada ou dramaticamente, aquilo que a prosa consegue dizer. Nisso, a poesia dos anos 1970, ou ‘marginal’, é ótima: ela registra bobagens tão insignificantes que nenhuma prosa se dignaria recolher para as eternidades da memória.

A poesia dos anos 1970 é uma antropofagia. Uma devoração de todos os materiais imediatamente disponíveis.”

Embora a poesia dessa década não esteja enquadrada em nenhum “ismo”, mesmo sem a pretensão de se tornar um estilo de época, mesmo sem um padrão preestabelecido a seguir, mesmo sem um patrão a obedecer e a dar satisfações e apesar da censura prévia, apresentou um conjunto de características que personificou a produção literária desse período. Pelo espírito libertário, essa poesia trazia consigo temas cotidianos em poemas curtos, irreverentes, com humor aguçado, em linguagem coloquial, sem preocupações métricas, sem propagar os princípios morais da classe dominante. Não havia “o lirismo que para e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo”, nem “o lirismo namorador” criticados por Bandeira em “Poética”. A poesia corria e escorria livre. E aqui é oportuno lembrar o que dissera Paulo Leminski em outro ensaio, “Boom da Poesia Fácil”:

“Contra a séria caretice dos anos 1960, a recuperação da poesia como pura alegria de existir, estar vivo e sobretudo ainda não ter feito 25 anos. Foi poesia feita por gente extremamente jovem, poesia de pivetes para pivetes, todos brincando de Homero. Sem essa dimensão, a poesia vira um departamento da semiologia, da linguística ou uma dependência das ciências sociais. A poesia dos anos 1970, inconsequente, irresponsável, despretensiosa, recuperou a dimensão lúdica.

Nesse sentido, ela encontrou seus antecedentes e antepassados na tradição brasileira, na poesia de um Oswald de Andrade ou de um Manuel Bandeira, na do primeiro Murilo Mendes e no Drummond dos primórdios, poesia informe e informal, coloquial e piadística, crítica, autocrítica, zombeteira e moleque, exterior e imediata, avessa a todo ‘mistério’ e a toda ‘profundidade’: uma poesia contra a mistificação ‘literária’”.

E para reiterar o que afirmara esse poeta curitibano, transcrevo um trecho do livro do Chacal “Quampérios”, produzido pela Nuvem Cigana em 1977:

“- é o foca mota da pesquisa do jota brasil. gostaria de saber suas impressões sobre essa tal poesia marginal.

– ahhh… a poesia. a poesia é magistral. mas marginal prá mim é novidade. você que é bem informado, mi diga: a poesia matou alguém, andou roubando, aplicou algum cheque frio, jogou alguma bomba no senado?”

E pela forma despretensiosa, vários poetas dessa geração não obedeciam nem às regras gramaticais. Muitos poemas eram publicados tendo como matéria-prima a linguagem oral, presente também em “Macunaíma” de Mario de Andrade. Fato este que também evidencia a influência da geração de 22.  Em síntese, a chamada Poesia Marginal corre à margem das propostas parnasianas, não obedece às orientações técnicas clássicas, por isso mergulha no “turbilhão da rua” e se distancia dos templos gregos, não “inveja os ourives”, não se preocupa em engastar a rima, em verso de ouro, “como um rubim.”

E pelo comportamento dos poetas dessa geração, é possível perceber que não havia espaço para o intelectualismo, a prolixidade teórica era descartada, não encontrava espaço nos versos curtos. Nem o engajamento político trazia consigo manifestos ideológicos. O cotidiano do poeta tornou-se o seu objeto de trabalho. Fatos rotineiros eram traduzidos em versos sem o rigor técnico.  No livro “Olhos Vermelhos” (1979), Chacal publicou o poema “Bicicleta”: “minsina a andar de bicicleta/ que eu perdi o equilíbrio./ eu tinsino a levantar tapetes/ e a construir o caos.”

E aqui é preciso que se diga que o “estar à margem” não significa alienação. A indignação contra os mecanismos repressores refletia na dessacralização dos preceitos dogmáticos que envolvem as manifestações artísticas. O inconformismo com a falta de liberdade não se limitou a rupturas estéticas, motivou também a quebra de tabus morais.

“Seja marginal, seja herói”, essa frase do artista plástico Hélio Oiticica, um dos precursores do Tropicalismo, ainda ecoava no seio da juventude que se colocava contra o sistema. E a insatisfação com a política vigente se estendia contra a imposição dos critérios morais da censura prévia estabelecidos pelo Ato Institucional nº 5 (AI-5).

Na conclusão do trabalho de mestrado, entregue em 8 de junho de 1979, na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, na disciplina “Comunicação e Direito”, a poeta Ana Cristina César escreveu:

“Pode-se verificar que a partir do fechamento político de 68 dá-se um incremento de uma produção cultural marginalizada dos circuitos institucionalizados. Esta produção originou-se com o Tropicalismo, movimento musical que influenciou de forma decisiva a produção literária nacional. O Tropicalismo introduziu na nossa cultura uma consciência crítica em relação a um tipo de arte panfletária, rígida, centrada na denúncia social, e manifestou uma relação concreta entre arte e vida, uma vez que seus participantes testemunhavam um comportamento desviante nas suas apresentações.

A partir do Tropicalismo, vão se acentuar esses traços na produção literária marginal. Os novos poetas pregam nos seus textos a necessidade de subverter o comportamento para mudar o sistema, e ao mesmo tempo fazem questão de manifestar em suas vidas o descompromisso com as regras e valores desse sistema. Desta forma, pode-se analisar a produção do momento tanto por meio de textos quanto da própria vivência dos poetas. Trata-se de uma poesia e de uma vivência fragmentária, marcada frequentemente pela loucura, pela utilização intensa de drogas como forma liberatória, pelos desvios sexuais, pela afirmação da marginalidade, pela exasperação com o chamado ‘sufoco’, pela descrença em relação aos mitos da direita e da esquerda. Ao mesmo tempo, verifica-se nesse grupo, de natureza fundamentalmente urbana, um apego às linguagens modernas, à apresentação graficamente trabalhada e aos meios de comunicação de massa numa relação ambígua com o sistema que pretendem contestar.”

Nesse período, palavras como “desbunde”, “contracultura” eram pronunciadas em oposição a “sistema”, que geralmente era empregada como um conjunto de regras de um regime repressor. E nesse contexto, a liberdade era o anseio de uma juventude que se posicionava contra o autoritarismo tanto no plano político como na produção cultural. Cabe mencionar o poema “Let’s play that” do conterrâneo Torquato Neto, que foi musicado pelo Jards Macalé em 1972: “Quando eu nasci/ um anjo louco muito louco/ veio ler a minha mão/ não era um anjo barroco/ era um anjo muito louco, torto/ com asas de avião/ eis que esse anjo me disse/ apertando a minha mão/ com um sorriso entre dentes/ vai bicho desafinar/ o coro dos contentes/ let’s play that.”

Esse texto dialoga com “Poema de sete faces”, que está no livro “Alguma Poesia” de Carlos Drummond de Andrade, publicado em 1930, dedicado a Mario de Andrade. Eis os versos da primeira estrofe: “Quando nasci, um anjo torto/ desses que vivem na sombra/ disse: vai, Carlos! Ser gauche na vida”.

O ser “torto” consistia em ser marginal, contra o sistema, contra todas as formas de repressão, dizia-se “não ao não”, “era proibido proibir” e a frase que mais se via nos muros era “abaixo a ditadura”. E nesse sufoco, eu preferia o coco às cocas. A morar em oca a ter uma vida oca. A “barra ficou muito pesada”. E muitos não suportaram a loucura de uma vida vigiada, sem liberdade, que se refletia nos seguintes versos da música “Pesadelo” de Maurício Tapajós e Paulo Cesar Pinheiro: “você corta um verso, eu escrevo outro/ você me prende vivo, eu escapo morto”.

Muitos jovens partiram cedo por conta própria ou tiveram a vida abreviada por causa do fumo, do álcool e outras drogas. As angústias, as crises, os conflitos internos deixaram muitas pessoas sem perspectiva de vida. Torquato Neto se suicidou em 10 de novembro de 1972, um dia após o seu vigésimo aniversário. Ao chegar a casa, depois de uma festa, trancou-se no banheiro e abriu o gás. Ana Cristina César se suicidou aos trinta e um anos, atirando-se pela janela do apartamento dos pais, no oitavo andar de um edifício da rua Tonelero, em Copacabana, em 29 de outubro de 1983. E outros amantes da poesia tiveram um destino ignorado…

Foi uma travessia difícil. Hoje respiramos outros ares. Cheguei ao Rio de Janeiro em dezembro de 1974. Fui estudar no Colégio Pedro II, na rua Marechal Floriano, no centro. E arrumei um emprego de office-boy em um laboratório de prótese dentária na rua Álvaro Alvin, na Cinelândia, onde as manifestações mais ocorriam. E naquele espaço, vi um ato muito triste, a destruição do Palácio Monroe com a frágil justificativa de que por aquele local passaria o metrô carioca. Ver as ruínas desse belo palácio, tendo ao lado a estátua de Mahatma Gandhi, partia-me o coração: – como por fim em um trabalho arquitetônico tão lindo?! Algo inconcebível…  Muitos livros censurados naquela época foram reeditados; e quem reconstruirá o Palácio Monroe? Quem devolverá à cidade aquele monumento?

É válido ressaltar que essa manifestação literária que se denominou de “Poesia Marginal”, ocorreu em vários estados do País, porém reverberou mais no Rio de Janeiro. E até hoje ainda há poesia que corre à margem do circuito editorial. A internet tornou-se um canal muito usado para disseminação da poesia, seja formal ou informal. E não há quem controle isso, porque a poesia, cá dentro de nós, com ou sem regras, brota; mais por necessidade do que por vaidade.

“Tem gente que, com a maior facilidade, transporta conceitos econômicos para a área da poesia. E me pergunta:

– A poesia brasileira progrediu, nos anos 1970?

Eu paro. E me pergunto:

– Poesia progride?

Estaria a poesia sujeita às mesmas leis de transformação do azeite de soja, das calças jeans ou dos comerciais veiculados pela Rede Globo?”

Essa indagação de Paulo Leminski, encontrada no ensaio já citado “Tudo, de novo”, deixa claro que a Poesia não precisa de rótulo. Os “ismos” usados surgem mais por uma questão didática, para estabelecer uma referência para os estilos, não por uma necessidade da elaboração de uma composição poética.

A verdade é que a Poesia atravessa a história do homem independente do regime governamental, porque é um reflexo da alma, por isso é imortal.

Nos anos 70, muitos poetas independentes se aproximavam da música e do teatro. Recitavam os seus poemas de maneira performática ou musicavam os versos para se aproximar ainda mais do público leitor, com o objetivo de obter, pelo menos, o mínimo que justificasse a luta com as palavras e pela palavra no exercício da liberdade de expressão, tendo a certeza de que ninguém é feliz sozinho, nem mesmo os que executam um trabalho solitário. A Poesia é universal, não deixa ninguém à margem, pois somos capazes de amar, condição esta indispensável na composição de um verso, seja ele formal ou informal. E essa classificação não é o que determina a qualidade da essência poética.

Ataualpa A.P. Filho