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Soneto

João Roberto Gullino

VAMOS FALAR DE SONETO?

Como todos devem saber – existem dois estilos de poesia: a de composição livre, sem ser subordinada a qualquer norma e a de composição tradicional metrificada, condicionada às suas regras. São dois estilos independentes com suas subdivisões e como aqui vamos tratar exclusivamente dum segmento metrificado – isto é, do soneto – somos forçados a deixar a composição livre à parte. Portanto, vamos falar de soneto? Normalmente, o adepto de tal estilo é rigoroso, preservando-o em suas formas originais e fixas, pois, havemos de considerar que, se partirmos para versos livres estaremos invadindo o estilo oposto – portanto, uma incoerência. Há muitas controvérsias sobre sua origem que surgiu lá pelo século XII e, embora não tenha sido seu criador, fortaleceu-se e tomou forma própria a partir do italiano Francesco Petrarca (1304/1374) – o modelo petrarquiano.Da Itália, viajou para outros países e na Inglaterra se transformou em soneto inglês, quando foram alteradas somente a colocação de seus quatorze versos – o modelo shakespeariano.

Alguém já disse que o soneto é “a sedução do cárcere” mas eu diria que é “o cárcere da sedução”, pois, conforme o poeta contemporâneo Paulo Bonfim (sagrado o ”príncipe dos poetas brasileiros” em 1991): “ Para muitos, o soneto é inibidor, mas eu acho que é a prova de fogo do poeta. Não considero o soneto o espartilho da poesia”.
Majo & Machado em seu site define muito bem o soneto em relação às suas regras rígidas, comparado-o com o vinho, essa bebida natural e original: “se servido puro, é vinho; se misturado com água e açúcar, é refresco.” Nada mais lógico e racional.
Alguns pretendem modernizá-lo, como tentou o poeta Augusto Frederico Schimidt, mas Vasco de Castro Lima já alertava que um poema de quatorze versos poderá ser muito poético, mas se não respeitar suas regras rígidas, poderá ser tudo, menos um soneto.
E por que a divergência ? Convenhamos – a beleza do soneto está em sua forma sucinta, elevada, concisa e exclusiva, pois cada estilo de poesia tem suas peculiaridades e maneira diferente de desenvolvê-la. Assim, no segmento metrificado, a trova tem suas regras básicas; o haicai outras diferentes; o ovillejo as suas e assim por diante em função de cada estrutura. Se fugisse das regras, a trova perderia seu valor se transformando numa simples quadrinha – assim é o soneto.
Esmiuçar as regras e a nomenclatura do soneto talvez seja um pouco longo, o que faremos, gradativamente, numa próxima vez. Para adiantar diria somente que é um poema de quatorze versos – dois quartetos e dois tercetos – rimando os dois quartetos e, com rimas diferentes, os dois tercetos.

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SONETOS IMORTAIS

Todos os sonetos citados nesta crônica encontram-se em minha antologia
“Os mais Belos Sonetos Que o Amor Inspirou”. Volume I – Poesia Brasileira.

Na história da literatura brasileira temos o fato curioso de três grandes poetas que se celebrizaram apenas com um livro: Augusto dos Anjos, com “Eu e Outras Poesias”, Raul de Leoni, com “Luz Mediterrânea”, e Moacir de Almeida, com “Gritos Bárbaros”. Eu acrescentaria um nome bem mais recente, cuja obra “Cânticos Bárbaros”, mereceu em 1934 o Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras: trata-se de Mário Cruz, que vive em Petrópolis, e é técnico do Museu Imperial.

Por acaso, são todos poetas de minha predileção, em que pese à diversidade de estilos e temperamentos, ou justamente por isso. Mas, do mesmo modo que há escritores de um único livro, ou que se consagraram por uma de suas obras, há, entre os poetas, os que se celebrizaram apenas por um poema, um soneto.

O exemplo clássico é o de Felix Arvers, autor de “Mês Heures Perdues”, e que teria mergulhado no mais completo anonimato não fora o seu famoso soneto inspirado por Marie Nodier. Só em língua portuguesa há cerca de 200 traduções conhecidas.

No Brasil há alguns casos mais ou menos semelhantes. Autores de sonetos célebres, ou que se celebrizaram por um soneto, mas com muitas outras produções de valor pelo menos idêntico ao do trabalho consagrado. São por demais citados Bilac com o seu “Ouvir Estrelas”; Raimundo Correia, com “As Pombas” e “Mal Secreto”, e Machado de Assis, com “Carolina”. Carlos Ribeiro, o mercador de livros, me referiu que, às vezes, entram porta adentro de sua livraria e lhe perguntam à queima-roupa:

O senhor tem aí a “Carolina”, de Machado de Assis?
(hoje há outra “Carolina” concorrendo com a de Machado de Assis: a do Chico Buarque de Holanda, poeta moço, que ainda se dá ao luxo de música nos belos poemas que compõe).

Citemos outros: Raul de Leoni está nos álbuns, nos recitais, na memória do povo, cada vez mais, com aquele soneto que não incluiu em sua obra, e que é apresentado ora com o título de “Perfeição”, ora com o título de “Argila”. Eu prefiro “Perfeição”. Quem não será capaz de dize-lo?

Nascemos um para o outro, desta argila
de que são feitas as criaturas raras,
tens legendas pagãs nas carnes claras
e eu trago a alma dos faunos na pupila…”

Mário Pederneiras, poeta carioca, cantor de sua cidade, hoje quase esquecido, ficou com seu “Suave Caminho”, de um lirismo envolvente:

“Assim, ambos assim, no mesmo passo…”

E o final:

“Placidamente pela vida iremos

calçando mágoas, afastando espinhos,
como se a escarpa desta vida fosse
o mais suave de todos os caminhos…

Nilo Bruzzi, o biógrafo de Casimiro de Abreu e Júlio Salusse, romancista e poeta conquistou seu lugar com um único soneto: “Única”. Pelos primeiros versos vocês se lembrarão logo:

“No turbilhão da vida cotidiana
há sempre oculto um rosto de mulher…”

Há outro poeta que não deixou se quer livro publicado, cearense, falecido em 1941, cujas poesias ficaram esparsas por jornais e revistas de sua terra: o Padre Antônio Tomás. Seu soneto “Contraste” é uma página que traz a marca da perenidade. Canta o poeta: “Quando partimos, no vigor dos anos,/ da vida, pela estrada florescente,/ as esperanças vão conosco à frente/ e vão ficando atrás os desencantos…” Mais tarde, no entanto, conclui: “Nós enxergamos claramente/ quando a existência é rápida e fugaz,/ e vemos que sucede exatamente/ o contrário dos tempos de rapaz:/ os desenganos vão conosco à frente/ e as esperanças vão ficando atrás!”

Julio Salusse, “o último Petrarca brasileiro”, apaixonado pela sua Laura, filha do Conde de Nova Friburgo, criou a imagem do amor eterno com o soneto “Cisnes”. Ainda hoje figura em todos os cadernos de poesia:

“A vida, manso lago azul, algumas
vezes, algumas vezes mar fremente,
tem sido para nós, constantemente,
um lago azul sem ondas nem espumas…”

Alceu Wamosy, gaúcho, que morreu pelejando, com apenas 28 anos, imortalizou-se com os quatorze versos de “Duas Almas”. Quem não os sabe de cor?

“Ó tu que vens de longe! Ó tu que vens cansada
entra, e sob o meu teto encontrarás carinho:
eu nunca fui amado, e vivo tão sozinho,
vives sozinha sempre, e nunca foste amada…”

Da mesma maneira, Da Costa e Silva, do outro extremo do Brasil, poeta piauiense, está na memória da gente, com o soneto “Saudade”, cujo terceto final ressoa como uma balada de sino:

“Saudade! O Paraíba, velho monge
as barbas brancas alongando… E ao longe
o mugido dos bois da minha terra…”

Quero encerrar, entretanto, esta crônica, com uma surpresa para vocês. Vou apresentar-lhes um soneto inteiramente desconhecido. Recebi-o de um amigo, num velho recorte sem data, já amarelecido, do “Correio da Manhã”, e certamente o incluirei na 3ª edição de minha antologia “Os Mais Belos Sonetos que o Amor inspirou”. O nome do poeta? Otávio Rocha. Não o conheço; nunca encontrei seu nome em qualquer citação. Mas arrisco-me a vaticinar-lhe a celebridade à proporção que se der a divulgação do soneto. Ei-lo na íntegra:

ROMANCE

“Venha me ver sem falta… Estou velhinha.
Iremos recordas nosso passado;
a sua mão quero apertar na minha
quero sonhar ternuras ao seu lado…”

Respondi, pressuroso, numa linha:
“Perdoe-me não ir… ando ocupado.
Ameia-a tanto quanto foi mocinha
e de tal modo também fui amado.

Passou a mocidade num relance…
Hoje estou velho, velha está… Suponho
que perdeu da beleza os vivos traços.

Não quero ver morrer nosso romance…
Prefiro tê-la, jovem no meu sonho,
do que, velha, apertá-la, nos meus braços!

Aí está, o mais velho e o mais belo dos temas, renovado sempre na poesia e no sonho de um poeta.

(Crônicas de JG de Araujo Jorge extraído do livro ” No Mundo da Poesia ” Edição do Autor -1969 )

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Para exemplificar sua qualidade – totalmente diferente da poesia livre – cada uma tem sua maneira de ser e de desenvolver o tema abordado. Assim vamos transcrever um soneto de nosso patrono Raul de Leoni (1895 – 1926) – sonetista por excelência –

INGRATIDÃO

Nunca mais me esqueci!… Era criança
e em meu velho quintal, ao sol-nascente,
plantei, com minha mão ingênua e mansa,
uma linda amendoeira adolescente.

Era a mais rútila e íntima esperança…
cresceu… cresceu… e, aos poucos, suavemente,
pendeu os ramos sobre um muro em frente
e foi frutificar na vizinhança…

Daí por diante, pela vida inteira,
todas as grandes árvores que em minhas
terras, num sonho esplêndido semeio,

como aquela magnífica amendoeira,
eflorescem nas chácaras vizinhas
e vão dar frutos no pomar alheio…

Do poeta Bastos Tigre (1882 – 1957) –

ENVELHECER :

Entre pela velhice com cuidado,
pé ante pé, sem provocar rumores
que despertem lembranças do passado,
sonhos de glória e de ilusões de amores.

Do que houveres no teu pomar plantado,
apanha os frutos e recolhe as flores,
mas lavra ainda e cuida o teu eirado –
outros virão colher quando te fores.

Não faças da velhice enfermidade,
alimenta no espírito a saúde,
luta contra as tibiezas da vontade.

Que a neve caia, que o ardor não mude,
mantém-te jovem, não importa a idade :
tem cada idade a sua juventude…

II

Estou sempre a procurar, na internet, novos adeptos do soneto – mas que tristeza! A maioria confunde e fala em soneto como se fosse sinônimo de poesia. Aliás, poesia não se fala nem se escreve, sente-se. Qualquer demonstração escrita em versos é um poema, seja em que estilo for – livre, concreto, metrificado, soneto, trova, etc – tudo é poema. Corriqueiramente, especifica-se um texto em versos como poesia e este hábito é quase impossível de corrigir-se no linguajar do povo e dos versejadores. Tal vício pode ser equiparado ao verbete “agilizar” que foi oficializado por vício de linguagem quando o correto “era” agilitar. Assim, este detalhe tornou-se, também, um vício, por isto, vamos falar de soneto.

Para mim é redundância falar-se em soneto “clássico” ou “tradicional” pois, para ser soneto, tem que ser clássico, isto é, obedecer as exigências de suas regras seculares, rígidas, amarradas em seus quartetos e tercetos, com rimas, métrica e acentuação, o que lhe dá a cadência e a melodia necessária. O soneto tem suas regras presas e algemadas como são nossas leis que regem o comportamento de cada cidadão.

Portanto, um soneto é um poema de 14 versos dividido em dois quartetos e dois tercetos, rimando sempre entre si os dois quartetos, geralmente, no sistema ABBA+ABBA ou ABAB+ABAB e os dois tercetos com duas ou três rimas sempre diferentes dos quartetos, nos esquemas variáveis de infindáveis combinações como CDC+DCD, CDE+CDE; CEC+DED ou CCE+DDE. Muitos contrariam tais regras utilizando três ou quatro rimas nos quartetos, o que esbarra no que determina a tradição, prejudicando, às vezes, sua sonoridade.

Obviamente, as regras rígidas do soneto tem por objetivo, embora camuflado, de dificultar sua montagem como um perfeito quebra-cabeça – o que muitos não entenderam até hoje. E a maioria dos poetas sonetistas sempre aceitaram tal desafio, tanto que, Gonçalves Crespo, poeta brasileiro radicado em Portugal (1846/1883) dizia: “O soneto pode ser, quando muito, um animal bravio que um bom domador, realmente poeta, pode perfeitamente domesticar – basta que tenha longa e íntima convivência com suas normas”. Já outro poeta brasileiro, Amadeu Amaral (1875/1929) era mais radical ao afirmar que “muita gente ainda supõe que o poeta tortura suas idéias na grelha do soneto – tal coisa só se dá com os maus poetas”. Portanto, o soneto é um desafio para qualquer poeta, como um alpinista que sempre procura o caminho mais difícil para chegar ao topo da montanha.

Outro detalhe imprescindível na montagem de um soneto, é o último terceto que terá que, forçosamente, ter o último verso carregado de impacto, de emoção ou de enlevo para fechá-lo com ênfase e que dá todo o efeito ao tema abordado, valorizando-o – é a chamada “chave de ouro”. A ausência de tal detalhe, na maioria das vezes, rouba todo o valor do trabalho, aliás, detalhe que deve estar sempre presente em qualquer texto, em prosa ou verso, tradicional ou moderno. É uma necessidade para indicar-lhe o fecho, impedindo que viremos a página para procurar a continuação do trabalho, como ocorre muito amiúde.

A beleza do soneto sempre foi cantada em prosa e verso – como estou fazendo agora, em prosa – e como muitos fizeram em versos, pois o soneto é eterno, dentro de seu estilo peculiar, sua forma diferente, sua estrutura única e seu conteúdo límpido como cristal, de fácil e imediata assimilação e enlevo.

Muitos foram os poetas que o enalteceram em seus quatorze versos, transformando-os em “um rocal de gemas” como bem o definiu o poeta luso-brasileiro Filinto de Almeida, (1857/1945) um dos fundadores da ABL. Mas apesar de tantos, um dos mais belos do gênero é do poeta J. G. de Araujo Jorge (1914/1987) organizador de uma das mais completas coletâneas de sonetos de vários países, em quatro volumes, “Os mais belos sonetos que o amor inspirou”. Ei-lo :

Fino frasco de forma nobre e pura,
e, ao mesmo tempo, taça de cristal,
onde a vida, em beleza se emoldura
e vibra como um órgão musical.

Em transe, o poeta sempre te procura
para desabafar, sentimental,
seu pobre coração que se amargura
ou seu canto de amor, belo e triunfal!

Cabe em ti tudo quanto em nós palpita,
tudo quanto se sonha ou se concebe:
– a finita emoção, a alma infinita…

Vinho da uva da vida que se pisa,
– és, a um só tempo, a taça em que se bebe,
e o frasco em que a beleza se eterniza.

E se muitos poetas declararam sua idolatria pelo soneto, um sem número de outros enalteceram a beleza da mulher, mas parece que só um salientou a deficiência de tal predicado. E foi nosso saudoso confrade, Roger Feraudy, (1923/2006) – autor de nosso hino – que a entronizou no soneto “ A MOÇA FEIA” :

Não tinha graça, não tinha beleza…
Quando passava, andar desajeitado,
eu a pensar ficava – a natureza
deve num instante ter se descuidado…

No seu semblante havia uma tristeza,
sempre ansiosa, um ar preocupado;
sem atrativos, não era surpresa
quando afastava alguém interessado.

Jamais teve um amante, um amor um dia;
no solitário quarto imaginava
romances que não teve e que queria…

A moça amarga sem nenhum encanto;
a moça triste que ninguém olhava;
a moça feia… que eu amava tanto !

E do poeta P. de Petrus (1920/-) um sonetilho – JANGADEIRO

A aurora, calma e silente,
áurea luz, no céu, espraia:
vitória do sol nascente,
sobre a noite que desmaia.

Vai, jangadeiro valente,
no mar, distante na praia,
e vence a enorme torrente
sobre espumas de cambraia!

De olhos postos no infinito,
esquece as penas da lida,
que o teu lavor é bendito.

Canta e reza à tua sorte:
cantando – enfrentas a vida;
rezando – enfrentas a morte.

III

Em 2000, no Rio de Janeiro, um grupo de reconhecidos poetas se reuniu para fundar uma academia exclusivamente dedicada ao soneto e ali foi criada a Academia Brasileira do Soneto – a ABRASSO. Uma idéia lapidar que tinha tudo para dar certo, organizada, entre outros, pelos falecidos poetas Eno Theodoro Wanke e Dario de Sá, com a finalidade de preservar o soneto em sua integridade física, só admitindo como válidos os heróicos e alexandrinos. Após sua implantação, fui convidado e a ela me juntei.

Quando se fala em soneto, a referência é sempre ao heróico e ao alexandrino, mas na minha opinião, mesmo com toda rigidez de concepção, não acho que devamos chegar a tais extremos, pois acredito ser preferível incluir-lhes os estilos desde o sonetilho até o dodecassílabo (diferente do alexandrino) – obviamente, respeitando suas regras básicas quanto à métrica, rima e acentuação sem agredi-lo – do que permitir que seja mutilado entre versos brancos e pés quebrados, como sempre vemos tal heresia ser cometida. Assim acredito e defendo serem incluídos, também, os seguintes estilos, embora raramente usados :

05 sílabas – a redondilha menor, comumente chamado de sonetilho;
06 sílabas – o heróico quebrado, também sonetilho;
07 sílabas – a redondilha maior , ainda sonetilho;
08 sílabas – o sáfico de pé quebrado;
09 sílabas – o gregoriano ou jâmbico;
10 sílabas – o heróico, sáfico ou moinheira;
11 sílabas – o hendecassílabo – soneto de o arte maior
12 sílabas – o alexandrino com dois hemistíquios e
12 sílabas – o dodecassílabo, diferente na acentuação.

Os sonetilhos (termo ignorado por Geir Campos) são denominados de “arte menor” e a partir do sáfico até o dodecassílabo, são os de “arte maior”. Tratando-se de soneto, não é permitido a existência de versos acima de 12 sílabas métricas. E as acentuações a serem respeitadas, para os diversos tipos, são :

05 sílabas – nas 2ª e 5ª sílabas
06 sílabas – nas 4ª e 6ª Sílabas
07 sílabas – nas 2ª, 3ª ou 4ª.e na 7ª sílabas
08 sílabas – nas 4ª e 8ª sílabas
09 sílabas – 3ª, 6ª e 9ª sílabas
10 silabas – para o heróico, 6ª e 10ª sílabas
para o sáfico – 4ª, 8ª e 10ª sílabas
para o moinheira – 5ª e 10ª sílabas
11 sílabas – 3ª, 5ª, 8ª e 10ª.sílabas
12 sílabas – alexandrino – 6ª e 12ª sílabas, separando os
hemistíquios, porém, Roger Feraudy ensinava que deveriam
ser nas 3ª, 6ª, 9ª e 12ª sílabas, para melhor cadência, mas
marcação não obrigatória – só questão de gosto.
12 sílabas – dodecassílabo – entre as várias combinações, a mais
usada é acentuação nas 4ª, 8ª e 12ª sílabas.

Reafirmo aqui que tais variações de tipos são dentro da minha concepção particular, sem querer extrapolar as regras do soneto clássico, mas uma conclusão a que cheguei para minimizar as constantes agressões ao estilo e que acredito, com lógica, embora os mais utilizados sejam, sem sombra de dúvida, o heróico e o alexandrino. No máximo, o que alguns poetas se permite é a mistura, num mesmo soneto, de versos heróicos e sáficos, em termos de acentuação.

HEMÍSTÍQUIOS : são as duas partes de seis sílabas que compõem o verso alexandrino, observando-se que o verso do primeiro só poderá terminar com palavra oxítona ou paroxítona. Se oxítona, o segundo hemistíquio pode começar com vogal ou consoante. Se paroxítona, a palavra sempre terá que terminar em vogal e a seguinte iniciar com vogal para permitir a elisão.

Portanto, esse é o complexo mundo do soneto, talvez difícil para as novas gerações, mas não impossível de entendê-lo e absorvê-lo – como já constatei no trabalho de alguns jovens. Como podem deduzir na comparação com os versos livres, é um estilo totalmente diferente e especial, tanto que o poeta, pintor e trovador Noel Bergamini, assim se expressou : “O soneto, queiram ou não, é indiscutivelmente, a base da poesia, a sua estrutura máxima, o seu alicerce ponderável e indestrutível, por ser imortal como as conquistas imperecíveis da ciência; quanto às leis imutáveis da Natureza; quanto o brilho solene dos astros e a beleza magnética das estrelas! Ninguém destrói as glórias do passado; os vultos que vivem na lembrança dos que prezam a cultura, exortam a sabedoria e sublimam a inteligência. Todos eles serviram, servem e servirão de exemplo a todas as gerações como fonte permanente de inspiração!”

E para exemplificar o que disse acima sobre o soneto de 11 sílabas, transcrevo um do poeta Roger Feraudy (1923/2006), escrito em ´95, para mostrar sua sonoridade nos TEMPOS MODERNOS ( ao genial Charles Chaplin ) :

No meu desalento procuro entender,
se passo na vida, ou a vida é que passa !
Eu devo estar velho, ou cansei de viver,
e agora não sei realmente o que faça !

E vejo confuso o probo hoje ser
aquele que honesto serviu de chalaça,
por ser virtuoso cumprir seu dever.
Só vence quem usa da fraude, a trapaça !

Na música o som meus ouvidos tortura,
no verso, na prosa e até na pintura,
se exalta o vulgar com incenso e louvor.

Nos tempos modernos – é regra geral,
porque sem critério, no mundo atual,
mudou-se o conceito, inverteu-se o valor !

E Atos Fernandes, lá da cidade de Itaperuna/RJ, falecido em ´79 nos mostrou a súplica dos PEDINTES :

O pobre pede pão. O nobre pede o trono.
O santo pede o altar, o crente pede a missa,
e quem das leis sociais sofre amargo abandono
ergue as mãos para o Céu, pedindo por justiça.

Quem ama pede amor. O insone pede o sono.
O mártir pede a cruz, e pede o herói a liça.
Pede o inverno o verão; a primavera o outono,
e o sábio pede a luz da verdade castiça!

Quem luta pede a paz. O enfermo pede a cura.
O verme pede a terra e a águia pede a altura,
e quem sofre a opressão pede a mão que o redima.

E o Poeta, também, seguindo a mesma norma,
é um mendigo a pedir a pureza da Forma,
a beleza da Idéia e a riqueza da Rima!

IV

Quando se estuda música ou pintura, inicia-se pelos clássicos, para depois, cada um seguir o caminho que melhor vislumbrar. Na poesia também deveria caminhar na mesma seqüência, porém, como está atrelada ao aprendizado da língua escrita, as pessoas não se preocupam em estudar suas origens.

Particularmente, com o soneto, não basta absorver suas regras e normas, simplesmente – há inúmeros detalhes que o poeta tem que se ater para não tirar o valor de seu trabalho, além da métrica e da acentuação. É a rima – um dos quesitos primordiais, que deve ser sempre apurada, mas não sofisticada, procurando fazê-la entre verbos, substantivos e adjetivos para não perder seu sabor auditivo e evitar o abuso de verbos no infinitivo, principalmente os da 1ª conjugação, que provocam uma sonoridade cansativa e da mesma maneira não se deve rimar singular com plural, nem cometer o pecado de utilizar rimas iguais, que quebram um pouco a musicalidade. Há poetas que procuram se sofisticar com palavras diferentes – possivelmente para mostrar intelectualidade ou por falta de rimas – isto poderia ser usual no passado quando o vocabulário era mais requintado, já que hoje os bons dicionários de rimas nos livram de tal necessidade, como bem nos alerta Mello Nóbrega em seu livro. Atualmente, o que dá beleza ao poema é a simplicidade de linguagem, propiciando uma fácil assimilação e compreensão, pois o que pesa num poema é seu conteúdo, sua essência, o desenvolver do tema abordado – seu efeito.

Tratando-se de soneto, o maior expoente no assunto, entre nós, foi o poeta Vasco de Castro Lima (1904/2002?) com o livro “O mundo maravilhoso do soneto”, quando penetrou com tanta profundidade em suas reentrâncias, ao longo de mais de 1.000 páginas. Geir Campos também deu uma grande contribuição com o “Pequeno Dicionário de Arte Poética”. Edgard Rezende participou com seus exemplos em “Os mais belos sonetos brasileiros”, que reproduz pequenos dados sobre cada poeta e J. G. de Araújo Jorge completou com a coletânea “Os mais belos sonetos que o amor inspirou”, em quatro volumes, abrangendo trabalhos de todos os cantos do mundo. Mas um que batalhou anônima e espontaneamente, com dedicação, afinco, amor e carinho, foi Eno Theodoro Wanke com seus boletins da FEBET, orientando os que tinham dúvidas sobre metrificação. São detalhes importantes para os que querem seguir os meandros do soneto e cujos livros já estão desaparecidos (só conseguidos raramente nos sebos) e que, se vivêssemos num país realmente preocupado com a cultura, reeditariam tais obras para satisfação e incentivo dos cultivadores do segmento poético, pois são textos que não saem de moda mas que também não são de vendagem imediata, como é desejo das editoras, porém, bem poderiam ser editados pela Biblioteca Nacional. Outros trabalhos, ainda, deveriam ser revividos como “Tratado de versificação”, de Bilac e Guimarães Passos e “Rima e Poesia” de Mello Nóbrega (embora com conteúdo mais amplo, exemplificando em vários idiomas), além de muitos outros que vão sumindo da lembrança de todos. Hoje não há mais necessidade de se seguir regras nem de um poeta se nortear – “todos são poetas”.

Quanto à metrificação, por ser um assunto mais complexo, trataremos mais adiante com minúcias de detalhes, mas um item importante e que já ressaltei, é o final do último verso – a dita “chave de ouro” – que deve ser observada nos sonetos aqui apresentados, detalhes que os valoriza e enaltece.

Existem trabalhos que, por sua beleza, depois de lidos, nos deixa invejosos – no bom sentido – por não termos tido tal inspiração. Assim é o trabalho de Vasco de Castro Lima, que morreu quase centenário (1905/2002?), referido lá na frente, que trilhou A ESTRADA DO SONHO :

Cada dia em que o sol se abre, risonho,
e desfralda o seu leque de esplendores,
eu saio pela Estrada Azul do Sonho,
pisando espinhos e plantando flores…

E vou contente. Nos meus passos, ponho
a luminosidade dos alvores.
Sigo a Estrada. E é sorrindo que a transponho
eu, o mais sonhador dos sonhadores…

Sim, quero ter, na noite da velhice,
o mesmo coração da meninice –
um ninho de alvoradas luminosas –

para ser, no jardim dos desenganos,
uma alegre roseira de cem anos,
ardendo em sonhos, florescendo em rosas!

Da mesma maneira, outro dos nossos patronos, Décio Duarte Ennes (1926/1982), nos brinda com a beleza de uma CARTA :

Escrevo-te, querida, a última carta,
e nela envio o meu saudoso adeus
com o qual seguirão os dias meus,
que de viver minha alma já esta farta !

Tudo de mim agora já se aparta,
e o próprio Amor – este menino-deus –
já me renega e põe-me entre os ateus,
a mim, cuja existência quis eu dar-ta !

Poucas palavras restam-me, bem poucas,
( talvez, até as julgues tu bem loucas… ) :
Ofereci-te o amor – e o recusaste !

Ofereci-te a vida – e a não quiseste !
Agora eu te devolvo o que me deste :
– Os versos de um poeta que inspiraste !

E Romildes de Meirelles, do Rio de Janeiro – um dos idealizadores da ABRASSO – Academia Brasileira do Soneto, extremamente melancólico, se sentiu SÓ!…

Estou completamente só… O dia
acaba, a tarde morre docemente
e eu estou só em meio a tanta gente,
nesta tarde chuvosa, cinza e fria…

A solidão da tarde me angustia,
deixa-me imerso em um torpor dolente
e eu vejo o tempo ir-se lentamente
de gota em gota, em triste nostalgia.

A chuva aumenta a minha ansiedade,
enchendo-me de mística saudade,
numa tristeza atroz que o olhar me embaça.

E vejo tudo qual se fosse um sonho,
onde o tempo se escoa tão tristonho
na cadência da chuva na vidraça.

V

Considero a feitura de um poema como a escultura da prosa e da palavra. Como um arquiteto que projeta sua planta com detalhes de beleza, elegância e suavidade – assim é o poeta – um arquiteto do verbo que precisa transformar a prosa em poesia, combinando e esquematizando o ritmo, harmoniosamente, em cada palavra e detalhe, para maior valorizar seu trabalho, com temas sempre elevados e impactantes. Não sei se consigo atingir tais objetivos em meus trabalhos, mas são dois pontos distintos: a maneira de ver e apreciar o belo pode, muito bem, não se coadunar com a habilidade de transmiti-lo e de executá-lo, já que, para se admirar um bonito quadro, não há necessidade de, obrigatoriamente, saber-se pintar.

Cada um tem o direito de possuir seu estilo – tanto o pintor, como o compositor ou o escultor, tem cada um o seu traço próprio – e por que o poeta não poderá ter o seu também? E é como disse o escritor contemporâneo Fernando Jorge: “Poesia é acústica, ressonância de nossas emoções”. Mas a realidade é que, mesmo aqueles que repudiam o soneto, disfarçadamente, caem em tentação e se entregam nos braços do soneto e no afago da metrificação, mas somente na intimidade das alcovas, sem alarde, silenciosamente, escondidos de seus colegas para não demonstrar uma fraqueza “pecaminosa” e não macular a bandeira desfraldada. Como cita Vasco de Castro Lima, muitos dos grandes adeptos da semana de ´22, capitularam, submergindo às tentações do soneto: Menoti Del Picchia, Guilherme de Almeida, Jorge de Lima e tantos outros, inclusive Drummond, também pecou, ao tentar reatar seu namoro com o soneto, após a Semana de Arte Moderna – mas pelo que tudo indica, não se entenderam muito bem.

Assim, não consigo alcançar a intenção de alguns poetas por quererem modernizá-lo. Se a poesia livre é, realmente, livre, por que imprensá-la em dois quartetos e dois tercetos, submetendo-a a tal regra e sacrifício, somente para defini-la como soneto? Para mim é incoerência.

A rigor, todo sonetista sente-se agredido com as críticas infundadas e o rancor pela metrificação, o que não fica restrito aos comentários de certos poetas ou o descaso da mídia, detalhes de somenos importância. O grave mesmo, é a opinião externada por alguém como Antonio Houaiss e Luis Carlos Lima, que lhe concedem uma profunda conotação pejorativa, com um radicalismo exacerbado, como foi mostrado por Houaiss no prefácio do livro “Reunião”, de ´68, de Drummond, quando ocupa 25 páginas para provar – se repetindo sempre – o valor do poeta, numa autêntica tautologia emocional. E entre tantos “conceitos” firmados por Houaiss, o texto classifica como “cegos” os que não apreciem a poesia de Drummond e a certa altura transcreve (apoiando) a visão de Luis Costa Lima que, por sua vez, faz eco a Otto Maria Carpeaux :

“E Drummond é o maior e último poeta modernista. Quem ainda considera a poesia como enfeite decorativo, não pode compreender o poeta cuja matéria é a vida presente. Quem aprecia nos versos a harmonia artificial dos ritmos e das rimas, não admitirá que na vida a dissonância é, conforme Nietzsche, a regra e o acorde a exceção; e que o poeta pode ter todos os privilégios menos o de mentir.”

Bem, não vai aqui qualquer crítica a Drummond, mas vai sim, sobre a observação impertinente do comentário. Mesmo vindo de pessoas respeitadas como Houaiss ou Luis Costa Lima, poema metrificado não é “enfeite decorativo” nem possui “harmonia artificial” como querem demonstrar na nota, nem são “cegos” seus admiradores – o que prova o totalitarismo de opinião, desqualificando-os para tal análise e julgamento. O valor de um poema – como de qualquer prosa – depende do tema abordado, da maneira e do desenvolvimento de seu texto, independente do estilo – isto, obviamente, para simples mortais como nós, não para eles. Assim, o preconceito é evidente, pois não se conformam que ainda haja um segmento tradicional para perturbar a caminhada dos egocêntricos e que provoca um pavor traumático quando, na verdade, para quem se habitua a utilizar a metrificação, o faz com total comodidade, fluidez, facilidade e naturalidade. É somente uma questão de hábito, mas parece que o soneto vem a ser o lobo mau da poesia – provoca um certo pavor a quem dele se aproxime. E Houaiss, criticando a metrificação, está, diretamente, se opondo ao soneto que, sem a métrica, deixa de sê-lo.

Mas o soneto é imorredouro também na visão de Vasco de Castro Lima, autor do livro “O mundo maravilhoso do soneto”, que disse: “O soneto não tem idade! Os sete séculos que conta de existência, não pesam sobre sua vida maravilhosa. Parece que é mesmo definitivo. O mínimo que se pode dizer, é que se trata de um velho-moço de saúde invejável!

Para mim, poema que agrada é aquele que marca sua passagem por nossa leitura, que grava-se na memória e que, volta e meia, é referência para nossas lembranças, como o trabalho do acadêmico Farid Felix, que não tive a ventura de conhecer, falecido em 2004 em Petrópolis – … E DEUS DISSE AO POETA

Ao poeta disse Deus: “Vai, peregrino,
e cumpre as tuas árduas caminhadas,
e canta e que teu canto seja um hino,
mas de esperança às almas desoladas.

Vai e canta com teu verbo cristalino,
sejam dias de sol, ou de nevadas,
que este é, na vida amarga, o teu destino:
florir de sonho todas as estradas”.

Apóstolo do sonho e da esperança,
o poeta partiu, em doce calma,
à mercê de borrascas e bonança.

E cantou, e ainda canta aos sóis dispersos,
toda a beleza que lhe brota n’ alma,
e jorra em cataratas dos seus versos.

E para mostrar, mais uma vez, a força e a beleza que o soneto irradia, ainda nos dias de hoje, apesar do desprezo que muitos lhe dão, transcrevo, de outra saudosa acadêmica – Aládia Pereira de Almeida – falecida em 2003 – SABOR DE VIDA :.

Eu amo a vida pelo que é a vida,
pela razão mais simples de viver,
sem me importar se árida é a lida,
se há mais dias de dor que de prazer.

Eu amo a vida mesmo na incerteza
do dia em que ela me abandonará;
sem pesar de deixar tanta beleza,
sem pensar, lá no Além, como será.

A vida é boa, é só saber vivê-la,
não desejar brilhar qual uma estrela,
nem também, como um verme se arrastar.

Saber chorar, se a dor nos atormenta,
sorrir, quando a alegria se apresenta,
compreender, esquecer e perdoar.

IV

Vamos divergir um pouco do soneto tradicional e dar um passeio com humor, pois apesar do rigor na montagem de um soneto, às vezes, tal rigor se abranda quando invade o terreno da sátira e do humor. Aí se perdem um pouco as exigências quanto às rimas, embora nos exemplos a seguir, em alguns casos, elas foram respeitadas. São as licenças poéticas que o sonetista se reserva e aproveita para desenvolver um tema com criatividade e humor.

Pesquei, por exemplo, no site de Paulo Camelo, este seu espirituoso soneto para, graficamente, apresentar as diferenças entre “trás” e “traz” e entre “porque”, porquê”, “por que” e “por quê”. Ei-lo :

Não sei por que se traz, se vem de trás.
Talvez porque o que se traz por trás
lá não esteja. E por que saber
se é porque assim que tem que ser?

Mas o porquê da dúvida cruel
ainda existe e eu não sei por quê.
Por que razão, não sei. Será porque
é mesmo o som? Por que se clama ao céu

se lá por trás do que o pedido traz
é um não-sei-por-quê que não entendo?
Ora porque… bem… eu não sei por quê.

Por trás do que se traz, se é que se traz,
é mais complexo o mundo, é mais tremendo
e eu não sei por quê. Será porque… ?

Já Laurindo Rabelo (1826-1864) recorreu somente a duas rimas em todos os versos para poder fazer uma brincadeira com O TEMPO :

Deus pede estrita conta do meu tempo,
é forçoso do tempo já dar conta;
mas como dar sem tempo tanta conta,
eu que gastei sem conta tanto tempo?

Para ter minha conta feita a tempo,
dado me foi bem tempo e não foi conta.
Não quis sobrando tempo fazer conta,
quero hoje fazer conta e falta tempo.

Oh! vós que tendes tempo sem ter conta,
não gasteis esse tempo em passatempo:
cuidai enquanto é tempo em fazer conta.

Mas, oh! Se os que contam com seu tempo
fizessem desse tempo alguma conta,
não choravam como eu o não ter tempo.

Francisco Jugurtha Rocha (1902/?), falecido há poucos anos, aproveitando a deixa de Laurindo Rabelo, embarcou com muito humor, usando também somente duas rimas para passar seu recado bem ao JEITO DA COISA : .

Quanta gente quer ter a coisa sem ter jeito…
Quantos, jeito querem dar pra ter a coisa !
Certo haverá quem tenha a coisa sem ter jeito
mas, que adianta sem o jeito ter a coisa ?

Nada melhor que ter a coisa e ter o jeito,
sendo tão raro ter-se uma e outra coisa,
conformar-se com uma só coisa é o jeito,
pois, bem pior é não ter jeito nem ter a coisa…

Quantos, não tendo nem a coisa nem o jeito,
dariam tudo para a jeito ter a coisa,
mas sem a coisa se conformam só com o jeito?

Quantos já sem jeito ainda lutam pela coisa?
Quantos, ao sentir que a coisa não tem jeito
vão se agarrando a todo jeito a qualquer coisa ?

Arthur Azevedo (1855/1908), de humor refinado como sempre demonstrava nas peças teatrais, registrou sua marca inconfundível no soneto cobrando brios a TERTULIANO :

Tertuliano, frívolo peralta
que foi paspalhão desde fedelho,
tipo incapaz de ouvir um bom conselho,
tipo que morto não faria falta.

Lá num dia deixou de andar à malta
e indo a casa do pai, honrado velho,
à sós, na sala, em frente de um espelho,
a própria imagem disse em voz bem alta :

– Tertuliano, és um rapaz formoso!
És simpático, és rico, és talentoso…
Que mais no mundo se te faz precioso?

Penetrando na sala, o pai sisudo
que por trás da cortina ouvia tudo,
severamente respondeu : – Juízo.

E de que outra maneira um de nossos patronos, o saudoso poeta e compositor Mario Rossi (1911/1981), poderia expressar seu humor se não por meio da cadência de um soneto como fez pelo DIVINO ERRO:

Cansado de curtir o dia-a-dia
sem qualquer atração do Paraíso,
o Criador resolveu que era preciso
sair da fossa e da monotonia.

Com a argila celeste, de improviso,
compôs um alto estudo de estesia,
modelando a mulher, que lhe surgia
com a graça e a malícia de um sorriso.

Previu que ali forjava a sua fama
mas, com o molde ainda inacabado,
sentiu-se exausto e se jogou na cama.

Foi seu erro… o sono foi funesto.
Mefisto, apologista do pecado,
aproveitou a chance… e fez o resto.