Contos

A DECISÃO

Niquinho saiu mais cedo de casa. Aquela manhã de sábado, clara e colorida, estava reservada para o início da concentração da equipe. A grande decisão seria no domingo. Sua equipe, ostentando uma invencibilidade até quase o final do segundo turno, baqueara ante um dos mais fracos concorrentes, porém, mesmo assim, ainda se conservava na liderança, seguida um ponto atrás pelo seu adversário do dia seguinte. Um empate apenas e a taça estaria nas mãos.

Niquinho era o astro principal do time, centroavante com posição garantida na seleção nacional, artilheiro absoluto da competição, ídolo da torcida do clube e da própria seleção.

Desceu a longa ladeira, saudado aqui e acolá pelos comerciantes, pela garotada, atingiu a primeira esquina e logo estava enfiado em um lotação. Diante do clube, saltou, apanhou um jornal na banca, abriu na página de esportes, que estampava seu retrato; na manchete : “Niquinho, o artilheiro absoluto, vai arrebentar amanhã!” Leu as primeiras linhas da notícia: “Niquinho confirmará a sua qualidade de goleador de ouro do Rio de Janeiro e do País. A partida de amanhã será um prélio sem surpresas. O Vesúvio será o campeão porque Niquinho é insuperável e garantia certa de gols; é um atleta que joga praticamente sozinho; um grande fenômeno do futebol da atualidade.

Foi saudado, quase em reverência, pelo porteiro do clube, o Maneco, que fora um ídolo do passado; o largo portão foi aberto de par em par.

– Com ´é, Niquinho, amanhã seremos os campeões! Quantos gols promete?

– Quero fazer, no mínimo, dois. Tô de olho na artilharia.

– Dois é moleza, no Fausto, que anda pegando vento!

– Pois é… Ai, Maneco, você acha barbada?

– Barba, bigode e cavanhaque, com direito a loção.

-Tá bom. Vamos lá.

Niquinho foi recebido, no vestiário, pelo presidente do clube. O estereótipo de sempre: barrigudo, pouco cabelo, passeio completo amarfanhado, sem faltar o charutão no canto da boca. Abraço, tapinhas, afagos no rosto, perdigotos esvoaçando. Uma babação enorme.

– Niquinho, hoje é pra arrebentar no treino e amanhã o dia do tetra!

– Vai ser mole, doutor!

– Tem que ser, Niquinho, tem que ser…

– Teje certo, doutor, o tetra é nosso!

– Assim é que se fala!

Abrem a porta do vestiário e jornalistas entram nos esbarrões e empurradelas, seguidos por funcionários do clube tentando segurar a avalanche. Em vão. O visado é Niquinho. Ninguém quer entrevistas ou papos com os demais jogadores que trocam de roupa.

– Niquinho! Niquinho! Niquinho!

– Um de cada vez… um de cada vez…

– Niquinho, quantos gols amanhã?

– Uma exclusiva para a Rádio PRD.88!

– Quanto vai ser a partida?

– O pé está calibrado, Niquinho?

– Gente, deixa passar a câmara. É do Canal 100, por favor!

– Niquinho…

A dança continua por algum tempo, Niquinho sua, não agüenta tanta pressão, vai se esquivando, abrindo espaços, penetra numa das portas do banheiro e passa o trinco. Acumulam-se todos diante da estreita porta, alguns tentam penetrar no cubículo pelo corte baixo e outros saltam para obter uma visão do jogador. Os seguranças começam um empurra-empurra, recuam os repórteres, os câmeras, os fotógrafos, todos saindo quase de um único empurrão, em bloco maciço. Fecha-se o vestiário. Lá fora arma-se uma confusão, sobrando pancadaria, máquinas fotográficas quebradas. O espaçoso massagista distribui socos, leva, dá, apanha, bate. O treino é realizado com portões e acessos ao campo bloqueados.

Terminado o treino, todos se unem na concentração, tomam banho, jantam e sobem para os alojamentos. A recomendação é que durmam cedo, mas eles preferem relaxar.

– Bem que podia ter uma televisão aqui.

– É, podia.

– Mas não tem. Pega o baralho ai e vamos jogar um pouco.

– Niquinho vai dormir cedo.

– Vai mesmo. Tem que acordar descansado.

– Os caras não vão dar para a saída, enfiamos uns 4 gols neles!

– Moleza.

– E se baixarem o pau?

– Baixamos também.

– Eu vou dar uma escapada. Tem umas minas esperando – revela o Juvenal.

– Não sai, não, cara. Vai dar galho!

– Que galho?! Quem vem comigo?

– Eu.

– Eu vou.

– E eu.

– E eu – diz Niquinho.

– Tu, não! Tu fica!

– Porque não posso? Eu vou, sim!

– Ta bom. Quem vem, vem.

– Vamos.

Saem seis jogadores, subornam os seguranças, e seguem para Vila Mimosa. A noitada é alegre, louca, bebidas, mulheres, um relaxamento total que dura toda a madrugada. Retornam direto para os chuveiros enquanto o domingo vai amanhecendo, claro, limpo, em dia abençoado.

Almoço, recomendações do presidente do clube, preleção do Dadinho, o técnico tri campeão, que não poupa confiança:

– Olha ai, hoje é pra arrebentar. Quero uma goleada pra gente sair daqui com o tetra e todo mundo valorizado. Quem fizer corpo mole eu tiro na hora. Jogo de macho! Juvenal cola no Armando e se a coisa engrossar quebra a perna dele. O cara não pode fazer gol na gente. É questão de moral! Niquinho, lá na frente, nada de buscar bola aqui atrás; fica lá que a bola vai chegar; cava pênalti, simula falta, faz o coitadinho que a torcida gosta! O jogo é nosso, pra cabeça! Vamos ganhar de vinte, trinta, quero goleada! Juvenal no Armando; Colé gruda no Sidônio; Pixe vigia toda a área e cuidado com o pênalti, crioulo, tu é meio desastrado; a área pequena é do Roger, ninguém pula com ele na dividida. Bom, todo mundo dá bola pro Niquinho, lá na frente. Vamos lá!

O estádio está lotado. Faixas, cartazes, fantasias, máscaras, camisas do Vesúvio em mais de 70% da torcida, num vermelho quase total. Fora, uma briga pelos ingressos, outra para penetrar no estádio, a PM de cassetetes desembainhados, provocações, empurrões, o clima é quente e aceso. O acesso à arquibancada está entupido e o empurra-empurra não poupa ninguém.

É um clima verdadeiro de decisão, com todos os ingredientes.

Locutores de rádio, nas cabines, espicham cabeças, falam e falam, para manter os ouvintes de casa mais próximos do espetáculo, ponderam, escalam os times, alimentam boatos, na técnica de mestres da informação. O mesmo com as tevês.

Os times entram em campo e ninguém ouve mais nada senão fogos, rojões, morteiros, gritos e os locutores, acendendo a fogueira da imaginação, conferem ao espetáculo um colorido de emoção surrealista e fantástico. Repórteres de campo cercam os jogadores e Niquinho não consegue passar da entrada do vestiário, abafado, esmagado, machucado por microfones, molhado por perdigotos, empurrado, espremido, sem condições dos seguranças afastarem os repórteres e bicões que o cercam.

– Niquinho! Niquinho! Niquinho!

– Uma palavrinha, Niquinho, para nossos ouvintes da PRD.88!

– Niquinho, quantos gols vai fazer hoje?

– Niquinho, manda um recado para os torcedores…

– Niquinho! Niquinho! Niquinho!

Como resolver? Entra a velha violência do cassetete, os empurrões violentos, gente no chão, tumulto, protestos, xingamentos, até a coisa ir se acalmando com os policias esvaziando o campo.

Niquinho está assustado e entontecido, reunindo-se aos jogadores para o clássico retrato e, em seguida, a espera do apito inicial.

– Piiiiiiiiiiiiiii – e o jogo começa.

Duro, disputado, desleal, o adversário trunca todas as jogadas do meio campo para trás, em marcação individual, sobrando lances violentos que o juiz, de início, deixa passar até pespegar uma profusão de punições de faltas, com advertências, dedos na cara, discussões, cartões amarelos, mas sem expulsões, atendendo recomendação dos promotores do espetáculo e de empresários. Niquinho não anda, não consegue receber passes, perde bisonhamente o controle da bola, fica lá na frente perdido entre poucos jogadores do Vesúvio e marcação impiedosa dos adversários. Ele está entontecido pelo calor da luta e pela noitada da madrugada.

Em um contra-ataque rápido, no final do 1º tempo, o Sambaqui pega a defesa do Vesúvio batendo cabeças e marca um gol, com forte chute do meia Zezé. O bandeirinha confirma, os jogadores do Vesúvio reclamam irregularidade. O árbitro indica o meio de campo. Gol validado: 1×0 para o Sambaqui. Na saída da bola, termina a primeira etapa.

No vestiário do Vesúvio, a gritaria, o desentendimento, o nervosismo e a pressão do presidente sobre todos e em cima do técnico, exigindo garra para o segundo tempo.

E o jogo recomeça. O clima é o mesmo e vai se deteriorando. Uma expulsão para cada lado quando trocam socos e empurrões Juvenal e Tico. Perecendo argentinos esquentados e milongueiros, os jogadores do Sambaqui simulam contusões, caem e ficam esticados no gramado, vão deixando o tempo correr, até que Niquinho dá uma furada espetacular, dentro da área em uma bola com açúcar mal rebatida pelo zagueiro; cai, simula contusão, enquanto a torcida grita:

– Burro! Burro! Burro!

Niquinho continua marcando presença em campo, sem bola, sem chutes à meta, morto na grande área, até levar uma cotovelada do Simplício, caindo no gramado. Levantando-se, parte para a agressão e engalfinha-se com o adversário. Expulsos. A torcida vai à loucura, xinga, grita, joga objetos no campo e uma garrafa atinge a cabeça de Niquinho, que está saindo próximo à entrada do vestiário. Desmaia, é carregado, o médico constata gravidade em seu estado.

No hospital, Niquinho vai para a CTI, sofre cirurgia. Entra em coma irreversível.

No estádio, o Vesúvio perde o tetra campeonato para o Sambaqui, que vence por dois a zero. A torcida xinga e berra contra o time, o técnico, a Diretoria e, principalmente execra Niquinho.

A coma traz a morte e o ídolo deixa o gramado da vida, após dois dias de esperança.

Os jornais e rádios fazem a sua parte. Dão grande destaque ao jogador, abrem colunas de enaltecimento, o que não comove boa parte da torcida frustrada.

– Merecia morrer, sim!

– Bem feito, teve o castigo certo!

– Menos um pra enganar a gente!

– Niquinho já era, já foi tarde!

O estádio, vazio e silencioso, é invadido por uma garoa fina que umedece o gramado, enquanto um quero-quero bica os seixos para continuar a vida.

J. Eloy Santos – Cadeira 24, patrono Joaquim Heleodoro Gomes dos Santos