Crônicas

* Fernando Costa

Você tem a beleza de jovens aos 15 anos, embora na contagem do tempo 169 anos a contemplem. Exala o hálito puro da serra e, insinuante, deixa despir-se pelos raios do sol revelando-se a cada momento mais encantadora, atraente, convincente e perfeita no conteúdo e na forma. Serração e aragem misturam-se à neblina, e vejo-a envolta em véus como Eleusis… Petrópolis, celeiro de poetas, de gente bonita que trabalha, estuda e produz….Petrópolis, Cidade Imperial das Américas. Nós nos orgulhamos de você! Abraça, aquece, acolhe, acalenta, ama e alimenta quem a procura. Cidade charmosa, de clima ameno, onde até o frio é motivo de felicidade e contentamento. Ar aristocrático, no entanto grande, nobre, simples como os sábios. Possui em seu brasão as seguintes inscrições: “Altiora Semper Petens” – mantenha-se sempre nas alturas! Traduz a alma e índole de seu ordeiro povo. Bela tanto em suas linhas sinuosas ou retas. Respira cultura. Não é somente cidade das hortênsias, mas dos lírios, agapantos, bromélias, azaléas, buganvílias, amores-perfeitos, camélias, magnólias, ipês-roxo, róseos e amarelo, orquídeas e rosas em mil tons dentre outras a enfeitarem este imenso jardim de Deus. Suas palmeiras Imperiais dão um toque de dignidade e fidalguia que só fica bem em você. Petrópolis, síntese do amor. Tudo é belo nesta serra da Virgem de Fátima a nos abençoar. Não vejo qualquer infidelidade a meu rincão natal – Três Rios, (de lá, tenho uma porção de lembranças imorredouras), mas concordo plenamente com meu confrade e amigo professor Geraldo Ventura Dias quando em momento de rara felicidade exprimiu no hino de Petrópolis: ”quem pensa que é feliz em outra terra é porque, ainda não viveu aqui”. Sempre crio um pretexto quando a trabalho ou lazer e incluo no trajeto Araras, Cremerie, Bingen, Fazenda Inglesa, Corrêas, Samambaia, Quitandinha, Itaipava, Cascatinha, Nogueira, sem falar dos belos recantos do centro. Que a municipalidade precisa aprimorar e ampliar sua infra-estrutura turística, sobretudo hoteleira, é evidente, mas negar o progresso de Petrópolis é impossível. Que suas indústrias e comércio convivam em harmonia, sem, contudo afrontarem seus traços históricos, sua tradição, arquitetura e arte. Não hesito em afirmar que encontrei o paraíso ainda em vida. Mercê dos céus, temos, sempre que possível percorrido o mundo, mas nem os encantos de Atenas, Paris, Cairo, Lisboa, Cascais, Tóquio, Kyoto, Nara, Belém, Jerusalém, Jericó, Roma, Londres, dentre outros, embora me fascinem, são capazes de ocupar o lugar de destaque somente pertencente a você Petrópolis. Aos domingos, enquanto caminho até a Catedral para a missa das 11h: 30 paro indefinidamente e admiro as carruagens cumprindo sua festa diária. Em Petrópolis, durante certa época do ano mansões fecham-se; no verão, sobretudo, vestem-se de luz e o espetáculo é total. Que belo passearmos pela Köeler, Ipiranga, Santos Dumont… Ainda mais no Natal, Petrópolis resplandecente nos fez chorar de emoção. Um sonho transformado em realidade. Seu verde é inigualável, suas ruas possuem um quê de mistério. O Palácio Rio Negro, deslumbrante, sob holofotes multicoloridos tem recebido suas Exas. os Presidentes da República, grande parte do Ministério, Governadores de Estado e muitas outras autoridades nos mais diversos escalões. Lembro-me o ano de 96 quando reviveu antiga tradição de nossos Presidentes Getúlio Vargas, Costa e Silva como a exemplo do Presidente Fernando Henrique Cardoso e Sra. Ruth, bem assim o Presidente Lula e Dona Marisa em rápida estadia em 2008, dentre outros, trouxeram não só a alegria e reavivamento do mundo social e prestígio da encantadora musa inúmeras vezes capital do país. Na verdade, é o “altar que Deus quis construir na natureza”, foi também de 1894 a 1902 capital do Estado do Rio de Janeiro. Aqui recebemos lições diárias. Casas e monumentos históricos, a Catedral de São Pedro de Alcântara, onde repousam nossos Imperadores D. Pedro II e Thereza Cristina, suas Altezas Imperiais Princesa Isabel, Conde D’Eu, dentre outros membros da Família Imperial Brasileira, inúmeros bustos e referências memoráveis. A Casa de Cláudio de Souza abriga o Silogeu Petropolitano. Ali estão, instalados o Instituto Histórico de Petrópolis, Academia Petropolitana de Letras, Academia Petropolitana de Educação, Academia Brasileira de Poesia – Casa de Raul de Leoni e a Academia Petropolitana de Letras Jurídicas. Petrópolis dos palácios, Museu Imperial, (agora apresentando belíssimo espetáculo Som e Luz), do Grão Pará, do Castelo de Itaipava, Palácio de Cristal, dos Correios e Telégrafos, antigo prédio do Fórum plenamente restaurado que atualmente deu lugar ao CEFET. Petrópolis do Trono de Fátima, onde predomina a fé e a beleza arquitetônica. Petrópolis do internacional Palácio Quitandinha! Petrópolis localizada no alto da Serra da Estrela, 840 metros de altitude, 1.080Km2 de clima ameno e verões brandos. Petrópolis do Orquidário Binot, da Casa do Colono, de nossos Canarinhos, dos Corais: Municipal de Petrópolis, da UCP, das Meninas Cantoras, do Contraponto; do 32º BMTZ, do Seminário Diocesano, da Imprensa, Rádios e TV, dos templos como, por exemplo, o Luterano, Batista, Metodista, Matriz de Cascatinha, do Convento Sagrado Coração de Jesus, agora com seus traços originais, a Capela do Amparo, da Congregação Mariana, do Mosteiro da Virgem, da Notre Dame de Sion, de Oxossi, de Alan Kardec, dos Clubes Campestres e Sociais. A Universidade Católica, adornada pelo relógio de flores, são meus amores. Lá estudei. Lá fiz amigos. São tantos e inúmeros profissionais do Direito, Engenharia, Economia, Ciências, Computação; Petrópolis da Faculdade de Medicina; Petrópolis das artes plásticas, cênicas (TEP, Monah, etc.), esportes, dança clássica e moderna. Petrópolis tem tudo para ser o maior centro de turismo da América do Sul. Orgulhamo-nos de nosso Imperial Museu, fruto da dedicação de Alcindo Sodré, criado em 29 de março de 1940 e inaugurado em 16 de março de 1943. Muito devemos creio eu, também, ao professor Lourenço Luiz Lacombe e a todos os seus sucessores, inclusive à direção atual na pessoa do Professor Mauricio Ferreira, também Coordenador de História da UCP. Inúmeros profissionais que formam a enorme constelação cultural de nosso país passaram pelos colégios São Vicente, Sion, Instituto Social São José, Escola Ipiranga, Plínio Leite, Werneck, São José, D. Pedro II, Aplicação, Epa, Liceu Municipal, Colégio de Cascatinha, Santa Isabel, Cultura Inglesa, Aliança Francesa, Opção, Instituto Metodista e tantos mais. Elevada à cidade em 16 de março de 1843, sob as bênçãos e vontade de nosso magnânimo Imperador Dom Pedro II e graças ao pulso firme e senso estético, arquitetônico e idealização do engenheiro Júlio Frederico Köeler, sem nos esquecermos do empenho do mordomo Imperial Paulo Barbosa. Petrópolis em relíquias do império, com muita justiça um dos mais belos cartões postais do Brasil. Petrópolis da Bauernfest e de nossos queridos colonos alemães, italianos, portugueses, franceses, africanos… Petrópolis, eterna poesia, minha rainha, a quem prometo ser fiel e amá-la ainda que me faltem todas as forças porque possui a pureza de mãe, o ombro amigo se choro, os braços estendidos se sorrio. Petrópolis que me adotou como se filho fosse, Petrópolis de onde não sairei – jamais. Bom Dia Petrópolis!…


Formal – Informal

Gustavo Wider

Não sei se todas as mulheres são assim, se têm o mesmo cuidado; se fazem sempre o mesmo problema na hora de se arrumar para um evento social. Ela é . Já há mais de quinze dias vinha preparando sua vestimenta, finíssima, para ir àquele casamento. Fazia questão de ir muito bem apresentada. Depois de muito pesquisar, provar, experimentar e ouvir a opinião de pessoas que ela tem em bom conceito no que tange a bom gosto para se vestir, decidiu-se por um ‘ tailler’de seda pura de um cinza claro, de fato muito bonito. Em seguida passou para o capítulo ‘jóias.’ Escolhe daqui, escolhe dali, o que combina, o que não combina, até que finalmente decidiu-se por um jogo de brincos e pendentes de ouro com esmeraldas inquestionavelmente belos. Mas ainda restavam umas pequenas dúvidas… Teria ainda que comprar um par de sapatos e uma carteira que combinasse com a roupa. ” Mas, Será que está tudo bom mesmo? Será que não vou ficar parecendo muito ” perua? ” Nem “muito brega “? E tirava novamente tudo, e vestia tudo outra vez. Até que finalmente chegou o convite formal para o casamento. Até então estava tudo na base da conversa fiada. Mas o convite era lindíssimo. Só que só a si mesmo dava o direito de ser formal, para tudo o mais estava dito claramente no convite: traje informal. Para os homens a questão é simples: Formal é com gravata, informal, sem gravata. Mas para mulher não é tão simples assim… E recomeçou o sofrimento; bota e tira, avalia. E essa? É formal? É informal? E havia ainda a questão frio-calor. Vai fazer frio ou vai fazer calor? E radicalizava: “vou morrer de frio ou ficar cozida?” Só com uma coisa ninguém contava – com a chuva. Quando chegamos ao local do evento batia água que era um Deus nos acuda . E aí já pouco importava se estava ‘brega ou ‘perua’. Nenhuma roupa assenta bem debaixo de um temporal.


Ainda sobre cabelos femininos

II

Gustavo Wider

O assunto ainda é cabelos e sexualidade feminina e o texto que escrevi sobre esse assunto. Continuo recebendo mensagens, ora de aceitação, ora de contestação das ideias ali veiculadas. Algumas até cheias de indignação. Exemplos me foram remetidos para que eu os comentasse. O primeiro foi o de uma jovem aparentando 20 anos, cujos cabelos lhe desciam até quase os joelhos. Outra pedia diferenciação entre cabelos lisos e ondulados. Chegou-me também um comentário sobre mulheres de outras etnias, as orientais, cujos cabelos têm que ser, por tradição, vedados ao olhar masculino. Para tanto são recobertos com um véu desde que a natureza as faz mulher. Exporem seus cabelos é como mostrarem-se nuas. E há que considerar-se que os povos árabes são muito mais antigos do que nós, os ocidentais e têm certamente alguma boa razão para conservarem essa tradição. Uma coisa parece verdade indiscutível: cabelos para mulher é coisa séria, e eu não poderia mesmo pretender tocar nesse assunto sem provocar irritação , ou mesmo a indignação de algumas delas contra mim. Reitero o que já disse no início desse texto, agora com renovada convicção; ( a Gigi que me perdoe) Os cabelos femininos; a forma como se apresentam e como são tratados, tem tudo a ver com sua sexualidade. Voltemos ao início e consideremos a moça de cabelos muito crescidos. Não é coisa normal e não deve ser da preferência da moça em questão. Mais parece um pagamento de promessa feita pela mãe. Imaginemos uma coisa assim: a criança nasce doente e a mãe, sem outro jeito a dar, faz uma promessa a uma divindade qualquer prometendo não cortar os cabelos da garota até pelo menos que complete 21 anos de idade. Em troca da saúde dela. Mas, ainda assim, tem uma conotação sexual, posto que a mãe sabe, ou intui, que os cabelos são a ‘moeda mais valiosa’ que ela tem para negociar com a divindade. Oferece a ela os cabelos da moça que têm, nesse contexto, o sentido de virgindade. Verdade é que cabelos presos significam sexualidade contida. Mulher usando coque então não tem salvação.


Conversa de Mineira

Gustavo Wider

Falava-se do hábito de almoçar rigorosamente ao meio-dia, nosso hábito. Para alguns cedo demais, já para outros, nem tanto… Maria, mineira de corpo e alma, entrou na conversa enquanto nos servia o almoço:

– “Lá na roça, onde nasci e fui criada, sabem a que horas era servido o almoço?”( Lá se dizia ‘tirar o almoço’ ) Não , eu não sabia, mas pensei cá com meus botões:

-Lá para as dez horas …

– “Às oito da manhã.”

E eu, surpreso: Oito da manhã?

– “É isso aí, às oito da manhã. O pai levantava cedo, escuro ainda, e descia para tirar leite das vaca. A gente, criança, ia tudo atrás para tomar leite cru no curral e depois ajudá na plantação. Quando o dia clareava a tropa tava de volta do roçado, tudo cansado e faminto. E aí era hora do almoço. Arroz com feijão, farofa de carne seca, uma verdura. Uma vez por semana era carne de porco, criado e abatido lá mesmo no sítio, os pedaços conservados em latões na própria banha do animal. Tudo o mais que a gente comia era plantado e colhido lá mesmo.”

– E se o almoço era servido às oito, o que se fazia no resto do dia em questão de comida, interessei-me. – “Ao meio-dia a gente lanchava, uma caneca de café com leite, broa, ou um pedaço de angu, essas coisas boas da roça… ”

– E vocês não ficavam com fome?

-“ Bom, criança tem sempre fome…Mas, às três da tarde era servido o jantar. Arroz com feijão outra vez , aipim cozido, milho cozido, às vezes um ovo para cada um, isto é, quando as galinha do terreiro anunciava que tinham obrado algum. Quando a tarde caía, era hora de dormir. Meu pai, depois de se lavar na bica que havia atrás da casa, dava de mão na sanfona e, sentado na soleira da porta, esperava o cair da noite dedilhando e cantarolando umas modinha que eram a única diversão musical de nossa infância.

Como lá não tinha luz elétrica, não tinha também televisão, nem rádio, nem nada… Mas de qualquer forma foi uma infância muito feliz, a minha . Nos dias de calor tinha os banho de rio, onde a criançada se divertia pra valer. E, em noites de luar, quando o terreiro ficava claro que nem espelho, a gente grande dançava ao som da sanfona do pai e do violão de seu Sebastião. A criançada brincava de pique-esconde, quando não sentava tudo quieto aos pé dos adulto para ouvir, trêmulo de susto, as conversa de gente morta, assombração, mula-sem-cabeça e outras coisa parecida. Minha mãe servia então broa, doce de leite com queijo, tudo feito lá mesmo, e sempre alguma fruta do sítio. Era aquela a última refeição do dia.

Que saudade que eu tenho desse pedaço bom de minha vida”, suspirou ela enquanto recolhia os pratos em que havíamos acabado de almoçar.

Olhei o relógio: uma e pouco da tarde. Para ela, já era quase hora do jantar…


Grilo

Gustavo Wider

Nessa noite estava sentado junto à janela do escritório de minha nova moradia citadina, pensando nas coisas que me aconteceram nos últimos tempos( não tem jeito , tenho que voltar ao tema, já tão batido, de minha mudança) quando fui surpreendido por um ruído familiar que há tanto tempo já eu não ouvia. Não podia acreditar… Não é possível! Aqui nesse décimo andar? Não é possível ! Afiei o ouvido e esperei um momento de trégua em toda aquela barulhada vinda de fora: ônibus atrás de ônibus, motos acelerando ruidosamente, carros e mais carros e tudo o mais. De repente voltei a ouvi-lo… O grilo. Que saudade de minha casa! Lembrei-me de tudo que a cercava nessas quentes noites de verão. A várzea infestada de vaga-lumes, o longínquo rumor do riacho, o coaxar da saparia no brejo, os escandalosos gritos das seriemas que saíam em bando pelas várzeas, antes mesmo do amanhecer, com suas longas e finas pernas , e no escuro silêncio das noites embalsamadas, esse mesmo ruído que ouço agora entre buzinas, freadas bruscas e bruscas aceleradas.
Aquilo era para mim como um cântico que eu ouvia em fervorosa devoção.

Como um pensamento puxa outro e uma emoção desperta outra, fui lembrando da minha casa: o perfume da minha magnólia que estendia seus verdes braços através das janelas de minha varanda, os cachos amarelos da minha saracuruna, árvore que eu mesmo plantei tão logo a casa ficou pronta e passei a residir nela. Verdade é que minha saudade aumenta com a proximidade do verão, e o verão vem vindo… Dentro de poucos dias estará chegando. Já mandou vários recados . Já mandou a primavera lavar com as últimas chuvas as terras empoeiradas… Ontem mesmo uma faísca luminosa cortou o céu de fora a fora com um estrondo fenomenal como que fendesse a terra ao meio, mas foi só um aviso… É o verão que vem chegando. Está esquentando seus fornos, acendendo seus maçaricos, juntando suas águas, arrebanhando as cigarras, treinando as andorinhas e, sobretudo, chegando com seus grilos. Esses mesmo grilos que tantas saudades me trazem.


PARKINSON

I

Gustavo Wider

Isso será menos uma crônica do que um depoimento; menos um depoimento do que uma confissão; menos uma confissão do que um simples relato; isso, será um simples relato. Então, vamos adiante: Sempre foi minha intenção, desde a fase mais remota da adolescência, envelhecer com lucidez plena, isto é, saúde da mente, do corpo e do espírito: pensava em dar a todos um exemplo de envelhecimento. Daí que entrei pela mocidade perseguindo esse ideal. Quando criança estive em colégio interno onde todos os garotos -todos- fumavam abertamente ou escondidos, e eu, nem então, nem depois, jamais experimentei sequer um cigarro. Aos quinze anos de idade, tendo ouvido a exposição de um médico sobre os recém descobertos malefícios da alimentação gordurosa, não fiz por menos: decidi ali mesmo que jamais poria aquilo na boca – um torresmo, um embutido, um churrasco gorduroso, miúdos seja lá do que for, etc. Além disso fazia tudo que era sabidamente recomendado para manter-me em estado de saúde plena, como exercícios diários, longas caminhadas, extensas pedaladas; praticava natação e montanhismo e nunca subia de elevador podendo subir de escada. Conclusão; tinha a almejada saúde plena. Pressão arterial invariavelmente doze por oito; glicose na faixa de oitenta, assim como tudo o mais no quadro clínico. Tudo perfeito! Ultrapassei os sessenta de acordo com meu projeto de envelhecer com saúde plena, de ser um velho exemplar. Um dia, porém, tomando uma chuveirada de água quente, reparei que meu braço direito ficava um pouco mais retesado de que o outro. Aquilo chamou-me a atenção por um instante mas ainda não me passava pela cabeça a possibilidade de uma doença qualquer.
A segunda coisa que reparei foi uma grande alteração na minha escrita; era-me quase impossível manuscrever. Passado um ano ou mais, começava a ter dificuldade para caminhar. Foi quando resolvi pela primeira vez consultar um médico. Tínhamos então o, assim chamado, médico de família – coisa de antigamente -, que resolvia desde unha encravada a parto de última hora… E, corajosamente, expus-lhe meu receio: Dr., eu acho que estou com Parkinson.
Ele, que conhecia meu quadro clínico e meu projeto de saúde,
não quis aceitar as evidências e retrucou: Impossível; se vc estiver com uma doença qualquer, como Parkinson por exemplo, eu rasgo meu diploma! Ele não rasgou seu diploma mas meu receio se confirmou. Passei a ser conduzido por um neurologista. Nos primeiros anos o medicamento surtiu bom efeito e o quadro sintomatológico não evoluiu. Continuei a caminhar mas, com muita tristeza, cada vez pior. Pouco a pouco era vencido pela doença e o medicamento era ministrado em doses cada vez maiores.
Nove anos depois de ter sido detectado em mim o Mal de Parkinson, já quase não conseguia andar . Por sorte , não se manifestava em mim o tremor característico desse Mal, mas principalmente, a rigidez muscular . Já andava apoiado em uma muleta e aprendia o valor da humildade em aceitar a mão das pessoas para atravessar a rua ou levantar-me de uma poltrona.
Foi quando ouvi falar de uma cirurgia intercraneana que era a última descoberta para o tratamento do Mal de Parkinson.
Era minha última esperança para retomar o caminho da saúde.


PARKINSON

II

Gustavo Wider

Informei-me em diversas fontes e com diversos especialistas sobre a tal operação intracraneana indicada para o mal de Parkinson. Procurei informar-me também através de sites da internet onde se encontram informações a respeito. Confesso que sempre a achei um tanto assustadora. Isso de fazer dois furos na cabeça – e sem anestesia – pelos quais se inserem dois eletrodos para achar um ponto certo sobre o qual se aplicam estímulos eletrônicos não me parecia brincadeira. Mas apeguei-me a essa idéia por saber ser a única chance que me restava para recuperar a mobilidade das pernas e assim voltar a caminhar mais ou menos bem, embora esteja cônscio de que não seria a cura definitiva do meu mal, que isso bem sei que não existe. Procurei estabelecer contato com o médico especialista nessa operação.Causou-me muito boa impressão a seriedade e a objetividade daquele cientista, segundo o qual minha saúde perfeita e a forma como a doença se manifestara em mim, ademais como reagi ao uso do medicamento, tudo fez de mim um paciente perfeito, isso é, próprio para ser submetido à sua técnica cirúrgica, com chance de ser bem sucedido. Concluí que nem todos os sofredores desse Mal têm indicações para esse extremo apelo. E olha que o Parkinson não é brincadeira, trata-se de doença degenerativa incurável. É um mal terrível. Lembra-me ter visto meu avô materno morrer desse mesmo mal ( penso que ele me passou isso por doação genética), só que nele a doença se manifestava com um intenso tremor diferentemente do que acontece comigo que ela se manifesta principalmente pela rigidez. Mas, o que eu espero dessa cirurgia é que eu passe mais uns quatro ou cinco anos podendo andar normalmente. E volte a pedalar pelas sinuosas trilhas de Araras, como fazia antes.
III
Eu já estava internado no hospital e , no dia seguinte seria operado. O dia finalmente chegara. Chegara o momento. Minha maca deslizava, célere, pelo corredor em demanda da sala de operação. Lá chegando, tentei vislumbrar algo ou identificar o médico que me ia operar. Em vão. Mas logo reconheci o anestesista pela voz. Ele puxava conversa comigo, falava de bicicleta, perguntava qual era a marca da minha, etc. Logo percebi que o procedimento tivera início. Fui levado rapidamente a outra sala onde me submeteram a outro exame de ressonância magnética para constatar a exata localização dos eletrodos. Pude perceber o entusiasmo da equipe que me operava . Pareciam todos confiantes e satisfeitos. Demorou nada menos que 13 horas todo o procedimento. Depois disso fui direto para o quarto, onde pouco depois, foram todos os da equipe me cumprimentar pela coragem demonstrada , o que muito contribuira para o sucesso da cirurgia. Sentia-me bem e estava muito animado. As pessoas que vinham chegando para me visitar demonstravam surpresa e alegria pelo jeito como me viam . Tudo indicava que eu estava ótimo. Mas ainda teria um longo caminho a percorrer…


Terapia da velhice

Gustavo Wider

Quase todas as assim chamadas terapias da velhice têm um quê de ridículo. Excluindo certamente uma boa caminhada, uma corrida moderada, uma pedalada, ou algo lúdico como uma peteca jogada alegremente nas areias da praia, quase tudo o mais soa, mais ou menos, como uma tentativa de negação da própria realidade, isto é, da idade que se tem, o que acaba sendo ridículo. Assisti hoje pela manhã num daqueles ótimos programas que antecedem o “Bom dia, Brasil” ao que talvez seja a mais esdrúxula de todas: a terapia do riso’, que consistia em juntar um punhado de mulheres já bem adiantadas no quesito idade e forçá-las a darem gargalhadas a troco de nada. Em alguns momentos pareciam uma confraria de bruxas. Segundo pude observar, a coisa funcionava mais ou menos assim: Após umas sugestões dadas pela professora terapeuta, passavam a olhar uma para a cara da outra e desatavam a dar risadas, a gargalhar estericamente sem qualquer razão cabível e, o que é pior, sem espontaneidade. E assim ficavam por mais de meia hora. Finalmente, ao término da seção, davam depoimentos dando conta de que estavam se sentindo muito melhor. É sabido que a alegria é, de fato, algo extremamente salutar; que rir faz bem à saúde de um modo geral, que o que o riso exercita os mesmos músculos da face que fazer careta, sobretudo que bom humor é uma dádiva dos céus. Até aí tudo bem, mas uma mulher gorda, flácida e encarquilhada dizer que está se sentido jovem: “Sinto-me como se ainda estivesse 30 anos de idade…” e que nem se dá conta da idade que tem (essa, por acaso, tinha 70 anos confessos) aí também é demais!
A impressão que me ficou é que boa razão para rir quem teria era professora que fazia disso a matéria de sua aula e recebendo por ela uma boa grana.
Primeiramente é preciso considerar que velhice não é doença que careça de terapia, antes é uma fase da vida que traz consigo algumas dificuldades e limitações, assim como também a própria adolescência.
Mas sempre que toco nesse assunto o que me vem à memória é o exemplo de meu pai, que não era o que se poderia dizer uma pessoa didática, mas foi com quem aprendi as duas ou três coisas mais importantes da vida, inclusive isso de lidar com a velhice. Dizia ele:
-“ A pessoa tem sempre que fazer planos, tem que ter uma meta, um objetivo qualquer a que se dedique e pelo qual se empenhe. Quem não tem um objetivo anda em círculos e nunca chegará a parte alguma” Quando ele me disse isso tinha 92 anos e só falava de seus planos para o futuro.
Manter-se ocupado era outra das coisas que pregava. Ocupado de corpo e mente. A última vez que o vi em vida, estava ocupado, trabalhando.
A ociosidade, dizia, é o caminho certo pelo qual a morte chega.


Crítico literário 

Gustavo Wider

Lembra-me bem e sempre com saudosa memória, meu primeiro crítico literário. Felizmente não era daqueles que ganham a vida desancando em jornais e revistas os pobres escritores ou poetas principiantes. Tinha eu então dezoito anos de idade e meu primeiro crítico literário revelou-se o mais gentil, o mais delicado dos críticos. Já não me recordo de como vim a conhecê-lo mas, provavelmente foi mais um daqueles favores que meu saudoso amigo, dr.Lauro Sodré fazia por mim:
-“Você sabe que aqui pertinho mora um crítico literário muito conceituado? ”
Eu não sabia. Mas verdade é que numa manhã de domingo baixei em sua casa,ou melhor, em seu sítio aqui mesmo em Araras, sobraçando um punhado de poemas meus. Coisa que só faz mesmo um jovem suficientemente ingênuo e idealista, como eu era então, para julgar que alguém poderia mesmo se interessar pela poesia de um principiante. Mas o dr. Tostes Malta, que era também juiz , desembargador,creio eu, com toda a pinta de Ministro, acumulando a função de crítico literário para um dos jornais do Rio, disse-me delicadamente que os deixasse lá, iria examiná-los. Que eu voltasse no próximo domingo. Assim fiz. Quando voltei, após uma semana de ansiedade, ele me recebeu na varanda da casa, sentado numa cadeira de balanço e foi logo dizendo : “Que susto você me deu! Pensei que seus versos seriam mais uns daqueles de que não se pode dizer nada…” E, destacando do conjunto um soneto que tinha como título “Triste”, comentou: “Tristeza literária”. Nada mais. Devolveu-me o conjunto dizendo apenas: continue a escrever. Nada mais disse nem falou. Mesmo assim saí de lá naquela manhã de domingo com a sensação de que ele havia quebrado a ostra de minha poesia e tirado de lá aquela pérola verbal: “Tristeza literária” que parecia tudo explicar. O soneto começava assim: “Triste, de uma tristeza amarga e fria / que aos olhos não me sobe em névoa e pranto, / que não me vem, nem por consolo, ao canto, / que não se abate nem se evidencia”. Mas o fato é que, a partir daquele dia passei a compreender e explicar tudo o que escrevia de sombrio ou sorumbático como sendo ‘ Tristeza Literária.’ Era pelo menos uma explicação. Tudo enfim, eram apenas tristezas literárias, isso descoberto e dito por um grande crítico literário.
Quer como crítico, como amigo, como mestre, ou fosse lá como fosse, sei que não desisti dele e no domingo seguinte lá estava eu de volta à sua casa com uma braçada de poemas para ele analisar. Mas, qual não foi minha surpresa quando, em lá chegando, ele me aguardava com olhos tímidos e misteriosos, e tão logo o cumprimentei sentando-me a sua frente em sua pitoresca varanda, ele me estendeu a mão oferecendo-me um livro de aparência branca e singela em cuja capa se lia ‘ LUZ DISTANTE’ e , mais abaixo,’ Tostes Malta, Poemas.’
Abri e, na página interna, havia uma carinhosa dedicatória a mim. E ele complementou: – Dá uma olhada e depois me diz o que achou.Folheei o livro com afetado interesse e disse: -“Muita tristeza literária…”
Ele riu, eu ri e abraçamo-nos carinhosamente; havia mesmo muita simpatia entre nós, mestre e discípulo.


PASSARINHOS 2

Gustavo Wider

Os aficionados que me perdoem, não está em mim sensibilizá-los nem fazer prevalecer minha opinião ou meus sentimentos sobre os seus, mas, em tudo e por tudo, manter passarinho engaiolado é uma sacanagem. Falo assim para dar vazão à irritação que isso me causa e também por agradar a um amigo meu que exulta e se diverte quando uso um termo mais rude já que isso foge inteiramente a meus costumes.
E, por falar em aficionados, há coisas que eu não consigo entender, por exemplo, como pode uma pessoa de fina sensibilidade como o príncipe dos cronistas brasileiros ter tido gosto por manter passarinhos aprisionados? É mesmo um paradoxo. Mas vamos em frente porque ainda pior, mais cruel do que privar da liberdade um passarinho, é fazer isso com o agravante de manter a gaiola recoberta de uma escura capa de pano, de forma a que ele não se aperceba sequer do dia abrindo-se em luz . Hoje foi assim: A manhã estava esplêndida, plena de luminosidade, música e perfumes como, de resto, costumam ser as manhãs desse encantador mês de setembro, os dias que antecedem a primavera, em que os passarinhos – os que gozam de liberdade – amanhecem alardeando sua canora euforia, esvoaçando alvoroçados entre flores, brisas e cintilações. Eu fazia minha costumeira caminhada matinal quando me deparo exatamente com isto: Um desses rapazes, ditos passarinheiros, portava uma gaiola recoberta de uma grossa capa de pano. Dentro dela ia, reconheci por seu triste piar, um sabiá-laranjeira. E a cara do dito cujo traduzia o natural orgulho de quem possuía e conduzia a melodia aprisionada.
Passei sem cumprimentá-lo, antes fulminando-o com um olhar que pretendia ser cheio de indignação, o que ele certamente não entendeu. Isso é um crime, pensei, e foi isso que pretendi haver-lhe transmitido com meu furioso olhar. Segui, porém, sem nada dizer. Mais abaixo, ao cruzar com outro rapaz do lugar, com quem eu tinha maior proximidade, não me contive e o parei a indagar-lhe: “Desculpe, César, mas, me diga uma coisa que eu não consigo entender: por que é que, às vezes, umas pessoas que recobrem as gaiolas com uma capa de pano e…” A resposta veio abrupta , interrompendo-me: “É para o bichinho não se machucar. Quando amanhece, eles ficam tão agitados, tão alvoroçados que batem com a cabeça na grade da gaiola desesperadamente… tem vez que até sai sangue… então a gente cobre a gaiola para eles não saberem que já é de manhã.” Disse isso e sorriu , orgulhoso, feliz de poder ensinar-me alguma coisa de seu pequeno mundo. Fiquei sem palavras: -Obrigado, disse , e pensei tão alto que pareceu ouvir-me: -Que sacanagem! Depois, ia eu me afastando, quando ele de longe ainda concluiu: “- Bonito mesmo é ver o bichinho solto, voando por aí…não é mesmo ? Não respondi. Segui meu curso. A manhã estava esplêndida. E na escura solidão da gaiola recoberta o pobre sabiá dizia e repetia:
“Foi aqui que nós viemos
Foi aqui que nós viemos
foi aqui
foi aqui.


Vida de cachorro

Gustavo Wider

Falava-se das diversas formas de educar ou deseducar uma criança. Eis então o que nos relatou uma pessoa que fazia parte do grupo:
“ – Eu era um menino cheio de obrigações e entre outras mil coisas, tinha que cuidar de meu irmão menor, para o que não tinha eu a menor paciência. Nem achava justo… Um dia passando perto de onde estavam dois cães deitados, refestelados no chão, alonguei o olhar cheio de ressentimento para eles e disse para minha mãe que me ouvia, embora quase não me prestasse atenção:
– Boa mesmo é a vida de cachorro! Cachorro não tem que tomar conta de ninguém!
Mais tarde, minha mãe comentou com meu pai o que eu havia dito. E ele, chamando-me, pediu-me que confirmasse em sua presença o que eu dissera a minha mãe. Eu, assustado e aturdido, confirmei: – Sim, eu disse que boa mesmo é a vida de cachorro… Ao que meu pai severamente acrescentou: – Pois, se é essa sua vontade , de agora em diante você terá vida de cachorro.
Eu, incrédulo e inocente sem saber bem o que aquilo significaria para mim, indaguei: – Então eu não preciso mais tomar conta do Pedrinho ?
– Não. Não precisa. Sai fora de casa!
– Mas… – Não tem mais nem menos, fora! Lugar de cachorro é no terreiro.
Saí dali correndo e fui juntar-me aos outros garotos, filhos dos serviçais do sítio. Fui à mata onde recolhiam madeira para o grande fogão da cozinha, coisa que nunca me permitiam fazer. Tomei banho de rio. Brinquei. Pulei. Corri. Enfim, fiz tudo o que sempre queria fazer e nunca podia. Finalmente, sujo, cansado, faminto, tremendo de frio, voltei para casa alegre e satisfeito. Mas, ao ir entrando em casa, fui impedido e escorraçado por meu pai. Fora de casa recebi uma vasilha com angu para comer. Foi quando me dei conta da situação em que me encontrava. A noite chegava e o frio aumentava. Os outros cachorros da casa continuavam deitados na soleira da porta e também receberam sua porção de angu. Pareciam satisfeitos e felizes. Encostado na porta de entrada da cozinha, chamei por minha mãe, que não parecia ouvir-me. A cozinheira da casa, condoída, chorava e implorava aos patrões por mim. Meu pai, porém, mostrava-se frio e irredutível: – Você não queria ter vida de cachorro?… pois está tendo. Devia estar satisfeito.
Estava instalado o drama que causava uma comoção geral. Agora minha mãe também parecia interceder por mim, que tremia de frio encostado na soleira da porta.
Finalmente, depois de um longo tempo, meu pai veio falar comigo: -Então, está gostando da vida de cachorro?
– Não… quero ter vida de menino mesmo.
– Então pode entrar. Vai tomar banho e depois vai ver o que seu irmãozinho está fazendo.”
Quando meu amigo se calou, as pessoas se entreolharam chocadas e, em silêncio, o grupo se desfez…
Qualquer comentário seria absolutamente desnecessário…


Coisas de mulher ?

Gustavo Wider

Recebi as mais entusiásticas manifestações de concordância em relação a minha crônica de domingo passado. Tanto assim
que resolvi dar continuidade ao tema. Mesmo porque as liquidações ainda continuam. E continuam espantosas. Vim a saber que uma liquidação pode ser motivo também de depressão; posto que há quem raciocine deste modo: “Meu Deus, está tudo tão barato e nem assim eu tenho dinheiro para comprar qualquer coisa”. E nessa linha de pensamento vai até acabar se achando um verdadeiro lixo.
Pois a cidade continua em polvorosa: “Você viu a vitrine da casa tal? É inacreditável !” (Às vezes de fato é mesmo). E, para a maioria das mulheres, já que isso é mesmo coisa de mulher, não importa se a cor não é exatamente a que procura; se a medida não é bem a sua ( aquele vestidinho lindo, dois manequins abaixo do seu, é imperdível! Basta emagrecer um pouquinho…) Se sua conta já está no ‘vermelho,’ daí para ficar ‘preta’ não custa nada… É, mas importante mesmo é aproveitar a oportunidade…Metade do preço…Olha só! A metade do preço! E lá vão elas atrás de uma liquidação…liquidação que outra pessoa viu e lhe referiu. E os lojistas já fazem de maldade, deixando por dois ou três dias a loja fechada, com cartazes afixados nas portas como perturbadores chamarizes anunciando dia e hora. E as pobres coitadas ficam lá confabulando baixinho, com os olhos colados nas vitrines à espera do ansiado momento. E essa é a hora de fazerem mil concessões a si mesmas, já que não podem deixar de aproveitar a oportunidade, embora o que foi escolhido através da vitrine já não exista mais.
No entanto, confesso, paguei o meu preço por esse falatório. Ontem, pela manhã, lembrei-me de uma camisa que eu tinha visto em uma liquidação. Passando por lá resolvi entrar. Entramos, minha mulher e eu. A tal camisa já fora vendida… mas comprei três outras que estavam muito baratas… Não podia deixar de aproveitar!


Sobre casamento

Gustavo Wider

Estávamos almoçando e conversando animadamente sobre a vida e outras coisas menos mobilizantes, quando de súbito, ele, largando os talheres, abriu os braços, e declarou enfaticamente: Vou me casar com ela ! Nós vamos nos casar! Falava da atual companheira.
Fiquei assustado e dividido. Tive ímpetos de parabenizá-lo e lhe dar a maior força, pois a moça em questão é digna mesmo de qualquer pessoa envolver-se com ela seriamente. Ao mesmo tempo tentei dizer-lhe com a mesma ênfase: Não! Não faça isso. Casamento nos padrões convencionais é coisa para jovens que estão começando a vida, montando casa, criando crianças, em que pese haver muitos casais comemorando Bodas de Prata, de Rubi, Ouro, Diamante, com a maior cara de felicidade.
Hoje pela manhã encontrei na avenida um amigo que se vangloriava de estar completando sessenta anos de casado. E estava, aparentemente muito satisfeito com seu longo matrimônio.

Para mim, na forma como se encontra atualmente, o casamento é uma instituição que já não se adequa às pessoas mais maduras, principalmente àquelas que já passaram por outras experiências mal sucedidas. Não que eu esteja querendo dizer que não deva existir união conjugal entre os mais velhos; longe disso, o que estou tentando sugerir, até mesmo por experiência própria, é um novo modelo de relação em que as pessoas possam ter a liberdade conjugada com o compromisso. Que possam se dar à alegria da relação amorosa sem se sentir forçado a isso. Um casamento em que haja colaboração mútua sem prevaricação e sem desconfiança. Assim, mesmo que viva cada qual sob seu teto, sempre haverá a certeza de que, a qualquer momento, o telefone poderá tocar trazendo-nos a voz da pessoa amada, com seu habitual carinho e problemas costumeiros.

É lógico que, para tal modelo de casamento há que se ter maturidade, por isso, volto a dizer, não é coisa para jovens. Para quem o ideal é mesmo o casamento bem amarradinho.


Ainda sobre a crônica

Gustavo Wider

Em que pese as múltiplas definições do que seja ou deixe de ser como gênero literário, diria que a crônica fica situada entre o poema e o conto. Mas do poema falta-lhe ritmo. Do conto falta-lhe enredo, embora não lhe falte, de ambos, poesia e fôlego. Não estou lembrado agora quem foi, mas certamente foi alguém que entendia bastante do assunto que disse “ crônica é tudo aquilo a que chamamos crônica…” Eu só não gosto que a chamem de ‘artigo’, palavra que abriga sentidos variados e muito diversos do que se espera dela. Mas tem lá sua arte, tanto para ler quanto para escrever.

No que se refere a ler, é a melhor forma de bem aproveitar nossos momentos de pouco tempo em que não daria mesmo para ler nada mais alentado. Por exemplo, no aeroporto, enquanto se espera a chamada para o embarque, ou enquanto se espera a novela das oito começar; nas horas da propaganda política obrigatória, ou quando se vai dormir, à noite, com a firme intenção de ler pelo menos uma meia hora, mas não se aguenta mais do que uns cinco minutos de olhos abertos; nos momentos de reclusão e isolamento, enquanto se aguarda ‘sentado sozinho com a face na mão’ etc. Esses momentos são perfeitos para ler uma crônica. Por essas e outras é que ela se pede pequena como já tive oportunidade de esclarecer noutra ocasião em que tratava do mesmo assunto. No que se refere à arte de bem escrevê-la, essa consiste, entre outras coisas, na capacidade de lidar com sua falsa simplicidade; essa enganadora facilidade que a caracteriza. E de saber garimpar nas fontes do cotidiano uns laivos de curiosidades para construir nosso texto.


Onde será?

Gustavo Wider

Recebi da escritora e amiga Christiane Magno Michelin
uma nota afirmando gostara muito de minha crônica anterior
na qual eu me refiro ao lugar onde o vento faz a curva.
E ela ainda me provocou com a seguinte questão:
E onde será que o Judas perdeu as botas?
Bom, primeiro será preciso certificar-se de que ele as perdeu mesmo ou se elas lhe foram roubadas.
Mas é provável que as tenha perdido mesmo.
E não foi por perto, não. Foi longe , talvez lá
onde o vento faz curva. No mesmo lugar. Isto é
no fim da rua dezesseis de março. Numa daquelas
lojas cheias de botas… Botando botas até pelo ladrão. E foi recentemente. No ano passado não havia essa profusão de botas pelas ruas. As moças não estavam assim tão encantadoras como estão nesse ano; com as calças ( já disse isso na crônica anterior) coladas nas pernas e com as botas de cano longo dando-lhes um charme fora do comum Não podemos evitar de deitar-lhes um olhar de admiração. (concupiscente? Não sei …talvez…)
Mas , se assim for. Elas é que querem desse jeito.
Passam por nós num requebro voluptuoso ,
fingindo não saber que ficamos presos ao seu andar. Às suas pernas , às suas botas , às botas do judas, que as perdeu não se sabe onde.


Lá, onde o vento faz a curva

Gustavo Wider

Agora eu sei, finalmente, onde é que o vento faz a curva. É na esquina da Irmãos D’Angelo com a Dezesseis de Março. Pegando, de rebarba , a praça D.Pedro onde as imponentes palmeiras Imperiais mais parecem enormes espanadores com os cabos, eretos, fincados no chão, espanando o céu, ao poderoso embalo do vento.
Estávamos , minha mulher e eu, conversando com um amigo
na Irmãos D’Angelo quando eu vi, ou pareceu-me ter visto, o vento fazer a curva. Na verdade, foi uma ventania tão forte que levantou a poeira do chão, envolvendo até os cães , aqueles simpáticos habitantes da praça.
Concluí também que quando alguém usa essa expressão: ‘Lá, onde o vento faz curva’, está provavelmente querendo referir-se a um lugar muito distante. E eu ficava tentando imaginar que lugar era esse ? Mas agora eu sei …e volto a dizer: É na esquina da Irmãos D’Angelo com a Dezesseis de Março. Em que ele entra, encanado, enregelando todos os que ousam por lá passar, fazendo com que as pessoas levantem as golas de seus agasalhos para proteger as orelhas do frio cortante que corre por ali, e as moças segurem as saias por entre as pernas para que o vento as não levante inopinadamente.
Verdade é que esse frio cortante muito contribui para o encanto dessas moças de calças cumpridas, coladas ao corpo e botas de cano longo a desfilar belamente pela rua Dezesseis de Março.
Tudo tem a sua compensação. Até o frio. Então, viva o frio!


Não aguento mais

Gustavo Wider

No domingo passado o Artur Xexéo apresentou sua crônica na revista de domingo de o Globo, sob o título – Não aguento.
Embora tenha sido um texto muito bem bolado, faltaram
umas cocitas más que a gente já não aguenta ouvir. Por exemplo, o – veja bem – com que muita gente começa por dar resposta a uma questão. Na referida Dança dos famosos também muito mais do que o que foi citado, é da repetição cansativa por parte dos julgadores a afirmação de que é muito difícil julgar entre tantos concorrentes tão bons… E já que estamos falando do ‘Glorioso Faustão’,
Eu não simplesmente não aguento mais ouvir ele dizer que ‘mulher ri porque não sabe o que dói .’
Concordo plenamente com o Xexéo no que diz respeito à
Regina Casé e, muito principalmente, ao Luan Santana.
E, embora já seja lugar comum demonstrar irritação com o tal de gerundismo, eu simplesmente não aguento mais ouvir alguém dizer ‘eu vou estar te ligando hoje depois das dez’.
E o horário eleitoral gratuito na TV, quem aguenta?
E as propagandas aos gritos das casas Bahia
(querem nos pegar no grito)?
E mais uma frente fria anunciada par o fim de semana,
Eu não aguento mais.


O lírio e a violeta

*Fernando Costa

Diz o lírio: por que se preocupa violeta? Na verdade, enfeito riachos, vivo livre e descomprometido pelos campos, exalo suave perfume e sou feliz porque adorno o Reino de Deus. Que culpa tenho eu, se na Parábola Bíblica fui comparado às vestes de Salomão e mais original que elas, ainda que reconhecidamente ricas em bordados e brocados. Vez por outra, alguém me descobre e lá vou eu enfeitar palácios, casas, catedrais e grandes banquetes. O esteta das flores Amaury Jaime de Lima não raramente prestigia-me em suas requintadas decorações. Hora estou em altares majestosos da Notre Dame de Paris, por vezes em La Madeleine, na Catedral São Pedro de Alcântara, nos lagos do Imperial Palácio de Tóquio ou circundando os arredores do Mena House, no Cairo com vistas para as Pirâmides. Quem esteve no Egito sabe que estou a falar do sinônimo de beleza e opulência. Violeta, se um dia puder, vá me ver às margens do Nilo ou então lastreando o Reno… Não se preocupe, há espaço para todos. Olhe a sua volta, observe os mulungus, ipês, magnólias, quaresmeiras, as rosas, as orquídeas, gérberas, antúrios, as flores-do-campo, os frutos, os pássaros, os ursos, as carpas, os gatos, as cobras… Ah, as cobras às vezes venenosas, mas fazem parte do equilíbrio ecológico. É verdade que muitas delas são mortíferas, mas se assim não fossem, como as distinguiríamos de dóceis animais a exemplo dos belos e bem cuidados poodles? Violeta, você parou para agradecer ao esplendor do pôr-do-sol e o prateado da lua? Por que ao invés do rancor guardado no peito fruto do despeito, passe a reservar em seu coração o amor? Tire partido das coisas boas, despenque-se em ramos e jogue-se nas lapelas das madames, transforme-se em Cinderela, em “Demoseilles d’Honneur” ou simplesmente enfeite pratos, mas invente outro recurso ou caminho que não seja a aridez vil e mesquinha. Não fomente amargores e não seja invejosa buscando em mim defeitos que se os tenho são meus, não seus. Se lhe sobrar um tempinho entre uma fofoca e outra, abra as Sagradas Escrituras e leia em I Cor. Capítulo 13, 1-13, que em síntese pontifica dentre as virtudes a fé, a esperança e a caridade. A maior delas é a caridade, isto é, o amor. Observará violeta que suas pétalas aveludadas e roxas se tornarão mais formosas. Ao transluzir a paz que o mundo deseja e por ela tanto clama será feliz e cumprirá seu destino. Mostre ao mundo que não está fadada tão somente a estufas.Eu sou feliz porque tenho por morada o campo inteiro, os brejos, os lagos, as minas de água fresca e só quem morou na roça sabe distinguir. Não queira terminar seus dias em um vaso de barro, manchado de lodo, e não falo por sarcasmo, mas se me é permitido um conselho, tome cuidado, porque ainda que adubada e regada, dependendo de seu estado de espírito acabará por se melar, fenecer e apodrecer. Não transforme sua vida em rotina menina, pois tem tudo para ser elegante e bela, tal qual esta borboleta que, por ironia do destino, é cor de violeta, a sugar de mim o néctar nesta suave manhã.