Fernando Sabino e o “Encontro Marcado”

 

Podemos perceber que na crônica Fernando Sabino explora, com fino senso de humor, o lado pitoresco, poético e social do cotidiano. Já no romance,  notamos uma preocupação com os problemas psicológicos, religiosos, morais, metafísicos, ao lado de problemas de convivência.

Fernando Sabino começou a escrever bem cedo e aos 18 anos enviou contos a Mário de Andrade que os classificou como “simples anedotas simplórias, de lastimável descontrole e nenhuma autocrítica”. Esses contos compõem o livro “Os grilos não cantam mais”. Dois anos mais tarde, Fernando publicou sua 1ª novela “A Marca”, à maneira de Graciliano em “Angústia”. Mário de Andrade, ao lê-la, assombrou-se e escreveu-lhe:” Você está escrevendo tão bem quanto um Machado de Assis, embora sinto que há qualquer coisa de dissolvente, de hedonístico, de arte pela arte em sua novela.”

Depois do sucesso dessa publicação, veio a insegurança _ se ele deveria ou não continuar a escrever. Teria declarado então: “Não quero ser mais um artista, Mário”.

Finalmente amadurecido, inicia uma obra que enfatiza a vida urbana, aliada à introspecção e análise de costumes. Ele passa a questionar o TEMPO_ o ANTES e o DEPOIS_ a busca da essência contida nas ações humanas e atinge a sua plenitude em ENCONTRO MARCADO, romance publicado em 1956, que relata a história de Eduardo Marciano, uma personagem ávida por viver intensamente ou, para ser mais exata, numa desesperada busca de si mesmo.

Observe:

“Há uma fresta em minha alma por onde a substância do que sou está sempre se escapando, mas não vejo onde nem porque.”

“Hei de fluir como um rio, dia e noite”.

 

Encontro Marcado tem o foco narrativo em 3ª pessoa, o que não nos permite classificá-lo como autobiográfico, mas utiliza o discurso direto para mostrar verdade e enfatizar a autenticidade dos fatos. O menino Eduardo possui uma trajetória de questionamentos, irreverência e mostra bem a que veio:

“Eduardo arranhou-se mais ainda e, não satisfeito, apanhou a lâmina de barbear do pai:

_ Vou cortar os pulsos.

_Não corta! Me dá isso.

_ Estou desiludido da vida.”

 

“_Hoje eu não vou ao grupo.

_Maria fritou um ovo, não saiu redondo como eu gosto: não vou.”

 

“_ Quede meu caderno? Quede minha borracha? Tem ladrão em casa”.

 

“_ O menino fez um gesto com a mão”.

 

O adolescente Eduardo já aparece buscando um sentido para o existir, e podemos observar essa investigação no seu diálogo com o Monsenhor Tavares, depois de ter sido expulso da sala de aula:

“_Que você pretende da vida?

Assustou-se: ele? Pretendia da vida? Não respondeu”.

O adulto Eduardo já demonstra um sentimento de insatisfação, de consciência do efêmero da existência, o TEMPO_ passado e o presente:

“_ Chegou a hora de puxar angústia.”

Puxar angústia era abordar um tema habitual, como “el sentimiento trágico de la vida, le recherche du temps perdu, To be or not to be:

“_ Você já pensou que daqui a 100 anos estaremos mortos?

_ O que são 100 anos diante da eternidade?”

 

Encontro Marcado tem um caráter histórico, não no sentido de que narra a vida de Fernando Sabino através de Eduardo, por tantos pontos de identidade entre eles _  ambos nasceram em Belo Horizonte, estudaram no mesmo Grupo e no mesmo Ginásio, foram campeões de natação, fizeram estágio militar no Esquadrão de Cavalaria em Juiz de Fora, casaram-se com filhas de ministro, escreviam, fizeram Direito _ mas no sentido de que revela os ideais e as concepções de um grupo social numa determinada época.  O que vemos no romance é isso: os anseios e experiências de um grupo de intelectuais boêmios e de toda uma geração.

As diferentes vozes que se fazem presentes no texto misturam-se de tal forma à do autor que não se percebem com muita nitidez seus limites, seu despertar, o seu crescimento, porém conseguimos vislumbrar as amigos mosqueteiros de copo, de pena, de idéias que são Paulo Mendes Campos, Hélio Pellegrino e Oto Lara Resende, sentados no banco da Praça da Liberdade em Belo Horizonte, puxando angústia.

 

A luta de vida e morte do autor Fernando/ criador e de sua criação/ criatura é constante:

“_Mas o que é ser escritor, afinal?”

“Preocupava-se com o fenômeno da criação artística, a consciência profissional, a missão sublime do escritor, o artesanato”

“A arte pura não devia ser conspurcada; a verdadeira mensagem tinha de ser transmitida”.

“Se lhe posso dar um conselho, é este: não tente apanhar o fruto verde para que ele não apodreça na sua mão”.

 

A contradição entre a Razão e a Desrazão, entre o Ser e o Não-Ser, essas antinomias que nos são reveladas através das ações de Eduardo/ Fernando e seus amigos, esse ANTES (Eduardo menino) e esse DEPOIS (Eduardo homem) dá-nos a sensação da plenitude do Encontro Marcado, um encontro que ele marcou consigo mesmo, um homem pobre, só, de mãos vazias, mas leve e pleno.

Podemos afirmar que Fernando Sabino desperta-nos uma relação de amor, de intimidade, de leveza e com ele aprendemos de fato a superar todos os empecilhos que possam surgir no caminho e que é preciso viver a vida com humor, como dizia seu pai:

“no fim tudo dá certo, se ainda não deu certo, é porque ainda não chegou ao fim”.