Versificação

Gustavo Wider

Aprendendo a Versejar

Pequeno curso de metrificação e composição poética

( Para principiantes)

( No qual se pretenderá dar àqueles que queiram dedicar-se
ao cultivo da arte da expressão poética, os conhecimentos necessários para seu bom desempenho.)


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Primeiro passo: definir o que seja Poesia

Para tanto, diremos primeiramente o que ela não é.
Poesia não é um poema
Não é um verso
Não é um soneto
Não é uma trova, etc.

Embora cada um desses itens possa conter Poesia.

E como estamos usando o verbo conter
Faremos, em seguida, uma comparação que ajudará a elucidar esse caso.

Imaginemos um pote. E o líquido que ele contém, ou que possa conter. Nessa comparação, o pote seria o poema
e o líquido, a poesia.

Assim como pode existir um pote vazio pode também
existir um poema sem Poesia
Então, o que vem a ser Poesia?
A mensagem emocional contida no poema.
A beleza, o encantamento contido nos recônditos
das palavras. A beleza do imponderável.
Isso, certamente, é Poesia.

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Embora possa existir Poesia nas mais variadas formas
de expressão artísticas, aqui trataremos da expressão
poética contida nos poemas.

Agora definiremos, então, o que seja um poema.

Um poema é um verso, ou um conjunto de versos
nos quais se pretenda conter, ou em que achamos contida a Poesia.

E o que é um verso?
Um verso é qualquer linha de que se compõe o poema; um conjunto de palavras unidas na intenção de poetizar, isto é, de transmitir Poesia.

Como sabemos se os versos contem Poesia?
Simples. Ela nos vem em forma de emoção e encantamento,
tocando nossa sensibilidade. Se houver poesia nos versos, nós a sentiremos.

Donde se deduz que a sensibilidade é a característica
intelectual de fundamental importância para vivenciar-se
a Poesia.

E os versos se encontram arrumados de forma a dar
a mensagem que se queira à expressão poética.

E é a essa “organização” dos versos que se dá o nome de poema.

O que pode se dar das mais variadas maneiras.

POEMAS

Um poema, isto é, a organização dos versos, pode se dar das mais variadas maneiras.

Existem aqueles que são de forma fixa e aqueles que são de forma livre.

Poemas de forma fixa são os que obedecem a uma “organização” pré determinada, e os poemas de forma livre são os compostos e organizados de acordo com o gosto de quem os faz.

Exemplo: Poemas de forma fixa : Trovas , sonetos, sextilhas, etc.

Veremos agora como se compõem poemas de forma fixa.

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Inicialmente é necessário aprender a metrificar, pois os poemas de forma fixa tem sempre um número certo de sílabas, e as sílabas
na composição poética se contam diferentemente do que o habitual.
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METRIFICAÇÃO

As vogais são: A- E – I- O – U

Vogais tônicas são aquelas em que no contexto da palavra aparecem acentuadas ou em que recai naturalmente a tonicidade da pronúncia. Exemplo: tônicas acentuadas -Amanhã, você, já . tônicas não acentuadas : Aqui , ali , tatu.
São as palavras oxítonas, aquelas em que a acentuação tônica recai na última sílaba.

O que é preciso saber:

Sempre que na composição de um verso uma palavra terminar em vogal átona e a próxima palavra começar também por uma vogal, átona ou tônicas, elas se unem formando uma só sílaba. Exemplo:

“Tu choraste em presença da morte?
Na presença de estranho choraste ?”

Assim, o verso que seria Tu-cho-ras-te-em-pre-sen-ça-da-mor-te- (11 sílabas)
Na-pre-sen-ça-de-es-tra-nho-cho-ras-te -(11 Sílabas)

Passa a ser: Tu-cho-ras-teem-pre-sen-ça-da-mor-te (10sílabas)
Na-pre-sen-ça-dees-tra-nho-cho-ras-te (10sílabas)

É preciso saber também:

Nesses dois versos do poema de Gonçalves Dias, dá-se a elisão
( união, fusão) Além disso é preciso saber, para a contagem das sílabas de um verso, que só se contam as sílabas até a última sílaba tônica do verso.

Voltemos ao exemplo acima.

Tu choraste em presença da morte?
Na presença de estranho choraste?

Nesses versos contam-se as sílabas assim:
Tu choraste em presença da mor (te)?
Na presença de estrranhos choras (te) ?

Os versos passam a ter 9 sílabas.

TROVA

Daremos início ao exame de poemas em forma fixa com o estudo da trova . Repetindo: Trova é um pequeno poema em forma fixa, cuja característica é a de bastar-se a si mesma, isto é, dizer tudo o que tem a dizer sem necessidade de se estender para além de seus 4 versos . Ela aborda e encerra o assunto em si mesma, seja qual for o assunto abordado. Assim, uma trova será sempre completa, inteira, concisa e sintética. Pode ser poética,ou lírica, assim como pode ser jocosa, irônica ou feita em homenagem a algo ou a alguém. Seja o que for e qual seja sua mensagem, será sempre de forma fixa. O que equivale a dizer que ninguém poderá compor uma trova a seu bel-prazer, mas terá que fazê-la sempre de acordo com regras pré estabelecidas.

Eis as regras: Compõe-se a trova de 4 versos, contendo cada verso 7 sílabas poéticas (Versos setessilábicos ) Sendo ainda obrigatório que esses versos rimem entre si de seguinte forma: o primeiro verso com o terceiro e o segundo com o quarto.

Como as regras da composição poética para os poemas de forma fixa são três, A saber : METRO, RIMA E RITMO,
fica faltando mencionar o elemento ritmo para a composição da trova. O que faremos mais adiante quando o estudante estiver mais familiarizado com o tema.

Examinemos a seguinte trova:
Teu riso é súbita aurora,
doce rolar de cascata
que, sendo meu, me enamora
e, sendo de outros, me mata.

Trata-se de uma trova poética, ou lírica, pois a mensagem está oculta no duplo sentido das palavras: “ teu riso é súbita aurora,
Doce rolar de cascata…”
O metro está correto:Todos os versos contem sete sílabas poéticas: Teu-ri-soé-sú-bi-ta-au-ro- (ra)
do-ce-ro-lar-de-cas-ca- (ta)
que,-sen-do- meu- mee-na-mo- (ra)
e,- sen-do- deou -tros- me-ma- (ta)

As rimas estão corretamente colocadas: aurora/ enamora
cascata / mata

Examinemos agora a seguinte trova:

Tu dizes que eu não gargalho…
Sim, eu não gargalho, pois
o amigo de quem me valho
Já gargalha por nós dois.

Trata-se de uma trova jocosa, porém perfeita. Pode o estudante agora conferir a metrificação e a disposição das rimas, não esquecendo de só fazer a contagem das sílabas até a última sílaba tônica de cada verso: garga (lho)
va (lho).
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Examinemos agora aquele que é o mais nobre de todos os poemas
De forma fixa\;
O SONETO

O soneto compõe-se obrigatoriamente de dois quartetos e dois tercetos. Quarteto é uma estrofe composta de quatro versos e terceto é a estrofe composta de três versos.
Com isso ficou claro que estrofe é o nome que se dá a um conjunto com qualquer quantidade de versos.

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Até agora já vimos que a composição poética de forma fixa se obriga a duas coisas : Rimas e Metrificação, ou a correta contagem das sílabas em cada verso. Agora aprenderemos o terceiro elemento : Ritmo. O que dá o ritmo a uma composição poética é a acentuação tônica no interior de cada verso.
Examinemos o primeiro quarteto do seguinte soneto:

Para que fosse mais do que um momento,
Mais do que um sonho o amor que te inspirei,
Um mar entre nós dois eu coloquei
E o que sobrou foi mágoa e pensamento.

Tentemos perceber agora o ritmo dos versos nessa estrofe, isto é, onde recai naturalmente a acentuação tônica em cada verso. Para tanto digamo-lo em alta voz .

Para que fosse mais do que um momento. Logo perceberemos que é na sexta sílaba. “ Para que fosse mais do que um momento”.
Examinemos o verso seguinte: “Mais do que um sonho, o amor que te inspirei” Percebe-se claramente que a acentuação tônica recai na quarta e na sexta sílaba.
Vejamos o verso seguinte: Um mar entre nós dois eu coloquei.
Verifiquemos a acentuação tônica desse verso.
“Um mar entre nós dois eu coloquei” Veremos que a acentuação recai na segunda e na sexta sílaba.

Conclusão: Nos versos decassilábicos, isto é, que se compõem de dez sílabas poéticas, a acentuação tônica recairá obrigatoriamente na sexta sílaba de cada verso, ou na quarta e oitava sílaba ,como exemplificará o verso abaixo.
“Eternamente te amarei também”

Recapitulando:
Soneto é uma composição poética que se compõe de dois quartetos e dois tercetos ,- terá, portanto, quatorze versos – que serão obrigatoriamente decassilábicos, isto é , de dez sílabas.

Resta ver como deverão rimar esses versos.

O mais comum é que se rime da seguinte forma: Nos quartetos, no sistema primeiro com o quarto e segundo com o terceiro e nos tercetos, primeiro com o terceiro, sendo que o segundo do primeiro terceto rimará com o segundo do segundo terceto.

Mostrando o sistema :. ada
ente
ente
ada

ada
ente
ente
ada

or
ável
or

im
ável
im

Podendo variar para a seguite forma : ada
ente
ada
ente

ada
ente
ada
ente

ento
ento
ar

aço
aço
ar

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Depois voltaremos ao Soneto

O comprimento dos versos.

Há exemplos (raros) de versos de apenas uma, duas e três sílabas que, de tão raros, não convém que nos detenhamos sobre eles agora.
Passaremos a examinar os mais habituais: os, assim chamados, versos em redondilha menor e, em seguida, de todos os mais recorrentes, os versos em redondilha maior.
Os primeiros são de apenas cinco sílabas com acentuação rítmica no segundo verso. Têm grande musicalidade:

Menina donzela De tímido olhar
E corpo de amora,
A fase mais bela
Da vida que passa Tu passas agora.

E agora em redondilha maior, o famoso verso setessilábico de que, inclusive, se fazem as trovas:

Repara que o tempo passa
Repara que a vida corre
Pois, por sorte ou por desgraça,
Tudo finda, tudo morre.

Nessa trova, os dois primeiros versos estão acentuados na segunda sílaba e os dois segundos versos estão acentuados na terceira sílabas.
Como já ficou dito acima, os versos em redondilha maior permitem acentuação rítmica variada, o que faz desse tipo de verso uma composição de grande facilidade.

Mais um exemplo de redondilha maior;

No caminho da ilusão
Colho flores de utopia
É grande minha aflição
E frágil minha alegria.

Depois da redondilha maior o verso de maior força e musicalidade é o de nove sílabas, denominado – Verso Gregoriano- Trata-se de um verso de grande beleza rítmica em que a acentuação se dá, obrigatoriamente, nas terceira, sexta e nona sílabas. Vejamos esse belo exemplo de Gonçalves Dias:

Tu choraste em presença da morte?
Na presença de estranhos choraste?
Não descende o covarde do forte
Pois choraste, meu filho não és!

E agora, de todos o mais nobre, o decassilábico, denominado Heróico,
verso de dez sílabas de que se compõem, entre muitos outros gêneros poéticos, os sonetos.
Sua acentuação rítmica permite duas formas. Ou são acentuados na sexta e décima sílabas, ou são acentuados na quarta, oitava e décima. Podendo, numa mesma estrofe, usar as duas formas de acentuação.

Exemplo da segunda forma, isto é, na quarta, oitava e décima sílabas:

Foi quando a noite se fazia escura
Foi quando o dia se findava enfim,
Cheguei-me à cerca e tu chegaste
Em flor, o flor noturna ardente e pura!

E agora um exemplo da primeira forma de acentuação rítmica do decassilábico, isto é, na sexta e décima:

Sigo em busca de ti sempre ansiado
E alcanço tua boca e teu olhar
Que destino não são, mas limiar
De um mundo menos tido que sonhado.

E agora um exemplo de como se pode usar as duas formas numa mesma estrofe:

Triste, de uma tristeza amarga e fria
Que aos olhos não me sobe em névoa pranto,
Que não me vem, nem por consolo, ao canto,
Que não se abate nem se evidencia.

Em seguida examinaremos o belíssimo verso Datílico, de onze
sílabas. Sua acentuação rítmica dá-se invariavelmente nas segunda, quinta, oitava e décima primeiras sílabas. São versos para serem ditos em voz alta de forma a que se perceba toda sua musicalidade.

Eis um exemplo perfeito de Casemiro de Abreu:

Da pátria formosa distante e saudoso
Chorando e gemendo meus cantos de dor,
Eu guardo no peito a imagem querida
Do mais verdadeiro, do mais santo amor .

Ou de Castro Alves:

A tarde morria. Das águas barrentas
As sombras nas margens deitavam-se longas;
Na esguia atalaia das árvores secas
Ouvia-se um triste chorar de arapongas.

Resta-nos examinar os versos de doze sílabas, os Alexandrinos.
Cada verso alexandrino se compõe de dois versos de seis sílabas que se chamam hemistíquios e que se completam entre si. Assim sendo, o primeiro hemistíquio deverá terminar em sílaba tônica, ou, se terminar em palavra paroxítona, o próximo hemistíquio deverá começar com uma vogal átona.
Parece complicado mas não é .Olhemos com atenção essa incomparável estrofe de Olavo Bilac, mestre dos versos alexandrinos entre nós. Do poema “O Caçador de Esmeraldas”

Verdes, os astros no alto abrem-se em verdes chamas;
Verdes, na verde mata, embalançam-se as ramas;
E flores verdes, no ar, brandamente de movem;
Chispam verdes fusis riscando o céu sombrio; Em esmeraldas flui a água verde do rio,
E do céu todo verde as esmeraldas chovem.

Os versos que extrapolam em comprimento o verso alexandrino já não são versos de forma fixa e têm, portanto, ritmo próprio.

Trataremos deles em seguida.