Vitrine Literária

MOVIMENTO DA POESIA BRASILEIRA
CONTEMPORÂNEA NO MUNDO VIRTUAL

Por *Afonso Estebanez

Substancialmente, tem havido pouca alteração culturalmente revolucionária no atual ambiente da chamada poesia contemporânea no Brasil, a despeito do advento do privilégio da comunicação digital, esse democrático acerto de contas entre a ciência tecnológica e a história da comunicação humana.

Os grandes repórteres da literatura universal do passado também teriam usado o mesmo sistema tecnológico “moderno” se pudessem voltar ao cenário contemporâneo. E nós, os das artes, ciências e letras da atual geração, estamos inseridos neste contexto em decorrência, apenas, do fato histórico de estarmos vivos no momento do milagre da tecnologia. Mas historicamente a literatura brasileira continua na vertente do sincretismo cultural, enquanto fruto da combinação de concepções artísticas de tendências globais diversas, numa fusão de elementos às vezes antagônicos, mas culturalmente reverentes à herança do passado histórico da literatura estereotipada do “pré” e pós-modernismo. A atual poesia brasileira é produto deste fenômeno cultural, fracionada pelos diversos movimentos regionais desarticulados pela sedução do síndrome da contradição humana.

Do ponto de vista da velocidade do estreitamento tecnológico no campo da comunicação, a produção artística brasileira continua transmitindo ecos sintonizados com a tradição visual do século passado, a despeito dos “futurismos”, dos “cubismos”, dos “concretismos”, das “vanguardas”, das “marginalidades”, das “alternatividades”, dos “modismos” que, como produto final, não representam renovação culturalmente substancial das chamadas escolas tradicionais – já superadas – dos “ismos” que, nada obstante as suas idiossincrasias e contradições próprias da arte experimentalista no país, antecederam, com registros – histórico e social – igualmente contemporâneos, aos atuais movimentos artísticos brasileiros, em particular os literários.

Porém, na carona do neo-iluminismo global do mundo moderno, as transformações técnico-digitais havidas no âmbito da literatura, máxime quanto a forma, estilo, conteúdo ou espaços virtuais, são o lado positivo do novo sistema de comunicação artística através das letras e outros gêneros de arte, no que apontam para o resgate da qualidade oprimida pelo patrulhamento de uma quantidade incontrolável de criações não contextualizadas, resguardada a ventura do convívio cultural contínuo com a população artística feminina que, desde recentíssimo passado, vem fazendo a história da arte brasileira acontecer, notadamente no espaço dominado pelo feudalismo literário do país.

Entendo, assim, que os avanços proporcionados pelo mundo digital na esfera da linguagem ou da técnica de qualquer produção artística, pluralista, anarquista, marginal, contestatória ou reacionária, na verdade não trouxeram transformações fundamentais no contexto da arte contemporânea culturalmente obediente aos antigos cânones da arte neoclássica, levando-se em consideração que sempre haverá – face ao conceito de atemporalidade – uma tendência irreversível da arte contemporânea para a controvérsia cultural fundada nas contradições humanas modernamente expressas pelos inúmeros recursos e imagens da lingüística e da metalingüística.

Continua intransponível, portanto, a magia da expressão literária tradicional que temos apregoado aqui e alhures, assente na beleza da arte da comunicação humana através da linguagem materializada segundo a combinação dos sons e tons dos fonemas, palavras ou expressões, escritos ou emitidos oralmente para se referir à realidade ou à ficção inerentes aos mundos objetivo ou subjetivo, com habilidade, talento, equilíbrio, beleza e harmonia.

Não há necessidade de nenhum derrame de estudos analíticos, didáticos, pedagógicos ou metodológicos da literatura contemporânea, porquanto a lingüística convencional vem sendo aos poucos superada pela compreensão da ciência da metalingüística, que no conceito dos estudiosos do século passado (Bakhtin na poética de Dostoievski) descreve os aspectos não verbais da comunicação que englobam o tom de voz, o ritmo da fala, as pontuações e outras características que vão além da palavra falada, a nos lembrar que extraímos dela o significado tanto dos termos usados como da forma com que eles são expressos, evidenciando aqueles aspectos da vida do discurso que ultrapassam os limites da lingüística dogmática.

“Alguns teóricos são radicais ao dizer que não existe poema sem o chamado ritmo. Seria o ritmo a base fundamental do poema. A metrificação é uma decorrência do ritmo. Aliás, alguns defendem que deve haver algum tipo de métrica mesmo em versos livres. Já outros, dizem que o tema é a coisa mais importante a se considerar num texto que se pretende ser um poema. James Joyce privilegiou o estilo e a linguagem. Jorge Luis Borges apostava nas metáforas. Alguns puristas defendem a forma – as formas fixas – como base segura para se escrever um poema. Penso que estes são alguns dos elementos com os quais o poeta deve lidar. O mais importante talvez seja a possibilidade de alguém conseguir no meio disso tudo encontrar sua voz pessoal, seu estilo único (…)”, “numa escrita peculiar e autoral” (…). “Buscai primeiro uma poética pessoal e todo o restante vos será acrescentado!” (Tchello d’Barros).

Emitido por ativista considerado por alguns “vanguardistas teóricos” como um dos artistas visuais contemporâneos mais completos da atual geração, o conceito em destaque, registrado no transcorrer do XVI Congresso Brasileiro de Poesia no palco cultural de Bento Gonçalves/RS no ano passado, traz conotação de isolamento laboratorial da arte digital stricto sensu, ainda nascente, da arte literária contemporânea em tímido desenvolvimento global no Brasil. Considerando que o movimento literário concentrado no sul do país tem o status de acentuado formador de opinião sobre literatura brasileira contemporânea e considerando, ainda, o desencanto de expressivos nomes da literatura nacional e sua ausência do mundo virtual, o que se observa é o cumprimento da velha profecia popular: substituem-se as embarcações, mas as águas a navegar são as mesmas.

Forçoso concluir, portanto, que a poesia contemporânea no Brasil, em nome da velocidade imposta pela tecnologia virtual, repousa num confuso estado de flerte com os movimentos iconoclásticos dos anos 20, porém às avessas, como aparente rejeição ao receituário cartesiano da época: sabe muito bem o que quer, sem que precise saber o que não quer. Talvez por isso os estardalhaços dos vanguardistas de hoje são bem mais festivos do que aqueles mais inocentes dos anos 60, em que os modernismos se confundiam com a variação de facções poéticas regionais. Mas no mundo virtual está impondo características modernas que merecem alguma análise mais aprofundada.

Por fim, como a proclamação da poesia neo-parnasiana consagrada constitui ainda o fundamento primário da cultura poética no país, extrai-se que não há divergências entre as cores artísticas desse contagiante arco-íris de correntes literárias. Há apenas desencontros…

O poeta Claudio Willer (1991) teria sintetizado a poesia contemporânea no mesmo patamar de sua época: “Infelizmente a negação das vanguardas em seu aspecto mais enfático e autoritário tem servido para justificar o academicismo, a volta ao passado, ou então, sub-repticiamente, a escolha da tendência certa da vanguarda, disfarçada de contemporaneidade ou até modernidade”. E isto é como repetir a dança de uma valsa vienense no último baile da ilha fiscal, excitado pelo perfume glamouroso da corte neo-parnasiana…