Fernando Magno

Biografia:

FERNANDO MAGNO – É diplomado em química pela Faculdade de Filosofia e letras da Universidade do ex-Distrito Federal. Aposentado, enveredou pela literatura. É autor dos livros: Retroflexo, Epístola Fragmentada, Canto Entre Amarras, O Dia do Canto Imginado, América – Um Ver de Olhar, livro que recebeu em 1992 o Prêmio Sesquicentenário de Petrópolis, conferido pela Prefeitura do Município, De Tudo Fica Um Pouco, (Meus Cartões de Drummond), um registro de sua correspondência cavalheiresca, que se prolongou por quase 11 anos com esse poeta. E Às Margens do Olhar, um relato autobiográfico. É membro titular da Academia Petropolitana de Letras, da Academia Petropolitana de Educação e Honorário da Academia Brasileira de Poesia.

Trabalhos:

Não era de grande porte, mas valente como nenhum outro. Apesar da pequena estatura, possuía fortes músculos e fibra de lutador. Jovem, corpo dando para o magro, pernas finas, não temia desafios. Estava sempre pronto para a briga.
Veio da Bélgica, onde iniciara sua vida de lutador, para fixar-se em Gênova. Ficara conhecido apenas por Pipo, o campeão.
Vivia em permanente treinamento. Exercícios, massagens, longas caminhadas para respirar ar puro da manhã. Antes de cada luta os cuidados redobrava. Nada de extravagâncias. Comida à hora certa. Medida e pesada. Enriquecida e balanceada com substâncias energéticas. Não dava para entender o mel com aguardente antes do combate. É verdade, em doses terapêuticas.
Pipo tinha numa queda para o estrelato. Era de ver-se o ar de superioridade pelas ruas. Não olhava para os lados, embora sentisse prazer quando o apontavam ou dele se aproximavam. Passava de cabeça erguida e peito inflado, apesar de ter, curiosamente, o andar um tanto desajeitado.
Cada vitória, uma consagração. Festa. Beijos. Nome nos jornais. Não sei se isso só recompensava. Tenho a impressão de que, no íntimo, Pipo sonhava por uma “docce vita” assim que encerrasse sua carreira.
Certo dia amanheceu indisposto, com náuseas. Não conseguia comer. Foi um corre-corre. Depois de muitos exames, o veredicto: Pipo teria de ser operado. Urgentemente. Um corpo estranho havia se alojado em sua garganta. E tudo aconteceu rápido, às escondidas. Seu esplêndido preparo físico concorreu para o êxito da cirurgia. Dias após, já estava em preparativos para uma nova luta. Foi nesse embate o começo da tragédia. Uma carnificina. O adversário estava quase massacrado quando, num último lance, reunindo todas as forças, conseguiu enganar o invencível Pipo, atingindo-o violentamente no olho esquerdo, que se pôs a sangrar abundantemente, cobrindo-lhe o peito de vermelho. Seria sua primeira e única derrota. De retorno a casa, foi levado para o quintal e sacrificado. Ainda trazia nos pés os esporões de prata.

(Extraído do Livro CONVERGÊNCIA, editado em parceria com sua filha jornalista e poeta Christiane Michelin)

Ainda que eu chamasse Raimundo

Risos
Canastras de papoulas
Janelas que me acenam e me olham
Crianças correndo, sorrindo, se rindo
Domingos bêbados de verões
Nuvens que me apontam sem me tocar
Rastros de luar pelos sertões

Poema branco
Saudade que nunca escrevi
Porque as almas não precisam ler
Porque as almas foram feitas para o amor

Amigos
Florestas de gigantes
Amigos todos
Que os descobri amigos
Numa noite há muito desabada

Vida
Catedral sem portas nem paredes
Chão onde me perco
Na procura de me encontrar

Mundo, mundo, vasto mundo. Se eu me chamasse
[Raimundo…
Não! Esse não é meu mundo –
É ode Drummond.

Poema do Livro: Epístola Fragmentada e Outras Invenções.

Canção do teu Nascer

Havia rosas e orquídeas em teu quarto,
Porque nascera nossa filha.
Havia risos entre mãos que se apertavam,
Porque nascera nossa filha.
Havia uma esperança doida em teu corpo,
Porque nascera nossa filha.
Havia afagos pequeninos em teu seio túrgido e lácteo,
Porque nascera nossa filha.
Havia uma lágrima de alegria em teu olhar de surpresa,
Porque nascera nossa filha.
Havia sumo de felicidade em teus lábios,
Porque nascera nossa filha.
Havia flores enciumadas,
Porque nascera nossa filha.
E derramou –se champanha e brindou-se com vinho,
Porque nascera nossa filha.
E porque nasceu em terras de brasões, de repente,
Assim de repente
Eu me tornava amo e senhor de mais uma rainha.

Poema do livro: Retroflexo.

Do outro lado do verso

E quando os deuses é que chegam
A vida flui sem descarrilamentos
Nem tormentas
Retilínea, ainda que distrófica
Serena e superior
Como vôo de garças por sobre o espelho da tarde.

E esplende entre alegórica e exuberante
Livre de hiatos e traumatismos
Como a da moça do caixa do supermercado
Alegre como um ar de carnaval
Apesar de seu salário de merda
E do vento frio da porta às suas costas
De inverno a inverno
E das sacanagens de alguns de seus fregueses.

Ou estoura redentora
Como a do moço sem braço do café da esquina
Que num átimo revira só mão
A manteiga pelo pão
A xícara fervente
O troco
A própria vida que lhe sobra, transbordante.

Poema do Livro: O Dia do Canto Imaginado.

Com Put a Dor

Fótons Elétron-feixes Flashes
Z. P. X. 33
Tecla-soma Transistorizador Automação

Cogumelo

Plutônio-pétalas Nêutrons Gameto-prótons
Nuclexplosão
Alfa Beta Gama Chuva-tório Megatons

Moleque

Calçadas Muros Quintais
Pitangas Mangueiras
Quintais Muros Calçadas

Boteco

Lamparina Bigodes Balcão
Bala-Média
Faca Pinga Limão

Santa Teresa

Arcos Arcos Arcos
Bonde
Franca Paula Freitas Flor-Marina

Biografia 3 x 4

Maria lava Maria passa Racha lenha
Coze Costura
Meio-dia: correria Meia-noite: caramba!

Poema do Livro: Epístola Fragmentada e Outras Invenções.

Pour Christiane

Viver é sobreviver ao vir e ver
É ser agora todos esse instante
Inteiro momento.

É renascer aqui e adiante
Como o sol a cada madrugada
E mais um pouco daqui a pouco
E depois mais, e depois mais
No rasgar-se das manhãs novas.

É sofrer calado na dor se a dor não cala
É amar na cara do amor se o amor te encara
É crer em ti a partir do teu querer
É cravar na vida os dentes do rir
E sorrir como um arco-íris
Alegremente.

Poema do Livro: Canto Entre Amarras.

Tempo trans-verso

Meu verso é chão de caminho diverso
Retiro azul do meu pensar
Fome e sede – dores que não sei… Pressenti.
Gula do sol de teu céu desancorado
Adoçante mar
Frouxas verdades empinando-se pro futuro
Soluçantes presenças de pretéritos expiados
Inacabados ais.

Meu verso foi grito de rua
Pra que lembrasse de mim os que me viram passar
Pra que coubessem em mim todos os que amei
Por isto destravo nesta hora este canto entre amarras.

Meu verso é tempo que não meço
Vai por aí por onde nem sempre vou
É rio corroendo barrancos, margens que me viajam
Águas assanhadas que me trazem cobiças
Penetrando meus ossos
Sonhos doídos, moídos de amor. Destroços.
E eu navegando… Navegue assim.

Poema do Livro: Canto Entre Amarras.