Alexandre Costa

Sócio Correspondente 1151
Rio de Janeiro – RJ – Brasil

Biografia:

LUIZ ALEXANDRE VIEIRA DA COSTA, Militar, Natural de Petrópolis-RJ, Residente Rio de Janeiro – RJ

Tabalhos:

Memória

A casa que outrora abrigava a minha infância,
Visito nos sonhos mais distintos,
O chão, o teto, o ar que se respira,
Desmoronaram, entre o vazio e o infinito.
Entre as paredes tristes e cinzentas
Ressoam os passos de meu pai,
Vozes de meus irmãos, minha mãe
E eu à espreitar todos eles.
Entre o silêncio e as vozes
Há o tempo que se interpõe,
E o mergulho profundo na memória
Do coração e do deserto da casa.
Nada mais resta, tudo que outrora era vida
E que abriga o espaço hoje vazio
Resta na alma e em mim,
Como um resíduo,
Onde realmente a casa mora,
E terminará comigo
Quando a morte bater em minha porta.

Rio de Janeiro, 26 de setembro de 2010

Novo mundo

Foi com mãos cheias de esperança,
Que moveram as Velas sob luzes e ventos.
Fé e lenda de alguma nação estranha,
Monstros, sombras e degredo,
E a espada à mão firme moveu
A chave do novo mundo.

No infinito de águas incalculáveis
E distâncias que não couberam
Na imaginação e no tempo,
Que a bandeira do Velho mundo
Coberta de Cruzes e medo,
Cravou no solo, onde antes era segredo.

Fito os olhos na escuridão,
A espada num só golpe moveu
Tempo e história inigualável,
E com ela mesma escreveu
Outra história,
Sangue, silêncio e pó,
Onde antes era segredo.
Rio de Janeiro, 15 de Fevereiro de 2009

Fim dos dias

Em 1980, ainda criança
Olhava para o fim do século.
Tinha oito anos
E pouco entendia desse acontecimento.
Ouvia nos corredores,
Coisas sobre a Guerra Fria,
Sobre o Segredo de Fátima
E a súbita morte de um Papa.
E no suspense do fim do mundo
A crença que não passaríamos de dois mil.
Passaram-se trinta anos
Minha mente infantil e temerosa
Das coisas de que ouvia,
Envelheceu.
O mundo continuara,
Resistente às ameaças
Em seu eixo inclinado sob à forma circular.
Feliz, não assisti o fim de nossos dias,
Mas a assustadora mudança de tudo
Do que havia,
Sob a roda esmagadora do futuro.

Rio de Janeiro, 26 de Setembro de 2010

Superfície

Os pés postos sobre o chão
As asas postas sobre a terra,
Imóveis como a raiz profunda,
Que o tempo cravou sob essa terra.
O homem, cuja sina é vagar com seu peso
E seu rastro na gravidade do mundo,
E não contempla a altitude e o espaço
E a visão sobre a montanha,
Arrasta a armadura do corpo
E o coração,
Sobre a planície árida da esfera.

Rio de Janeiro, 27 de Setembro de 2010

O tempo

O tempo,
Essa matéria invisível que nos habita,
Que está em nós e além de nós,
E que arrasta seu volume impreciso sobre a terra,
E que arrasa a terra,
E o que toca,
E que tritura o concreto e o abstrato
Deixando um rastro de poeira e silêncio.
O tempo,
Que esgota o rio caudaloso,
Que a face recorta,
Que o coração petrifica,
E que lança a montanha no vento.
A matéria estraga!
E dessa massa que sobra,
Escura e profunda,
Grande mistério!
Do cheiro fétido que o tempo exala,
Nascem os brotos,
Que cobrem os campos com nova vida,
Para alimentar o tempo que vaga,
E seu desejo de morte e renovação.
Para onde irá?
Caberá na eternidade?
Ou morrerá sozinho na terra áspera?
Quando os frutos já não puderam nascer
E só restar ao tempo devorar cinzas
Seus ossos e o vazio absoluto,
E exilar-se da vida e da morte
Nesta futura terra desconhecida.

Rio de Janeiro, 10 de julho de 2010.

O astronauta

O astronauta pisou na face clara da lua
No imenso deserto branco
No mar da tranqüilidade.
Repleto de sonho, loucura e ciência,
Pisou a pegada da humanidade
E cravou no áspero solo,
A bandeira que supunha
Marcar a vitória na Guerra Fria.
Sobre o árido e triste satélite
Desabitado de nossos sonhos,
Ausente de atmosfera e de criaturas sinistras,
Vagou entre a luz e a sombra
Contemplando o azul radiante
Do planeta mais próximo.
E neste longínquo dia do século XX,
Caminharam dois homens,
Outros ainda viriam
Caminhar sobre o pálido astro
E desbotá-lo de poesia,
Até que nada mais desvendassem…
E assim nunca mais retornar,
E condenar o astro somente
A vagar solitário
No espaço infinito
Entre a treva e o azul.
Regulando as marés,
Ausente de poesia,
E com seus dragões mortos
Sob a bandeira estrelada.
Rio de Janeiro, 05 de outubro de 2010

A morte de minha avó

Hoje, as 17: 20 h, deste dia cinzento de dezembro,
Morreu Vó Iracema.
Tinha 84 anos e no corpo imóvel,
A mesma serenidade de toda vida.

Do que morreu? Não importa.
Ainda ouço sua doce risada,
A permanente alegria,
O passo leve e cansado.
O sabor dos Natais e das festas,
Quanto doce e quanto cheiro,
No amor de suas delícias…
Como eram felizes aqueles dias!
Paralisados na retina e no tempo.

Lembro seu rosto claro,
O afago de suas mãos,
E a gratidão nos mínimos gestos.

Nasceu pobre num lugarejo distante,
Não teve estudo,
Teve dois filhos,
Perdeu um bem moço.
Há vinte anos não enxergava,
Não deixou renda,
Mas na dificuldade de toda vida,
Foi luz constante,
Entendimento,
E compreensão.

Eu, tão imperfeito diante de tanta luz,
Não alcanço entender,
O milagre de sua vida.

Hoje, há a dor imensa de tua falta,
E a certeza de que este mundo áspero e difícil,
Nunca te mereceu…
Por um equívoco do céu vieste aqui,
Qual um anjo que da galeria celeste,
Se desprendeu.
Voltas-te para tua forma angelical,
Com suas asas abertas sobre minhas tragédias
E pequenezas…

Adeus querida Avó,
Fico aqui tão órfão de teu amor,
Mas o tempo que modifica as formas do mundo,
Como muda a forma das pedras,
Transformará essa dor
Em uma doce saudade.

E eu, profundamente incrédulo,
Dos homens e de todas as coisas,
Hoje, passei a acreditar na eternidade,
Na natureza dos homens,
E na existência dos Anjos.

Rio de Janeiro, 07 de Dezembro de 2009.