Anderson Braga Horta

Sócio Correspondente 744
Brasília – DF – Brasil

Biografia:

ANTOLOGIA PESSOAL
ANDERSON BRAGA HORTA
2001 – Anderson Braga Horta

O AUTOR POR ELE MESMO

Nasci na cidade mineira de Carangola, em 17 de novembro de 1934. Meu pai, o advogado Anderson de Araújo Horta, e minha mãe, Maria Braga Horta, eram professores e poetas. Assim, criado num ambiente de respeito à cultura e amor aos livros, posso dizer que recebi em casa mesmo os primeiros estímulos literários.

A família morou, sucessivamente, em Carangola, Manhumirim, Belo Horizonte, novamente em Manhumirim, depois em Resplendor, Mutum, outra vez em Carangola. Já então acrescida dos manos Arlyson, Augusto Flávio e Maria da Glória. Em 1942 fomos para Goiás, passando três anos na antiga e dois na nova capital do Estado. Em Goiás Velho nasceu o caçula, Goiano.
De volta a Minas, novo périplo em redor de Manhumirim, onde residiam meus avós maternos: Aimorés, Mantena, Lajinha, cidades que eu visitava nas férias, pois, tendo começado o ginásio em Goiânia, fiz, nesse período (de 1947 a 1953, para ser exato), as três últimas séries em Manhumirim e o clássico em Leopoldina. Já me encontrava no Rio de Janeiro, cursando Direito, quando para lá se mudou a família, em 1956.
Transferi-me para Brasília em julho de 1960, como redator da Câmara dos Deputados, a cujo serviço fora admitido em 1957 como datilógrafo. Os irmãos foram também atraídos pelo Planalto Central, a que finalmente aportaram os pais, em 15 de novembro de 1964.

Exerci ainda o jornalismo e o magistério, tanto no Rio quanto em Brasília. Meu primeiro trabalho, contudo, foi como securitário, na Velha Capital, a não ser pelos meses em que lecionei no Seminário de Leopoldina, cidade em que prestei, após o curso clássico, o serviço militar (tiro-de-guerra).
Já radicado em Brasília, casei-me no Rio, em 1962, com a capixaba (de Cachoeiro de Itapemirim) Célia Santos. No ano seguinte nasceram os gêmeos, brasilienses, Anderson e Marília.

Meus pais aqui faleceram, mamãe em 1980, papai cinco anos depois.

As primeiras impressões literárias que retenho datam da cidade de Goiás: uma página de Humberto de Campos em que o autor, na primeira pessoa, confessava um furto de menino —o que me deixou consternado—; e o “Pequenino Morto”, de Vicente de Carvalho, cujos melodiosos hendecassílabos encheram minha alma infantil de tristeza. Em Goiânia me tornei leitor voraz de histórias em quadrinhos e de todos os livros que havia em casa — Gato Preto em Campo de Neve e Clarissa, Ecce Homo e Assim Falava Zaratustra, Meu Destino É Pecar (isso mesmo, o livro proibido de Nélson Rodrigues) e o mais em que pude pôr a mão e os olhos.
A impossibilidade de compreender tudo não era obstáculo ao entusiasmo do jovem devorador de letras.

Por essa época, apesar da força atrativa dos quadrinhos, que me guiou a mão numa série de rabiscos, até mesmo numa historieta de texto e desenhos típicos, o autor mais amado foi, sem dúvida, Monteiro Lobato, por sua obra infanto-juvenil, que reputo ainda hoje incomparável.
Mas quem me levou a escrever poesia, conforme tenho repetido em páginas de depoimento literário, foi mesmo Castro Alves. As primeiras tentativas, frustradas, resultantes em prosa ritmada, datam de Manhumirim, ao tempo em que freqüentava o Colégio Pio XI. As primeiras realizações, de Leopoldina, em 1950.
A outra grande influência de então foi Bilac. E, depois, tantos poetas que nem convém enumerar! Dos clássicos aos românticos, dos parnasianos aos simbolistas, desses aos modernos, que me ensinaram a quebrar o verso, sem descartar a tradição.

Penso que o poeta não pode deixar de se assenhorear das técnicas do verso, embora a técnica, obviamente, não seja tudo. Que ao escritor compete extrair do potencial de sua língua toda a cintilação que possa, dignificando-a sempre. Que escrever é atividade intelectual, sim, mas não se esgota no âmbito do intelecto; que o poeta há de comover-se e comover, sim, mas não se há de entregar, ingenuamente, à emoção desassistida da inteligência, porque a emoção, por si só, não é ainda arte, não é ainda poesia. Que a esse amálgama de pensamento, emoção, sentimento que é o poema não se deve tolher o voltar-se para a sorte do homem no espaço e no tempo, seja do ponto de vista filosófico, seja do social; pois à poesia, arte da palavra, interessa necessariamente tudo o que de humano se possa representar nela. E que, portanto, a arte do poeta há de ser mais complexa, mais completa, mais abrangente e mais profunda do que tendem a fazê-la os jogos —algumas vezes brilhantes— a que pretendem reduzi-la correntes revolucionárias.

Isso posto, confessadas, via de conseqüência, as minhas próprias limitações, passo, com a possível humildade, ao balanço de quatro décadas de produção poética —omitida, quase totalmente, a inicial—, balanço em que, de algum modo, se traduz a seleção de poemas que ofereço ao leitor.

Brasília, 31 de maio de 1999


Trabalhos

Salmo para Célia

Olho-te — lúcida no cristal do dia,
suave entre as sedas da noite.

Olho-te na azáfama quotidiana,
entre os mil afazeres do lar que estruturas.
E tu és o dínamo que move os motores do mundo,
a cornucópia que nem sempre se vê por trás das dádivas.

Olho-te sentada,
imersa no cosmo de tuas costuras.
O que cirzes é mais do que meias,
o que pregas e repregas é mais do que botões,
o que surge pronto ou refeito de tuas mãos mágicas, milagrosas,
é mais do que peças de roupa.
São vidas que saem de tuas mãos
e se libertam
e estão, e estarão sempre presas a ti.

Tantos anos de caminhada solidária!
Tantas cicatrizes! Luminosas cicatrizes
dos frutos gerados de teu amor,
amadurados ao calor do teu seio.

Olho-te sempre.
Os pés às vezes tropeçam,
as mãos às vezes tateiam,
as palavras falham.
Mas o amor a tudo provê
e tudo remedeia,
e assim nada está realmente perdido,
mesmo quando as torres da incompreensão lançam sua sombra no vale.
O dia que nasce de tuas mãos
é suave e acolhedor como a noite.
A noite que escorre de teus dedos
tem mais luzes que o meio-dia.

Vejo-te inclinada
sobre os infinitos mistérios do teu minúsculo reino.
Que não tem termo, afinal, porque bebe-lhe as praias o pélago do espírito.
Os óculos atentos
carregam as insônias fecundas.
No tremor das mãos
vibram os raios generosos das bênçãos.
A cor dos cabelos começa a cansar-se,
mas a alma não esmaece.

Cada ruga cristaliza
mil cuidados de amor, e em cada uma
cintila o amor inteiro, como o sol
que se reparte e não se apouca.

Inclino-me à tua fonte,
à estrela em que te disfarças,
à galáxia em que toda resplandeces.
E beijo com ternura os teus cabelos brancos.

Sísifo

Rompe a manhã, senil, semeada de escombros.
Perde-se o meio-dia entre nimbos. Escura
pende a tarde, sabendo a cinza e sepultura.
O poeta carrega a noite sobre os ombros.

RIO

Alguma coisa se desata em mim,
de mim, quando, na música, disperso
o pensamento, o acústico universo
me transporta, num périplo sem fim.
De outro modo, tão outro, e entanto afim
deste fluir, um mesmo e tão diverso
banimento do ser move o meu verso,
e me comove, em êxtase malsim.

Um êxtase que aos astros me delata,
se na barca de uns lábios de escarlata,
no ondear de uns seios langues, no alfenim

do longo enleio, embalo-me de sonho.
E quando os olhos nos teus olhos ponho
sinto que um rio se desata em mim.

(A)MAR(O)

Em março o mar soletra
sol e ar e luar.
E o pescador espera,
a cismar,
que das espumargênteas
vagalínguas a ondear
saia a palavra peixe.
E põe-se a piscicar,
de anzol, tarrafa, rede,
arpão, — o mar.
Tempera-se a salina
escuma na carícia
doce do ar.
Chispam gaivotas-hifens
a mergulhar,
relâmpagos de união
entre ar e mar.
E o pescador espera.
O mar tostou-lhe a cara,
pôs-lhe vagas no olhar
e na pele. Sua alma
tem um fundo de sal.
Mas deu-lhe o mar um vago
íntimo marulhar
que em março, abril, desmaios
de amor lhe dá.
E essa amável magia
é que o faz esperar,
de janeiro a dezembro,
no seu destino claro:
amar o mar amaro.

A tartaruga

Eu venho donde vem o infinito da Vida,
do crespo e ardente oceano em toda parte ondeando,
da explosão inefável
do que chamais abismo, e é tudo, e é nada,
no pulso intemporal de quanto existe
e de quanto é oculto.
Vivo porque o Mistério impõe que eu viva,
e na vaga da Vida
—sonho que vou sonhando e que me sonha—
eu beijo a mão do Arcano e o lábio do Sigilo,
e reflito no olhar, como um memento,
o olhar do que é, não sendo.

Os olhos tenho abertos
para a impressão do nimbo e do relâmpago,
da água turva e do ar claro,
do céu-mar que se abre e se desdobra
à avidez do meu nado, de meu nada.
Mas não vêem o tempo além do agora,
o segundo futuro,
próximo como o que se foi há um átimo,
e no entanto remoto
como a encoberta eternidade.

Vi o homem de gatinhas,
na semente animal ainda indiferenciado.
Ouvi seus balbucios.
Fiz minha mão a mão que fez o arado,
que faiscou na pedra um firmamento
fugaz de estrelas árdegas.
Tomei-lhe da mão trêmula
a ensaiar-se divina
no primeiro rabisco
do primeiro alfabeto,
na prisca partitura
da vindoura vertigem
de encontrar-se maior que a imensa origem.

Das figuras rupestres das cavernas
subi ao zigurate dos sumérios.
Cunhei sonhos avoengos nos ladrilhos.
Andei Índias e Chinas
do Oriente e do Ocidente.
Topei do Egito o sacro escaravelho.
De tudo em toda parte uma imagem ficou-me
gravada na retina que não vedes.

Sei do amor e do ódio,
sei do hino e do vômito,
sei da paz e da guerra,
sei do mar e da terra,
sei do céu e do éter,
sei da carne e do espírito.

Muito eu tenho vivido,
tanto amado e sofrido
e pecado e ascendido. Respeitai-me,
se não por vós, grumetes
que o Mar aleita ainda,
pela Vida que em mim se fez tempo e caminha
para fazer-se eternidade.

Que novas cores beberei? Que músicas
fluirão no meu dorso? Que suaves,
que pétreos tatos guardarei no olfato,
no paladar, na pele, na retina?

Eu continuo. Adiante!
Para onde, afinal?
Que universo, que abismo
espera por meus pés na curva do infinito?

Eu vou para onde ireis:
para Além, para o Enigma.
Eu vou para onde vai o infinito da Vida.

Ode a Água

Quisera ser a Água.
não ter o prejuízo da forma,
pra poder compreender todas as formas.
cor nem cheiro,
para impregnar-me de todas as cores da Terra
e de todos os perfumes das matas e dos campos.

§

A Água fotografa na retina móvel
lava na alma compassiva
as grandezas e misérias da Terra.
A Água quando se turva
é num segredo de útero
para o gesto dos peixes e das algas.
quando se salga
é a grande lágrima do Mundo — o Mar.

§

Sangue nas veias do Planeta,
a Água nos rios flui. Vai sem pergunta,
sem plano e sem mealheiro.
Existe, e é útil: cumpre o seu destino.
Sabe que a espera o Mar.

Também sabemos
que nos espera um Mar.
Mas a Água sabe mais que nós:
o de que esquivamos nosso olhar:
que toda ela é o Mar.
E sobretudo sabe
que há de ir e de voltar
até a consumação dos ciclos.
Nem se lamenta. Sabe,
não há o que lamentar.

§

No Mar!…
Ah música de espumas!
No Mar!…
Ah vinhos de marulhos!
Ah conchas de silêncio!
Ah solidão do todo!
No Mar!…

E o Grande Coração bombeia as águas
para as artérias do ar.

§

A Água quando se eleva
não sabe de orgulho, nem de mesquinha altura.
Sabe a fortuna dos ventos,
a fecundidade das trevas.
E cumpre a Lei. Rosa
de nuvens
dá-se.

§

Água:
Vida que ao Sol nos move
e me comove.

Ciranda

A minha Mãe

Perdeu-se um dia uma pena
da asa do tempo sem fim,
veio vogando e, serena,
pousou bem dentro de mim.

Trouxe um vôo perfumado
de amburanas de um jardim
seguramente encantado,
que o encantei dentro de mim.

Caiu no centro de nada
do sem-tempo donde vim
e cantou-me em voz calada
cantigas de então e assim.

Doces violões de brumas,
claros pianos de alfenim.
E à brisa, em coro de plumas,
palavras-vida de mim —

quermesse, roda, cantiga,
bisorro, corgo, capim —
palavras-coisas de antiga
aurora perdida em mim —

moça, romã, romaria,
chilreios de passarim —
palavras-lumes que um dia
luziram manhãs em mim —

sanfonas, neblina, aurora,
galopes de cavalim —
palavras cantando agora
no antigamente de mim.

E eu era um barco e era o brando
mar sem tempo do sem-fim,
era a ciranda girando
desse outro eu que havia em mim.

Mas veio o vento do mundo,
um vento adulto e ruim,
fez um remoinho profundo,
levou-me a pena por fim.

Ai, pena, por que voaste
do meu coração assim
e sem pena me deixaste
perdido num eu sem mim?