Décio Bittencourt

Sócio Correspondente 1150
Luanda – Angola

Biografia:

Naturalizado e residente em Luanda, nasceu em Menongue, província do Kuando-Kubango, sul de Angola.
É licenciado em Geofísica pela Faculdade de Ciências da Universidade Agostinho Neto.
Cumpriu o serviço militar obrigatório entre 1986 e 1992, colocado na escola Político-Militar Comandante Gika, onde leccionou as disciplinas de Química e Física. Atingiu o grau militar de Capitão.
Leccionou em vários estabelecimentos de ensino, com realce para o IMIL onde ensinou Física. Actualmente trabalha na Indústria Petrolífera.
É membro fundador da Associação de Geofísica de Angola.
Escreve artigos sobre xadrez, e outros, na imprensa escrita.
É membro da União dos Escritores Angolanos.
Obras publicadas:
A Fúria do Mar – Editorial Nzila, 2003. Poesia
Os Meus Pés Descalços – UEA, 2006. Poesia
Xé Candongueiro! – UEA, 2009. Poesia

E-mail: deciomateus@yahoo.com
Blog: http/mulembeira.blogspot.com

Trabalhos:

Discurso no parlamento

Um dia, encho-me de coragem
E vou mesmo discursar no parlamento
Confesso que fiz juramento
De ir a pé até lá
De entrar naquela sala,
Para discursar a minha mensagem
Um dia, apareço nas câmaras da televisão
Verdade mesmo, não é ilusão
Apareço com o meu rosto maltratado
Com o meu rosto de drogado
Para pedir um ponto de ordem
Aos senhores deputados,
Eu mesmo que vivo do outro lado da margem
Ja sei que vão olhar com indignação
Para os meus pés descalços
Para os meus calções rotos
E para os meus magritos braços
Já consigo imaginar os vosso rostos
De indignação e estupefacção
Mas mesmo assim eu vou mesmo discursar
Em plena assembleia nacional
Assim mesmo, com este meu visual
De menino de rua votado ao abandono
De menino de rua cão sem dono
Eu vou à assembleia nacional falar

Assim mesmo, sem convite
E sem ser chamado
Eu, que não sei falar português de escola
Vou entrar naquela sala
Para falar com os senhores deputados
Eu vou lá sem convite, acredite!
E antes de me porem andar à paulada
Antes de me mandarem calar à porrada
Vou rasgar o meu peito
Para vocês escutarem o grito
De tanto sofrimento vivido
De tanto sofrimento bebido
E enquanto estiver a ser arrastado
Para fora da assembleia nacional
Eu, menino de rua cão sem dono e drogado
Eu, menino de rua marginal
Ainda terei coragem
Ainda serei capaz
De trovejar a minha mensagem:
POR FAVOR, PÃO, TECTO E PAZ!
Não levem a mal
Mas eu vou mesmo discursar em plena assembleia nacional!

Décio Bettencourt Mateus

II. Negra da Terra

Negra de carapinha dura
Não estraga teus cabelos,
Me jura.
(Teta Landu)
Minha negra brinca a gingar
Magia da kianda
Negra anda-que-anda
E ginga-que-ginga
Andar de negra é banga
Andar de negra é cântico do mar!
Minha negra ginga elegante
Nas curvas duma viola
Nas ondulações duma mbunda
Negra ginga e rola
E encanta gente
Ginga e rola a negra linda!
Ginga de negra é cântico do mundo
Não usa coisas de tissagem
Usa tranças de bailundo
A negra jovem
E ginga-que-ginga a dançar
Ginga nas ondas do mar!
Minha negra mulher cristalina
Não usa coisas de postiços
Usa carapinha
E tranças de linha
E tem magia de feitiços
A preta africana!
Minha negra beleza genuína
Ginga-que-ginga
Dança-que-dança a preta angolana
Minha negra mulher da terra
Mulher negra
Penteado à africana!
Minha negra mulher formosa, mulher cheia
Mbunda farta
Não conhece cabeleireira alheia
Usa carapinha de preta
E traz na voz a tradição negra
Traz na voz o pulsar da terra!

Décio Bettencourt Mateus

III. Um silêncio das gentes

Um silêncio e passos d’homens importantes
Ecoam chão de mosaicos
Poc, poc, poc…ecos
E fatos enfatados
E engravatados
D’homens importantes que as gentes!
Um microfone num discurso sábio
Regado de palavras sábias
O silêncio cúmplice dos dias
No silêncio do silêncio
Das gentes cansadas das oratórias
E discursos de hipocrisias!
Uma torrente de palavras rechonchudas
Um desfile de sapiência
Em gravatas abastadas
As minhas gentes caminham mudas
E desesperam paciência
Na dor do alvorecer de madrugadas!
Quem compra os espinhos das gentes
No suor da caminhada?
Passos d’homens arrogantes
Ecoam mosaico d’estrelas
Eu rezo as velas
Das gentes perfiladas nas estradas!

As minhas gentes suam injustiça dos dias
E dor das noites silenciadas
Magricelas
No palácio das estrelas
Gravatas abastadas
Festejam hipocrisia de palavras sábias!
A minha noite adormece entristecida
Na cobardia da gente emudecida!

Décio Bettencourt Mateus

IV. O meu amo

O meu amo em fúrias
E falas de arrelias
Aportou mal-humorado ao palácio
Dos sonhos e silêncio
E num estrondo resoluto
Gritou ser amo e amante absoluto!
Trovejou fortes trovoadas
Arregaçou uma camisa
De costas corroídas de pobreza
E magreza
Trovejou às paredes de casa
E tempestuou páginas revoltadas!
Mostrou um peito desmusculado
Diluído em mágoas de álcool
E cansaços de sol
Um velho-peito-robusto
Desgastado e agastado
Em magras costelas de desgosto!
Gritou gestos abruptos
No vazio das panelas
Dos bolsos rotos
Gritou desespero às janelas
E resmungou um silêncio amuado
Um silêncio, o meu pobre amado!

Depois procurou meus mistérios
E o mansinho dos delírios
Conduziu-me a novos portos
Ressonou a nova aurora
Com ventos d’outrora
Ressonou um sonho de gemidos fartos!

Décio Bettencourt Mateus

V. Um homem num Mc. Donald’s

Um homem das áfricas longínquas
Num McDonald’s das europas
A tremer o frio nas roupas
A esconder as mágoas
E miséria das terras ricas
E sofridas das áfricas!
Senta-se faminto num canto
O cansaço da África
A desilusão da Europa branca
No rosto esfomeado
Senta-se ao meu lado
A dor d’África no pensamento!
Traz a fome dos dias a roer
O homem num McDonald’s das europas distantes
A África e suas gentes
A roer, a moer
E um homem senta-se perdido nas europas
A tremer o frio nas roupas!
A África atrasada, distante
A poeira e gritaria de desentendimentos
Dos homens arrogantes
Europa, o paraíso, fica num além
Dissipado numa nuvem
E o “um homem” senta-se nos seus pensamentos!

E parte perdido na ilusão das europas brancas
A vergonha das áfricas ignorantes
E suas gentes
A barriga de fome a roer
A vergonha a doer
E um homem parte na desilusão das áfricas!

Décio Bettencourt Mateus

VI. As ondas do nosso mar

À minha esposa, Eva Fraio.
Depois da salgadura
Das praias da ilha do nosso mel
N’algumas ondas do nosso mar
Um sopro de brisa a cantar
Um cântico afável
De amores e ondas de doçura!
Depois duma fúria d’enchente
A protestar rochas
E areias e conchas
No lago do nosso mar
Uma calmaria d’horizonte
A apascentar nossas águas a marejar!
E um bater d’ondas tranquilo
Na ilha do nosso Mussulo
A espumar amores pitorescos
Nas areias da praia
Das pedras da nossa baía
Um bater de cânticos românticos!
E serei os trajes do rei-sol majestoso
Nas ondas do teu mar
A navegar e arfar
Desejos e gozo
De estrelas-do-mar e luas
Nas ondas femininas das tuas águas!

Serei a doçura da salgadura
E bravura
Das ondas do nosso rio
Um murmúrio
D’amor a sussurrar
Coisas d’arco-íris nas ondulações do teu mar!

Décio Bettencourt Mateus

VII. E os homens da terra

E os homens da terra
Sentaram-se! Frutos silvestres
Emprestaram sabedoria e sombra
Poeiras campestres
Abençoaram papeladas
E acordos nos matos das picadas!
Um vento a soprar agreste
As terras do leste
Falou-me d’homens sentados
Em troncos e pedras
A falarem acordos e palavras
E obuses de canhões silenciados!
A taça do sangue das armas
Entornou-se! Batuques e lágrimas
Das gentes magricelas
A espreitar homens da terra
Sentados, a falarem paz em palavra
E sonhos e acordos d’estrelas!
A tumba dos homens apagados
Em camuflados e botas
Aplaudiram palmas
Kazumbis e almas
Dançaram alegria nas matas
E homens sentaram pedras d’acordos!

E as patentes da terra
Conversaram! Calaram-se ruídos
E fuzis d’homens fardados
A barulhar palavras e guerras
Conversam os homens nas pedras
E nos troncos dos acordos!
E os homens da terra conversaram!

Décio Bettencourt Mateus

VIII. Debita-mes silêncio

Debitas-me silêncios
E reticências…
Quando na dureza da voz macia
Dos teus lábios
Ornamentas flores e lavras
No silêncio das tuas palavras!
Debitas renúncias
E crucificas-me as mazelas:
Teu olhar fala-me paisagens
Rosas e margens
A brincarem às estrelas
Quando finges silêncios e reticências…
E na dureza da ausência
Um sopro distante
Angustiante
Um silêncio de melancolia
Na voz da noite do luar
Uma eternidade nos dias a folhear!
Debitas-me silêncios
E açoites de negativas
Em palavras altivas
À noite murmuras balbucios
Ao frio d’almofada
E lamurias nossa paixão crucificada!

Asseveras-me a justiça
A transbordar motivos mil
Flechas e açoites
No mistério do frio das noites;
Uma taça
E champanhe: a noite convida-nos dócil!

Décio Bettencourt Mateus

IX. Xé candongueiro

Candongueiro tem pressa
Sobe na baúca
Não tem conversa
Condução louca
Pé no acelerador, velocidade
Não respeita prioridade!
Eh! Candongueiro dono da estrada
Ultrapassa pela direita
Manobra arrojada
Ultrapassa
Vuza na estrada estreita
“Trabalha não dá confiança”, tem pressa!
Candongueiro abarrotado
Não afrouxa na lomba
Leva gente p’ra mutamba
Pé no acelerador, velocidade
Dono da cidade
“Dinheiro trocado, dinheiro trocado!”
Eh! Candongueiro tem cobrador
Que grita: 1. de Maio, Maianga, Maianga…
Pé no acelerador, zunga-que-zunga
Abarrotado de gente
Não respeita cliente:
“Ou encosta ou desce meu senhor!”
Zé Pirão, São Paulo, Roque
“Não há maka emagrece meu kota”
Candongueiro manda na estrada
Leva gente do musseque
Gente enlatada
Roda batida é dono da rota!

“Trabalha não dá confiança”
Prenda, Mulembeira, Mulembeira
Leva gente do povo gente da praça
Candongueiro transporte do povo
Não é carro novo
Arranca levanta poeira!
Zunga-que-zunga sobe o passeio
Carro cheio
Xé candongueiro
Respeita passageiro
E espera prioridade
Candongueiro é dono da cidade!
Eh! Candongueiro é gente importante
No carro velho
Leva gente p’ro trabalho
Carrega gente descarrega gente
Ku Duro música alta
Xé candongueiro olha multa!
Décio Bettencourt Mateus
Xé : atenção !, cuidado !
Candongueiro : espécie de mini-autocarros – normalmente Toyota Hiace ou Comuter, azul e
brancos – que se dedicam ao transporte de pessoas.
Baúca: espaço adjacente à parte de trás dos bancos da frente, i.e. do motorista e outros.
Emagrece: em linguagem popular do candongueiro quer dizer que o cliente deve encostar-se o
máximo que puder, para que outro cliente possa sentar-se.
Ku duro: estilo musical made in Angola, em moda.
Kota: mais velho, pessoa de respeito.

X. Um cafuné mãezinha

À memória de Luzia Bettencourt M., minha mãe.
Um cafuné mãezinha
Um cafuné na minha carapinha
Mimos e carícias nos meus cabelos
Numa brincadeira de assim
Meu cabelo ruim
E teu cafuné a embalar meus pesadelos!
Um cafuné na minha carapinha
Teus dedos mãezinha, rios
E estrelas nos receios
E caminhos dos meus cabelos
Teus dedos tranquilos
A me afagarem assim mãezinha!
Um cafuné a embalar meus medos
E o amor a brotar e a jorrar
Na minha carapinha
Que eu oiço a voz do luar
Mãezinha
Oiço o luar nos teus dedos!
Um cafuné e conta-me estórias
E sabedorias:
“Era uma vez, o coelho e o macaco…”
Uma estória de carapinha
A adormecer noitinha
E eu durmo o embalo do teu cântico!

Os caminhos do dia correm pantanosos
Os silêncios da noite misteriosos
Eu em medos e manias
À espera das tuas estórias
Teu cafuné mãezinha
A adormecer-me a carapinha!
Oh! A noite é dura
E eu durmo insónias na noite escura
A sonhar teu cafuné mãezinha
Minha carapinha castanha
Meu cabelo ruim
À espera mãezinha, num cafuné de assim!
Um cafuné mãezinha
Um cafuné na minha carapinha!

Décio Bettencourt Mateus

XI. Teu rosto tardio

Quando em teu rosto tardio
O bafo das noites
D’orgias
Serei-me nos açoites
Da dor pungente dos dias
A verter lágrimas de dorido silêncio!
Quando em teu hálito a miúdas
Whiskies e cavalgadas
D’avenidas de prazer
Serei o rosto de mulher
A vigiar-te as noites
Guardando-te os espasmos dos meus limites!
Quando na correnteza da noite
Tropeçares amanheceres
E gemidos de mulheres
Serei um qualquer zénite
A rezar-te a demora nas noitadas
A velar-te os passos nas estradas!
E serei tímida
Reservado águas quentes
À doçura do teu pólen
Serei-me em teu cheiro másculo d’homem
Gemidos ardentes
E suspiros em minha janela húmida!

Serei-me de vigília
A vigiar-te os passos da noite
Álcool, tabaco, música e prostitutas
Serei o amanhecer do dia
Uma porta um convite
Migalhas do teu pólen em minhas águas sedentas!

Décio Bettencourt Mateus

XII. A minha casa

A minha casa
É fácil de localizar
É fácil de encontrar,
Basta ires sempre em frente
Para além da linha do horizonte
É fácil concerteza
Primeiro encontras lixo
Lixo e pessoas em convivência
E em harmonia,
Lixo na parte de baixo
E na parte de cima
Lixo e pessoas em convivência íntima
Mais adiante
E com o mau cheiro crescente
Encontras uma lagoa
E nela, crianças a banharem
Crianças a brincarem
Na maior, numa boa
Mais a frente
Entras em becos estreitos
Becos pequenos e apertaditos
É fácil, é só teres isto em mente
Becos e suas enxurradas
Becos e suas águas estagnadas
Sempre em frente
Para além da linha do horizonte
Lá onde a água corrente
Lá onde a água potável
Passa muito distante
E da cor do invisível!

Sempre em frente
Para além da linha do horizonte
Lá onde a luz eléctrica
Connosco brinca
Qual nuvem passageira
Que ora vai, ora vem zombateira!
Sempre em frente
Para além da linha do horizonte
Cheiro de kaporroto* no ar
Cheiro de kimbombo** a vibrar
Nossas bebidas do dia-a-dia
Nossas bebidas nossa companhia
E no quintal da minha casa
Há jovens a falar alto bêbedos
Jovens cansados, frustrados e arrebentados
São os meus kambas***
Kambas das bebedeiras e das malambas****
É fácil de localizar concerteza,
Sempre em frente
Para além da linha do horizonte!
Décio Bettencourt Mateus
Décio Bettencourt Mateus
in “A Fúria do Mar”
* Bebida caseira angolana
** Bebida caseira angolana
*** Amigos
**** Problemas, tristezas

XIII. Dialogando com as estrelas

Às estrelas
Vou falar das moças belas
Algures com um filho nos braços
No rosto os traços
De uma promessa não cumprida
Depois do corpo usado
Às estrelas
Vou falar dos mutilados
Não terão sido enganados?
E a angústia daquelas
Que debalde esperam pelos maridos
Numa mata qualquer desaparecidos e esquecidos
Às estrelas
Vou falar das crianças famintas
E gritar quantas
De entre elas
Morrem de fome
Antes mesmo de terem um nome
Às estrelas
Vou falar da guerra
Aqui na minha terra
E perguntar se no mundo delas
Também é assim
Com matanças sem fim
Às estrelas
Vou falar das celas
Em que aprisionaram a liberdade
E encarceraram a felicidade
Numa noite qualquer
Para esquecer

Às estrelas
Vou pedir um passaporte
Com visto para marte
Em venturosas escalas
Rumo ao infinito universo
Deixando para trás este mundo perverso
Às estrelas
Vou falar com elas…

Décio Bettencourt Mateus

XIV. Fruta verde

Fruta verde de qualidade
E em quantidade
Fruta verde de catorze anos verdes
Nas discotecas, nas praias, na rua…
Fruta verde fruta ingénua
Abundante nas nossas cidades
Fruta verde mini-saia curtinha
A mostrar pernas bem torneadas
A mostrar ancas onduladas
Fruta verde fruta gostosinha
De dar água na boca
E fazer cabeça louca
Fruta verde fruta apetitosa
Seios tesos madurinhos
Fruta verde fruta saborosa
Calções pequenos calções curtinhos
Fruta verde a convidar com o andar
A convidar com o olhar
Fruta verde sensual nas praias
Corpo escultural a bronzear-se nas areias
Fato de banho fio-dental provocante
Corpo a amadurecer, nu excitante
Corpo a amadurecer, nu à mostra
De deixar boca sem palavra
Fruta verde flor a desabrochar
Corpo de mulher a florescer
Fruta verde flor a despertar
Corpo de mulher a amadurecer
Fruta verde fruta bonita
Homens ansiosos à espreita

Fruta verde, verde comida
Fruta verde desiludida
Não teve tempo de desabrochar
Não teve tempo de florescer
Fruta verde não teve tempo para despertar
Homens comeram fruta verde a amadurecer!
Fruta verde aos embaraços
Com filho verde nos braços!

Décio Bettencourt Mateus

XV. Ndumbu

O estranho
Em cima de mim
Que me penetra brutal e sem carinho
É um desconhecido
E tem o meu consentimento contrariado,
Quando chegará ao fim?
O homem
Que faz uso do meu corpo
Transformando-o em farrapo
E em trapo também
Nunca vi antes
Só agora nestes instantes
O estranho bêbedo
De mau hálito
Que comprime o seu peito
Contra os meus treze anos
E afaga os meus seios pequenos
É um desconhecido, o safado
O estranho sujo
No interior do meu sexo
Que depois sai molhado e frouxo
Eu não vejo
Pois penso na família desaparecida
E na casa destruída

O estranho que me enoja
Quando me beija
Não possui a minha alma
Nem alcança o meu íntimo,
Encontra-me distante
E do meu corpo ausente
O sujeito (estranho)
Que depois me entrega o dinheiro
De que tanto necessito (e muito me envergonho)
Nunca foi meu parceiro
Nunca esteve comigo
E tão pouco alguma vez foi meu amigo,
É um desconhecido
E logo-logo será esquecido

Décio Bettencourt Mateus

XVI. As mulheres da minha terra

São todas belas
Elas
As mulheres
Que meus quereres
Se confundem
E perdem
Vejo Rosa
Formosa
E me encanta
Que canta
Meu coração
De emoção
Vejo Margarida
Querida
Alta
E esbelta
E é ela
A minha estrela
Vejo Teresa
Beleza
Baixinha
E cheinha
E por ela suspiro
E passo noites em claro

Vejo Bela
Gasela
Ternura
E candura
E logo meu coração
É todo paixão
Vejo Maria
Feia
Mas bela
Ela
No interior
E é meu grande amor
São todas belas
Elas
E muitas,
Pretas, albinas, brancas, mulatas, …
Mas todas bonitas
Todas catitas
E belas!

Décio Bettencourt Mateus

XVII. As mãos da mãe

As mãos. Mãos calejadas
E enrugadas
Mãos precocemente envelhecidas
E endurecidas
As mãos sofridas da mulher
Cansadas de sofrer!
As mãos. Mãos molhadas
E húmidas
Toneladas de roupa no tanque
À espera das mãos trabalhadoras
E sofredoras
Toneladas de roupa à espera num qualquer musseque!
As mãos da mãe. Mãos outrora finas e delicadas
Agora maltratadas
E calejadas
A roupa, o tanque, a cozinha, a lida da casa…
E as mãos cansadas na sua beleza
As mãos na sua aspereza!
As mãos da mãe. Mãos enrijecidas
E endurecidas
Mãos ásperas travaram longas batalhas
E exibem as medalhas
Exibem os calos das batalhas travadas
Os calos das mãos. As mãos da mãe outrora delicadas!

As mãos. As mãos da mãe trabalham a terra
Com vigor e garra
As mãos trabalham, o suor corre
O suor escorre
As mãos cultivam os produtos, cultivam o milho
As mãos calejadas alimentam o filho!
As mãos da mãe. Mãos ásperas sem instrução
Mãos sem escola, sem preparação
Trabalham duro
E preparam o futuro
As mãos sem escola vão formar doutores e engenheiros
As mãos sem escola vão formar cérebros!
As mãos da mãe. Mãos lindas plantando rosas de amor
Mãos lindas plantando um mundo melhor!

Décio Bettencourt Mateus

XVIII. As zungueiras

O miúdo nas costas, faminto
O sol queimando
O sol assando
O miúdo nas costas, faminto de alimento
As moscas acariciando-o
E o lixo distraindo-o!
A zungueira zunga, cansada
Na cabeça, o negócio e o sustento
E nos pés empoeirados
O cansaço dos quilómetros galgados
O cansaço da distância percorrida
A zungueira zunga, o miúdo nas costas faminto!
A zungueira zunga, cansada
E vai gritando e berrando a plenos pulmões:
Arreou, arreou, arreou nos limões…
A zungueira zunga, empoeirada
E arreia o negócio, arreia o preço e faz desconto
Arreia o preço do sustento
O miúdo nas costas faminto
A lombriga na barriga rói, a lombriga pede
O miúdo nas costas, faminto de alimento
Chora e berra
Não é birra
É a fome que aperta, é a fome da sede!

A zungueira zunga, apressada
E arreia o negócio, arreia o preço:
Arreou, arreou, arreou no chouriço…
A zungueira zunga empoeirada
E arreia o preço do negócio
Arreia o preço da mercadoria, coisas do ofício
Depois, a viatura da fiscalização
Os travões chiam, as marcas dos pneus no asfalto
E os homens arrogantes a perseguirem
E a baterem
E a zungueira a fugir, e o negócio e o sustento
Caídos, espalhados no chão!
Depois vem o fiscal, também faminto,
“Você tem autorização?
Acompanha, isso é transgressão!”
A zungueira implora e mostra a fome:
Tem dois dias o miúdo não come
A lombriga na barriga precisa alimento!
O fiscal, também faminto
Arreia o lucro da zungueira cansada
E desesperada
Arreia o lucro, senão a zungueira vai presa
Senão a zungueira não volta a casa
E a zungueira cede, com medo no pensamento
Depois a zungueira chega a casa
De bolsos vazios, mas alívio no coração
E grata, afinal não foi presa
Afinal não foi à prisão
A zungueira chega a casa, o miúdo faminto
O miúdo sedento de alimento

Mas amanhã, a zungueira voltará a berrar
Amanhã a zungueira voltará a arrear:
Arreou, arreou, arreou em qualquer coisa…

Décio Bettencourt Mateus

XIX Os meus pretendentes

Na Segunda, vem o João
Engatatão
Conversas fiadas, te quero miúda
Sem ti não vivo, não sou nada
Um planista, um intrujão
E leva logo uma tampa, leva um não!
Na Terça vem o Manuel
Montão de namoradas
Montão de apaixonadas
E falas mansas, falas em mel
Não me inspira confiança
Manuelito não me inspira segurança
Na Quarta vem o Pedro
Garganta inflamada em conversas
Garganta inflamada em promessas
Não perdes nada
Dou-te universos e galáxias miúda
Pedro tem massa, Pedro tem dinheiro!
Na Quinta vem o Toninho
Um cavalheiro
Em falas discretas em carinho
E ternura
Falas discretas em doçura
Um cavalheiro em bolsos magros de dinheiro!
Na Sexta vem o Victor
Olá querida, olá amor
Conversa astuta, conversa ágil
Victor é imbumbável*, gosta de boa vida
Víctor é imbumbável, gosta de boa bebida
Victor, o imbumbável, gosta de vida fácil!

Ao Sábado vem o Quim
De poucas falas em sua timidez
E fala-me sincero no olhar
Fala-me sincero no conversar
Quinzinho inspira-me confiança, talvez …
Quinzinho mexe comigo, talvez… o sim!
Ao domingo descanso
E penso
Penso Manuel, Pedro, Toninho, Victor, João…
Humm, Não!
Depois, depois penso Quim
E logo-logo estremece-me o coração. Talvez… o sim!
Na Segunda vem o Bento
Conversas de casamento
Na Terça vem o César
Quer amigar
Na Quarta vem o Valter
Amo-te, ficas a segunda mulher …

Ao domingo, descanso e penso Quim
Talvez… o sim!
Quinzinho quer dar alambamento,
Vou aceitar!

Décio Bettencourt Mateus

XX. Um outro eu

Um outro eu, distante de mim
Distante de me pertencer
E distante de me querer
Um outro eu, num qualquer outro jardim
Dum qualquer outro canto
E com um qualquer outro pensamento
Um outro eu perdido
E desaparecido
Feito vagabundo a deambular para trás e para frente
Ora triste ora contente
Hoje aqui, amanhã ali e depois acolá
Um outro eu feito vagabundo, hoje aqui amanha lá!
Um outro eu por aí numa qualquer esquina
Com uma qualquer companhia
Num qualquer dia
E quiçá com uma qualquer mania
Procurando sua sina
Um outro eu talvez por aí perdido em angústia!
Um outro eu, numa qualquer discoteca de Luanda
Mulher bela, mulher linda
Mulher da vida, mulher que anda
Mostrando pernas grossas e exibindo os seios
Um outro eu mulher gatuna, roubando prazeres alheios
Numa qualquer discoteca de Luanda
Um outro eu, num qualquer quarto de um hotel
Numa cama de um hotel, sorvendo mel
Dando mel a um qualquer desconhecido
Conhecido
Um outro eu mulher linda
Prostituindo-se num qualquer hotel de Luanda

Um outro eu, num qualquer carro desconhecido
Em gemidos proibidos
Algures em canto escondido da ilha de Luanda
Da ilha da kianda
Um outro eu gozando prazeres aldrabados
Gozando prazeres contaminados!
Um outro eu dançando a tarrachinha
Pernas nas pernas entrelaçadas, desejo vivo nas entrelinhas…
Corpos nos corpos juntinhos
Respiração em respiração
Em louca excitação, em louca comunhão
Um qualquer eu a tarrachar, sexos nos sexos coladinhos!
Um outro eu às vezes, por aí entristecido e disperso
Num qualquer canto do planeta
Quiçá mesmo do universo
Um outro eu feito um qualquer cometa
Perdido à procura duma qualquer outra meta
Perdido à procura dum qualquer outro verso!
Um outro eu mulher linda
Mulher da vida, prostituindo-se num qualquer hotel de Luanda!

Décio Bettencourt Mateus

XXI. Os meus pés descalços

Os meus pés andantes
Procuram a palanca real, palanca negra
E desencantam as quedas de Kalandula
Quedas da minha terra
Oh é bela Angola
É bela Angola e são felizes os meus pés caminhantes
Os meus pés empoeirados
Acariciam subsolo rico, ouro negro a jorrar no alto mar
Ouro negro a jorrar no offshore
E no onshore
Ouro negro a brotar
Das entranhas do mar, para os meus pés esfomeados!
Os meus pés garimpeiros
Apalpam tesouros e mais tesouros
Minas de diamante, ferro, cobre, prata, ouro…
Debaixo dos meus pés ásperos
Minas de diamante debaixo dos meus pés maltratados
Debaixo dos meus pés esfomeados
Os meus pés camponeses
Galgam a terra, terra boa de agricultura
Terra boa de verdura
E farta de feijão, mandioca, milho, batata…
Terra boa, terra farta
Debaixo dos meus pés famintos e felizes
Os meus pés pescadores
Banham-se em mares ricos
Mares de garoupas, corvinas, carapau, mariscos…
E mergulham em rios fartos, Kwanza, Kubango
Keve, Bengo…
Águas fartas a banharem os meus pés sofredores

Os meus bolsos vazios
Vêem outros bolsos vazios aterrar desnutridos
E depois, bolsos cheios
A levantar voo, a embarcar abastados
Bolsos cheios a embarcar com sorrisos
A embarcar abarrotados, oh que paraíso!
Os meus pés descalços
Clamam por migalhas, clamam por pedaços
Os meus bolsos vazios
Não clamam por milhões, não clamam por rios
Os meus bolsos vazios e os meus pés famintos
Clamam somente por migalhas de alimentos!

Décio Bettencourt Mateus