Dimas Macedo

Sócio Correspondente 435
Fortaleza – CE – Brasil

Biografia:

Filho de José Zito de Macedo (Zito Lobo) e de Maria Eliete de Macedo, Dimas Macedo nasceu em Lavras da Mangabeira/CE (no Sítio Calabaço), aos 14 de setembro de 1956. Estudou, em sua terra natal, no Grupo Escolar Filgueiras Lima e no Colégio São Vicente Ferrer, dirigido, este último, pelas Irmãs Beneditinas, tendo, em Fortaleza, cursado os colégios Joaquim Albano, Castelo Branco e João Hipólito de Azevedo e Sá, bacharelando-se em Direito, em 1981. Exerceu, na juventude, as funções de jornalista, optando, posteriormente, pela carreira de escritor e de jurista. É Professor da Universidade Federal do Ceará, membro da Academia Cearense de Letras e da Academia de Letras e Artes do Nordeste, sediada esta última em Recife. Dimas é um dos escritores cearenses de maior produção, sendo autor dos livros: A Distância de Todas as Coisas (1980, 3ª ed. 2001), Lavoura Úmida (1990, 2ª ed. 1996), Estrela de Pedra (1994, 2a ed. 2005), Liturgia do Caos (1996), vozes do Silêncio (2003 e Sintaxe do Desejo (2006) todos de poemas.

No campo da crítica ou do ensaio é de sua autoria – Leitura e Conjuntura (1984, 3a ed. 2004), A Metáfora do Sol (1989, 3ª ed. 2003), Ossos do Ofício (1992), Crítica Imperfeita (2001), Crítica Dispersa (2003), Ensaios e Perfis (2004), Ressonâncias e Alteridades (2004, 2a ed. 2007) e A Letra e o Discurso (2006).

Integra o Conselho Editorial de vários jornais e revistas culturais: revistas Espiral e Literapia (Fortaleza), revista Literatura (Brasília) e revista Morcego Cego (Santa Catarina), entre outros. Compõe também o Conselho Editorial das Edições UFC, o conselho de publicações da Editora Códice, o Conselho Editorial das Edições Livro-Técnico e o Conselho Editorial do Museu – Arquivo da Poesia Manuscrita.

Nos idos de 1990/1991, participou do Movimento Poesia Plural e, em maio de 1995, com Inez Figueiredo, João Dummar, Beatriz Alcântara, Juarez Leitão e outros escritores cearenses, criou o Grupo Espiral de Literatura, fundando, posteriormente, com José Telles, as Edições Sobrames (2001) e, com Pedro Henrique Saraiva Leão (1998), a Revista Literapia e as Edições Poetaria.

Poemas e textos literários de sua autoria foram vertidos para o francês, o inglês e o espanhol e publicados em Portugal, Espanha, Inglaterra, Argentina e Estados Unidos. É autor também de trabalhos estampados em jornais e revistas do Ceará e do Brasil. A sua produção, quer na cultura literária ou na área da reflexão filosófica, abrange um conjunto de seis opúsculos, vinte e seis livros e mais de quatrocentos artigos editados, versando a maioria deles sobre literatura e autores de língua portuguesa.

Desenvolvendo uma intensa atividade literária, cultural e artística, que se projeta no campo editorial e na defesa da cidadania e da justiça, Dimas Macedo publicou, em 1997, pela Editora Oficina, de Fortaleza, o livro Tempo e Antítese, sobre a poesia de Pedro Henrique Saraiva Leão e, em 2002, pelo Museu da Gravura do Ceará, o livro A Face do Enigma, este último sobre a trajetória biográfica e a obra literária do grande escritor cearense José Alcides Pinto.

Consta, no seu currículo literário, parcerias com diversos músicos e artistas plásticos cearenses, entre eles André Lopez, Augusto Lima, Ronaldo Lopes, Fátima Santos, Dumar, Costa Senna, César Barreto, Luiz Carlos Prata e Nonato Luiz (no campo da virtuose musical) e Geraldo Jesuíno, Eduardo Eloi, Cláudio César, Wando Figueiredo, Mano Alencar, Fernando França e Audifax Rios (no âmbito do trabalho com a gravura e a criação editorial).

Apaixonado pelas origens históricas e pelo patrimônio cultural e humano do povo cearense, Dimas escreveu mais de uma centena de prefácios e apresentações de escritores do Ceará e do Brasil, tendo organizado, para a Coleção Alagadiço Novo, da UFC, os livros Ficção Reunida (1994), de Durval Aires, e Ensaios e Perfis (2001), de Joaryvar Macedo.

Além dos autores acima referidos, cujo o acervo continua divulgando, resgatou e publicou a obra literária dos dois principais poetas do romantismo cearense: Barbosa de Freitas e Joaquim de Sousa, sendo responsável também pelo espólio de escritores como Afonso Banhos, João Clímaco Bezerra e Caetano Ximenes Aragão.

Sobre a sua terra de berço publicou artigos na imprensa do Cariri e do Nordeste e escreveu os seguintes livros Lavrenses Ilustres (1981, 2a ed., Edições SECULT / BNB, 1996) e Lavras da Mangabeira – Roteiros e Evocações (1985), sendo autor, também, de Notas para a História de Alto Santo (1988) e Bibliografia – Roteiro para Pesquisadores (Fortaleza, 2004, 2a ed. 2007).

É detentor da Medalha do Mérito Legislativo da Câmara Municipal de Lavras da Mangabeira, da Medalha da Ciência e Cultura, da Fundação Cultural de Fortaleza, e da Medalha do Centenário de Morte de Cruz e Souza, outorgada, esta ultima, pelo Governo de Santa Catarina, sendo ainda autor do livro Marxismo e Crítica Literária, publicado em Florianópolis/SC, em 2001.

No âmbito da justiça e da cultura jurídica, é Advogado e Mestre em Direito, Professor de Direito Constitucional e Chefe do Departamento de Direito Público da Faculdade de Direito da UFC e Procurador do Estado do Ceará, além de membro do Instituto dos Advogados Brasileiros e do Instituto Brasileiro de Direito Constitucional, disciplina na qual é especialista, sendo considerado também um dos constitucionalistas cearenses de maior destaque.

Foi Diretor do Departamento de Assuntos Culturais da Secretaria de Cultura e Desporto, Coordenador da Assessoria Jurídica da Secretaria do Governo, Assessor da Comissão da Reforma Administrativa, Membro do Conselho Estadual de Recursos Hídricos e Presidente da Comissão Especial de Licitação dos Serviços de Publicidade do Governo do Estado.

Consultor da Agência Brasileira de Cooperação, junto ao Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), Dimas dirigiu no Ceará o Instituto Nacional de Ação Popular e Defesa da Constituição e foi Presidente da Cooperativa de Cultura do Ceará LTDA, tendo integrado ainda a Comissão Central de Extensão da UFC e o Conselho Regional da Associação Brasileira de Recursos Hídricos.

Membro-Instituidor e Professor da Escola Superior da Advocacia e da Fundação Paulo Bonavides, tem ministrado aulas igualmente na Escola Cearense de Formação de Governantes, na Escola Superior do Ministério Público, na Escola Superior da Magistratura e na Universidade de Fortaleza – UNIFOR, em cursos de graduação e pós-graduação e sempre na área do Direito Constitucional, tendo exercido, nesta última instituição, os cargos de Chefe do Departamento de Direito e Coordenador Adjunto do Curso de Direito.

Presidente da Comissão de Direito Ambiental da Procuradoria Geral do Estado, membro da Comissão de Direitos Humanos, da Comissão de Estudos Constitucionais e Vice-Presidente da Comissão de Ensino Jurídico da OAB – Ceará, o Prof. Dimas Macedo tem artigos de sua autoria publicados em revistas jurídicas especializadas, entre elas a Revista Nomos, do Curso de Mestrado em Direito da UFC; a Revista de Humanidades, do Centro de Ciências Humanas da UNIFOR; a Revista de Informação Legislativa, do Senado Federal; a Revista da Faculdade de Direito da UFC; a Revista dos Tribunais – Cadernos de Direito Constitucional e Ciência Política, da Editora RT; a Revista Trimestral de Direito Público, da Editora Malheiros, São Paulo; e a Revista Latino-Americana de Estudos Constitucionais, sendo ainda autor dos livros Ensaios de Teoria do Direito (1985, 3a ed., São Paulo, Edicamp, 2003), O Discurso Constituinte/Uma Abordagem Crítica (1987, 2a ed., Casa de José de Alencar / UFC, 1997), Pesquisas de Direito Público (2001), Política e Constituição (Rio, Editora Lúmen Júris, 2003) e Filosofia e Constituição (Rio, Letra Legal Editora, 2004), onde discute, respectivamente, temas de Filosofia do Direito, Sociologia Política e Direito Constitucional.

Na área da Pós-Graduação, além do Mestrado em Direito da UFC, tem lecionado as disciplinas Teoria do Estado, Organização Federativa do Estado e Normas e Princípios Constitucionais, nos Cursos de Especialização em Direito Tributário e Direito Constitucional, na Universidade de Fortaleza; Processo Constitucional e Teoria dos Direitos Fundamentais, nos Cursos de Aperfeiçoamento de Magistrados e Pós-Graduação em Processo Civil, na Universidade Federal do Ceará; e Direito Constitucional Ambiental, no Curso de Pós-Graduação em Direito Ambiental, na Universidade Estadual do Ceará.

Apesar do destaque na literatura, e do sucesso na vida social e profissional, orgulha-se DM de ter nascido e passado a infância em Lavras da Mangabeira / Ceará, nas margens do Rio Salgado, símbolo principal da sua criação literária e das suas intenções no plano da cultura. O Salgado, para ele, representa o movimento da vida e a dinâmica incessante da vida que sempre se renova.

Trabalhos:

Castelo

Pássaro soturno
pousado em minha sombra
tal como o corvo de Poe.

Gatos alados
que voam no silêncio
do quarto de Rimbaud.

Besouro cego
e sem plumas
tal como o cão raivoso de Averróis.

Vampiro surdo
de garras afiadas
deitado em meus lençóis.

Somos o duplo talvez
de algum castelo
misterioso
daquilo que há em nós.

Punhais

A tarde cai
em mim
e a magia do tempo
se irrompe.
Eis o futuro: ontem.

Corre no meu corpo agora
o vento
que em mim muito embora
distrai o pensamento.

Estou exposto à sorte
e a chuva
me anuncia a morte
e me turva.

Meu mito é o Santo Graal
e o poema é estranho,
insisto,
e no poema me banho,
eis tudo: a vida é um absurdo.

Lavragem

Saber para si basta ao mistério:
eis-me tudo e o sonho que é tudo.
A arte é a dor
e a vida pela vida é o escárnio
posto que a metafísica
é sempre a liturgia do dilúvio.
Não me deixem confessar
o sonho que borbulha
e o drama que me parte
pois a lâmina da razão é a inverdade
e a dúvida é a certeza que reparte a dúvida.
O mito de toda a existência é sempre a arte.

Claridade

Que desça sobre mim a noite
e em mim habite o vento
renovando as pedras da linguagem.

Que sobre mim se instaurem
o sopro da memória
e o mistério dos astros
e tudo o mais que eu possa suportar.

Que chova sobre mim
espadas de dilúvio.
Que caiam sobre mim escuridões.
Sou claridade dissipada
em tardes de amor e liturgia.

Música

Rosa Guimarães a linguagem,
a liberdade nos sertões gerais.

Longo é o texto, vasto é o sonho:
Minas é o mundo e algo mais.

O sertão nas asas do vento é Riobaldo.
Diadorim é poema que se faz em mim.

Saga, sagarana:
onde a magia do burrinho pedrês?

Manuelzão e Miguilim:
essas estórias plurais.

Veredas do sertão:
Rosa Guimarães, princípio e fim.

Plumas

Para Fernanda Quinderé

Os cavalos noturnos de Adelaide.
Os cavalos marinhos de Denise.
Os esquifes dourados de Iracema.
Os retratos do mundo e suas portas
e as belas rotas no corpo de Anelise.

As peraltices das pernas de Marcela
que me conduzem os olhos para as curvas
e os secretos caminhos do seu ventre.

Os dentes de Aratusa são terríveis.
Os olhos de Arabela são gulosos,
tais os melosos trejeitos de Ana Lourdes.

Eu sou a teia que une essas mulheres.
Eu sou o manto que envolve suas coxas.
Eu sou a pluma que roça sua pele.

Cântico

Marta, Marta,
tu andas
a cuidar
de tantas coisas
e de tantas letras
e de tantas lendas

São teus
estes cavalos verdes que apalpo
São teus
estes musgos e estas pedras
por onde medram
o sonho e a minha calma

És a maresia que me aquece a alma
a enseada que me fere a língua
e que me deixa à míngua dos civilizados

Eu te procuro e te encontro
nos currais desativados
por onde os peixes
mais livres do que nunca trafegam

Eu te imagino
na paisagem das velas
e nas procelas do mar
onde as jangadas de areia navegam

Trânsito

Lavrar a sorte na vida:
a que se perde no trânsito,
a que se vende no bosque,
a que produz o recorte
de todas as notícias
que se vendem.

Lavrar a morte nos dentes,
assim como lavramos na alma
as marcas do passado,
assim como a memória se deita
por entre as bolhas de sangue no asfalto.

Olhar a vida nos olhos da esfinge,
a que se senta conosco na varanda;
pastar o sonho nuns olhos que se fingem
destros de amor e que não valem nada.

Formas

A lua e as estrelas,
o sol e os alabastros,
as cicatrizes de Deus
e as mulheres nuas
são formas puras do amor
que reconheço,
são como cactos
que me ferem os olhos
na distância,
tais os mistérios densos,
as perdas preciosas,
a dor de não viver a vida
presa na garganta.

Partilha

Para isto a vida:
o sopro dos contrários.
O fogo dos presságios
Queimando as nossas mãos.

Para isto o corpo:
o dorso maduro dos afagos.
O mar. O impossível
oceano no qual nos afogamos.

Para isto a morte:
o ócio das palavras.
A paixão. O desejo.
E o conflito de quem sentiu o beijo.