Fernando Campanella

Sócio Correspondente 1105
Pouso Alegre- MG – Brasil

Biografia:

Antonio Fernando Cruz. O sobrenome Campanella vem da família de minha mãe, o qual adotei como nome de poeta pelo fato de meu bisavô materno, assim como meu avô, terem sido , de alguma forma, escritores, e , também, pelo fato de meu tio, irmão de minha mãe, o Campanella Neto, ter sido um fotógrafo. A paixão pelo literatura e fotografia, então, foi herdada dessa vertente, da família de minha mãe.

Nascimento: 13 de junho de 1953, em Pouso Alegre, sul de MG

Formação: Curso primário em Pouso Alegre, sul de MG. Ginasial em Cambuí, e Poços de Caldas, sul de MG. Curso Clássico em Belo Horizonte, MG. Curso Superior (Letras, Português e Inglês, em Itajubá, sul de MG)
Cursos rápidos de inglês avançado em Londres, e E.U.A. Cursos de aperfeiçoamento de conversação inglesa , e para professores, assim como congressos de ensino da Língua Inglesa.

Profissional: Professor de Inglês, Ex-diretor da franquia da Escola Fisk em minha cidade. Professor de Língua Portuguesa em colégio municipal de minha cidade por um determinado período.

Outras informações: Membro da academia de Letras de Pouso Alegre. Vencedor de um concurso de poesia em minha cidade. Nenhum livro ainda publicado.

Curiosidade: Adélia Prado, após ler alguns poemas que lhe enviei, há alguns anos atrás, respondeu-me:

Caro Fernando, fiquei feliz ao ler teus poemas, pois são de um poeta. E para poetas não se dão conselhos. Escreva, escreva, escreva, para nossa e sua alegria. Como fiquei feliz! Pentecostes está chegando, que seu coração se incendeie de poesia. Não fique ansioso, Deus quando dá o dom, dá os meios. Por que não envia seus originais para este editor no Rio de Janeiro.

Já quase em fase de aposentadoria, pretendo dedicar-me, nesta fase de minha vida, á poesia, crônicas, e , como registro de minha região, à fotografia.

Trabalhos

Ao vento

Fica comigo, mas não posso pedir ao vento
que sopre ao alcance de meu ouvido,
ou à terra que abençoe nossos longos segredos
-nem mesmo da luz querer ouso
que se demore em meu abrigo.
Quando os dados lançados e até meu silêncio
contra toda certeza parecem que conspiram
– e caso os dedos do mundo
em suas recurvas unhas nos firam –
releva, e fica comigo, os anjos sabem mais alto
daquilo em que insisto, do que preciso.

(F. Campanella)

Ninféias

Eu vou aonde as nuvens
de impossíveis tons se embriagam,
eu nado onde aquáticos leques
se irisam em sonhos
e por arte do encanto se dissolvem.

Eu furto cores,
clico roxos que se miram
em espelhos que me expandem.

Bebo a luz, traço a alma,
eu sou o impressionista ambulante.

Então nem me perguntes
por quais cambiantes geografias me espalho:
meus olhos são câmeras mimadas
meus pincéis são artífices do instante.

(F. Campanella)

Luz Cadente

Serão miragens
aqueles tons em cobre
ondulando em folhas na tarde?
Meus olhos devem andar poéticos
ou delirantes.
Ou mais febril a minha percepção
que entende
Que os animais atendem
às nuances que a luz da tarde concede.
Luz e folha devem ter naturezas atadas
em delicado, intraduzível elo
que traça o pássaro ao ninho.
Não sei.
O que para as aves deve ser
algo como arbóreas núpcias
em mim
é um degredo em ecos,
um vago ruflar de um sentido.

Minha razão nada pode
Contra a luz cadente
Que vela e desvela
aquele tom amêndoa
– ferrugem quase dor,
Quase leve –
Que a alma agora consente.
E que de volta
à presciência do mundo,
ao ninho da terra
vai me cumprindo.

(F. Campanella)

Refabulando

Estas cigarras toantes
flutuam na sã inconsciência
de um sono. Estas cigarras
-não as perturbes, não as toques –
estas belezas crepitam
em líquidas texturas de sonho.
Mas se buscares que despertem,
Afina os ouvidos, achega-te,
Imperceptível, leve, e mais leve
E como elas, enquanto verão,
Arde então, e canta.

(Fernando Campanella)

La Campanella

Aquela senhora
toca um piano na tarde,
La campanella, as teclas
ágeis ondulando em mimos,
em vibrantes sinos delicados.
Imersos, cada qual em sua estória,
uma sintonia de repente
nos toma, uma arte –
um rio profundo sem corte,
um certo azul que nos sonha.
(F. Campanella)

Capela dos ossos

Eu que não vivi o Alentejo,
que não voei com as cegonhas
sobre suas albufeiras ao entardecer
( nem em suas quintas pernoitei)
e que não cantei odes
à glória de um D.Manuel e suas esquadras
( nem o Tejo naveguei)
que às suas capelas
não me desfiz dos ossos,
não me embriaguei do néctar
de seus deuses
nem da flor mais bela
em Évora me enamorei,
eu, disso tudo,
por descompasso dos astros,
me privei.
Mas, oh fado lusitano,
Oh, alma dolente e migrante,
tua nostalgia,
teu estar nunca estando,
esta sede por outros mundos,
esse tanto, eu herdei.

(Fernando Campanella)

A media luz

Sempre reneguei o tango
e os entusiastas de Gardel,
(longe de mim a passional postura
eivada de desolação e dor),
o amor sempre em mim um campo
de mais alvos lírios onde não choveu.
Cerrei as tendas, afastei o bruxo,
mas na contrapartida
adiei o fruto, me ceguei à cor.

Violinos eternos , bandoneón ,
toquem-me hoje um tango crepuscular
e tardio, toquem, que desaprendi
o me bastar e o meu cismar sozinho,
à meia-luz meu coração são girassóis
que dançam – todo chama, e torvelinho.

(Fernando Campanella)

Alquimia

Bom dia, minha jaqueta surrada,
reincorporo-te como a uma identidade, a um eu
imune aos ecos do mundo,a uma canção de amor
tão gasta, e ainda sempre,sempre, ressuscitada.
Bom dia, meu ninho, onde ao largo do dia
me deito, resvalo dos elos concêntricos
e disparo meus sonhos, em mais íntima revoada.
Retomo-te, minha outra natureza, e contigo escrevo,
entranho o reino dos meus velhos poetas –
meus alquimistas dos sonhos –
da realidade mais sutil, imaginária.
Bom dia, meus sóis com chuvas,
meu arco, meu ouro, meu pote de luz
– claras núpcias de minhas raposas e viúvas.

(Fernando Campanella)

“Olhos”

Dois pássaros voam,
de um leve azul inebriados.
De onde os vejo
Só há o espelho quieto de um lago.
E já não sei o que é mais visível
se o que enxergo, as aves,
com meus olhos,
ou se aquelas flautas moventes
sincronizadas,
que sonho
com os olhos quietos do lago.

18.01.2007

“Tua beleza”

Tua beleza, inconsciente de si,
Me puxa em seus encantos
Para o seu leito.
Mas o que fazer de tua beleza
Senão sofrer/gozá-la em doses
de solidões noturnas e densas?
(Senão armá-la em vaso
Para decantar a mesa.)
Como um jardineiro de ventos
Prefiro ver-te
Heras galgando muros
Ervas tecendo pastos
Ou aérea flor da memória.
Amar tua beleza , não mais,
Como cor que não apreendo
Rio que não detenho
e que passa.

Consummatum

 

A poesia, se um de mim se for,
que eu não a renegue, nem de meus poemas
eu diga, ‘ah um dia isto tresloucado eu fiz’.
Se o tempo da mais morna sensatez
Ao chão me puxar , como um tempo de razão
a ensombrar os deuses, e os dias
vierem despidos, desfolhados na vastidão ,
que eu não cerre as pálpebras
e murmure, ‘ consummatum est,
foi tudo desvio e dissipação’.
E se não mais me vibrarem os timbales
e de mim restarem tão somente
o silêncio imune e a cinza amorfa,
que de mim eu me lembre
como um acendedor de palavras,
e que eu me leia, na noite,
como se lêem os mosaicos dos sonhos,
os versos, o melhor de meus atos,
a mais sublime, libertária , rendição.

(Fernando Campanella)

Frutos da terra

Benditos os filhos do ventre da terra
Que o sol desperta tão cedo,
Que o trigo e a uva aguardam no campo
Para o mágico processo do pão e do vinho.

Benditos os frutos da terra
Que se abrem à manhã
Em silêncios e cantos
Que mesclam no ar

e os filhos da paz,
que ligam o céu ao mundo,
os que reciclam o dia
e dele retiram sustento e eternidade.

Abençoados os que bendizem,
Os que curam, e que a dor amenizam,
os que por via de tolerância
se entendem.

Benditos os que domam a cólera
E se transformam no amor,
Amor que bebe da identidade da vida.

Bendito o sol que amadurece os frutos de terra.
Mais bendita a luz
por que anseia ‘a noite escura da alma’.

(Fernando Campanella, 1985)

“Pássaros”

A primavera de New England
não traz seus pássaros à minha janela.
Mas por que penso naqueles cantos
Se nem os pássaros de meu velho rio
Ou de minhas conhecidas árvores
Vêm ao meu jardim cantar?
Só cantam para si próprios, creio,
o martim- pescador, a corrila ,
o joão-de-barro atribulado.
Pensando bem, nem mesmo pardais,
Nenhum pio, nenhum bemol acasalado
Conseguem meu dia despertar.
Ficam por si, longínquos, os canários
e os bem-te-vis nas cercanias .
Como é triste acordar, agora percebo,
Daquelas ternuras surdo, descantado.
Como é áspero raspar do dia o aço.
Ranger roldanas de hábitos e ossos.
Cantem para si, para Deus
ou para quem os consiga ouvir
o exótico robin , o cuco e a cotovia.
Nenhum trinado, nem mesmo um grasnar
Vem alcançar meus ouvidos ruidosos.
Ah, vejam, sou mesmo um rei nu,
Um moedor de pedras,
Sou aquele imperador da China
Que tão pobre era sem seu pássaro –
Aquele pobre mandarim ,
A solidão, meu triste rabicho,
a ausência, esta enorme vassala de mim.

À noite sonhamos

À noite, seguimos descuidados,
a vida é solta, árvores nítidas de aromas,
flores tão lágrimas de orvalho.
À noite sonhamos em um céu de metáforas
onde a meia-lua é unha que arrepia segredos
Estrelas são hangares pequeninos,
a sombra, um lobo bom que nos acolhe.
À noite, rompemos degredos,
Volvemos aos ninhos,
Somos meninos –
infância distraída de seus medos.

(F. Campanella)

“Interlúnio”

De onde o viés no peito
( este pranto incrustado)

Viria do oceano premido
de abrolhos
de incursões de tempestades?

ou é vórtice de alma
de luas cegas
de fantasmas desterrados?

de onde esta concha
que idealiza os pássaros

este azul que esfuma os montes
e inventa um céu,
meu poder de ficção,
meu sonho, o que paira tão alto
e que para sempre me escapa….

Dúbio

Um dia, alma criança,
do vento indaguei a idade
e foi o tempo de meu pensamento
o que obtive como verdade.
Do sol, a mesma questão lançada,
Como solução veio-me o tempo
de meus olhos, de minha pele
disposta à luz em seu furor
ou em seus toques mais delicados.
Estranhas, dúbias respostas:
o universo a um seco estalar
de minha finitude
então se desmancha, e passa?
Ou trago , dos cumes da criação,
em tudo que brota, rebrota,
a mais irrestrita ,
a mais eterna proposta?

(Fernando Campanella)

Antiqua V

Também já sofri em minha alma,
como nos livros sagrados,
a destruição por incluso fogo,
um apocalipse, uma noite
sem as fímbrias das nascentes,
sem os arautos das manhãs.
E em cinzas, um fantasma,
um pesadelo deambulante.

Me exauri e me desfiz.
Mas algo como um sopro,
de tuas entranhas, oh, amor,
sussurrou-me, então,
que eu não estava morto

(Fernando Campanella)

Antiqua VI

Passava no céu um jato
a deixar um alvo, fino traço
como alongada espuma no mar;
um acontecimento prosaico,
um rotineiro fato,
mas algo como um sortilégio,
uma boa-nova de um anjo,
havia meus olhos revirado,
transmutando aquela fumaça
em suave vislumbre de um astro
como das coisas cridas, remotas,
ou de um Deus entreaberto,
as pegadas, o lastro.

Oh, alma antiga
Oh, olhos virgens, desdobrados
que naquela tarde pariram o encanto
e conjuraram em mim todos os magos.

(Fernando Campanella)

Assim nos céus

O contorno de um jarro,
a etérea rosa,
o piano
em teclas de sonho a vibrar:
um solitário noturno ou, quem sabe,
um mais que eterno romance,
uma serenata a duas mãos
tocada.
Assim nos céus,
À pálida memória de uma lua
ou de velas a bruxulear,
espectros de noivos,
irredimíveis ébrios de amor,
em alcovas de brumas
a valsar.

(Fernando Campanella)

Mil cores

Esta luz
que adentra meu quarto
é silêncio profuso
que me redime de amores
é dom primitivo
que distende os neurônios
absolve pecados
e faz de minha alma
uma casa feliz.

Este brilho que infiltra
e resvala nas sombras
decifra vestígios
e graças sem fim.

Luz transitória
que cumpre o eterno
na cela da hora
me apazigua os mortos

afaga as mil cores
ressona em meu cão

me acolhe em regaço
e ama em mim.

(F. Campanella)

Ode às manhãs transfiguradas

Sim,
Outras são as manhãs
Após as chuvas
Em doces gotas de amêndoas
E emblemáticos suores de uvas….

Manhãs em hortas regadas,
Frescor de sumos, feiras livres
-‘Salsa, sálvia, rosmaninho, tomilho’ –
Respingos de amor em refrões medievais…

Sedosas manhãs molhadas, especiarias mais raras,
Cravos da Índia, orquídeas do Nepal…

Poção mágica, ervas medicinais….

Cromáticas manhãs lavadas:
Verde- ingás, vermelho-pintangas
E tantas mais cores que bailam
No pomar de líquidas miçangas…

Límpidas crisálidas, abelhas em trânsito,
Lavandas….

Pássaros cantantes…

E ainda turíbulos, aromas de incenso,
Antigas lágrimas de santas semanas
Nos missais….

Bendito, o fruto de vosso ventre,
Manhãs transfiguradas,
A germinar, a se abrir
No úmido jardim das palavras.

(Fernando Campanella, 17.09.2008)

Cânticos

Certos cantares são quase eternos,
nascem de outros que sabem a outros
que beberam às fontes,
aos fundamentos do ar.

Certas canções, as trazemos do berço
Ou de antes dos salmos,
as entoamos de cor
anônimas, acéfalas,
só corações pulsantes
de lágrimas e pétalas.

Priscos diamantes –
Cantigas, idílios ou cânticos –
certos cantares seriam eternos
(Os anjos não considerados)
não fosse o princípio,
e desde o princípio
é então a glória do verbo:
amar.

(Fernando Campanella)

“Fac-símile”

Estrela, minha Alfa Centauro,
ou uma outra qualquer
a inumeráveis anos-luz de indiferença,
sou um terráqueo instável , nem me sabes,
mas gosto, à noite, de deitar-te em meus olhos,
cansado das luzes nervosas onde me lavro.
Estrela, meu astro reinventado,
por que assim enternecido de ti me enamoro,
na funda noite exorcizado ?
Apascentarias ovelhas à tua órbita
Ou saberias a duração de tua glória?
Serias como humanos que do longínquo se encantam,
Trazendo de perto, o cheiro de entranhas,
o encadeamento dos hábitos?
E se eu te tocasse e te dissolvesses em absurdos ares?
Se eu te desvendasse os olhos
te verias serpente em teus lampejos ácidos?
Se eu te devorasse , serias eu próprio,
a consistência mesmíssima de um pó,
a fragilidade de um pirilampo –
tudo tão simples fac-simile de tudo
tão em si mesmo desmitificado?

(Estrela, tua terna esfinge me basta.)

Revistado

Bem vindo à minha casa
Mas se quiseres ir ao sótão
Leva as velas
Algo ali vive que não suporta
A crua luz escancarada.
Eu o revisito, tantas vezes,
E não me incomodam seus trastes,
Alguns ratos – eles me convivem,
Eu sou o velho hóspede da casa.
Subo e desço, no cotidiano ato,
gosto de ir, às vezes, regar,
antes que esquecidas mal cheirem,
as flores de meu cercado.
(Com a palma lisa de meus olhos
Acaricio as ternas fugacidades.)
Desço, e subo, vou por estes cômodos
Sonambulando.
Acomoda –te em minha casa,
Mas se quiseres entrar
em meu sótão, acende as velas,
Ali já estou aclimatado,
Sou amigo do gato,
Eu roubo a luz pelas mínimas
Frestas do telhado.
Ali todas artimanhas
Já incorporei.
Eu dos hábitos
como sei .
Eu me convivo,
eu sou o velho fantasma,
da casa.