Guilherme Lopes da Cunha

Sócio Correspondente 1147
Petrópolis – RJ – Brasil

Biografia:

Guilherme Lopes da Cunha é petropolitano, nascido em 1981. Em sua veia artística, é poeta, músico e compositor. Em sua formação intelectual e acadêmica, é Bacharel em Direito pela Universidade Católica de Petrópolis, Especialista em Direito Internacional e Direitos Humanos pela Universidade Cândido Mendes e Mestrando em Economia Política Internacional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

A verve artística de Guilherme iniciou-se por meio do seu ingresso no Instituto dos Meninos Cantores de Petrópolis – Canarinhos de Petrópolis, no ano de 1991, permanecendo atuante na instituição por oito anos. Desse período constam os primeiro traços literários do Guilherme poeta, que compunha poesias, letras de músicas, harmonias e arranjos para conjuntos musicais populares, a fim de que expusesse produções musicais e participasse de festivais e de eventos diversos.

A principal referência de sua formação é ter sido discípulo, durante 26 anos, do poeta-professor José Hamilton Lopes, de quem é neto.

Trabalhos

Do ferro à areia

Não é justo implantar indiferença no amor verdadeiro,
O mais claro é a insanidade que nos afasta.
Incoerência, para mim, é atitude que corta,
Para fragilizar o sentimento primeiro.
O cheiro de interferência alheia
Deixa distante o sentido real
Do projeto que de ferro torna-se areia
E afasta-nos do primordial.
A acusação de fraqueza e ingenuidade
Faço com o coração em pedaços.
Mas sei que a mim, concreto na calamidade…
Perdoe minha falta de força e os erros nos passos,
Pois é certo de que, assim, cabe maior parte a superar,
Todavia o mais certo de tudo é que só a proximidade constrói.
Corações e alma em sintonia protegem contra o mal que corrói,
E esse é, seguramente, o caminho que intensifica o amar.

Se potável, sepultável

Decepciona-me. Vá! Desculpe-se!
Detenha o ímpeto destrutivo de essência.
Sentencie nova cabeça à faca, sem violência.
Desfira evidências inexistentes e sirva-se:
O degustar do prato principal
Marca a ira de acentuar o sal.
O cozinheiro, frustrado, pune o pedestre.
Estraga a cadeia de trabalho desde o campestre.
Maresia segue morna,
Manejando em águas turvas.
Matutina luz retorna.
Levanta o sol sem curvas,
Lavando desde as pernas
Lirismo intermitente em urnas.

Aguarrás de nós dois

O que motiva a ojeriza?
Porque insistência em Torre de Pisa?
Torrem seus filmes!
Trinquem suas almas!
Não haverá palmas
No fim do espetáculo.
O asco que se cultiva
Potencializa o penhasco,
E a queda de braço
Com o destino manco
Só aumenta o tranco
Do erro que é crasso.
O pior de tudo é que eu traço,
Basta o estalar de dedos,
Banco o esteio dos cegos.
Se sobra migalha, e não nego,
É que o sangue que irriga os medos
Decide jamais circular.
Porta abre porões.
Parte sem olhar para trás.
Penso na gota de suor,
No Amor matutino, o melhor,
Fábrica de gente, mordaz,
Ácido corrosivo da voz.

Díades

A experiência que limita a realidade
Cria a sensação de estar-se andando sobre brasa,
De repousar em cama de prego,
De prender o fôlego, ao invés de cuspir fogo.
É o caso do ajudante de mágico,
Cortado ao meio, mas sem meios de ser integral,
O temor de encontrar, e não reconhecer.
Dúvida se conhecia.
Discrepância.
Poderia o outro ser ver sem que percebesse?
Enigma no meio da multidão?
Indefinições multipolares golpearam o futuro projetado.
Não se sabe utilizar,
Nem há força para o uso do esquadro.
Que venha a vontade de cima,
Cimentando com rima a estrutura derrubada.

Ambivalentes doenças de alma

Trinta e quatro é preciso de tempo para se conhecer?
Veja o que se faz da sua história presente e futura.
Respirar e gastar o que se ganha não é viver.
Seja consciente de que desperdício do que é dado por Deus é loucura.
Lisura é o que se espera.
Experto serei, em introspecção.
Interstício entre lúcido e demente
Dissolve personalidade, tornando-a áspera.
Vermelho. Sangue e vergonha espelho.
Estivador que leva as dores do mundo,
Mudo, as lavo, aguardando mudanças do velho,
Ao fazer-se novo em ciclos infecundos.
Infectei-me de doença de amigo infiel:
Vírus mutado destruiu-me a casa,
Como um cupim de alma; rasga-se o papel,
Antes que se estivesse imortalidade de vida rasa.

De um lado incompreensão; de outro, insensatez.

O que houve com a gente, meu amor?
Como tudo mudou desse modo, sem amor?
Por que insistência na insensatez?
Por que crer que futuro não tem vez,
Alegando motivo, existindo outros?
Criando mácula, envenena o fruto.
Por que me tirar da sua vida,
Se compartilho da mesma vontade, ela toda?
Quando nos vejo sozinhos, sofro em dobro,
Por mim e por você, e como me cobro
Por não ter mais sabedoria à mão,
Por pormos fim a nossa história em vão
Esse afastamento me consome.
O seu tratamento vil é enorme
E o comprometimento do meu bem é alto
E a sua falta de humildade é meu maior custo.

Beliscões pedestres

Ao passar pelas ruas,
Fico imaginando como é você agora.
Vidas humanas, cruas,
Evidenciam-se menos no alvorecer
Almejado quando se cria
Não ser o mundo uma gangorra,
Uma montanha-russa.
Sim.
Envelhecer.
Cultivar o tempo em plenitude
Na tessitura da alegria
E das desventuras.
Aventurar-se semeando genética melhorada:
O time pretendido e planejado
Abortou-se ao sabor dos decibéis
Como será você agora
Com o cabelo diferente?
Mais linda do que nunca,
Do que toda outrora,
Sabe-se, certamente.

Dias de chuva

A tempestade que, agora, trona
Trás a lembrança do seu medo.
Eu, fortaleza, confortava, de tal modo,
Que do temor, florescia amor que reina.
Quando tudo cessava,
O fervor, no coração, era maior,
A sintonia abandonava a dor
E iniciava promessa nova.
Algo mudou, não sei onde.
Talvez, sempre tenha existido.
Rompeu, com a febre de um brado,
O desejo de preservar integridade.
Esta água celeste que me banha a mente
Traz a lembrança de dias felizes.
O presente, composto de crises,
Entristece, ao apontar para malogro da semente.

Entre o achismo e a verdade

Eu é que deveria partir,
Dizer que não tem mais condição.
Que paciência tem limite,
E a infelicidade, a quero longe.
Sem rotina, sem sermão,
Sem aperto no coração.
O aperto no peito não passa.
Foram dadas todas as cartas,
Lavadas as mãos e os pés.
Pedaços de gente desfazem-se no ar.
Pecados evidentes afundam-se no mar,
Naqueles oceanos de vida,
Em que se tragam os bons e os maus.
Lembrar-se das tentativas,
Dos tratamentos de choque,
Dos desfibriladores sentimentais
Que tencionavam ressuscitar-nos.

Fanfarras bucólicas

Foi uma cantiga de amor,
Para se tornar cantiga de amigo.
Distorções mentais, jogo sujo.
Contigo, afasta-me o furor.
Ferocidade projeta-se em alma.
Propósitos protuberantes no casco,
Pronúncias de vida longa, fiasco,
Firmeza, ternura em alva pele, calma.
Processos mentais perpendiculares
Montanhas maternais frustradas
Lesões da vida, sempre, algures.

Eu acredito

Eu acredito que pessoas interessadas em construir algo duradouro
Devem estar inspiradas pelo ser supremo,
A fim de se lançar ao óbvio tesouro,
Abdicando dos temores que sintetizam o que vivemos,
Mas não permitindo…
A covardia que ganha espaço no peito
Merece o desprezo dos que se amam.
Pleitos idênticos tornam-se estranhos …
O que ardia em sinal celeste,
Transforma-se em brasa a consumir os alicerces
Da obra que foi edificada,
E que o calor da maldade consome.
A fotossíntese da vida,
Razão última que nos permitia somar,
Vai perdendo a capacidade de produzir
Energia necessária à sobrevivência.
A experiência adquirida,
Mais doce do que amarga,
É incoerente, se plantamos possibilidade,
E colhemos covardia.

Hemorragia salina interna

Decepciona-me essa conduta.
Os dutos que conduziam o fluxo de coisas boas
São banidos por caprichos sem labuta,
Ladeados de vermes que mastigam suas proas.
Prove-me, se é capaz.
Sorva a seiva da natureza que delinqüe.
Delicie-se com a preterida paz.
Permaneça em dicotômico mundo bilíngüe.
E a insanidade pode mostrar-se corrosiva,
Com ecos de maldade na esquina,
Cobrindo esqueletos de amor em iniciativa
Embebida de expectativa que em mim predomina.
A relação é do que se fez
Com a contradição do que não se quis.
Quero sempre, como espelho, sua tez.
Tenha sempre o que sinto, como um eterno bis.

Incógnita

Para mim, era:
A coisa mais pura da vida,
A expectativa de uma existência valiosa,
A referência do que pode haver de bom,
O motivo de se ter sonhos,
O motivo para esquecer motivos tristonhos,
A razão para crer que o feliz é real
Faz-me constatar que:
O doce é a origem da acidez,
Do azedume, da amargura;
O ciclo felicidade-tristeza cria moldura,
Em que a ascendência apaga a dor,
E a queda da curva desconstrói o feliz de outrora;
Todo amor é natimorto por natureza;
Na tua reza, falta mais fé;
Febres exógenas tostam o que é infinito por ficção;
A tristeza edifica: não há como evoluir sem ela.
Enfim, é:
Amostra de que o humano é cruel;
Tormenta, contágio, droga perniciosa;
Contraditoriamente, esperança do homem,
Desavença corrosiva, olho apimentado;
Prova de que intempéries trazem sol e chuva,
Saúde e doença, dor e satisfação,
Descrença e fé, fortaleza e desespero,
Fome e desnutrição;
Fato que acelera circulação sanguínea,
Para o bem e para o mal;
Horário de verão que rouba uma hora
Você será:
Sempre incógnita

Introdução de despedida

Coração aperta,
Mente trava,
Pernas bambas,
Sem obedecer,
Em vida desgovernada.
Esforços, para não procurar saber como está,
Minam toda a energia para o resto.
Calma, ninguém vai morrer.
Ao menos não alguém, ser humano.
Mas o falecimento institucional já faz tempo,
Se decompõe lentamente,
E é por isso a dor latente,
De quem amarga a perda de si mesmo,
Enquanto empresa existencial,
Que fale mesmo sendo embrião,
Racha no meio,
De modo desigual,
A vida do cidadão.
Que seja agora então,
E não leve mais nada de mim:
Nem sangue, nem suor,
Nem o som do meu tamborim.

Incongruências cibernéticas

O meio técnico-científico-informacional
Deveria ser fonte para ampliação de fronteiras mentais.
A utilização que dele se faz, por vezes, evidencia-se banal.
Desprestigiam-se, sorrateiramente, relações comportamentais.
Apelaremos à evolução humana,
Ao bom senso acerca da Revolução das Maquinas,
Ao fim da especulação sentimental à paisana.
Sopesaremos a inutilidade contida em almas caninas.
Robusteceremos esforços contra essa mentalidade profana.
Quando o distraído e descuidado se perde,
A tecnologia espraia-se em viés contaminador.
Corações fraternos, ou embasados em amor,
Desconstroem-se em virtual suspeita de dissonante acorde.

Ja vai

Já pensei em telefonar,
Mas acho não ser boa a idéia.
Você deve estar com o ar condicionado
ligado,
Ficando impedida de ouvir meu coração
Como vão as coisas?
Sem levar a mal, por favor.
O amor contido no favo
Foi você que o derramou
Na terra improdutiva.
Não existe música para minha história
Não existe história para a minha vida
Não existe vida para minha expectativa
Quero montar frases fáceis,
Mas a mente está embaralhada,
Um êmbolo para direcionar
Nada a lugar nenhum.
Se o seu silêncio é indiferença
Se há diferença, caso feche os olhos,
Se olhos adornam cartão de visita
Veja como se fita quem preza a figura,
Caminho de milho que se anda ajoelhado
Fumaça sem rumo que desaparece
Prece entoada sem desejado retorno
O que se procura não é indicado?
Verdade, conformar-se é parte.
Mentira, saudade é tudo.
Me deixa, de preferência por perto, do
lado direito da cama.
A propósito, passe para um vinho…
Foi desse jeito que começou:
Festa de gala com atraso,
Karaokê e baile até o fim da noite
Estou indo para ai agora,
Frase dita com emoção
Desafogo da beleza bem-vinda
Nascimento com morte prematura.
Medo de raio, medo de sangue,
Trabalha até tarde,
Acorda mais cedo,
Banho primeiro,
Pão no forno,
Arruma a cama,
Quatro voltas na chave de cima,
Quarenta minutos até o centro,
Lavar, passar e esperar,
Após às dez.
Faxina no sábado

Saudades

Leitura cordial

Posso ler o seu coração.
Ele precisa de mim,
Sente solidão,
Não minta, sei que sim
Entenda,
O meu também anda apertado,
Tentando se reestabelecer de algo
irrecuperável
Sede de abraço, fome de beijo,
Cansaço de solidão,
Sólido pela ação do frio
Que agrega o resultado da decepção.
O tempo quente virá.
O sol, reluzindo em minha janela,
Pode até me dizer que tem novo amor
Vou provar o gosto do sal,
Ressecar a carcaça,
Quebrar vidraça,
Fingir que vai ver,
Para me sentir pior.
Escultura pré-colombiana
Sem se importar com nada:
Pele na pele,
Mate com abacaxi,
Telefone errado
Corte profissional,
A fim de não confundir
Ofício com pessoal.
Festa do padre,
Canto pé sujo,
Baile do vô.
Não foi assim a estréia,
Mirando alto, como na estrela.
Tombo feio em ponta de faca
Faça planos não faça guerra.
Revolução entorpecente
Em mim, crescente, em forma de caverna.
Não sei se saio ou se entro,
Conurbação de pessoas,
Volante volível, se não há dor na volta.
Sem saber, sambar, beber, bancar o
esperto
Espremer idéias do que é incerto
Labirinto errante em consolação
Hálito quente na orelha, na imaginação.

Menina elétrica ninguém acode

Acreditei que tudo era mais simples: desilusão.
Se o coração batesse nesse, firme, mas se foi.
Fatal seria ver o que não existe – uma hipotética situação.
Sem ter nenhuma referência livre – noite-foice, entonces me voy.
Acrescentar um plano de autoestema: jogou, ganhou,
Galvanizando os traços de origem, mas perdi.
Presença e charme na vitrine linda – me arrependi.
De longe vir para ver menina elétrica, que o Zaru levou.
Enquanto penso, escrevo e lamento, o barraco já vai sacudir.
Por quanto sai o custo desse desfecho, só malandro vem para aplaudir.
Se apraz libido sem compromisso, não é pra mim.
Se passa a chuva, e a roupa é seca, sem início seu caminho já chegou no fim.
Como é que pode?
Como é que ninguém acode?
Acelerei na pista lisa pra depois rodar
A decadência deu os braços pra me abandonar.
É de primeira, tanto assim que até me encantei
Não é o tipo de esposa que se espera um rei.
Eu vim de longe, farol alto, capotei sem ver.
É mulher linda que a ninguém merece ter
É mulher linda, que precisa saber o que quer.
É colher suja em doce limpo, é dose alta pra freguês qualquer.

Mangue, ex-laços, ex-passos, espaços

Solange não existiu.
Solange foi um sonho.
Hora marcada de saída e de chegada.
Dupla personalidade mal definida,
Definhando em paranóias de sentido sexto,
Severa com si e com os iguais,
Por mais que indiferente fossem a gato preto,
Por menos, corrompeu-se o ar dos naturais.
Na veia de quem vem portando blindagem,
No peito, feito dublagem.
Entoando voz que não é sua
Ou que sempre foi linguagem de rua.
Vida nua descortina janela suja,
Panela nova que prende barriga.
Barra-se o crescimento da espiga,
Ao espirar lapso de amor na dita cuja.
Sinos tocam, pedras movem-se,
Gelo se quebra sem derreter.
Repentinamente, vai-se a si.
Sobe o salto que sacia os beijos,
Com o fito único de se entreter.
Trata-se de trato firmado em sangue.
Violem acordos tangíveis em laços,
Que de eternos e sólidos viram mangue.

Não vou mais contigo à Europa

Cheguei à conclusão de que você não ama tudo aquilo que disse
Penso nisso sem ressentimento, embora lamente a ilusão.
Dissolve-se, gradativamente, a sensação de perda de tempo:
Foi eterno enquanto durou, e veja que nunca concebemos essa idéia,
Pois se tinha certeza sobre a eternidade que se iniciava desde então.
Dar ensejo a uma criatura que não tenha teu sangue é estranho,
Por isso, julgo que o futuro far-me-á aprender mais sobre a vida.

Nua e vazia

Se a tua vida era meu país,
Se teu pensamento trouxe momento derradeiro,
Faço constar que em minha terra era estrangeiro.
Luto a desejar o que não quis.
Quando minha alma é incandescente,
Meu peito é uma Tsar Bomb,
Destruindo tudo, sem rastro premente,
Fugindo dos laços da hecatombe.
Pense aura lavada,
Pare goteira contínua,
Pulse veia tencionada
Deito na cama macia.
Frios sentidos vêm-me em foto mental, nua.
Vida, cabeça, postura – vazia.

Piedade de mim e de ti

Acho que não se enquadra mais no tipo de pessoa que procuro
Acho, às vezes, que tudo teria sido erro, pois não é o que pensei que fosse.
Devo edificar com a dor do engano,
Devo celebrar a oportunidade de ser feliz em plenitude.
Para tanto, buscar lugar no mundo.
Um mundo por si só,
Se só me deparo com o despreparo.
Preparar-me-ei ao reparo de minha alça de mira,
Deixarei de sonhar com mirabolante musa,
Mudarei de postura,
Mas não sem piedade de mim e de ti.

Público alvo

Eu e você sempre fomos carne e unha.
Momentos difíceis vieram.
Tornamo-nos rato e gata.
Hoje resta o eremita e a citadina.
Por que distância?
Para que abismos?
Qual é o sentido da inflexão?
Ladrilhos trincam,
Longevidade se esgota.
Gota a gota minam mundos,
Mudos cantam em harmonia.
Monótonos são todos
Que pervertem passos certos.
Sondas cegas pulsam, de fato,
Feixes foscos predominam.
Não quero estar longe, para que não esqueça,
Cultive lembranças e as tenha por perto
De dia, calor alimenta; regresse antes que anoiteça,
Ou que um de nós pereça, o que já é quase certo.

Seres caducifólios

Quero ser melhor
Para mim e para o mundo,
Enxergando, no fundo,
Função para o que é de isopor.
Isonomia por centralidade
É câmbio dado com a idade,
Em que a ida arde,
Quando não soa o acorde.
Delírios verídicos,
Em sandálias frouxas,
Defronte às tochas,
Tomam reino idílico.
Cada salvamento,
Salvo boca a boca,
Bota, na mente oca,
Palavras que leva o vento.

Sexta-feira 12

Seres, quase fantásticos,
Habitam as ruelas
Em que mulheres belas
Inexistem no plano fatídico.
As percepções misturadas,
Entre fraternos opositores,
Criam força motriz para atores,
Ou artistas de touradas.
De todos os afazeres,
Que se colhem do infortúnio,
Fortifica: astuto é o gênio.
Faz-se tudo, desde os ares.
Se é possível crer no dúbio,
Em mares revoltos, mesmo em céu aberto,
Reviro a terra em busca de alimento,
Mas minto caso haja lama no rio.

Constata-se

Quis fazer de você minha mulher,
Qualquer abalo pôs tudo a perder.
Pendulava entre o eterno e o amanhã,
Amarrando os pulsos com as cordas que tinha
Tinta fresca foi usada para colar
O lar, santuário, caminho para o altar.
Argutos olhares se confirmaram no tato,
Com tanto amor, tornando-se intacto.
Se a caso um dia formos outros,
Por obra do Criador ou vontade nossa,
Guarda com carinho a força
Que faltou para eternizar encontros.
Segue, em anexo, minha alma,
Empobrecida por não ser mais sua:
Sina de quem segue a lua,
Seita do que se perde na calma.

Amor tarja preta

Será que fui eu que fiz por merecer?
Também, do que adiantaria ser feliz?
Veja, era quase tudo que sempre quis.
Se as águas não se dividissem, haveria poça?
Há poucas recordações de como era antes.
Freqüentes lembranças, rastro opaco
De tempos agradáveis, mas conteúdo fraco.
É como sorrir sem mostrar os dentes.
O coração travou, máquina emperrada.
Bastante combustível, seguramente.
A tensão aumenta se encontro vestígio da gente,
E, na esperança da resolução, a mala não está desfeita.
Quando o telefone tocou, fiquei alegre,
Estado que se esvaiu com os sinais de frieza.
George Benson só se ouve com a certeza
De que corpo e alma não estejam no vinagre.
Saudade que é droga forte,
Entorpece igual tarja preta:
Agride organismo sem meta,
Propõe o prenúncio da sorte.

Sobre viver

Coleção de infortúnios.
Fortunas são amores,
Efêmeros.
Defesa do passado,
Pesadelo com o futuro,
Fé sempre.
Satisfazer-se só:
Sobreviver.

Virtude verdadeira

Você era minha fortaleza.
Hoje, acentua minha fraqueza.
A sua imposição de limitações,
Inviabilizando outras gerações.
O colorido se desbota.
No tempero, sabor se ausenta.
O que era quente se congela.
Perspectiva suntuosa vira singela.
Sem sal.
Que tal?
Não muito inteligente,
Perde o controle de repente.
E tem gente que pensa
Que a sua cabeça tensa
Esclarece somente com verdade.
Cada qual com sua virtude.

Espera-se fermata, nanauí, dama (-) do (-) lago.

Tenho sentido falta,
Feito paciente, com glicose alta,
Em busca de medicina.
A sina é busca mediana,
Retomada de processo,
Interrompido sem consenso.
Se escrevo um livro,
Se canto uma canção,
De amor ou de desilusão,
Encantos seus: deles não me livro.
Lavro o passado, com enxada cega,
Sigo feito morcego em busca da minha nêga.
Nego abandono, nego desencanto.
Creio no entretanto, creio ser seu dono.
A voz que tremularia, não ronrono,
Sem que pense em construir espaço novo, nosso canto.
Tudo só – existe, porque não esqueci,
Nem do mate nem do abacaxi.
E se o padre chamar para a festa,
E se o conteúdo dentro da testa
Ficar com o gosto do sex on the beach,
Eu te prometo ser fiel: não morrer como na lenda sobre o fim de Nietzsche.

Reencontros despretensiosos repentinos.

Elevadores surpreendem de sacar a fala.
Enfadonhamente, segurando o queixo,
Quem me dera ir à boca feito bala,
Em giros desordenados, em corporal desfecho.
O pulso que fazia o gráfico horizontal,
Causou-me o frio na barriga que se deseja.
De certo, haja êxito em fazer do pescoço cereja,
Enquanto planos emergem em nexo mental.
Nunca imaginei que fosse o que sempre quis,
Faro, tato, vista, vulto, onda perfeita,
Feita para meu abraço, sentimentalidade em chafariz,
Chá que esquenta matéria, mulher que, desde já, se aceita.
Interesses oblíquos, pensamentos obtusos,
Simetrias suntuosas, paranóias afrodisíacas,
Formadoras de rebento, redentoras dos confusos,
Fusos trocados, heroicamente, e forte é a fé em carne fraca.

Relato-confidência

Odeio, pois não devo amar.
Amargo o que um dia doce foi, e se foi.
Sentidos e sentimentos são
Somente sombras que vem e vão
Evito enobrecer o não dever ser.
Prometo perpetuar nossas palavras
Nas paginas passadas,
Sejam poesias, ou contos de fadas.
Receio, mas não vou remar
Contra a corrente que partiu em dois.
Resquícios da minha vida irão,
Em vão, tentar manter-me em equilíbrio, são.
Jamais vou denegrir o que não há por vir.
Virtude é entender que ainda pode vingar.
Por ser impar, sei:
Devo aguardar a nuvem negra, passageira,
Mensageira desse sonho.
Lembro:
A luz da vela, iluminando nossos corpos,
Seus olhos castanhos a brilhar
E os meus,
Ao som de Tom Jobim,
A lacrimejar.

Páginas, passado, presente.

Medo de perder.
Angústia.
O mundo que pesa no peito,
A pedra que machuca o pé.
Apatia.
Falta de reação,
Mente confusa,
Garganta fechada,
Frio no tornozelo,
Coração de Zabumba.
Lágrimas.
Perda de sentido,
Respiração curta,
Tremor ocular,
Estomago embrulhado,
Têmpora pressionada,
Curiosidade-Temor.
Vontade de ter vontade,
Boca seca,
Lembranças.
Piano em Montevidéu,
Punta Ballena,
Vilaró,
Táxi na madrugada,
Emoção.
Saudade,
Dor,
Soluço.
Cinco anos de foto,
Uma vida,
Duas almas,
Zero “___”.
Lente suja,
Serenidade,
Auto-controle,
Lealdade,
Fortaleza.
Base,
Equilíbrio,
Pureza.
Sofrimento,
Seguir só.
Castigo ou treinamento,
Vontade de Deus,
Mansidão acelerada.
Parada brusca,
Felicidade reta,
Em rota torta,
Reconstruir.
Barraco no Rajah,
Caldo de cana,
Jazz domingo no Otto,
Mr. Chan,
Donna Donni.
Aquecedor entupido,
C3PO,
Bafo,
Mosquito da dengue.
Primeira noite na Uruguai,
Lava-lava,
Carinho,
Cumplicidade,
Poder sobre tudo,
Supremacia.
O setembro de 2008,
Grande dia,
Reservatório que transbordava,
Agora esvazia,
Resseca no sol,
Só,
Lamento.
22/09/2009.

Terapia física, conflitos fraternos.

O encontro que se faz no samba
Deixou em mim uma marca.
Tatuagem de cavalo em pele branca,
Há perfume, na mente, que não se acaba.
Olhar tencionante, brilho inconfundível;
Reluz a noite, é excludente,
E ainda que acolhesse de maneira aparente,
São só meios de um par de gente ser autodesfrutável.
O outro desenho que existe
Talvez seja uma senha
Que ao pé do ouvido venha
Como troféu a que insiste.
Se amizades criam expectativas,
Novos sambas são oportunidades.
Na permissão de experiências pontiagudas,
Ouso tentativa para outra realidade.

Matemática não numérica

Cada um ama como pode.
Ponha o coração em pratos limpos.
Pare de insistir em limites e topos.
Todo pó a que se aspira acode.
Sei que não há no mundo,
Pessoa mais fantástica.
Talvez, por toda a eternidade,
Siga, refletindo, onde errei.
Fui rei enquanto a tinha.
Não queria seguir só, principalmente,
Porque a maior riqueza existente,
Era portável dentro de um só amor,
Em que à matemática não cabe supor.
Quando um mais um é igual a um,
Ao mesmo tempo maior que um,
Ou um dividido por dois é igual a zero,
Às vezes, menos que isso, negativo,
É assim que alguns se sentem.
É Deus, desafiando o inteligível.