Karol Felício

Sócia Correspondente 1143
Rio de Janeiro – RJ – Brasil

Biografia:

Karol Felicio nasceu em Aracruz/ES em 1982. É jornalista, trabalhou em televisão, impresso, revista, assessoria de comunicação e web. Atualmente especializa-se em Assessoria de Comunicação em Mídias Digitais. É escritora correspondente da Academia Brasileira de Poesias e publicou textos na antologia de poemas Ecos da Alma/ Andross Editora. Seus poemas podem ser lidos aqui ou em seu blog http://paguquemepariu.blogspot.com

Trabalhos

Assim…

Quero alguém que decifre as minhas músicas
Que desvende os meus segredos
E venere os meus mistérios

Alguém para estancar todo esse sangue
a sensualidade contida e esse desejo que verte
e não encontra calhas onde escoar

Quero que percorra meus sons com os dedos
Que adentre essas cavernas
Que descubra esses caminhos

Alguém que termine as minhas deixas
Que, a cada frase que irrita, me complete
E a cada poro que grita, me liberte

Quero bom dia e a vontade de querer o dia inteiro
Quero gosto e quero cheiro
Quero toque e quero pele

Mas não quero tudo assim, exposto
Eu quero em partes, em etapas
E também não quero parte
Eu quero alguém. E quero inteiro.

Sintomas

É um buraco
Onde nunca assentam as coisas aqui dentro
Onde nunca encontro as consequências para as minhas causas

Dos atos e efeitos…
No cheiro do teu cabelo, a minha cura
Na tua perversão, minha loucura
No imoral, a minha tara
E no rubor, a minha cara

Dos medos…
Num enroscar de braços e pernas e peitos e bocas, da solidão
Num sono profundo, o de acordar
Na abstenção, o de errar
E no excesso, o de faltar

Amo tudo que te faz arder, e me orgulho quando faz doer
Algo assim de rasgar teu peito e entrar, aconchegar
Isso de buscar uma completude, um antídoto, preenchimento
Busca incessante isso
Consome e seduz
É querer mais
Até ser vício

Envolvimento…
É um lugar onde não se vê o fundo
Mas tem vontade de se atirar
É desejo, entrega, vertigem
A gente não sabe aonde vai dar
Mas a gente vai.

Sempre Sinto

Sinto sono e saudade
Sinto daqui o cheiro do cabelo do meu irmão
Mas longe de casa tudo é tão tarde
Que mal dá tempo de pregar os olhos

Sempre de saída e sempre atrasada
E passo tantas horas cantando
Que não tenho tempo de lembrar
O quanto sinto falta

Sinto o cheiro de bolo no forno
E o falatório matinal na cozinha
Uma buzina me acorda
Meu destino ficou há ruas atrás

Sempre me falta um abraço
Que soneguei quando estava por perto
E percebi quando já estava um deserto
Nos quilômetros que no peito me apertam

Sinto tudo longe aqui dentro
O coração tá sem lugar para escorar
Sei que ainda fico um tempo
Mas sempre sinto que é hora de voltar.

Coisa de Costume

Ninguém pode só florir
E espero que você entenda
Que os sorrisos às vezes gastam
E só voltam quando querem
A qualquer amanhecer

Não que seja desesperador
– Mas é de esperar –
Um instante até que a janela abra
Até que ela desabroche
Para morrer mais uma vez
Com vontade

Fico com vontade de fechar os olhos, lembrar dos detalhes
Da luz, da cor, do gosto, do cheiro, do toque
De você inteiro em minhas pernas
Entre
Abertas
De você de frente, de olhos fitados, laçados, trincados
Olhos prometidos, das pupilas que são minhas, furtadas por mim, para mim
Amarrados
Dos minutos parados
Fico com vontade do tinto do vinho, do sangue, do quente, derramado
Dos meus lençóis que foram brancos
Impregnados
Fico com vontade de você
Fico só. De uma solidão que é breve.
E todo o resto eu terei para sempre.
Fico com vontade de que seja logo.

Reciclo

Escrevo no verso de um coração rasgado
Remendo esse papel esgarçado
Começo uma nova história

Em poucas linhas vem página nova
Use a caneta tinteiro quando a certeza chegar
Não rasure nem rascunhe
A vida se escreve uma única vez

Faça pinturas, eu quero cores!
Amarelos brilhantes, vermelho sangue
E desenhe sorrisos, muitos sorrisos

Quando cansar não me guarde na gaveta
Respiro sol, exposição, luz…
Para mais tarde reserve lápis azuis
Quando escreveremos Fim, como nos contos de fadas

E em seu colo pousarei tranquila e o dia não amanhecerá.

Bode Veio

Como não podia evitar a queda
Cuidou
Protegeu degraus,
Estofou todos eles
Mandou talhar cúpula de cristal
Para que cair não doesse assim
Pegou-a pela mão
– Não queria que andasse só –
Mandou buscar um bode no sertão
Só para ser diferente dos outros
Seu bichinho de estimação

Comprou, vendeu, trocou, desperdiçou
Atirou uma caixa de tomates maduros ao chão
Para brotar um sorriso, gargalhar

Mandou chamar Luiz Gonzaga só para tocar
Mesmo que fosse muito cedo
Um dia gostaria do baião
Da rede, do cheiro, do xote, do xenhenhen e da sanfona
“Carolina, humm, humm, hummm”

Aborreceu(-se), contrariou(-se), magoou(-se)
Porque ela cresceu, engatinhou, andou
Voou para longe
Mas resignou(-se), acalmou(-se), alegrou(-se)
Porque ela sempre voa de volta

Lapidou uma pedra forte
Daquelas que não se abalam, daquelas que não se apegam
Daquelas que fingem e mentem quando negam
Que a maior queda é ter um dia de largar a sua mão.

Brincando de Samba

Me acelera,
Depois acalma o meu desassossego
Quero guardar todos os teus beijos
Perder o senso, soltar os freios
Me desarmar

Me chama agora,
Então me mostra que não tem mais jeito
Que essa explosão aqui bem no meu peito
É um bom motivo para eu me entregar

Me leva longe,
Lá pro teu canto
Praia, sol, sossego
Me mostra o quanto eu vou dormir direito
Na poesia desse teu olhar

Vem amor,
E mata logo toda essa vontade
E ameniza um pouco toda essa saudade
Já corri tanto e agora
– quase tarde –
Eu me redimo só a te esperar

Indigesto

Pobre da poesia que nasce na morte do amor
E daquela música que sorria
e agora toca e dói
Aquela foto que rasga e sangra
e aquela cama que chora e chora
Pobre do poeta que se alegra com a arte que faz
do estrago do seu próprio amor
Pobre do leitor, que admira a dor, mastiga as vísceras do poeta,
essa tristeza indigesta, engole num copo d’água,
fecha a tela, vira a página, sai, e nem olha para traz
Pobre dessa gente, por toda parte, que se ressente
A garota que dobrou a esquina, o moço que fechou a porta e afrouxou o nó da gravata,
Aquela senhora que passa, aquele menino que cala
Se quiser alegria dirija-se ao guichê ao lado
E tudo isso é matéria prima, vai dar à luz a algumas linhas, que, por hora, nem da gaveta saem

A gente produz muito lixo, anda descalço no esgoto
A gente faz amor com a peste, para nascer algo que preste
E às vezes a gente joga pérolas aos porcos
A gente escreve
E espera que alguém goste, ou que alguém deteste
Mas espera que alguém leia.
Uma presa, uma caça

E me caça esse olho de águia
Sem pudor, sem freios, sem fala
Com a força que vem e me cala
Há quilômetros, por instinto, veloz

E me larga indefesa, estática
Acuada, imóvel, amarrada
À espreita, um bicho, uma tara
Uma presa, frente a frente, o algoz

E te espero, sem resistência
E me exponho como banquete
E me entrego ao teu deleite
Te recebo, um animal

Fareja, envolve, invade
As gotas de suor que calham
Derretem meu rosto que arde
Minha boca concede e se abre

E só me despregue esses olhos
– nervosos de águia –
No buraco do tempo em que a música acaba
Na cera que derrete da vela que apaga
E a brasa queimada no canto da sala
Refaz o cenário da noite que cai

De um suspiro esgotado
Um corpo enxarcado
Um calor esganado
E minh’alma que vai

Olhares

Olhares de poucos segundos

Como o lateral, da garota dos drinks, olhos de pecado. Contornados de tinta negra, segundos de sedução.

Ou o casual, frontal, claro e doce. Resgate de infância, segundos maternais.

Os segundos mais cruéis no olhar do desprezo, seco, frio, duro. Olhos de dedo em riste, segundos antes da despedida.

Olhos d’água, do amor incondicional, necessitado, eterno, em desespero, à espera. Doloridos segundos em que não pude retribuir.

Olhos para o fundo do poço, para o fim que não tem, para portas fechadas e a luz queimada no fim do túnel. Olhar gelado de medo. Segundos pós-trauma.

Nos segundos em que se perde do tempo e de tudo mais que havia em volta.

A pausa do cérebro para sentir a porrada na boca do estômago, o elevador – 1000m/s- do pé ao cabelo. Segundos de prazer ou dor.

Todo o tempo do mundo em breves segundos por intensos olhares.

Dose de saudade

E essa dose, e esse frio, e esse jazz que quase machuca
E meu coração de pedra já está em pedregulhos
E a saudade vem, e a saudade dói
Mas a saudade é boa quando vem, mas sabe que a volta é logo
Porque a saudade é cama fria e mesa posta
esperando que a garrafa vire antes que o café esfrie
É um vazio que se vê o fundo
É o frio que sobe a espinha e um calor que dá no estômago
Mas no fundo a saudade é leve
O que dói é breve
O que fica é forte
A demora é longa
Então volta logo
Que a saudade é pressa

Sol Calor

Pequenas perversões da praia
Escoltado por lentes negras
Que não escondem um sorrisinho por cima do ombro
Um deslize por baixo da mesa

Frio na barriga do banco de trás,
Do sofá da sala, do elevador
A tentação da infidelidade
– convenção social –

Os pensamentos soltos quando os olhos fecham
E o grito escondido que declara
– consumação das delícias do pecado original –
Porque muito antes de vovó
O proibido já era mais gostoso.

De tombos em tombos

Quando a cicatrização dói mais que o corte
– com sangue quente não se sente dor-
Depois lateja inconstante e ritmada
Costuro minha carne, lambo minhas feridas
Então me deixe sentir onde dói mais fundo
Só! – RISCO DE INFECÇÃO
Daqui a pouco é pele nova
Daqui a pouco pronta
Para cair de novo

No Ponto

É bom existir o mistério
Sutilmente apimentando os sentimentos
E assim prorrogar a entrega, discretamente,
Aumentando a distância do tempo exato.

No entanto há de se driblar o risco, de não perder a hora,
De não passar do ponto, da temperatura exata,
Crocante por fora, macia por dentro, nem quente, nem fria.
Sem perder o momento, sem quebrar a magia.

Mantenha

Não te aproximes
Eu tenho espinhos
E acredite
Eles te sangram
Porque meus ressentimentos são mil flechas afiadas
Lançadas
E cada rosa que me encosto despetala
E cada peito em que me deito dilacera

Eu tenho pressa em juntar meus cacos
Por isso corro, atropelo
Sigo caminho, choro os vestígios
Mas não olho para trás

Talvez assim, correndo tanto
O vento bata, e a dor abrande
Talvez por ter-me ofuscado os olhos
Eu não te enxergue nem a ninguém

Levam-me os pés que correm tanto
Nas pedras mil desse caminho
E vou seguindo assim sozinho
Desencantando uns outros tantos

No meu passo

Mudei de casa. E senti o cheiro da minha rua pela primeira vez. Tem cheiro de mato cortado. De fato está. E já dá para ver os balanços sobressaindo, e quase dá para ouvir as crianças brincando no parque. Ainda está abandonado, mas ando enxergando além.

Tenho me enxergado colorida, não sei se é do sol ou do espelho. É que tem calor demais em mim. Acho que nem o próximo inverno vai me desbotar.

Eu tenho andado em paz. E só Deus sabe a violência que anda essa cidade. Às vezes me assusto, noutras durmo sorrindo no caminho para casa. Às vezes vou a pé, sentindo o cheiro das coisas. Alguns eu nem conhecia.

É que tenho acordado doce. Meu amor tem tornado meus dias mais doces. Em todos eles, se esforça para me mostrar que estou no caminho certo. Mal sabe ele que isso não me preocupa mais.

De uma Letra Só

Tenho uma fila de poesias encomendadas que me travam
Textos a quatro mãos, orelhas, auto-retratos, temáticos, cartões
Mas poesia não se compra, não se vende, nem se doa
Meu escrito é egoísta, regurgita,
Meu poema não se come, definha, morre de fome
Meus versos solitários não casam com mais nenhum, não combinam, fogem,
por mais que queiram, secam, só de pensar
Meus versos são como eu. Eu seco. Só de pensar.
Eu minto, invento cores, corações, pavores. Meus versos às vezes doem, às vezes fingem. E minhas letras se unem e mentem por mim. Meus versos mentem, mim que não sou.
E tem quem compre, mesmo que eu não venda.

O Buraco

Eu cavei um poço na minha cabeça. É para lá que empurro meus pensamentos e caio. Até que a água do fundo vaze pelos cantos dos meus olhos.

Eu crio imagens, jogo de cenas. Vivo num cinema de uma só cadeira assistindo a trailers intermináveis que eu mesma crio para me fazer chorar. Eu não acredito em final feliz.

[Meus pensamentos são uma arma, apontada para a minha própria cara, prestes a disparar]

Tatuagem

Sonhei que estava chorando enquanto alguém perguntava se aquela marca, de lágrima recém- escorrida, era tatuagem
Era tatuagem sim, lágrima definitiva, marcada a ferro para mostrar que parte de mim choraria para sempre, que pingaria como uma goteira nessa casa velha que me tornei.

O que te inspira?

Eu não sei colocar preços nas coisas. Um João me ofereceu “um trabalho independente de poesias com desenhos em nanquim a uma quantia voluntária” eu quis, mas não comprei. Eu não gostaria de pôr um preço no João.

Também não sei o quanto vale o meu sossego. Mas sei que vale muito. Eu pago caro por você. Você é o escambo que fiz pelo meu sossego.

[No que você pensa enquanto eu penso nele? Normalmente você faz silêncio…]

Eu não tenho tido tempo de pensar. Preciso silenciar, deixar o corpo calar, e parir palavras que derramem no papel.

Hoje eu vi tantas coisas belas, rosas de tantas cores, laranjas amarelas, como nunca as tinha visto. Fluorescentes. Florescendo.

Também tinha um velhinho corcunda, sentado sob o busto de um senhor esguio, numa praça. Seria D. Pedro? Ele usava óculos engraçados…

O que te inspira?

Meu Pedaço

É tão afinado que não sei se te sigo ou me deixo fluir
É tão perfeitinho que não sei se existe ou fui eu quem pari
É tão combinado que eu já não sei quando é moda
– como “bolsa e sapato” –
Ou se hoje eu queria andar nu e descalço para me sentir livre,
como quando nasci
– mas deve fazer frio assim –

É tão óbvio, certeiro, fácil
É pré-moldado, sob medida, encomendado
É tão inacreditável
Que eu fico a me perguntar
Será que o nosso amor existe
ou foi só uma farsa que eu consenti?

É que quando acordo eu não sei se sonhei ou vivi
É que quando juro eu já não sei se menti
E eu já não sei se fico para o parto ou prefiro partir

É que eu tinha um buraco no peito
Era gelado e doía
– que tilintava –
Você veio ser o pedaço que faltava
Eu aceitei
– nada custava –
Agora já não sei se existo se não for assim
Desvios

O vício do amor
A ferida que marca
A marca que dói
A dor que não passa

Dizem que amar novamente sara
E aí a dor para
E aí incha o peito
E aí mostra a cara

Mas se vem novo amor
É perigo dobrado
Latejar ritmado
Num coração ocupado
– Não lhe dê atenção! –
Aquilo fala baixinho
Aquilo sofre calado

É sorrir ou pesar
É pagar para ver
Ou prazer pra pagar
– caro –
É saber resultado
É insistir em errar
É pegar ou largar

Todo mundo tem um vício
Um fantasma
Um resquício
Uma dor que incomoda
Um machucado que coça
Que é melhor abafar
Porque se começa
Não consegue parar

Mas todo mundo tem balança
Para saber o que pesa
Para saber a que reza
A mente onde vaga
O que o corpo suporta
O que lhe vale a vida
O que lhe conforta a alma

Onde é que lhe toca
Nessa estrada já torta
Mil desvios de rota
O caminho a seguir

A seguir ou voltar.

Descivilização

Onde confiança não é mais uma constante
quiçá moeda de troca

E a palavra de um homem não vale mais que escambo
com meia dúzia de quiabos

Quero lhe converter de valor em letras
e padecer em poucas linhas, lauda, poesia

E me deitar em tantas camas quentes
até que a sua esfrie, que nem me lembre

Quero mergulhar em tantas quedas d’água
que meu corpo limpe, até que me levante

E correr quantas léguas que minha alma acalme
Estire.

À sombra de uma copa larga, pingando mel de uma fruta farta,
que minha boca adoce.

E eu descanse.

Mais uma noite à-toa

A noite cai
Escura, gelada
Os 12º graus de sempre

O chuveiro quente
O corpo ferve
Aromas, vapor

Banheiro escuro
À luz de velas
Os olhos fecham
A mente voa
A boca pede
Mais uma taça de vinho à-toa

Tinto
Vermelho da boca
O sangue esquenta
O frio da espinha sobe
O da barriga desce
E transborda

Uma onda de calor toma
Todo o corpo, todo o copo
E a garrafa seca
E molha, não nega

Lá longe a música
Toca, e toca
Um Chico à-toa

A poesia voa
Não se prende no papel
Acalma a mente
Liberta a alma
De uma eterna espera
De não se sabe o quê

E o corpo estira
E a cama abraça
E o sono chega
E ela apaga

Mais uma noite boa
Uma noite à-toa
Que acaba.

Resto

E se foi assim,
quando tudo era brilho, cor e a música era alta

Eu fiquei assim,
poeira e pó

Voltou mutilado, maltratado, manco
Um vaso mal colado,
Oferecendo o amor que não pudera dar

Mas agora o amor é resto, é meio, é quase
e não mais aceito
ou resto de mim ele também fará.

Subo, desço, sigo

Subo ladeira com Lenine

Vento na cara
Suor gelado na nuca
Não escorre.

Passo forte, mente leve
Não paro
Acácias, bromélias
Dama-da-noite me chama, impulsiona
Pureza.

Em cada canto janelas sisudas de cortinas cerradas como dentes
Mais longe, mais acima,
Edifícios de costas nuas cheirando a Dior para camuflar o ranço
Luzes coloridas por toda parte
Loucura.

Desço ladeira com Lenine

Muito mais longe e bem mais acima
Num céu negro-azulado, satélites voyeur, estrelas fazendo amor transcendental, sigo com a lua
Sensatez.
De volta ao marco zero

Lenine emudece aos poucos

Tudo muda aqui dentro
Lá fora tudo igual.

Verde

Olho de folha, carrega a incoerência do mundo na pupila
Olho de folha de dia, olho de noite mais tarde
Bipolaridade
Quem é além da retina conflitante e inquieta?
Quem vê além de todos e tudo mais?
A mim… só a mim não creio tanto.
Ah, sim…
Olho de folha, sai da casca
Se mostre, rasgue a couraça
Olho de folha que intriga, acende sempre quando apago e apaga quando me entrego. Afasta sempre enquanto me aperto.
Me ri, me chora, me ama, me torce, me passa, me aquece. E esfria.
Sai do corpo pelo olho, me lava e toca a alma.
Mesmo que mal me lembre da cor dos seus olhos. Impossível é apagar o seu olhar.

Morte do Tempo

Não é a morte que mete medo
Mas sentir escorrer nos dedos as rugas e os cabelos brancos, e não carregar no estômago a metade do mundo que sonhei comer;
Porque me mata imaginar que a ânsia de viver caduque e que os sonhos morram de velhos como os seguros;
Temo pensar que o fogo da juventude acabe por queimar os desejos, por precipitação e gula;
Porque quero chegar a Vênus, mas ainda não me encontrei na Terra;
E sigo apressada, abrindo vias, chutando pedras, cortando por atalhos e abraçando os riscos;
E me atormenta pensar em tantos “s” das possibilidades…
Melhor cobrir a boca, cerrar os olhos e esperar que o amanhã amanheça.

Delivery

Um brinde às paixões instantâneas

Das salas de consultório
Das mesas dos bares
Dos coletivos
E das calçadas

Um brinde às paixões de muitos olhares e poucas palavras
Ah! Como são leves, são fortes, livres e eternizadas pelo momento!
Um brinde a elas que ardem e não queimam, àquelas que não completam o ciclo, não discutem a relação e não morrem.

Um brinde com champagne ao drive thru!