Lopito Feijó

Sócio Correspondente 1154

Biografia:

João André da Silva Feijó, Lopito Feijó, nasceu em Malanje em 29 de setembro de 1963. Estudou Direito em Luanda, na Universidade Agostinho Neto. É Deputado da Assembléia Nacional da República e Angola. Poeta, crítico literário, professor de literatura Angolana. Membro fundador da Brigada Jovem de Literatura de Luanda (BJLL) e do Coletivo de Trabalhos Literários Ohandanji e membro da União de Escritores Angolanos (UEA). Presdiente da Sociedade Angolana do Direito do Autor (SADIA) e diretor da Gazeta dos Autores. Tem obras publicadas no Brasil, Portugal, Espanha, Estados Unidos, Moçambioque, São Tomé e Príncipe e Nigéria.
Publicou: Doutrina (1987), Me ditando (1987), Rosa-cor-de-Rosa (1987), Cartas de Amor (1990), Na Idade de Cristo (poesia declamada em CD-1997), Meditando, textos sobre literatiura (1992), Geração da Revolução(1993) No Caminho Dolorosa das coisas (1988), África da Palavra (1995), ) Brilho do Bronze (Haikais-2005)

Trabalhos

Três Haikais

Sons são nada só
Idas e vindas lavras e pa
Lavras repetindo se continua mente
Kianda ainda amiga
Quem anda e sobre
Vive seduzida por ti cidade

Leitor pão texto
Fecundação no écran
Imensidão ilusória

POSTURA

Disseram-me que não mais são Desérticas
as entranhas do vosso Kalahari

que as belezas das dunas Namibenses
haviam sido desvirginadas.

Sobre…
Tudo em razão do fluviométrico porvir.

Tarde e Nunca sobram intensos
motivos de poeira inoxidável.

Disseram e dizem ser doirada
a caneta com que se (d)escreve a rota

nómada, do entardecer adulto, a
costado entre a seca e o desespero

mulher pífaro apurado
que Deus seja contigo
pois hora avante serás louvada!
LOUCA E BRAVA

Sobre a boca dos deuses na avenida
paulatinamente louca e entre aberta
semear existência ardente.

Na esteira dos korás kwanhamas
entoar sérias canções de amor
na graça abundante e universal
por fora navegar nos deleites
da carne do esperma quando já no céu
dos céus de todas as belezas

contemplar assim famosa viragem
nas colinas delituosas da tua soberana
vagina sempre erecta.

ERÓTICA AFRICANA

1
Preto o ouro que trazes no peito
é meu.
Aquoso o líquido cujo derrame
é teu.
Negro o sangue com qual me embriago
é teu.
Verde o caldo da minha esperança
é teu.

2
O cintilante diamante da pura desgraça
é meu.
O vento do Shara quinspira loucura
é meu.

O olhar pontiagudo do jovem Massai
é teu.
O secreto aspiral de quem entra e quem sai
é meu.

3
[O mistério oracular
dos outros antepassados
é nosso?]
4
-No mundo do teu e do meu AMOR
só a velha interrogação cuja África representa
É NOSSA!

ENTRE O ÉCRAN E O ESPERMA

UM TEMA PARA A SAMBA
(Eu e o coro em Tala – Mungongo)

EU

Oh Samba
que comeste o fogo todo de uma só vez
melhor que tudo é belo o que mais importa é
saudade genealógica do tambor
massacrado no verbo de repente. Ele mesmo.

CORO

Samba
monami wai kiá mu’alunga.
EU

Oh Samba
resta-me crer que voarás sublime
engolirás de uma só vez também a água
do mar. querer é poder que não te falta.

CORO

Samba
monami wai kiá mu’alunga
samba monami wá lengue ó n’gongo!

SEGUNDA ESSÊNCIA
– HAIKAIS ANGOLENSES –

DO CICLO DA JINGUNA

DO CICLO DA KIHANZA

DO CICLO DO DIHÔHÔ

DO CICLO DO DINGUNDO

DO CICLO DO KIHÊNZE E DO KATATU

Malembe malembe mulemba
ponta negra no astral
África Austral de pedra e cal.

Gaivota verde gravata vaca
cara de faca afiada
carne vaga ou maratona avulsa.

Menino melindre
cem mil sem pai
sem pão nem mãos.

Sem sol sem lua sem nada
sem mar sem sal sem paga
sem rua sem rio sem risos.

A via havia de ser
penhor de um só luar cambaleando
no ar dor d’incógnita opulência.

Leitor pão texto
fecundação no écran
imensidão ilusória.

Ó kilembeketa
iá teketa ku mako
ó kilombelombe uá dibale ku mábia.

Sorridente no seu galho
a viuvinha contempla
a vizinha o porvir e o atalho.

No Inverno o cacimbo é de prenúncio
mitómino sigo infame
no Verão verão que não ouso.
Finalmente o fundo dos finados finalistas
igualmente a mente dos doentes pendentes
ilusória abstracção dos ilustres sem lustre.

NA SEDE DOS RIOS AFRICANOS
-NILO
Percorre divinalmente de cabeça esbranquiçada
fertilizante de cheias estivais
(n)aquela tela vista por Fromentin.

-NIGER
Uma ponte metálica perpassa
o íntimo caudal do seu coração
com destino a Benue.

-CONGO
A espessura do seu marulhar murmura
no reinado com a flu
vial idade das águas benzidas.

-KWANZA
Feito símbolo de re(s)
posta nação aparece caudalosamente re
ajustado entre norte e sul. Este ou aquele?

-ZAMBEZE
P’los ditos de Catima deleita-se
Lungue-Bungo popular
incinerados seus antepassados levitam próximo do
[Zumbo.

-ORANGE
Oh… Garieb. Corre, salta, estende-te, desdobra-te
autonomiza o sol ao Cabo das Agulhas
tão bem em razão da identidade!

A NONA BRISA

No espaço sepultado pela ventura
a Nona Brisa escorre intimamente
…qual meninas(s) do(s) meu(s) olho(s)…
sacudindo as pétalas do aroma temporal em

escala profética ao fruir súbito
das fricções encarnadas num ser qualquer
nas hostes dos demónios pernilongos.

A Nona Brisa ilimitada pela dimensão erótica
do corpo veloz traz no rosto
a extensão do sangue e o exercício do pudor

memorial
de carne espessa ou sombra encantatória
miserável determinista no circuito dos anjos
amantes testamentários da violência mitológica!

MEDITANDO

– Engoli de um espinheiro um grande raminho-

&

da tese concebida ao prefácio por escrever
teço toc toc enquanto toco levemente o porvir
d’outra gestão.

Daí a cor do sangue escasso caro irmão
[protestante
que tão bem partes os passeios que passeio
assim que passo. Passo a passo me ditando!

TEU NOME

Nos rios riachos pontes e pontinhas
nas ponteiras nos pontecos e pontiagudos
nas portas portarias e decretos
nas vias nas vielas e vitrinas
nos envios nos desvios e na própria mercearia/mercadoria
nas cínicas clínicas e hospitais
nas escolas nas sacolas nas patolas.

Nos bancos bancas e broncas
nos lotes potes e holofotes
nas versões vizinhas e viaturas
nas dezenas e centenas de milhares
nos milhares de milhares e de mulheres.

Nos vertentes versos e versículos
nas curvas e contra curvas nos montes e montanhas
nos desportos portos aeroportos e confortos
nas trastes nos contrastes e desastres
nos concretos concertos e conversas
nas chuteiras nos chutos e pontapés
nos temas nos lemas e esquemas
nas ideias nas aldeias e (quem diria!) nos desertos.
Nos anos nos anais e até mesmo nos anéis
nos turnos nocturnos diurnos e taciturnos
nas respostas nas costas e encostas
na habilidade na contabilidade e também na instabilidade nos vales e cheques de valor, nos tabuleiros das danças e no xadrez
na gramática da sociedade e leituras dos meridianos
nas matemáticas exageradas e geografias mal agrafadas
na história já contada e ainda por contar
na identidade dos sujeitos e adjectivos prejudicados
na hipocrisia na democracia e até um dia na cidade das luzes ou mesmo no alto das cruzes!

OUSADA AUTO GRAFIA

Em tempos engraxei sapatos botas e sandálias
alimentei-me de restos ratos arrotos e katatus
andei andrajoso roto e descalço
fiz recensões escrevi versos contos e crónicas

proferi palestras profícuas e prelecções
tornei-me Mestre querido contestado detestado e
amado. Circulei engarrafado sem taxa e sem acção
curti escolas seminários e até universidades

estudei Direito por linhas tortas
namorei. Toquei, abracei e beijei
fui mais além casei-me quantas vezes
enjeitei-me

gerei gentes árvores páginas e gestos
paredes construi mijei e pichei
bebi púcaros cão e ladrei
corri fugitivo saltei muros e arames

comprei vendi troquei as notas da esperança
a jusante a montante e sei lá…
empresário nunca jamais porém
todavia contudo

treinei judo broncas e dicção
disse poemas em hasta pública primitiva e privada
chinguei malandros malvados insultei
deuses diurnos afaguei ignorei e afastei
fui policia polido politico e Prudêncio
condenei poucas herdades
não menti quando devia
proliferei dizeres directivas e orientações metodológicas

engasguei-me em circulo de estudo
engalanei engajadas gatunagens
andei em carros alegóricos
bati palmas reticentes

assisti comícios bebicios
e showmicios de felicios
viajei além mar em verdadeiros meios
categóricos. Engoli posters ilustrados

vomitei pássaros voando
li panfletos secretos li poluídos jornais
sigo infeliz feliz mente
de mente vivo salvo

vivi tormentos amarguras doces tonturas
livres e independentes teses politicas
uma duas três… oito nove dez onze dose
e tantas outras em minha e em defesa doutros clientes

ob…observei partituras cosméticas
sedento e sempre sereno mitiguei
Rimbaut, Lautréamont e o homem da boca da verdade
em espalhando Os Cantos de Pound

girei-me por becos e ruelas
nos meandros da Quitanda das Letras
motivado naveguei orientes acidentais
e recitei verdades ao ocaso.
– Requerimentista nunca fui em razão da cal & grafia
fiz-me representativo aqui com a pinta tipo-
gráfica no papel
porque à cima de tudo: A POESIA!

PRIMEIRA ESSÊNCIA
1
Jura
liberta
de tanto ardor
pura
coberta
de tanto amor.

2
E tão maduro
o veludo da pele parceira
surpreendente
acontece quase sempre
feito mar aguado
corpo despido
vermelho e teso
beijo de tanto prazer concentrado!

3
-Afago-te. Beijo-te então. Aumenta-se
o querer nas papilas desta língua
de seiva leve
(e quando já
solidamente aprumado
o pêndulo…)
-Mastigo os lábios cristalinos
do triangular feitiço cor d’aranha
que trazes contigo cínica mente!

I
OTYIVALUKO

2
O vírus do UNIVERSO nas entranhas
do espírito: A poesia.
3
Kalunga N’gombe ó divindade da morte
(rogai por nós pecadores)
mande chuva torrencial que alcance intimamente
nossos corpos trémulos e não só
transforme-nos (tão logo) em FLORES alguns
GADO outros em sabor do saber ESTRELAS em SAUDADES.

4
TRANSFORME-A (depois) NUMA GOTA DE
ORVALHO!

PURA & MADURA
I
Chamam-me África
Parí bastardos e bastantes
Que mesmo sofrendo além-mar
Seu berço pode e significa.

II
N’cundi ou N’pangui são tão filhos quanto tu
Do Burundi ou Ruanda
Tenho-os tão bem em Luanda [no Kwanda ou na Ganda].

III
-Oh feitiço de carne e ossos:
Sincroniza-te
em razão dos nossos
e como sempre imenso, multiplica-te-me.

IIII
Sou mulher/mãe entre Yorubas e Bambaras
Entrego-te-me pouca, louca e madura
PURA ÁFRICA PURA!

EMOÇÃO CAPITAL

Trilha trova & tabela
tragos na taberna

trás consigo ternura tabaco
texto e terra

recheio ração raça
rabisco numa grande plantação regada

intento de vento é violento
evidente mente vem viajar . Verbete

drama dual dose dupla
da qual resulta diz que disse

doida donzela dama divina
intensa. Musa duodécima cabocla concreta

cara cristalina costume corpóreo
ininterrupto circuito artéria assombrada

aspiração apregoada em razão
da articulação alfabética e tal
fonte força forja
forma final

fronde forte mãe do farfalho fecundo
canção caudalosa e noção capital

sul do país colheita comum
flauta flor folha e fruto. Fósforo

figo fogo faca filosofal
sempre informal

sonho sonhado sexto sentido
somente excelessantíssima sombra

salvo erro sorte.
Negra neblina

nova nuvem
porque nunca d’antes noticiada!

TERCEIRA ESSÊNCIA
POEMA PRIMEIRO DA CAUSA
Não importa a cor não importa a dor
-viva a maciez do oiro.

Não importa a voz não importa a foz
-viva o caudal do riso.

Não importa o berço não importa a bênção
-viva a escavação do incauto.

(Extrair do humano o jorro bicôncavo
do bicho-da-seda. Assumir a sede de um outro irmão canalizar o milho entre nós abundante reconduzindo a lavoura a idade leal)
-este sim, é o tema.

Não importa a malha não importa a falha
-importa a função do lema.

Não importa o galardão não importa a geração:
-Importa a assumpção da causa!

FLECHA MORTAL DE AQUI NÃO VITIMA OS DE ALÁ

Mukongo dá carne a kalumbwâmbwa
mutamba pode ser d’água doce também
mungongo de tanto sofrimento também
isungi não se maravilha consigo mesmo.

– SOLDADO MADURO NO CONCÍLIO SABE BEM QUANDO PODE.

Vistoriar em margem rasa. Concorrer com a maré-alta. Dialogar com o vento que passa. Representar o ontem e o depois. Reconfortar-se com as brasas do ocaso. Salvar este outro irmão. Desmitificar selvas de cimento. Domesticar gente felina.

– EIS-ME CONSCIENTE DO PARENTESCO ENTRE A SORTE O EXÍLIO E A MORTE

UM CANTO DO CANDONDOR

Solo:- A LUZ quando se apaga brilha mais
Coro:- É a morte… é a morte.

Solo:- SUKU/HUD quando chama passa então um grande frio
Coro:- É a morte… é a morte.

Solo:- HUKU/SUKU em nome de Deus Pai Filho Espírito Santo
Coro:- É a morte… é a morte.

Solo:- KALUNGA/N’GOME tem duas mentes primeiramente o
sono segundamente
Coro:- É a morte… é a morte.

Solo:- PAMBA /N’ZAMBI nasceu um dia e não morre mais
Coro:- É a morte… é a morte.

Coro:- A MORTE… É A MORTE
É A MORTE… É A MORTE!!!

CONSTATAÇÃO HAIKU
É sem fronteiras a Pátria do poeta
minha Pátria é a nossa casa.
-É a minha campa (é dizer) m’bila iami.

2
Chamar-se-ia Lucrécia, Mundo
ou Poesia, não fosse eu um apátrida!

TESTEMUNHO

Todo o sangue vem é de Atenas as terras do país Koi-Sam distinguindo-se de entre outros pela viril mente condensada de origem secular.

Testemunho por todas as esquinas mortos desiguais por sua culpa. Toda ela sua culpa. Venho. Faço das minhas carnes as espadas dos nossos ante/passados por ora num sítio a noroeste de Kush nas margens do nobre Nilo compartilhando ibundos daqui. Sei que chegarão pela via de Upemba acompanhados de algum galo, -que havia sido em razão do destino-, vítima da fome aquando da primeira das primeiras de todas as secas com que vimos sendo agraciados.

Venha irmão filho de África das nossas nações. Traga no seu arcaboiço a força gigante da transcendente raiz. Que a tua mão seja a minha. Que as nossas sejam as nossas mãos detentoras únicas de sincronias mosaicadas pela História Universal.

Sirva-se da moldura do oculto sem preconceitos. Apresente-se ao ser mais culto. Elimine os deuses diurnos no seio do seu Ser. Os conhecidos profetas do abuso do poder que impera por aqui. Para que não te proíbam ao fazeres carne com as carnes das tuas vizinhas. Para que impere a poesia da sua poesia. Produto de enlevados e memoriais espíritos bem ditos.

FILHO DE BOIGNY

Houphouêt em memória

Deus meu pai sangre os oceanos
as ondas cartesianas.

os sofistas e bailes palacianos
salve o mercado da amargura

dos desígnios da seiva
da floresta de cimento

os espelhos imploram sua imagem

SOBA DE TODOS OS SOBAS.

Deus meu pai Yamoussoukro esta quente
toda sua gente neste humilde continente

e a fluvial idade dos cérebros carcomidos
a intensidade do provérbio não se esconde

não chora
do provérbio a intensidade

o porvir disse mais do que podia
porque esquisitos flutuam luminosos esqueletos.

-Oh… nobre velho dentre os KAMBONGAS
SOBA DE TODOS OS SOBAS!

DAS MULHERES DOS HOMENS DAS PALAVRAS
(entre pró-verbos e ex-citações)

São os diferentes caudais femininos
o que mais afoga os homens.
Toda a fêmea é água fresca que inverte
as virtudes de um chefe inerte.
A esterilidade não impacienta
os horrores das cabras do mato

… gazelas esbeltas laranjas maduras
idênticas por fora distintas tão bem.
Uma inteligente serpente não maldiz
de repente uma pequenina ginguna.

Nem da mosca ao mosquito
nem do porco ao javali dizer mal jamais.

Pedra sobre pedra e arvore sobre arvore
pedra segue sendo pedra arvore é agora kibaka.

Toda a grande fortuna acompanha-se de maldito sono.
O desdentado não malbarata migalhas
coconotus então são almas de outro mundo.
Saboreando orvalho maduro apalpo o pensamento…
no princípio o verbo e o verso só depois a verba e o reverso.
Um chumbinho de caçadeira
não vai tão longe quanto o caçador e sua pólvora.
Meu demónio bem conhecido ou o teu anjo desconhecido. Nem o mal já conhecido nem o bom por conhecer.
Para mau entendedor não basta esta vida
para bom fingidor não faças hoje o que podes
bem fazer amanhã.
Quem diria diz com desdém
a palavra dá-se a quem não tem.

Pacaça atrelada aos olhos de leão
é presa marcada para correr.