Marília Nacif Barbosa

Sócia Correspondente 1153
Viçosa – MG – 
Brasil

Biografia:

Marilia Nacif Barbosa – Membro da Academia de Letras de Viçosa – MG Livro publicado: “Caminhos do Coração” –
Possui textos publicados no site da ALV: www.alv.org.com – Viçosa – MG

Trabalhos

MEU RETRATO

Imprimi na tela meu sentir em cores,
De vivos tons e brilhos cintilantes,
E misturei na tinta sonhos multicores
E o luzir das emoções constantes.

E a cada sonho meu, trocado em dores,
Se ofuscava o brilho, outrora fulgurante,
Mas unindo esperança aos meus pendores,
Renovava a tinta com o fulgor de antes.

Reavivada, assim, mil vezes repetidas,
Com pinceladas novas, devolvi o encanto
Da minha vida a se espelhar na tela.

Por fim, desfeito o encanto, as cores fenecidas,
A tela desbotada abandonei num canto,
E enxugando pranto, contemplei-me nela.

AMOR E FLOR

Tu, que as flores prezas e delas te ocupas,
Na faina dos cuidados mil que lhes dedicas,
E, de aurora ao por do sol, te preocupas,
Se o vento ou luz demais as prejudica;

Tu, que nos espinhos delas te machucas,
Na poda que as conserva e as duplica,
E vês a terra infértil e a adubas,
No empenho de colhê-las mais bonitas;

Não crês que o amor é tenra planta viva,
Que de ti, também, requer iguais cuidados,
A fim de que floresça bela e sobreviva

Às agressões do tempo hostil e descuidado,
E, enquanto abrigas tua muda predileta,
Deixas a flor do amor murchar entreaberta.

MAL OCULTO

Se és estrela, o céu da noite não contemplo
E em noite escura do meu céu procuro abrigo,
Se és a paz, eu me entrego ao meu tormento,
Se és riqueza, o bem que tens eu não mendigo;

Se és lembrança, eu me abandono neste templo
Do meu passado, onde a saudade vem comigo,
Se é prazer e és o amor, ao mesmo tempo,
Na dor de não te amar eu me castigo;

Se me buscas, eu me afasto do teu vulto,
Se me chamas, eu te ouvindo, não respondo,
E sofrendo à tua espera, eu me acuso

De ser em nossa vida um mal oculto,
Se com meu estranho ser eu me confronto,
Pois tudo o que a ti nego, a mim recuso.

À MINHA IRMÃ

“A morte é indolor
O que dói nela é o nada
Que a vida faz do amor”
(Thiago de Mello)

Se eu chorar enquanto estás ausente
Do nosso mundo – tenda de enganos -,
Segue tua estrela guia, indiferente,
Que choro só por mim e por meus danos.

Contempla a face pura e reluzente
Do amor, em seus encantos soberanos,
Que eu vou cumprir a sina dos viventes,
Buscar a fé em meio aos desenganos.

Não te preocupes se me vires triste
Com meu lamento, nessa tua ausência,
Pelo vazio onde a saudade existe.

Que sofro a mágoa imensa que persiste:
Amor maior não ter-te dado na existência
E ter perdido teu amor quando partiste.

INVERNO

(Soneto Shakesperiano)
Quando o inverno colorir de branco a mata esguia
E um mar de gelo inundar, de vez, a terra enxuta,
E tudo o que foi vivo e de vida plana ardia,
Ocultar, em si, a salvo, a seiva bruta;
E aos olhos dos mortais, imagens puras
De fecundos verdes grãos, no solo germinando,
Forem só lembranças apagadas e obscuras;
Lembrarás que a primavera se afastou deixando
O amor febril que da minh’alma se expandia
Em vibrações de afeto e emanações queridas,
E que este amor, qual seiva bruta, se ocultaria
Na sombra glacial de tudo que restou sem vida,
Pois, enquanto o frio em mim perdura e recrudesce
No inverno deste amor nada germina nem floresce.
ESPERA

“A lembrança é uma forma de encontro” (Gibran Khalil)
Não deixarei tua lembrança perdida

em qualquer beira de estrada

ou porão de traças famintas.

Quero guardá-la

entre as páginas de um livro

como pétala de uma rosa antiga

com resquícios de rubro

em suas bordas gastas

ou como jóia lapidada

com o mais fino cinzel

cravada entre os dedos

de minhas mãos cansadas

tanto quanto as cordas

da velha harpa

onde dedilho a canção preferida

no compasso lento

de tua espera.