Nelson Maia Schocair

Sócio Correspondente 1137
Rio de Janeiro – RJ – Brasil

Biografia:

Professor de Gramática, Redação Empresarial e Oficial; Português Instrumental e Jurídico;
Instrutor da Sociedade Fluminense de Ensino e Pesquisa, Niterói, RJ; da Escola de Administração e Negócios, Brasília, DF; do Instituto IDEHA, Curitiba, PR; da Fundação Escola do Serviço Público, RJ; da Consultre, Vila Velha, ES.
Professor e Coordenador dos Cursos Objetivo Anglo-Latino, ambos de São Paulo;
Palestrante, Revisor e Consultor em Língua Portuguesa;
Poeta, Escritor, Músico e Compositor, premiado em inúmeros concursos literários.

Titulação
IMORTAL do Clube dos Escritores – Academia de Artes, Ciências e Letras de Piracicaba/SP – Cadeira 54;
MORTAL da Academia de Letras do Brasil – Cadeira 005/Rio de Janeiro/RJ.
IMORTAL da Academia Brasileira de Poesia – em diplomação;
IMORTAL da Academia Virtual Brasileira de Letras – Cadeira 434;
CÔNSUL pelo Rio de Janeiro do Movimento Poetas del Mundo – Santiago/Chile.
MEMBRO da ACAART – Associação Cultural dos Amigos das Artes de Novo Hamburgo/RS;

E-mail: professornelsonmaia@uol.com.br e nelsonmaia1@oi.com.br
Sites: www.neldemoraes.com e www.professornelsonmaia.com

Trabalhos

A raiz da poesia

O jardineiro planta a palavra,
semente efêmera;
rega o jardim morfológico
e lava as cicatrizes de suas desventuras;

A seiva esverdeada e culta
escorre ao vento lúdico de seu fazer;

Cada novo fruto entorpece
o pássaro de luz
que faz seu ninho no galho
da árvore poética.
Pronto!

O machado crítico se agiganta,
zune no ar
e destrói-lhe a raiz:
Sua obra jaz morta numa folha de papel…

Os quatro elementos – Ar

A poesia voa nas asas do vento
como tempestade boreal a colorir o papel;

Um céu de luzes, habitado pelos Anjos,
clareia a decepção dos escribas fracassados:

“O ar frio das noites setentrionais,
o ar tépido das tardes meridionais,
o ar tórrido das manhãs tropicais…”

Não importam as luas e suas fases,
nem o sol, imutável criador…
As nuvens…
sim…
as nuvens são fadas em constante mutação
a desfilar seus idílios de novidade:
a poesia pousa, enfim, no aeródromo vegetal!

Lendas mortas

Foge, Curupira!
Cara-pálida, cospe-fogo,
já matou o Boitatá,
implantou o saci,
comeu a mula-sem-cabeça:
Iara chora e umedece as matas
abandonadas por Tupã…

Palavras Ao vento

Um poema
escrito na Areia
é
eterno:
pois,
seus versos
serão levados
pelo Vento
ao
encontro
da
Liberdade.

A esfinge

Menina da sacada,
joga as tranças;
O alpinista de seios e pernas
deseja escalar a esfinge lasciva…

Nossos suores…

Fomos feitos da argila que reveste o campo,
somos revestidos da ramagem que recobre os morros,
estamos recobertos da umidade que brota da nascente,
brotamos dos suores que escorrem das grutas magistrais!

À Manuel Bandeira

Tosse tísica, tubércula rosa,
Pneumotórax, histórias do além,
Tantos mistérios em versos e prosa:
“Bala comprada em qualquer armazém!”

Alma apodrece o aidético hino,
Sofre de medo o mofino refém,
Quanta miséria reserva o destino:
“Bala perdida na rua ou no trem!”

Como cantar, cancerígeno mudo?
No chão, a morte agoniza um amém,
Bela ironia ser humano escudo:
“Bala encontrada no peito de alguém!”

Voar, voar…

Vivia a cortejá-la como um mago plácido;
Em todo passo um tombo nas calçadas lúdicas;
Seu corpo me abrigava numa guerra púnica:
As mãos entrelaçavam meus cabelos módicos.

No louco descompasso me iludia a tântrica;
Seu cheiro entorpecia nos velórios sôfregos;
Se em cada refazer, não fenecia a música:
Dançava sem cansaço num processo lírico.

Sempre aquecia a cama sem riscar um fósforo;
Comia minha língua em suores sátiros;
Abria sua alma e enrijecia o másculo:
Fugiu da nossa vida como bruxa lépida.

E via em cada rosto um sorriso bêbado;
Já não mais escrevia minhas prosas tétricas;
Lutei contra os demônios dessa treva sânscrita:
Ousei nascer de novo, mergulhei no útero.

Haikai XXXI

Pobre Natureza!
Chora a alma de Bashô:
Não há cor no céu…

Haikai XXXII

Vamos: cinco sílabas,
A Natureza é o motivo:
Nasceu um Haikai!

Haikai XXXIII

O touro ama a vaca:
Balança a prole no açougue…
O churrasco chora!

Juras

Jurei amar, e não cumpri;
Jurei falar, e não calei;
Jurei gerar, e não pari;
Jurei viver, e não nasci…

IZ…

Diz, meretriz infeliz:
esse matiz
condiz
com a mediatriz
da atriz;
Ou por um triz,
o feliz sonho de giz
curou-lhe a cicatriz
que fiz?

Hermético

Caixa
baú
cofre
cadeia:
o pássaro morreu…
já podem libertar a gaiola!

Dêixis

Não pretendo compor anáforas:
remissões são fraquezas contumazes;
Tampouco entendo as catáforas:
o futuro é inexorável surpresa;
Faço êxodo de mim!

Aglutinação

Respondo ao amigo:
“Não, Fonseca,
em Abrolhos não há pernaltas;
mas no Planalto
bebem aguardente,
dolarizam a economia
e o povo,
boquiaberto,
consome o vinagre!”
É, amigo Henfil,
Vossemecê estava certo:
Já vou embora,
É chegada a hora,
Apagarei a luz!

Resposta da Donzela ao Menestrel

Não suporto a tua ausência,
Anjo bom, amor candente,
vivo presa à vil demência
de um pátrio poder ausente.

Rego a flor, e ela morre
– talvez de tédio padeça –
leva-me, presto, socorre,
antes que o jardim feneça…

Sonhei tuas mãos nas minhas,
misto de dor e delícias,
chorei saber que não vinhas
inundar-me de carícias.

Juro aos pés da Santa Cruz
calar o alaúde e o berro:
Ó Senhor, devolve a luz,
ou nas trevas me desterro!

O Padre se apieda da Donzela

Ouve um conselho, menina:
no inverno morrem as flores…
sofrem poetas a sina…
choram donzelas amores…

Teu pecado Deus perdoa,
não cabe a mim julgamento;
tua dor, no vale, ecoa,
já te escutam o lamento…

Minha filha, faz a prece,
pede aos Anjos proteção;
esse amor que te enriquece,
pode ser-te a perdição.

Se essa estrada é perigosa,
trilha com fé teu caminho:
“Felicidade é uma rosa
que, sem regar, vira espinho!”

Os quatro elementos – Água

Letras úmidas escorrem no papel:
um hidropoema se concretiza gelo,
metamorfoseado em iceberg lúdico;

A Natureza bebe poesia mansa
Nas marés que banham as planícies;

Árvores-naus singram as florestas,
encharcadas pelas monções edificantes,
e aportam seguras em terras oníricas;

Angélicos pescadores de ilusão
absorvem luz,
adornam-se de luar,
aceitam a sina:
Os peixes são poetas do Planeta Água.

Os quatro elementos – Terra

Germina a poética mística
à flor da terra que nos verá passar;

As viagens das letras mágicas
tornam possível a majestosa redenção da idéia;

A arte somatiza em grãos agrestes
o senso do mistério seco nos papiros crus;

Já não há rituais capazes de calar
a gema nobre que a lírica expurga:
se a morte configura o ciclo,
a Terra brota a gene vital da criação.

Os quatro elementos – Fogo

Quantos versos se têm criado,
no magma da inspiração insólita?
Explodem em versos piroplásticos
e arrebatam os gélidos corações incautos.

Sua lava escorre cálida
na lisa superfície do papel pautado;
não temo o fogo:
suas chamas me emprenham de furor,
se componho,
com travor,
a doce melodia da paixão.

E quando deitado em linhas de horizontes finitos,
amo-te como vulcão de poesia ígnea.

Fogo-fátuo

Do trigo que amamenta o pão;
do negro que inebria a noite;
do lábio que destrava o beijo;
do corpo que incendeia a vida;
do toque que semeia o leite;
do pêlo que recobre a pele;
do sonho que se acorda ao dia;
do ventre que alardeia o nome;
do abraço que enternece a dor;
do louco que acalenta o sonho;
do fogo que destrói o monstro;
do mago que aclara a dúvida;
do fado que balança o berço;
do ímã que afixa a prosa;
do erro que exclui a mente;
da seiva que escorre da flor;
Do nada que expurga tudo;
Do tudo que me falta, o nada

Pré-conceitos

Num tempo amargo, sem vida, sem luz,
Deram-me o Branco, promessa de paz;
Cri ser criança carente essa cruz,
Vi que a verdade também é mordaz.

Dias depois, tive o ouro Amarelo,
Luxo, cobiça e pecado latente;
Fiz do seu mundo luxúria e flagelo,
Midas insano, tua morte é o presente.

Sonhos pintados de sangue Vermelho,
Almas penadas num tronco ou a ferro;
Sinto-me podre ao mirar-me no espelho.

Ó Grande Negro, teu grito ora berro,
Peço perdão, ante Deus me ajoelho:
Vil preconceito, demônio que enterro.

Sensível? Corruptível!

Arquétipo?
Esquelético.

Agnóstico?
Pernóstico.

Paciente?
Indolente.

Patriota?
Idiota.

Generoso?
Tenebroso.

Ser humano?
Ledo engano!

A viagem

(13 de maio de 1888, 23h e 14 min…)

O escravo fujão,
de paletó e cravo na lapela,
ora jaz abandonado na capela tosca
junto ao cravo de sua cruz.

Na senzala,
apodrece o feijão pagão do santo guerreiro,
e o terreiro batuca
o tum-tum-tum da liberdade!

“Três vivas à princesinha branca!”

O escravo lívido
enfim é livre
como fora o ex-cravo
único companheiro a glorificar-lhe a viagem…

Haikai VII

A flauta de pan
– silvo de pura magia –
floreia ao luar!

Haikai VIII

E à luz do luar,
colhia as flores-do-campo
o deus Poetar!

Haikai XV

Jaz aqui a deusa
Senhora do mar errante:
afogou-se a paz!

Haikai XXI

A concha se abriu,
a maré expulsa a vida:
a pérola? Nada!

Haikai XXIV

Meus olhos marejam:
As crianças passam fome;
Brincam de morrer…

Haikai XXVI

Chega a lua cheia
as ondas lambem a praia
nasce uma sereia…

A revisita de Straus

“Quando Claude Lévi-Straus,
em visita à Guanabara,
afirmou, sincero e puro,
que faltavam dentes em sua baía,
consideraram-no indelicado e arrogante;
os ufanistas tupiniquins
morreriam de vergonha,
se, em hipotética revisita,
o antropólogo francês sentisse o fétido hálito
de um arroto de sua boca banguela!”

O Menestrel e a Donzela

Bom dia, Santa Donzela,
folgo ver-te com saúde,
airosa, cheirosa e bela,
no dedilhar do alaúde.

Permita-me o atrevimento
de postar-me assim tão perto:
não rogo pranto ou lamento,
mas paixão, de peito aberto.

Trago a ti, em verso, um canto
da amiga cotovia
– perdão, se te causo espanto –
almejo alegrar teu dia:

“Ama a lua o pôr-do-sol
a dor da tristeza errante:
no trinar de um rouxinol,
surge o amor, anjo inconstante…”

A Donzela se confessa ao Padre do Condado

Santo Padre, hei amado,
sãos instantes de ternura:
por que desejo é o pecado…
minha dor… minha loucura?

De nuvens o sol se cobre,
não muda as fases a lua,
divido o amor entre um nobre
e um plebeu que me ama nua!

Assim gira o carrossel,
todo o tempo, aventureiro:
choro por um menestrel…
durmo com um cavaleiro…

Rezo doze Ave-marias,
jamais finda essa novena:
entorpece as alegrias
o veneno da falena!