Reynaldo Valinho Alvarez

Sócio Correspondente 1142
Rio de Janeiro – RJ – Brasil

Biografia:

Reynaldo Valinho Alvarez, (Rio de Janeiro, 1931), formado em Letras, Direito, Economia e Administração, publicou vinte e dois livros de poesia, dois de ficção, dois de ensaio e quinze livros para crianças e adolescentes, além de participar de mais de cinquenta coletâneas de poemas, contos e ensaios, com outros autores, e de colaborar em jornais e revistas. Foi laureado pelas principais instituições culturais do país, entre elas a Academia Brasileira de Letras, o Instituto Nacional do Livro, a Fundação Biblioteca Nacional, o Conselho Estadual de Cultura do Rio de Janeiro, a Fundação Cultural do Distrito Federal, e a Fundação Catarinense de Cultura, além de entidades em Portugal, no México, na Itália e na Espanha. Traduzido para o sueco, o italiano, o espanhol, o francês, o corso, o galego, o persa, o macedônio e o inglês, foi incluído pela crítica entre os nomes mais expressivos da poesia brasileira contemporânea, que representou em festivais internacionais na Suécia, na Macedônia, no Canadá e na Espanha.

Reynaldo Valinho Alvarez, filho de pai espanhol e mãe portuguesa, nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 1931. Viveu seus primeiros anos junto a imigrantes portugueses, espanhóis e italianos, e seus descendentes.

Cursou as quatro primeiras séries do primário no Colégio Municipal Celestino da Silva. Entre seus contemporâneos, estava o animador e empresário de comunicação Sílvio Santos. Fez o antigo ginásio e o antigo clássico no Colégio Pedro II, onde conheceu Maria José, com quem está casado há 55 anos e que com ele cursou Letras Clássicas, na Faculdade Nacional de Filosofia. No Colégio Pedro II, foi aluno, durante cinco anos, de Celso Ferreira da Cunha, que o incentivou em seus primeiros textos. Na Faculdade Nacional de Filosofia, teve professores como Alceu Amoroso Lima, Thiers Martins Moreira, Damião Berge, Augusto Magne, Joaquim Matoso Câmara, Ernesto Faria, Cleonice Berardinelli, além de outros a quem se ligou afetivamente, como Maria Amélia Pontes Vieira e sua irmã Maria Ignez Pontes Vieira, e Amália Beatriz Cruz Costa, todos elas grandes estimuladoras de seu trabalho.

Seu percurso profissional levou-o a fazer os cursos de Direito, com uma especialização em Direito Comercial, na Faculdade Nacional de Direito, e os de Economia e de Administração, na Faculdade de Economia do Rio de Janeiro. Na Faculdade Nacional de Direito, foi aluno de Evaristo de Moraes Filho, Francisco Mangabeira, Haroldo Valadão, Pedro Calmon e outros mestres famosos da época.

Suas atividades profissionais foram diversificadas. Foi funcionário federal, autárquico e municipal; cronista e redator de programas culturais na Rádio Roquete-Pinto do Rio de Janeiro; redator, diretor de criação e planejamento e diretor de atendimento de contas de agências de publicidade como a J.Walter Thompson, a S.J.de Melo, a Standard, a Aroldo Araújo, a Mauro Sales/Interamericana, a Herald. Roteirizou e redigiu textos de documentários cinematográficos; foi redator e editor de relatórios econômicos de consultoria industrial; fez estágio forense; na gestão de Eduardo Portella no Ministério da Educação e Cultura, foi coordenador do Programa Nacional de Teleducação, secretário de Aplicações Tecnológicas do MEC, diretor do Programa Multinacional de Tecnologia Educativa da Organização dos Estados Americanos e representante do MEC no Conselho Nacional de Comunicações e na Comissão Brasileira de Atividades Espaciais. Fez cursos na UNCTAD, da ONU, em Genebra e em Londres; no Instituto Latino-Americano de Comunicação Educativa, da UNESCO, na cidade do México; de produção de TV na TV Tupi do Rio de Janeiro; de inglês no IBEU; e diversos outros de atualização profissional e literária.

Publicou 41 livros, 6 deles no exterior, em Portugal, na Suécia, na Itália, no Canadá e na Espanha, sendo que, do total, 22 foram de poesia, 15 de literatura infanto-juvenil, 2 de ficção e 2 de ensaios. Traduzido em sueco, italiano, francês, espanhol, galego, corso, persa, inglês e macedônio, foi premiado em Portugal, no México, na Itália, onde recebeu o Prêmio Camaiore Especial Internacional de Poesia, concedido anteriormente a Karol Woitila (Papa João Paulo II), Eugênio Evtuchenko (um dos maiores poetas russos do século 20) e Lawrence Ferlinghetti (famoso poeta da literatura norte-americana contemporânea), entre outras personalidades. Conquistou em 2009 o Premio Fray Luis de León da Universidade de Salamanca, Espanha, pelo conjunto de sua obra poética.
Obteve 30 primeiros lugares e dezenas de colocações secundárias em concursos literários de âmbito nacional e internacional. Entre eles, contam-se os prêmios Fernando Chinaglia 1977 e 1978, da União Brasileira de Escritores; os prêmios Coelho Neto 1978, Carlos de Laet 1978, José Veríssimo 1979 e Olavo Bilac 1981, da Academia Brasileira de Letras; os prêmios Brasília de Poesia para Obra Inédita 1978 e 1980 e Brasília de Crônica para Obra Inédita 1980, da Fundação Cultural do Distrito Federal; o prêmio Emílio Moura 1979, da Coordenadoria de Cultura do Estado de Minas Gerais; o prêmio Status de Poesia Brasileira 1979, da revista Status; o prêmio Instituto Nacional do Livro de Literatura Infantil 1978; o prêmio Augusto Mota 1980, da Sociedade Unificada de Ensino Superior Augusto Mota – SUAM; o prêmio de Ficção 1979, do G.D.E. do Banco Borges & Irmão, Porto, Portugal; os prêmios Nova Friburgo de Literatura 1979 e 1980, da Prefeitura Municipal de Nova Friburgo, RJ; o prêmio Walter Auada 1980, da Academia Ribeirão-pretana de Letras, Ribeirão Preto, SP.

Essas premiações tiveram, entre os pareceristas e julgadores, nomes como os de Agustina Bessa Luís e Antônio Rebordão Navarro em Portugal, e Octávio de Faria, Alceu Amoroso Lima, Barbosa Lima Sobrinho, Dom Marcos Barbosa, Benedito Nunes, Afonso Ávila, Mário Chamie, Affonso Romano de Sant’Anna, Adélia Prado, Fany Abramovitch e José Augusto Guerra, no Brasil.

Posteriormente, ganhou, entre outros prêmios, o Mário Quintana de 1989, do Instituto Estadual do Livro do Rio Grande do Sul e da Petrobrás; o Édison Moreira de 1990, da Academia Mineira de Letras e da Rede Milton Reis de Comunicação; o Austregésilo de Athayde de 1984 da Prefeitura Municipal de Lençóis Paulista; o Othon Bezerra de Mello de 1981, da Academia Pernambucana de Letras; o Prêmio Cruz e Sousa 1997 de Poesia, da Fundação Catarinense de Cultura; o Jabuti 1998 de Poesia, da Câmara Brasileira do Livro; o Camaiore Internacional Especial de Poesia de 1999, da Itália; foi Hors-concours do Cecília Meireles de Poesia, de 1997, da União Brasileira de Escritores e Personalidade Cultural Internacional de 1999, da mesma entidade, e recebeu o Golfinho de Ouro de Literatura de 2002, do Conselho Estadual de Cultura do Rio de Janeiro. Em 2009 conquistou o Premio Fray Luis de León da Universidade de Salamanca pelo conjunto de sua obra poética.

Como autor de livros de literatura infanto-juvenil, recebeu o Prêmio Instituto Nacional do Livro de Literatura Infantil de 1978, do Instituto Nacional do Livro, Menção Especial do Prêmio Maioridade Crefisul, do Banco Crefisul, o segundo lugar no Prêmio Carioquinha de Literatura, de 1996, da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro, e o primeiro lugar no mesmo prêmio em 1997. Foi incluído na Ciranda do Livro da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, Hoechst e Fundação Roberto Marinho, foi selecionado duas vezes para o Programa Salas de Leitura da FAE, do Ministério da Educação e Cultura, e teve livros considerados Altamente Recomendáveis para Crianças pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil.
Representou o Brasil em festivais internacionais de poesia na Suécia, na Macedônia (duas vezes), no Canadá e na Espanha (três vezes). Fez parte de numerosas comissões julgadoras de concursos nacionais de literatura. Manteve, por muitos anos, colunas literárias nos jornais Última Hora e Jornal de Letras. Colaborou em revistas, jornais e suplementos literários do Brasil e do exterior. Participou de mais de 30 obras coletivas com outros escritores, nos gêneros poesia, ensaio e ficção. Foi duas vezes Diretor Cultural da Associação Brasileira de Propaganda, várias vezes vice-presidente da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro e diretor do Sindicato dos Escritores do Estado do Rio de Janeiro. Pertence ao Pen Clube, à Academia Carioca de Letras, à Academia Guanabarina de Letras e ao Instituto Sanmartiniano de Cultura.
Elogiado pelos escritores portugueses Ferreira de Castro, Agustina Bessa Luís e Antônio Rebordão Navarro, e pelos brasileiros Menotti del Picchia, Marques Rebelo, Carlos Drummond de Andrade, Dom Marcos Barbosa, Eduardo Portella, Alceu Amoroso Lima, Alphonsus Guimarães Filho, Virgílio Moretzsohn, Fernando Py, Danilo Gomes, Fagundes de Menezes, Reynaldo Bairão, foi considerado herdeiro de Jorge de Lima por Antônio Olinto, que o aproximou de John Donne. Benedito Nunes vinculou-o
a Augusto dos Anjos e a T.S.Eliot e o declarou mais do que um verse-maker brilhante. Ivan Junqueira afirma que, por seus ineditismos formais e conteudísticos, Canto em si confere ao poeta posição quase solitária entre seus pares. E também lembra Jorge de Lima, T.S.Eliot e Augusto dos Anjos. Para Edilberto Coutinho, “é mais um grande poeta brasileiro que – a exemplo de um Cabral, um Ledo Ivo, um Drummond – mostra seu domínio também na prosa.” Antônio Carlos Vilaça saúda na Cidade em grito, o primeiro livro do poeta, “o talento e a solidão”. Para Octávio de Faria, já ao publicar seu segundo livro, Canto em si e outros cantos, era “Inequivocamente, um grande poeta. Já consagrado, e sem possibilidade de qualquer futuro fracasso”. Ainda segundo Benedito Nunes: “Tomando como eixo a oscilação entre som e sentido, a poesia de RVA absorve a herança moderna e defronta-se, também, com a tradição do novo”.

CARACTERÍSTICAS DA POESIA DE REYNALDO VALINHO ALVAREZ
Astrid Cabral

A faca pelo fio reúne seis livros de poesia de Reynaldo Valinho Alvarez, em ordem cronológica decrescente: Galope do tempo,
O continente e a ilha , O sol nas entranhas , Solo e subsolo, O solitário gesto de viver e Canto em si e outros cantos. Mesmo incompleta, devido a cortes em alguns deles e exclusão do primeiro e último livros do autor, a consolidação atesta uma trajetória fecunda e brilhante, consagrada em significativos prêmios, e de reconhecida importância no panorama da poesia brasileira e de língua portuguesa. O título do conjunto é a metáfora-síntese dessa palavra poética, cuja “espada afiadíssima do canto” disseca a realidade com lucidez cortante e extrema pungência, expondo uma cosmovisão crítica e dolorosa da condição humana em nossa época.

Poeta de formação erudita e de atávicos vínculos ibéricos (“Um longo périplo une meu destino/ao do Rio e da ria…”), a dicção de Reynaldo Valinho Alvarez se distingue pelo estilo nobre e pela pureza de linguagem às vezes lusitana, traços que, associados ao equilíbrio formal e à reflexão filosófica, fazem dele um clássico. Porém, como Jorge de Lima, o poeta brasileiro de quem mais se aproxima no amplo fôlego épico-lírico do admirável O continente e a ilha, Reynaldo Valinho Alvarez não se cristaliza num único modo de expressão. Benedito Nunes já o reconheceu até como descendente de Augusto dos Anjos.
O fato é que sua obra , polifacetada e de extraordinária riqueza , inclui os recursos da vanguarda (Veja-se a série “A mão e a pedra”) , as experiências bem sucedidas no aproveitamento do popular e nas invenções vocabulares, freqüentes em O sol nas entranhas e Solo e subsolo, livros mais afins da tradição modernista solta e irreverente. O autor vai do transbordamento dramático-onírico de poemas como “A miséria dos dias”, (onde se fundem em complexa trama descrições do presente, remotas evocações pessoais, resíduos de leituras e situações emotivas de pesadelo) ao despojamento de Galope do tempo, marcado entre outras coisas pelo tom sapiencial e pela concisão epigramática.

Ao longo de sua obra tanto deparamos com poemas polifônicos onde a fragmentação e a variedade isomorfizam o “rosto plural” do continente americano (“Manual de conduta”) como poemas compactos, fechados em total coerência com a proposta semântica que os informa (O solitário gesto de viver e Canto em si). Se o autor usa com invejável competência versos longos ou curtos, matemáticos ou imprevisíveis, brancos ou coloridos por rimas, a dicção que prevalece em seu discurso é a tradicional , grave e solene , sustentada pelo decassílabo heróico, metro de sua preferência.
O que caracteriza a poesia de Reynaldo Valinho Alvarez é a invulgar conciliação que ele promove entre o elenco das formas poéticas secularmente consagradas e a atualidade de sua temática nacional e transnacional. Suas composições não se subordinam à recriação de mitos ou à exumação de episódios históricos ressuscitados pela imaginação, nem se restringem às costumeiras indagações face a problemas atemporais e eternos . Emergem, muitas vezes com violência vulcânica, das vivências pessoais dentro do contexto histórico que lhe coube.

Daí a profunda nostalgia da natureza, diante da qual se prostra com humilde reverência “O canto do poeta é coisa vã, se o sol canta por si, toda manhã” e o conseqüente sentimento de exílio que assombra o ser massacrado pela megalópole e as simultâneas distorções do chamado progresso, neste “planeta sangrento” habitado pelo “Homem, lobo do homem” . Sobre a realidade do século XX , abundante em opressões, deita um olhar crítico e desencantado, o que nem por isso o deixa insensível às maravilhas tecnológicas , como se depreende do antológico soneto “Fax”. A perfeição formal com que contrabalança o caos urbano e social surge como um esforço neutralizador de redenção via arte.

Ressalte-se aqui o absoluto domínio com que Reynaldo Valinho Alvarez trabalha a herança literária, permitindo-lhe explorar com segurança os padrões convencionais e injetando-lhes sangue novo. Lembre-se a estrofação progressiva de Canto em si, o soneto-e-meio que alicerça as composições de O solitário gesto de viver, as rupturas sintáticas que sucedem enjambements e antecedem breves interrogações, nos versos finais dos sonetos de “O céu programado”.
O poeta demonstra rara capacidade construtora , um faro arquitetônico ao desenvolver arrojados projetos de criação verbal . Os poemas obedecem a estruturas rítmicas organizadas em série e mantêm um tema nuclear aglutinador que se desdobra em verdadeiros painéis. Se o poeta se ressente com o individualismo alienador e sofre com a fragmentação do mundo atual, tenta através da palavra unificá-lo.

Daí o uso obsessivo de anáforas e sobretudo a recorrência do encadeamento leixa-pren , das múltiplas coroas de sonetos que geram universos circulares, onde a unidade é resgatada idealmente no território virtual da arte. Tal fôlego para a criação grandiosa passeia pelo lírico e pelo épico, detém-se no aqui/agora e espraia-se em périplos subjetivos e de amplo espectro social, todos transcendentes pelos vôos de reflexão e indagação.

A faca pelo fio tanto envolve o leitor pelo apuro formal, a incontestável beleza estética dos versos, quanto o arrebata pelo compromisso ético com o homem , latente na denúncia de degradação advinda com a perda de valores espirituais.

*Astrid Cabral é poeta e ficcionista, autora de De Déu em Déu.

O EXISTENCIAL E O SOCIAL NA POESIA DE REYNALDO VALINHO ALVAREZ
Samuel Penido

A faca pelo fio (Imago, Fundação Biblioteca Nacional, 1999) é a reunião de quase todos os livros de poemas de Reynaldo Valinho Alvarez, publicados de 1979 a 1997: Galope do tempo, O continente e a ilha, O sol nas entranhas, Solo e subsolo, O solitário gesto de viver e Canto em si e outros cantos. Oportunidade única para se reler esse excelente poeta, detentor de numerosos prêmios nacionais e estrangeiros.

Construindo sua poesia à margem de escolas e correntes, nem por isso Reynaldo Valinho Alvarez deixou de receber o aplauso da crítica e do público, a que inegavelmente teria direito. Tão notórias são as qualidades inerentes à sua obra, que não seria preciso ir muito longe para especificá-las: o exame de seus primeiros versos é suficiente para tanto.
Neles se pressentem as linhas que iriam orientar-lhe a trajetória, quais sejam, a profunda interação do existencial e do social, a paixão pela artesania e a expressão verbal como síntese do novo e do tradicional. Veja-se este soneto: “Como ando sempre a perquirir o tempo, / há tempo que me inquirem por que sempre / é tempo de indagar e pesquisar. // É como o vento que revolve o ar / com o mesmo gesto com que irrita o mar, / para afogar inermes e inocentes. // Veemente compulsão. Direi: o impulso / insopitável de um vulcão convulso. // Minerando em crateras, quebro as pedras, / no que há sempre mais perdas do que lerdas / aspirações de ganho, se as apanho. // Enquanto a pedra quebro, limpo e brito, / vou esculpindo o solitário grito, / arrancado ao meu dia denso e vário”.

Um retrospecto de sua caminhada, agora propiciado por A faca pelo fio, indica que buscou conciliar, invariavelmente, uma percepção crítica da realidade objetiva com a impulsão lírica, os acenos da utopia. Neste ponto, seu sucesso tem de ser admitido de imediato. O simples cotejo dos poemas, de livro a livro, mostra como o diálogo do poeta com o mundo só se intensificou ao longo dos anos. De tal maneira que a denúncia do prosaísmo da vida contemporânea, fonte de tédio, náusea e até horror, é sempre acompanhada de uma variada gama de reflexões e de alusões históricas.

Por outro lado, no terreno da filiação literária, a par do sopro da poética clássica, com destaque para Camões, há reminiscências do melhor repertório moderno, a partir de nomes como Baudelaire, Rimbaud, passando por Eliot, Fernando Pessoa, até os nossos Augusto dos Anjos, Jorge de Lima e Drummond.

Em penetrante análise do texto de Reynaldo Valinho Alvarez, Benedito Nunes refere-se a “… fantasmas de um mundo espedaçado, de um quotidiano residual, em contraste com a forma íntegra, sem fissura, do discurso poético”. Pela arte do verso, pela disciplina da palavra, o poeta pretende exorcizar, certamente, uma sociedade em decadência; a forma, com seus limites claros e rigorosos, opor-se-ia então à matéria insalubre e abundante; a forma como negação do caos. Daí não parecer estranho que um poema de forma fixa, como o soneto, ocupe lugar de tanto relevo nesta obra.

Cumpre lembrar, ainda, que ao tema eliotiano, por excelência, da terra devastada, substrato mesmo da poesia de Reynaldo Valinho Alvarez, agrega-se um contratema: a nostálgica celebração de um mundo pretérito, incontaminado, onde o mito floresce com toda sua aura e magia. E isso se torna um atrativo a mais para o texto, pois o diversifica e ameniza ao mesmo tempo.

Afinal, o que não se encontra em A faca pelo fio é o absentismo. Com mão de mestre, Reynaldo Valinho Alvarez trabalha os signos de um universo em crise, bem como os da memória pessoal e coletiva. E o canto flui naturalmente, sem nunca se complicar e resvalar no hermético, no panflleto ou no prolixo; o canto flui, as mais das vezes, no ritmo envolvente do decassílabo, tão caro ao poeta.
* Samuel Penido é poeta e escritor, autor de Cantos da metrópole e A noite brilha, entre outros livros.