Tânia Diniz

Sócia Correspondente 943
Belo Horizonte – MG – Brasil

Biografia:

Tânia Diniz, mineira de Belo Horizonte, graduada em Letras pela UFMG. Poeta, contista, editora, promotora cultural, professora de idiomas, idealizadora e fundadora do mural poético Mulheres emergentes, em 1989, publicação trimestral de circulação internacional que enfatiza o feminino (autores novos ao lado dos consagrados) e onde realizou 04 Concursos Internacionais de Poesia com excelente acolhida. Publicou Mulher EmBalada, pacote poético (1992) Bashô em Nós, co-autoria, haicais; Relato de Viagem à Marmelada, haicais (1997);Flor do Quiabo, haicais(2001); O Mágico de Nós – 1988, 2° ed., 1989, e Rituais, 1997, ambos de contos.
Em 1998 a convite da Secretaria de Cultura do estado de Minas Gerais, foi secretária, tradutora e intérprete da I Bienal Internacional de Poesia de Belo Horizonte.
e-mail: memerg@gmail.com
www.mulheresemergentes.blogspot.com

Trabalhos

Tocaia
(a Vinicius de Moraes)

Há que se amar
em total entrega.
A alegria do prazer
em cúmplice procura
curtir os descaminhos
e a longa estrada
perder-se em nichos e fendas
sentir-se alvo e bicho
na sinuosa senda.
Da alma da mulher
à espreita
do menor gesto
a compreensão do desejo
que ele enfeita
(no tom do suspiro
o beijo no ombro que ele encerra)
e descendo vales
contornando serra
atento e entregue
à espera da morte maior
que a paixão traz,
há que, o homem,
que morrer ensaia,
para o prazer da amada
estar sempre de tocaia

Retorno

Amar-te –
inquietação estranha:
visgo, aranha.
Revolveu-me tanto:
enguia, cabra, cobra.
Revirou-me entranhas
ao te receber
(alto calibre;
pimenta, gengibre)
sôfrega e nua,
virada pra lua.

HAICAIS

pintassilgo!
o céu pinta consigo
a cor da manhã.
***
Mais te amava
sem saber que me deixavas.
Rompeu-me a alma em sustos.
(Até tu, Brutus?!)
***
No capim orvalhado
guarda-chuva de renda
a teia de aranha.
***
Teu ritmo ágil ralenta
Ora vai, ora vem, inventa.
Minha carne frágil e sedenta!

***
clarão de prata
madrugada na janela:
lua cheia pendurada no varal.

***

No peito sufocado
inefáveis poemas
clamam por ti!

Constelações

Noite –
a curvatura do dorso
o singelo pescoço…
na placidez, o boi rumina rubis
e baba, leitosos, quartzos róseos,
onde cintila aldebarã.
De manhã
Presepeiro, pesado, às vezes ligeiro,
boi de canga, boi de farra,
bumbo-meu-boi.
E touro bravo, de sangrenta arena,
me volto manso,
sem qualquer pena.
No laço fácil do teu abraço,
vaca leiteira, lambe-lambê-las,
rumino estrelas.

Quimera

Quisera
tua boca na minha
deslizando
Bela
Tua mão pelo corpo
Se apegando
Hera
A voz em murmúrio
Gemido e novilúnio
Quem dera!
Tua solidez
Por uma vez
Quimera!

O manto da noite fria
envolve o corpo lasso.
o céu sem estrelas
de nublado encanto
embala e clama
a insone busca
de apagada chama!

Penélope

Espero.
tal Penélope
teço a teia
de suspiro e saudade
em ponto meia.
Às noites de lua
entremeio
fios de paixão
brilhos de prazer
bordados de canção
eu, toda nua,
vestindo tua mão.
Pronto o manto
envolvo de encanto
loucos sonhos na cama,
a trama de quem ama.
Tal Penélope
na noite sem lua
sem teus passos na rua
desmancho, desfaço,
meus pontos, teu laço.
A solidão não meço.
Amanhã recomeço.

Ocaso

Nos raros dias
em que você volta a me ver
tudo vale a pena!
A alegria se instala
o sol canta
o jardim fala!…
E, invejoso, o tempo,
o tal cotidiano,
te leva depressa, pobre príncipe.
Nubla minha tarde, e eu, triste rã,
um fiapo de esperança vã,
resto sombria, na calma vazia
onde se infiltra, tênue,
um fio de poesia.

Passeio no Louvre

Vênus de Milo

vê nus

seu(s)

mamilo(s)

II

Monalisa

mão na

mão

alisa

e sorri

controvertido

sorriso

contra o vestido.

III

No Egito

com jóias e

maquilagem

de Cleópatra,

a tumba dos Faraós,

agito !

Monalisa

mão na
mão
alisa
e sorri
controvertido
sorriso
contra o vestido.

* * *

Em corpoárido seco terreno
ardeste fogueiras, distraído
Fez-se fogo-fátuo
E sem ti, anjo torto, corpotraído,
jaz agora
fogo morto.