Tê Barbosa

Sócia Correspondente 1134
Petrópolis – RJ – Brasil

Biografia:

Carioca de nascimento, petropolitana de coração e por opção de amor. Essencialmente mãe, avó, amiga dos amigos e eterna aprendiz dessa coisa mágica que se chama vida. Quando, pela primeira, teve a coragem de expor seus pensamentos, obteve o 1o. lugar em prosa no I Festival Regional de Prosa e Poesia de Areal. Seguindo em frente, participou de muitos festivais e concursos, em Petrópolis, promovidos pelo Clube de Poesia do Petropolitano F.C., Academia Petropolitana de Letras e então, Academia de Poesia Raul de Leoni. Destaque no IX Concurso de Poesia promovido pela Revista Brasília, Distrito Federal; menção honrosa no Festival de Poesia Cora Coralina, em Juiz de Fora, como também uma das cinco melhores intérpretes da I Mostra de Poesia do Rio de Janeiro, promovida pela C.B.L.A. Membro no. 64 do Clube de Poesia do Petropolitano F.C. São mais de quarenta premiações em prosa, poesia e melhor intérprete.

Trabalhos

DESALINHO

Seca, a lágrima nos olhos.
Na boca, áspera é a língua
Cansada onde as palavras morrem.
Na ponta do lápis, a linha da vida.
No longo caminho, apenas totens
Dançam no descompasso e traçam
Pés que vão deixando marcas
No chão batido da estrada.
Nas mãos envelhecidas, sonhos,
Marés e bonecos sem braços.
No meio da sala, nada.
E no canto do quarto
Só resta da festa,
>Sobre o leito, o meu cansaço.

ATRÁS DA PORTA

Batem à porta.
Sinto na noite
Da tempestade, o açoite
Nada mais importa.

Batem à porta
Lá fora, insistente
Dentro, o ranger de dentes
Nada mais importa.

Batem à porta.
No coração, a dor
Da tola certeza
De toda a beleza
Desse imenso amor.

Batem à porta.
A saudade atenta
É agonia lenta
Nada mais importa.

Batem à porta.
A esperança é terna
A primavera espera
A terra silencia
É dia
Atrás da porta.

CANTAR O MAR…CANTAR O AMAR…CANTAROLAR

Luaredo, luará
Em caminhos pelo mar
Caminhante, viajante
A tua casa tornará.

Luaredo, luará
Quanto atalho pela estrada
Caminhada, madrugada
Caminhante, viajante
Em que cais tu dormirás?

Luaredo, luará
Tantos panos pra bordar
Tanto vento pra soprar
Caminhante, viajante
Quem um dia te amará?

DESEJO

Quando chegaste
Assim como um menino
Que foge da vida
Perseguido, banido
Enrolado na teia
De tua própria armadilha,
quisera tanto te pegar no colo
te cobrir de beijos,
sem despertar desejos,
apenas te fazer dormir
e te fazer sentir
num abraço morno
que o amor consola.
E ao amanhecer,
Desenhando o teu contorno,
Espantar do coração, o medo
Da vida, viver a poesia
Sendo a estrela guia
Presa em teus cabelos.

Quando chegaste assim
Ferido e frágil
A me querer tão fácil,
Quisera tanto saber o segredo
Dos mistérios do mundo
E em oferenda te dar
Num mergulho profundo
Às águas claras do mar.
Mas tudo isso
Ficou apenas num beijo
Adocicado e terno
Na minha boca eterno
Sentimento que se chama
Desejo.

COMBATE

Dorme meu sonho em águas paradas
lençóis de lírios cobrem a madrugada.
Ouço ao longe o dedilhar de um piano
que se não me engano conheço de antanho.
És tu, amigo,
que em silêncio vigias meu sono
e em acalantos se esconde na face da noite.
Faz frio lá fora. O vento é açoite.

Dorme meu sonho em águas geladas
sob lençóis de estrelas salpicadas.
Ouço ao longe o dedilhar de violões
que se não me engano conheço de antanho.
És tu, amigo,
que em silêncio vigias meu sono
e vem de mansinho acordar a passarada,
anunciando o despertar da aurora.
Faz frio lá fora.

Ah, meu sono, o que sonho?
Pergunto: acordo ou não acordo
ao acorde de piano, violões e passarada
e vou além da aurora
ao encontro de teus braços, meu amigo,
despertar entre lençóis cobertos de lírios
salpicados de estrelas, arriscando
voltar à madrugada gelada.

Dormir ou ficar acordada
apenas ouvindo a melodia,
o dedilhar de um piano, violões,
o cantar da passarada e mais nada?
Hoje ou antanho? Silêncio na estrada.

REVELAR-SE

Quem eu amo, é alguém sem rosto
Alguém que ainda não pude sentir
Do sal, o gosto
É apenas um vulto
Que meus olhos vislumbram
Distantes como o começar do vento.

Quem eu amo, é alguém sem forma
Sem cor, só desejo
Que nos lençóis da madrugada
A luz das estrelas desenha
Sombras de beijos.

Quem eu amo, é assim,
Tal qual saudade ainda não revelada
E que pressinto na tarde morna
Que recolhe a lágrima não derramada.

Quem eu amo
É esse ser tão esperado
À distância amado
Algemado em versos
Poesias, pensamentos
Que entre sussurros e gemidos
Me fala de amor
Me cura as feridas
E, no entanto,
Me deixa sozinho
Nesse mar bravio
De papéis em branco.

QUEBRA-CABEÇA

Larga o chinelo
Pega o tear
Desata o cinto da fivela
E vem na areia brincar.

De um monte fiz castelos
Pra onda do mar levar,
Da espuma fiz quimeras
Do amor fiz primavera
Que há muito já se foi…

E lá vai o amor da sereia
É poeira levada no vento
Que na estrada virou lamento
Nas rodas de um carro de boi.

LAMENTO CIGANO

Da janela branca, um pedaço de céu
Vem enfeitar-me o leito vazio.
Adormeço em lembranças.

Minhas mãos tardias alcançam
Do tempo a perdida esperança
E me procuram na madrugada
Tateando a brancura imaculada
Da luz do luar que me afaga.

Devasso meu peito e perpasso
As escotilhas do sonho e me lanço
Ao compasso lento e ritmado
Da velha cadeira de balanço
No canto escuro do quarto.

Giro a corda do cavalinho travesso,
Jogo fora a chave de todos os meus medos
E galopando ligeiro, percorro os escaninhos
Desse meu coração ainda criança.

Ouço o farfalhar das folhas do caminho
– a soluçar baixinho –
Sobre as marcas das lágrimas
Que a enrugada fronha ao avesso guarda
Com devoção e carinho.

Danço com o vento esse louco feitiço.
Por entre castelos, cirandas e pântanos
Brinco com a dor dos meus desenganos,
À visão dessa gota de orvalho que cai
Prateando meus cabelos grisalhos se esvai,
A banhar de saudade meus olhos sem viço.

Cantarolo encantadas cantigas de roda
E os dedos delicados e róseos da aurora
Vem acariciar-me suave o corpo cansado.

Reconto uma a uma as rugas da face
Palmilhando sem direção as cicatrizes talhadas,
ciladas armadas pela ilusão de sonhos fugazes.

Percebo então, que a velha cadeira de balanço
Já não mais se move em seu ritmo cadente,
apenas permanece no canto, imóvel e silente,
abrigando em seus encarquilhados braços
princesas, bonecos, equilibristas, palhaços
tolas marionetes, artistas no palco da vida,
desse obscuro labirinto que é viver dia a dia
sem amor, sem festa e sem fantasia.