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Aládia Pereira de Almeida

Biografia

Nasceu em 07/11/36 e faleceu em 09/12/2003 em Petrópolis. Foi secretária, taquigrafa, revisora de jornal. Escreveu sonetos, contos e crônicas. Titular da Academia Brasileira de Poesia, onde ocupou a cadeira 19, patrono Ernesto Tornaghi, e da Academia Petropolitana de Letras, onde ocupou a cadeira 16, patrono Sylvio Romero. Hoje é patrono da categoria feminina dos membros correspondentes. Bibliografia: Sonhos Azuis – sonetos, 1970: Brumas da Tarde – sonetos, 1980: Sereno Crepúsculo – sonetos, 1995; O Canto da Cambaxirra – crônicas e poemas, 1997 e É Noite Afinal – obra póstuma, sonetos, 2004.

APÊLO

Quando eu deixar o mundo tão malvado,
para habitar, por fim, a lousa fria,
nessa hora de tristeza e de agonia
eu peço que tu fiques ao meu lado.

Não quero que tu chores nesse dia,
lembrando o nosso amor tão mal fadado,
preciso recordar todo o passado,
e partir com suspiros de alegria.

Depois que eu repousar no meu abrigo,
não me deixes ali abandonada,
quero a visita de teu vulto amigo.

Se na vida, de ti, fui separada,
quero na morte reviver contigo,
toda a ventura que nos foi negada.

FENIX

Renascer é preciso, muito embora esmagada,
com a alma sofrida abatida e sem rumo;
colocar novamente a esperança a prumo,
emergir dos destroços sem gemer, lacerada.

Refazer minha vida (nem que seja em resumo)
registrar uma história em que eu seja lembrada,
muito embora sujeita a uma carta marcada
que me trouxe a tragédia pela qual me consumo.

Vou erguer a cabeça, dar a volta na sorte,
já que existe outra vida no horizonte da morte,
qualquer dia, quem sabe? Vou poder te encontrar.

Renascendo das cinzas a que fui reduzida,
vou viver a utopia, numa ânsia incontida,
e qual fênix, a teus braços voar.

CICATRIZES

Muitas bocas, por certo, me beijaram,
por certo, muitas bocas eu beijei;
alguns beijos, os lábios, me queimaram,
e desses, a lembrança eu guardei.

Das mãos que em minhas mãos se entrelaçaram,
das faces que em ênfase afaguei,
dos braços que com ânsia me abraçaram,
também deles, a ausência, não notei.

Das promessas e juras que fizeram,
das palavras de amor que me disseram,
poucas ficaram, poucas escutei;

mas sinto ainda em tardes de mormaço,
o calor e a pressão de um só abraço,
e o sabor de um só beijo que te dei.

ÚLTIMA HOMENAGEM

É este o último verso que te faço;
também a última vez que penso em ti,
e estas linhas incertas que ora traço,
não falarão do mundo que sofri.

Segue também aqui o terno abraço,
que de teus braços nunca recebi;
fica comigo apenas o cansaço,
mais a ausência de tudo que perdi.

Não fui culpada, nem foste tampouco,
pois este sonho meu, ingênuo e louco,
tinha, por certo, que chegar ao fim

Resta um consolo ao coração magoado,
que ficou no meu peito, destroçado –
saber que um dia tu pensaste em mim!

QUERO MORRER ASSIM…

Quero morrer assim, numa tarde de sol,
com cigarras cantando e este céu azulado,
no meu leito, tranqüila, sobre um alvo lençol,
consciente e sem dor, sem remorso ou pecado.

Minha vida foi lume sem chegar a farol.
Como um quadro sem tela, como um filme cortado,
como um campo vazio, sem rolar futebol,
me despeço sem mágoa do pobre passado.

Quero morrer assim, sem rancor, sem temores,
quero muita oração, quero velas e flores,
e que amigos poetas não me deixem ao léu.

Sobre a campa cinzenta uma cruz e uma trova,
na certeza que a vida se refaz, se renova,
estará a minh’alma versejando no céu.